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16/07/2024
30/06/2024
14/09/2023
14/12/2022
07/10/2022
Garota de Ipanema | Tom Jobim e Vinicius de Moraes, 1963
Vinicius
e Tom no bar onde escreveram “Garota de Ipanema”, com a partitura
da canção ao fundo
É
a música brasileira mais conhecida no mundo, uma das cinco canções
mais tocadas de todos os tempos.
E
tudo começou quando Vinicius de Moraes e Tom Jobim tomavam chope e
jogavam conversa fora no Bar Veloso (atual Garota de Ipanema), na
esquina da rua Montenegro, em Ipanema – que futuramente seria
rebatizada de Vinicius de Moraes –, quando viram passar a jovem
Heloisa Eneida, com seu corpo perfeito e um biquíni mínimo,
gingando a caminho do mar.
Depois
de várias tentativas de letra de Vinicius, finalmente a “Garota”
foi apresentada ao público no histórico show Encontro, na boate Au
Bon Gourmet, que reuniu o time de sonhos da bossa nova: João
Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes (ainda diplomata, em sua
primeira experiência como cantor) e Os Cariocas, que estreou em 2 de
agosto de 1962.
Em
cartaz por 45 dias com sucesso absoluto, o show desmentia a voz
corrente que dizia não haver nada mais velho do que a bossa nova,
desgastada e vulgarizada por uma exposição maciça na publicidade e
pela exploração de oportunistas que surfavam na onda sem ter nada a
ver com aquele estilo.
Mas
a “Garota de Ipanema” de Tom e Vinicius, quintessência da bossa
nova, foi um sucesso imediato, que cresceu em progressões
geométricas. No início de 1963, foram lançadas as três primeiras
gravações: do cantor Pery Ribeiro, de Os Cariocas e do Tamba Trio.
Em maio daquele ano, seria a vez da primeira com Tom Jobim, em versão
instrumental, para seu disco solo de estreia nos Estados Unidos, no
selo de jazz Verve: The Composer of Desafinado Plays.
Até
o fim daquele ano, saíram 18 outras gravações de “Garota de
Ipanema” no Brasil e nos Estados Unidos, incluindo as de jazzmen de
alto prestígio como Charlie Byrd, Herbie Mann e Stan Getz. O álbum
Getz/Gilberto – Featuring Antonio Carlos Jobim, que reunia o
saxofonista com o violão e a voz de João Gilberto, o piano
minimalista de Tom, o contrabaixo de Tião Neto e a bateria de Milton
Banana, impulsionou o sucesso internacional da canção.
Em
meio às sessões, o produtor Creed Taylor sugeriu que o disco também
incluísse uma versão em inglês. Como João não tinha intimidade
alguma com o idioma de Shakespeare, sua mulher, Astrud, que nunca
gravara até então, foi escalada para a missão. Como estamos
cansados de saber, lançada num single no fim de 1963, “The girl
from Ipanema” arrombou a festa. Em pleno 1964, quando Beatles,
Stones, Dylan e companhia já começavam a ditar as novas ordens e
modas no mundo pop, a gravação de Getz e dos Gilbertos chegou ao
quinto lugar na lista pop (a Hot 100) e ao primeiro na de Easy
Listening. No início de 1965, a ipanemense também roubou a festa na
cerimônia de entrega do Grammy, levando o troféu de Gravação do
Ano, enquanto Getz/Gilberto ficou com três outros, incluindo
o de Álbum do Ano – pela primeira vez na história do Oscar da
música um disco de jazz, e também com um artista não americano,
vencia nessa categoria.
Inicialmente
batizada de “Menina que passa”, a canção tinha sido criada para
um musical que Vinicius planejava mas não chegou a terminar, Blimp.
A versão em inglês de Norman Gimbel carimbou o passaporte para sua
viagem sem fim e rendeu alguma discussão entre Tom e o americano.
Este não via sentido em manter o nome do bairro/praia até então
desconhecido fora dos limites cariocas. Tom bateu o pé, não
aceitava transformá-la numa garota de South Beach, Malibu ou
qualquer outra chique e famosa dos Estados Unidos. Logo, falantes
anglo-saxões aprenderam a cantar Ipanema, assim como franceses,
japoneses, turcos, russos, marcianos. O Rio agradece.
Se
o bairro não mudou, o sexo da musa, sim. Já em 1964, a cantora de
jazz Peggy Lee regravou-a como “The Boy from Ipanema”, gênero
também usado por intérpretes como Ella Fitzgerald, Shirley Bassey
e, mais recentemente, Diana Krall. E “Garota de Ipanema” (e suas
versões “girl” ou “boy”) se tornou a segunda canção
popular mais regravada no mundo, atrás apenas de “Yesterday”, de
uns tais de Lennon & McCartney.
Comercialmente,
“Garota de Ipanema” pode ter sido o auge da dupla Tom &
Vinicius, mas também sinalizou o começo do fim. Após o sucesso,
eles só fizeram mais duas canções juntos: “Olha Maria”, em
1970, junto com Chico Buarque, e, lançada na mesma época, “Chora
coração”, a única com letra na arrebatadora trilha sonora do
filme A casa assassinada, de Paulo César Saraceni.
Nelson Motta, in As 101 canções que tocaram o Brasil
26/09/2022
Ilusão à toa | Johnny Alf, 1961
Um
dos mais talentosos e originais compositores da música brasileira, o
carioca Johnny Alf (Alfredo José da Silva, 1929-2010) teve a sorte
de nascer com uma voz e um dom musical raros. Mas, sendo negro, pobre
e gay em pleno Brasil dos anos 1950, estava destinado a jamais
conquistar sucesso popular e sequer receber o devido reconhecimento
crítico.
No
fim da vida, aos 80 anos, Johnny, que sempre evitou discussões sobre
sua sexualidade, admitia o que alguns percebiam na letra desta canção
sobre um amor secreto, trancado no armário. Nas entrelinhas, o
genial e tímido pianista cantava a melodia sinuosa de seus
sentimentos por um amigo também músico, que nem desconfiava daquele
amor discreto de uma só pessoa.
Em
1961, ano em que lançou “Ilusão à toa”, no seu primeiro álbum
solo, Rapaz de bem, a homossexualidade, mais do que um tabu,
ainda era um crime previsto pela legislação então vigente no
Brasil. Sem levantar bandeira alguma, “Ilusão à toa” se afirma
como uma grande canção de amor, acima e além do gênero dos
envolvidos. E, ao longo das últimas cinco décadas e meia, tem
embalado muitos corações apaixonados de todos os sexos e gerações.
Regravada
por dezenas de intérpretes – Isaurinha Garcia, Marcos Valle,
Elizeth Cardoso, Sylvia Telles, Leny Andrade, Emílio Santiago, Elis
Regina, Gal Costa, Caetano Veloso, Fafá de Belém, entre outros –,
“Ilusão à toa” inspirou pelo menos duas novas canções:
O
sucesso dos anos 1980 “Um certo alguém”, de Lulu Santos e
Ronaldo Bastos, tem seu título tirado da abertura da letra de Alf:
“Eu acho engraçado quando um certo alguém se aproxima de mim…”
Já
no século XXI, Caetano se inspirou no verso “… a conduzir o
nosso amor discreto” para o título de sua canção “Amor mais
que discreto”, que também fala de um amor gay.
Mesmo
sendo de família pobre e órfão de pai, Johnny teve boa formação
cultural. Completou o ensino médio em uma das mais concorridas
escolas públicas do Rio, estudou piano clássico desde os 9 anos,
aprendeu inglês e se encantou com o jazz e os standards de Cole
Porter e Gershwin, que ouvia no rádio e nas trilhas sonoras de
Hollywood. No fim dos anos 1940, decidiu que viveria de música, como
pianista e cantor na noite de Copacabana, e logo atraiu a atenção
de outros jovens músicos, como Tom Jobim, João Donato e Carlos
Lyra, fascinados pela originalidade de seu estilo.
Precursor
das harmonias jazzísticas e dissonantes que anteciparam a bossa
nova, pianista refinado e cantor de voz de veludo com um fraseado
musical sinuoso e cheio de efeitos, Johnny Alf deixou uma obra
relativamente pequena em número e grandiosa em qualidade, como um
dos maiores estilistas da música brasileira.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
10/09/2022
Desafinado | Tom Jobim e Newton Mendonça, 1959
Esta
canção-manifesto da bossa nova é um clássico dos mestres da
efêmera e fundamental dupla Tom Jobim e Newton Mendonça
(1927-1960). Cariocas e aquarianos do mesmo ano, Tom era lindo e
charmoso, e Newton, feioso e gorducho; juntos assinaram outra pedra
fundamental do estilo, “Samba de uma nota só”, e mais alguns
exemplos perfeitos da mescla de sofisticação e apelo pop com
“Meditação”, “Discussão”, “Caminhos cruzados” e “Foi
a noite”. Mas é a música “Desafinado”, lançada por João
Gilberto em fevereiro de 1959, que melhor representa as conquistas
estéticas de um estilo que sintetizava, com leveza e humor, o samba
com cool jazz, clássicos impressionistas e minimalismo, na voz e no
violão de João.
“Desafinado”
é o pedido bem-humorado de um cantor para que a amada de ouvido
privilegiado perdoe sua falta de afinação na música e na vida. Ao
mesmo tempo, Tom e Newton rebatem didática, espirituosa e
musicalmente muitas das críticas feitas à bossa nova tanto pela
imprensa quanto pelo meio musical. As estranhezas que soavam
antimusicais para muitos críticos eram bossa nova, eram muito
naturais para aquele núcleo de jovens criadores. Música e letra em
perfeita sincronia brincam com a ideia do título, forçando o limite
da afinação no fraseado musical, como no verso inicial “Se você
disser que eu desafino, amor”, que pode levar tanto ouvintes quanto
intérpretes ao erro. Muitos desavisados comentavam que João
Gilberto, o mais afinado dos cantores brasileiros, era “desafinado”,
confundindo o efeito com o defeito.
“Você
com a sua música esqueceu o principal / Que no peito dos desafinados
/ No fundo do peito bate calado / Que no peito dos desafinados também
bate um coração.”
Sucesso
também nos Estados Unidos, a partir da gravação instrumental do
saxofonista Stan Getz com o guitarrista Charlie Byrd, lançada num
single em 1962, que vendeu mais de um milhão de cópias e
faturou um Grammy de “melhor performance de jazz”, “Desafinado”
foi uma das pontas de lança para espalhar a bossa nova nos Estados
Unidos. Ganhou duas versões em inglês: “Slightly Out of Tune”,
do cantor Jon Hendricks, e a que vingou, mais fiel à ideia original,
“Off Key”, por Gene Lees, orientado por Tom Jobim.
“Desafinado”,
Johnny Alf, que Tom adorava, certamente merece levar algum crédito,
pois “Rapaz de bem”, que Alf gravara em 1955, era uma canção
pioneira de melodia sinuosa e jazzística sobre sequências de
acordes dissonantes, que se alinha bem com o espírito de
“Desafinado”. Anos depois, recebeu letra de Ronaldo Bôscoli e
uma nova introdução, feita por Tom Jobim.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
26/08/2022
Eu sei que vou te amar | Tom Jobim e Vinicius de Moraes, 1958
Lançada
em 1958, no momento em que a bossa nova começava a revolucionar a
música brasileira, esta canção logo se tornou uma das mais
gravadas da dupla Tom e Vinicius. Tradicional e romântica em termos
musicais e poéticos, “Eu sei que vou te amar” tinha pouco em
comum com o estilo que foi sintetizado pela voz e o violão de João
Gilberto. Sua letra e sua melodia são desesperadamente românticas,
distantes do suingue seco e sincopado, das harmonias dissonantes e
das letras coloquiais de Vinicius, cantando a leveza da vida no
paraíso carioca.
Mas
tanto Tom Jobim quanto Vinicius de Moraes nunca se restringiram a
esses temas ou ao samba como a única base musical, transitando com
liberdade por modinhas, valsas, choros, boleros, afro-sambas,
sambas-canção.
O
primeiro registro da música é de Sol Stein e seu Conjunto, no LP
Boate em sua casa, Vol. 1 – Encontro no Au Bon Gourmet, em
1958, sem qualquer repercussão. No ano seguinte, também não foi
bem-sucedida com Lenita Bruno, cantora de formação lírica, casada
com o maestro e arranjador Leo Peracchi, que deu a “Eu sei que vou
te amar” uma interpretação entre uma ária de ópera e um
standard de musical da Broadway. Só 35 anos depois, quando
finalmente João Gilberto gravou a sua longamente amadurecida versão
no disco Ao vivo – Eu sei que vou te amar (1995), a canção
ganhou sua versão definitiva, mais próxima da bossa nova, como já
tinha sido antecipado, em 1978, por Caetano Veloso, discípulo
aplicado de João Gilberto, no disco Muito.
Dos
mais bregas aos mais chiques, são incontáveis os intérpretes de
“Eu sei que vou te amar”, que se impõe pela melodia arrebatadora
e pela poética apaixonada de Vinicius, como a mais popular música
de casamentos em todo o Brasil.
Em
2008 recebeu belíssima versão de Roberto Carlos nas comemorações
dos 50 anos da bossa nova. Em 2014, cantada por Ana Carolina, foi
sucesso de novo como tema de abertura da novela Em família.
Foi cantada a meia-voz pela multidão no funeral de Tom Jobim.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
19/08/2022
Chega de saudade | Tom Jobim e Vinicius de Moraes, 1958
“Dream team” da bossa nova em 1962: Vinicius e Tom (no piano), João Gilberto e Os Cariocas
Canção-símbolo
da bossa nova, marco inicial da mais radical mudança de rumo na
história da música brasileira, “Chega de saudade” foi escrita
por Antônio Carlos Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes
(1913-1980) e gravada pela primeira vez no início de 1958 por
Elizeth Cardoso no LP Canção do amor demais. Porém, na
forma tradicional que Elizeth a cantava, de bossa nova a música não
tinha nada – apenas a batida diferente do violão de João
Gilberto, que, ao fundo e no meio da orquestra, passou quase
despercebida. Apesar da popularidade e do prestígio de Elizeth, e da
qualidade das canções da dupla, o disco passou batido pelo público
e pela crítica.
Seis
meses depois, com um arranjo moderno e minimalista de Tom Jobim e uma
introdução à maneira de regional de choro puxada pela flauta, João
Gilberto regravou “Chega de saudade”. Agora, com a batida de seu
violão integrada à sua voz, canto com um mínimo de volume e um
máximo de suingue e precisão, alterando acordes e divisões
rítmicas, valorizando as palavras da letra coloquial, carinhosa e
cheia de diminutivos de Vinicius de Moraes. Nascia a bossa nova. E
logo se transformava em um improvável sucesso nacional, começando
pelas rádios de São Paulo e se alastrando para o resto do país. O
estilo provocou polêmica e virou a melhor novidade do ano,
conquistando a juventude e se tornando trilha sonora dos alegres e
otimistas “Anos JK”.
No
rótulo do histórico 78 rpm, a música era identificada como
“samba-canção”. A prática de classificar os gêneros musicais
dos discos começava a ser abolida pelas gravadoras na época e, na
verdade, o próprio João Gilberto nunca aprovou o rótulo de bossa
nova. Como sempre disse, a batida de seu violão era samba, um samba
minimalista e sincopado, mas sempre samba.
Para
Tom Jobim, “Chega de saudade” era mais um “samba-choro”, que
compôs baseado em sequências de acordes básicos de um método para
violão comprado para uma sobrinha, como contou a Tárik de Souza no
livro Tons sobre Tom. Sobre essa sequência, alterou os
acordes e escreveu uma melodia que em sua primeira parte é toda em
tom menor, saudoso e melancólico, para se abrir em tom maior na
segunda, quando a letra se ilumina a partir de “Mas, se ela voltar
/ se ela voltar que coisa linda, que coisa louca / pois há menos
peixinhos a nadar no mar / do que os beijinhos que darei na sua
boca”.
Foi
uma overdose de escândalos. Um cantor que não tinha voz para os
padrões da era do rádio, cantando de uma forma doce e feminina no
reinado dos cantores viris e grandiloquentes. Um ritmo esquisito que
sambistas tradicionais chamaram pejorativamente de “violão gago”.
Um poeta místico e dramático com a obra e a respeitabilidade de
Vinicius rimando beijinhos com peixinhos.
Embora
secundária como música e letra na obra monumental de Tom e
Vinicius, o tempo provou que a melodia sinuosa e os acordes
dissonantes, a letra coloquial e inovadora e a nova batida de violão
envolvendo o canto mínimo e exato de João Gilberto resultaram na
criação de um novo gênero musical que, em seguida, também
ganharia os Estados Unidos, a Europa e o Japão, e seria uma das
maiores contribuições brasileiras para a beleza e a alegria do
mundo.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
07/06/2022
O fechamento dos cassinos
No
começo da tarde de 30 de abril de 1946, o magnata Joaquim Rolla —
proprietário dos cassinos da Urca (Rio), de Icaraí (Niterói), de
Quitandinha (Petrópolis), da Pampulha (Belo Horizonte) e outros —
preparava-se para almoçar em sua casa, na avenida Rainha Elizabeth,
em Copacabana, quando ouviu pelo rádio a notícia que já esperava e
temia. O presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, acabara de
assinar um decreto-lei que fazia seu império desabar.
“Considerando
que a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro é
contrária à exploração dos jogos de azar”, disse o locutor,
lendo o texto oficial, “fica decretado o fechamento dos cassinos em
todo o território nacional.”
Dutra
fora empossado três meses antes, em 31 de janeiro, e desde então
circulavam rumores de que ele poderia fechar os cassinos. Isso
contrariava as expectativas criadas durante a campanha eleitoral
ocorrida após a queda do ditador Getulio Vargas, em outubro do ano
anterior. Quem prometera fechar o jogo se eleito fora o brigadeiro
Eduardo Gomes, candidato da ranzinza UDN (União Democrática
Nacional) e renitente praticante do sincericídio. Seu adversário, o
general Gaspar Dutra, do mais flexível PSD (Partido
Social-Democrata), parecia neutro em relação ao assunto: nunca
disse que sim nem que não. Assim, Joaquim Rolla esqueceu sua
simpatia inicial pelo brigadeiro e engajou seu carro-chefe, o Cassino
da Urca, na campanha do general. Pendurou faixas de “Vote Dutra”
por toda a Urca, dentro e fora do cassino. Octavio Guinle, dono do
Copacabana Palace, onde funcionava o cassino mais luxuoso do Brasil,
e Alberto Quatrini Bianchi, do Cassino Atlântico, também apoiaram o
homem. Dutra venceu. E, agora, os quebrava.
Em
termos. Rolla perdia os cassinos, mas conservava os imóveis em que
eles funcionavam — um deles, o Quitandinha, um palácio de cristal
e porcelana — e, como tinha participação em dezenas de
empreendimentos, era difícil que fosse rebaixado à classe média.
Octavio Guinle, menos ainda, porque não explorava diretamente o
cassino — sublocava-o aos empresários Ernesto Fontes e Antenor
Mayrink Veiga pelo alucinante aluguel de 10 mil dólares mensais, e
ainda tinha exclusividade no fornecimento de comida e bebida nas suas
dependências; além dos grandes chamarizes: o Golden Room, um salão
de shows, e o Meia-Noite, um piano-bar, ambos dentro do hotel. Donde,
se Octavio Guinle perdesse o cassino, sempre lhe restaria o…
Copacabana Palace. E o próprio Bianchi, do Cassino Atlântico, não
se apertou — como era envolvido com mineração, o ouro e os outros
metais que extraía perto de Ouro Preto seriam suficientes para
mantê-lo à tona por algumas encarnações.
Quem
não tinha para onde correr eram os empregados do pano verde. Com uma
penada, Dutra pôs na rua uma quantidade de superintendentes,
gerentes, crupiês, fiscais, cilindreiros (encarregados da manutenção
das roletas), chefes dos ficheiros (responsáveis pelas fichas),
chefes de sala e de setor, tesoureiros, caixas e toda sorte de
pessoal especializado. Além deles, receberam também o bilhete azul
os chefes de portaria, toalete, adega, cozinha, segurança e
manutenção; recepcionistas, maîtres, valetes, intérpretes,
fotógrafos de salão e publicistas; e uma multidão de cozinheiros,
garçons, peões, faxineiros, eletricistas, telefonistas, leões de
chácara e manobristas. Todos na folha de pagamento dos cassinos e
com rendimentos acima da média, porque ganhavam gorjetas em fichas —
as mesmas fichas de madrepérola que se trocavam por dinheiro na boca
do caixa —, e quem dá uma ficha de gorjeta nem sempre se preocupa
com o valor.
Mas
quem mais sofreria com o fim dos cassinos seria o pessoal do palco e
adjacências: diretores artísticos, diretores de cena, roteiristas,
cantores, maestros, músicos, arranjadores, copistas, ensaiadores,
coreógrafos, dançarinas, coristas, cômicos, acrobatas, locutores,
mestres de cerimônia, costureiras, aderecistas, passadeiras,
camareiras, maquiadores, cabeleireiros.
Os
grandes cassinos mantinham, cada um, duas ou três orquestras, vários
conjuntos menores e solistas, para produzir música de dança, de
fundo e de acompanhamento. As orquestras eram compostas de naipes
completos de trompetes, trombones e saxofones, além de piano,
contrabaixo, violão, bateria, ritmistas e dois crooners — um total
de quinze a vinte músicos por orquestra, todos de primeira linha. A
de Carlos Machado na Urca, por exemplo, tinha como destaques o
pianista Dick Farney, o violinista Fafá Lemos, o violonista Laurindo
de Almeida, o trompetista Barriquinha, o guitarrista Betinho e o
exuberante Russo do Pandeiro. De todos, o único não músico era o
próprio Machado — apenas se fazia de maestro. Duas de suas
crooners, antes da fama e não na mesma época, tinham sido Emilinha
Borba e Marlene. Cerca de trezentos músicos e cantores perderam o
emprego no Rio.
Não
havia mercado para absorver tanta gente e tão de repente. Os
artistas mais famosos voltaram para seus palcos de origem, nos
teatros de revista da praça Tiradentes, e os músicos sempre
encontrariam trabalho nos dancings, gafieiras, estações de rádio,
gravadoras de discos e bailes de formatura. Mas nunca veriam tanto
dinheiro quanto ganhavam nos cassinos. Vicente Paiva, também chefe
de orquestra na Urca e coautor de sucessos como “Mamãe, eu quero”
e “Disseram que voltei americanizada”, preferiu vender seus dois
carros novos e ficar somente com um velho, que pôs na praça — foi
ser motorista de táxi, enquanto a situação não melhorasse. Outros
se tornaram corretores de imóveis, comerciários e ascensoristas. E
algumas moças foram para a Lapa, não exatamente para cantar.
O
acaso se encarregou de dar um toque de cruel ironia ao fim do jogo.
Mal fechados os cassinos, Joaquim Rolla foi obrigado a organizar, a
pedido do Itamaraty, uma festa para o presidente Dutra no Quitandinha
— este já reduzido a um hotel impossível de administrar sem o
dinheiro das roletas. O evento fora acertado pouco depois da posse de
Dutra, quando ainda não se sabia que ele apunhalaria os cassinos
pelas costas. Carlos Machado teve de juntar às pressas cantores,
músicos e coristas da Urca, e pode-se imaginar o constrangimento com
que eles se apresentaram para o seu algoz.
Calcula-se
que o jogo movimentava 300 milhões de dólares por ano no país —
dólares de 1946 —, 70% dos quais no Rio, e empregava 40 mil
pessoas. Um cassino de categoria tinha pelo menos quinze mesas de
roleta, doze de campista e seis de bacará, distribuídas em dois
salões — um para os ricos, artistas, políticos, visitantes e
turistas ilustres; outro, para uma clientela mais popular, que
apostava menos mas comparecia em batalhões. Jantava-se quase de
graça nos cassinos e, idem, assistia-se a espetáculos estrelados
pelos maiores nomes da música brasileira — Carmen Miranda fora um
símbolo da Urca. Entre os estrangeiros, o jogo trouxera ao Rio os
americanos Bing Crosby, Josephine Baker e os Nicholas Brothers, as
francesas Mistinguett, Lucienne Boyer e a orquestra de Ray Ventura
(com seu jovem cantor Henri Salvador); o estelar casal formado pela
soprano húngara Martha Eggerth e pelo tenor polonês Jan Kiepura; a
contralto peruana Yma Sumac, com suas 5,4 oitavas de extensão de
voz; os mexicanos Agustín Lara, Tito Guizar, Pedro Vargas, Alfonso
Ortiz Tirado e o padre cantor José Mojica; e muitos outros, todos
ídolos de massa. E não importava que seus cachês fossem
milionários — metade desse dinheiro ficava por aqui mesmo, nas
mesas da Urca, do Copacabana Palace e do Atlântico.
Mesas
essas que só podiam ser operadas por profissionais treinados. De um
crupiê de roleta, exigia-se que tivesse reflexos rápidos para
enxergar a mesa inteira (um pano verde dividido em 36 números e mais
o zero, o duplo zero, o vermelho, o preto, as colunas, as dúzias, o
par e o ímpar), agilidade na manipulação das fichas e boa cabeça
para aritmética. As operações eram simples, mas, no calor das
apostas, podiam se confundir na cabeça do encarregado. De um crupiê
de bacará eram requeridas essas mesmas qualidades e alguma
desenvoltura ao falar, já que parte do charme do jogo consistia no
que ele dizia. E, não que fosse obrigatória, mas uma certa
semelhança com Cary Grant não faria mal ao crupiê. Toda essa gente
viu-se, de repente, consultando os classificados do Jornal do
Brasil em busca de emprego.
Um
dos termos da legalização original dos cassinos sob Getulio Vargas,
em 1933, era que os impostos decorrentes do jogo não passariam pelo
governo, mas iriam para causas beneficentes controladas pelo Serviço
de Assistência Social. Para o influente jornalista J. E. [José
Eduardo] de Macedo de Soares, do Diário Carioca, isso era uma
farsa. Em editorial assinado na primeira página de seu jornal, ele
saudou o decreto-lei de Dutra como “um ato de saneamento social”.
Para Macedo Soares, o país se tornara uma “formidável empresa do
pano verde”, e o governo Vargas, “sócio da jogatina”. O artigo
não ignorava os prejuízos que a extinção do jogo produziria em
quem, direta ou indiretamente, vivia dele, mas ainda assim, dizia,
ela valia a pena.
Os
jornais foram quase unânimes em aplaudir o fechamento dos cassinos,
embora vários de seus proprietários, como Paulo (filho de Edmundo)
Bittencourt, do Correio da Manhã, Orlando Dantas, do Diário
de Notícias, Assis Chateaubriand, dos Diários Associados,
e Roberto Marinho, de O Globo, fossem seus habitués —
nem tanto para apostar, mas em busca de contatos e informações.
Segundo seus editoriais, o que os cassinos significavam para o
turismo ou para a prosperidade da noite carioca deixara de ter
importância, comparado ao seu papel de destruidores de patrimônios
e desagregadores de famílias — sem contar suas ligações com a
ditadura de Getulio. Até por isso, intelectuais das mais variadas
plumagens, como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Plínio Salgado,
vibraram com a proibição.
Por
que Dutra fizera aquilo? A medida foi atribuída à pressão de sua
mulher, a professora Carmela Dutra, mais conhecida como dona
Santinha. Católica até enquanto dormia, dizia-se que ela
bombardeava os ouvidos de Dutra com as pregações que escutava dos
padres. Nem o argumento de que os impostos do jogo financiavam as
obras sociais pelas quais ela, como primeira-dama, ficara responsável
a sensibilizava. Mas, na verdade, o hidrófobo inimigo do jogo junto
a Dutra era seu ministro da Justiça, o provinciano Carlos Luz,
ex-vereador, delegado de polícia e inspetor escolar em Leopoldina
(MG), depois fundador do PSD e deputado constituinte por Minas
Gerais. Para ele, o jogo era um câncer moral, que arruinava os
homens de bem e destroçava as famílias. Os grandes perdedores se
matavam — e, de fato, os jornais abriam páginas quando se dava um
desses suicídios. Carlos Luz assegurou a Dutra que, se quisesse
tornar-se imediatamente popular, era só fechar os cassinos. Dutra
queria ser popular. Dois dias depois, saiu o decreto que arruinou o
almoço de Joaquim Rolla e estomagou seus concorrentes.
A
pressão para o fim do jogo vinha de longe. Em 1941, o general
Candido Rondon já pregava a transformação dos cassinos em
hospitais. Uma lei do Estado Novo (1937-45) dispunha que, se um dia o
jogo fosse proibido, o governo federal pagaria uma indenização aos
proprietários dos cassinos e assumiria as dívidas trabalhistas para
com os funcionários demitidos. Mas, em 1946, acabáramos de
ingressar na democracia, e Dutra, subitamente esquecido de que fora
um dos cardeais do regime deposto, anunciou que não era responsável
pelos compromissos do Estado Novo — e não pagou a ninguém. Pior:
em decreto complementar, estabeleceu que os ônus, encargos sociais e
indenizações aos empregados despedidos deveriam ser saldados pelos
próprios banqueiros do jogo. Naturalmente, estes contestaram e,
depois de uma briga de anos, nada se decidiu. Rolla e colegas
conseguiram zerar suas dívidas bancárias e com os fornecedores, mas
a maioria de seus empregados nunca viu a cor do dinheiro. Na histeria
do momento, um juiz de direito da cidade de São Simeão, no interior
de São Paulo, proibiu a venda de balas contendo figurinhas. Alegou
que recebia queixas de pais apreensivos porque seus filhos não
queriam saber de estudar, dedicando-se dia e noite ao bafo-bafo — o
que tornava as figurinhas um “jogo de azar”.
No
auge do jogo, havia oficialmente 79 cassinos em território nacional.
Mas, caso se contassem as batotas de salas dos fundos, frequentadas
pelos menos abonados, as casas de jogo chegariam a mil. Como já eram
clandestinas e fora do radar da proibição, não havia motivo para
que, por causa desta, deixassem de funcionar. Na prática, portanto,
apenas os ricos e os turistas foram proibidos de jogar. Os pobres
continuaram a dispor desses pontos clandestinos, mais as tômbolas
nas quermesses católicas, as loterias, as corridas de cavalo e o
jogo do bicho, este em confortável ilegalidade. E a prova de que
dona Santinha não tinha a ver com a história é que, em outubro de
1947, um ano e meio depois da proibição, ela morreu, em
consequência de uma cirurgia a que se submetera, semanas antes, no
Hospital Central da Aeronáutica — mas a lei não foi revogada nem
se cogitou essa hipótese. Tinha 63 anos. Os jornais falaram de suas
“acendradas virtudes domésticas, como dona de casa exemplar e
esposa perfeita”. Insinuou-se também a ocorrência de erro médico.
Levou
tempo, mas os músicos que sobreviveram à diáspora voltaram aos
palcos. Só que, agora, em formações menores — no máximo, um
trompete ou sax, um piano, uma seção rítmica e um cantor —,
tocando em andamento médio e num volume mais próximo a um sussurro
ao ouvido. As novas casas em que eles passaram a se apresentar também
primavam pela discrição, sem o brilho e a luminosidade dos cassinos
— ao contrário, seus candelabros no piano e abajures nas mesas
favoreciam a penumbra, a intimidade, o romance. As pessoas que as
frequentavam eram gente que não saía antes às ruas do Rio, exceto
para ir às corridas no Jockey, aos chás dançantes do Country e aos
torneios de tênis no Fluminense. E uma nova música, cuja gestação
vinha de longe — e, bem ao seu estilo, sem alarde —, tomava aos
poucos esses espaços, com seus compositores, letristas e cantores de
quem não se sabia onde terminava a arte e começava a vida.
Tais
espaços eram as boates de Copacabana. Seus frequentadores, os novos
donos do glamour, da intriga e do poder. E a música, o samba-canção.
Ruy Castro, in A noite do meu bem
31/05/2022
Copacabana | Braguinha e Alberto Ribeiro, 1946
Muito
antes de Tom e Vinicius apresentarem a vizinha Ipanema ao mundo,
Braguinha (ou João de Barro) e Alberto Ribeiro (1902-1971) criaram
este hino de louvor para a “Princesinha do Mar”. Lançado em
disco por Dick Farney, em 1946, com arranjo para orquestra de Radamés
Gnattali, “Copacabana” era um samba diferente, moderno para a
época, ganhando um tratamento sofisticado, que, somado ao canto cool
de Farney, em muitos aspectos antecipou a estética minimalista da
bossa nova.
O
grande sucesso, dominando as paradas brasileiras por mais de um ano,
veio acompanhado de acusações de plágio. A melodia do samba-canção
lembra vagamente o início de “I’ll remember April” (Gene de
Paul, Patricia Johnston e Don Raye), lançada na trilha sonora de um
filme de 1942 da dupla de comediantes Abbott & Costello, Ride
‘em Cowboy (que no Brasil ganhou o título de Cavaleiros da
galhofa). Braguinha não seria estúpido de “plagiary” logo
um popularíssimo standard americano. Coincidência ou não,
“Copacabana” foi escrita em 1944, para um musical que não chegou
a ser montado, e teve como ponto de partida outra composição da
dupla Braguinha e Ribeiro. É um samba curto, com apenas 12 versos
que exaltam as belezas da praia carioca: “Nenhuma tem o encanto /
que tu possuis.”
O
impacto inicial de “Copacabana” deve ser creditado também à
interpretação magistral do pianista e cantor Dick Farney
(1921-1987). Nascido no Rio de Janeiro como Farnésio Dutra e Silva,
ele teve formação clássica e era apaixonado pelo jazz. Até gravar
este samba-canção, após muita insistência de Braguinha, Farney só
cantava em inglês. Entre os anos de 1947 e 1948, ele chegou a viver
e trabalhar nos Estados Unidos, onde, entre outros compromissos, foi
contratado como cantor fixo no programa de rádio do comediante
Milton Berle. Com os sucessos de “Copacabana” e “Marina”
(esta de Dorival Caymmi), que ele tinha gravado para a Continental
antes de se radicar nos EUA, Farney voltou ao Brasil, ajudando a
plantar as sementes da bossa nova.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil
20/05/2022
Prólogo: As noites antes da noite — Uma pré-história
Visgo,
feitiço ou mandinga, algo sempre atraiu o carioca para a noite e o
fez ficar até altas horas na rua. Isso desde o Rio Colonial, quando
a prática não era aconselhável. As ruas eram escuras, o
policiamento, precário, e o cidadão tinha de se precaver contra
embuçados, assassinos, salteadores, capoeiras, rufiões, ciganos,
contrabandistas, escravos fugidos, mendigos agressivos e simples
vadios, muitos com facas e punhais entre as dobras da camisa. Donde a
vida social era limitada — posto o sol, a maioria da população ia
para casa e contemplava o mundo pela treliça das janelas. Mas já
havia os intimoratos, que se aventuravam pelas ruelas e, às vezes,
pagavam o preço. Um bordejo para além da rua da Vala (depois,
Uruguaiana) ou do Campo de Santana, então limites da cidade, podia
custar a vida.
Com
a chegada da Corte portuguesa ao Rio e a abertura dos portos, em
1808, e a Independência, em 1822, tudo mudou. Iluminaram-se ruas,
hábitos se modificaram — o jantar e a ceia avançaram noite
adentro —, surgiram os primeiros jornais, as treliças foram abaixo
e homens e mulheres finalmente se olharam nos olhos. A presença da
família real e da nobreza, da numerosa burocracia civil e militar,
do corpo diplomático e dos comerciantes ingleses e franceses
estabeleceu uma nova agenda noturna, que incluía visitas aos amigos,
festas na rua das Belas Noites — em frente ao recém-inaugurado
Passeio Público —, idas à ópera, danças nos salões e escapadas
aos cafés-cantantes. Em 1840, já tínhamos os bailes de Carnaval;
em 1859, o teatro de revista; e, em 1892, o túnel e o bonde levaram
a cidade até Copacabana. A noite ficou imensa.
Nesse
mesmo ano, um homem chamado José Mourão abriu uma casa de bailes e
folias na rua do Lavradio, 49, na Lapa: o High-Life Club. A
princípio, pensou-a como uma agremiação carnavalesca, dedicada ao
“Deus Momo”. O reclame gritava: “Ao prazer! À loucura! Ao Deus
do Carnaval!”, e assim foi nos primeiros tempos. Ao fazer o
livro-caixa, no entanto, Mourão descobriria que não tinha sentido
limitar os prazeres e loucuras a uma celebração isolada, e o
High-Life se tornou um lugar onde se bebia, dançava e assistia a
espetáculos pelo ano inteiro. Mas, a exemplo do teatro de revista,
dos circos e dos cafés, era um lugar do qual o público se retirava
e a casa suspirava e morria assim que terminava a apresentação.
Em
1918, Mourão vendeu o High-Life para o ditador das diversões
públicas no Rio, o italiano Paschoal Segreto. Em seu nome ou no de
sua empresa, Segreto controlava teatros, cafés-concerto, salas de
cinema (algumas, para exibição de filmes pornográficos),
cervejarias, parques de diversões, circos, mafuás, bilhares,
faquires, casas de tavolagem e, não por último, os melhores pontos
de jogo do bicho na cidade. Seu dedo estava em tudo, desde humildes
fogueiras juninas e concertos de bandinhas em coretos até cerimônias
de formatura de acadêmicos e monumentais festas de réveillon. Não
havia ramo que lhe fosse estranho. Em 1898, seu sobrinho Affonso,
filho de seu irmão Gaetano, produzira as primeiras imagens filmadas
no Brasil: as da Guanabara, tomadas à medida que o navio que o
trazia da França, o Brésil, ia penetrando na baía. Filme esse
exibido na primeira sala brasileira de cinema a funcionar num prédio,
não numa tenda, e também deles: o salão Novidades de Paris, na rua
do Ouvidor.
Segreto
tinha grandes planos para o High-Life. Assim que o comprou,
transferiu-o da tapera em que ele funcionava, na rua do Lavradio,
para o palacete de três andares que pertencera à família do barão
do Rio Negro, na rua Santo Amaro, 26, na Glória. Não o pôs abaixo,
mas submeteu-o a uma reforma que levou um ano e resultou em
instalações à altura de suas ambições.
O
novo High-Life ocupava os três andares, com salões, saletas,
mezaninos e quartos particulares (para encontros íntimos), terraços
e alamedas a céu aberto, tudo cercado por um jardim com árvores
frutíferas. Habituado a grandes números, Segreto imaginou bailes de
Carnaval com 10 mil casais dançando por três dias e noites,
animados por dez orquestras que se revezariam — e parece ter
chegado perto disso no Carnaval de 1919, o primeiro e único que
comandou pessoalmente. Seus frequentadores, disse um cronista, usavam
“toilettes de um luxo asiático e casacas a cuja botoeira se
enfloravam camélias e gardênias”.
Mas
Segreto tinha também uma reputação difícil de carregar. No âmbito
doméstico, era um contraventor, o que lhe custava uma fortuna para
aplacar a lei. A Europa tampouco lhe dava sossego — vivia
processando-o por se apropriar de invenções recentes e registrá-las
em seu nome no Brasil (uma delas, o cinematógrafo de Lumière!).
Tentando amenizar esses estigmas e conferir alguma respeitabilidade
ao High-Life, Segreto convidou gente de teatro, jornalistas e
autoridades para participar da diretoria.
Não
ficou nisso. Ao fim dos grandes bailes, e já com o dia nascendo,
conduzia seus clientes a uma longa mesa de chás e quitutes que se
estendia pelo jardim — um café da manhã gigante, para
restaurar-lhes as forças. Quando os figurões se retiravam, ele os
acompanhava até a porta. Os mais íntimos, Segreto mandava levar em
casa num dos automóveis da empresa. Não adiantava — ninguém
ignorava que, por mais discreto que fosse, o High-Life era também o
paraíso da roleta e do carteado, do champanhe em taças debruadas de
éter e da cocaína que se aspirava de frasquinhos, vendidos pelas
demi-mondaines que o frequentavam.
Mas
Paschoal morreu em 1920, aos 51 anos, um ano depois da inauguração.
Seu irmão Gaetano também já morrera, e os filhos deste, Domingos,
Paschoal e Affonso,
encarregaram-se
de tocar o barco. O ilustrador Roberto Rodrigues (filho do jornalista
Mario Rodrigues e irmão do futuro Nelson Rodrigues) imortalizou o
impressionante interior do casarão para o jornal Crítica. Em
1929, o High-Life apresentou a maior atração mundial de seu tempo:
a bela negra americana radicada em Paris Josephine Baker, 23 anos,
famosa pela tanga de penas e quase todo o corpo de fora ao cantar
“J’ai deux amours”. Pelas décadas seguintes, no entanto, o
High-Life foi ladeira abaixo. Incapaz de sustentar uma programação
de grandes cartazes, começou a perder para as gafieiras, os dancings
e os cassinos o título de centro da noite carioca, embora ainda
conservasse o de melhor Carnaval.
A
cidade cresceu e o High-Life já não era irresistível. De 1938 a
1940, o poeta modernista Mario de Andrade, paulistano a trabalho no
Rio, morou quase defronte a ele — no número 5 da rua Santo Amaro.
Imagina-se que, da janela de seu apartamento no quarto andar, com
vista para a rua, o autor de Paulicéia desvairada ouvisse os ecos da
fuzarca e não hesitasse em trocar o robe de chambre pela fatiota e
fosse até lá para assuntar o movimento. Mas não há registro de
que Mario tenha ido sequer uma vez ao High-Life. E de que a alegre
vizinhança o sacudisse da depressão que arrastou por toda a sua
temporada carioca.
Nos
anos 50, o melhor Carnaval do Rio já se tornara, de longe, o do
Copacabana Palace, e o High-Life tinha poucos motivos para continuar
aberto. Um deles era abrigar ocasionalmente a entrega do cetro e da
coroa à Rainha do Rádio, eleita pela compra de cupons da Revista
do Rádio. Em 1956, viveu seu último momento de glória: acolheu
os ensaios do musical Orfeu da Conceição, de Antonio Carlos
Jobim e Vinicius de Moraes — a ser encenado não em seu palco, mas
no do Theatro Municipal. Nesses ensaios, no entanto, suas paredes
foram as primeiras a ouvir o mais que perfeito samba-canção “Se
todos fossem iguais a você” na voz de Haroldo Costa, que fazia
Orfeu.
Em
1957, depois de longa e lenta agonia, o High-Life alugou suas
dependências a uma repartição federal e calou-se para sempre.
Ou
não. A repartição federal seria a Supra (Superintendência da
Reforma Agrária), que, no período presidencialista de João Goulart
(1962-4), foi um dos mais furiosos centros de agitação política
que deram pretexto ao golpe militar.
Em
1902, o jornalista Edmundo Bittencourt, proprietário do
recém-lançado Correio da Manhã e comprador de terrenos em
Copacabana, alugou a uma francesa uma casa que possuía na esquina da
rua da praia com a da Igrejinha (em breve com suas denominações
definitivas: avenida Atlântica e rua Francisco Otaviano). A francesa
era Madame Louise Chabas, 57 anos, baixa, gordinha e simpática; e a
casa, a chamar-se Mère Louise, destinava-se a ser um sóbrio
restaurante de frutos do mar. E era bom que fosse sóbria — ficava
a poucos metros da igrejinha dedicada desde 1637 a Nossa Senhora de
Copacabana, uma santa boliviana cuja imagem se abrigava ali e que
dera o nome ao bairro.
Os
mais devotos poderiam discordar da decoração do estabelecimento: ao
estilo de um saloon do Oeste americano, com varanda, portas em
vaivém dando para o salão, piano, balcão, espelho e mesas, tudo em
torno de uma cadeira de balanço da qual Madame Louise controlava o
movimento. Apesar do ambiente mais propício a vaqueiros, seus
clientes eram a nata letrada e boêmia do Rio: políticos, ministros
de Estado, diplomatas, artistas e jornalistas, alguns acompanhados de
“amigas” ou admiradoras. Louise conhecia a todos pelo nome e ia
de mesa em mesa, falando com cada um. Tal intimidade tornava natural
que, em emergências, ela cedesse — pela escorchante diária de 6
mil-réis — discretos aposentos nos fundos para quem precisasse
“repousar”.
Em
1907, Louise transformou a casa num cabaré, dirigido por seu
patrício Auguste Castella, e do qual, no começo, ela foi a atração
principal, cantando tangos vestida de baiana. Foi sucedida por
músicos e cantores franceses de passagem pelo Rio, que executavam um
repertório de velhas canções maliciosas, como “Les filles de la
Rochelle” e “La femme du roulier”.
Pelos
anos seguintes, a casa foi um sucesso e já com as características
que, no futuro, seriam a marca das boates de Copacabana: lugares a
que se podia chegar a qualquer hora da noite com a certeza de que
estariam abertos, funcionando, e onde se poderia jantar, beber,
dançar, ouvir música ou encontrar amigos. No começo da madrugada,
assistia-se a shows — um deles, Vênus no Rio, uma revista
musical com 45 números de canto e dança em uma hora e meia de
espetáculo; terminado este, voltava a música de fundo. O bairro
passara a ser servido por bondes que rodavam até as duas da manhã,
o que garantia uma longa noite de loucuras para quem não quisesse
voltar cedo para casa. Em último caso, o automóvel de Madame
encarregava-se de buscar ou trazer os clientes.
Mas
Louise foi vítima de sua atitude tolerante. Os jornais viviam
registrando bafafás envolvendo seu nome, mesmo quando ela não tinha
culpa. As pessoas comiam e bebiam à farta em suas mesas e não
resistiam ao apelo do mar lá fora — atiravam-se a ele, de roupa e
tudo, sentiam-se mal e, não raro, alguém se afogava. Brigas entre
clientes eram comuns, e mais de um deles foi morto a tiros no salão,
contribuindo para a crônica policial sobre o estabelecimento. E,
para Louise, ficou impossível conciliar o requinte de seus serviços
e instalações com os calotes que os clientes mais amigos lhe
aplicavam — ceias copiosas à base de aves nobres e champanhe eram
penduradas e nunca saldadas. Tudo conduzia à falência iminente.
Em
1911, velha e doente, Louise entregou os pontos. Vendeu a casa (para
a Brahma, que a transformou numa cervejaria), pagou as dívidas e
anunciou que se recolheria ao Asilo da Velhice Desamparada. Mas,
pouco depois, meteu-se em outra aventura: o Café Bellevue, na rua
Gustavo Sampaio, 61, no Leme, sem sucesso. Por último, foi vista
gerenciando um rendez-vous de luxo no beco dos Carmelitas, números 3
e 5, na Lapa. Morreu pobre, em 1918, aos 73 anos.
Sem
ela, e sob diferentes direções, o Mère Louise ainda teve os seus
momentos de história. Por algum tempo, em 1912, passou a chamar-se
Igrejinha, o que parecia uma heresia; mas logo voltou a ser o Mère
Louise. No Carnaval de 1914, promoveu batalhas noturnas de confete e
lança-perfume das quais participavam “gentis senhoritas”. Nos
fins de tarde, um aviador francês, Louis Deneau, decolava da avenida
Atlântica com seu teco-teco Blériot, ia fazer piruetas sobre o
largo da Carioca e voltava todo iluminado para pousar em frente ao
local — sim, era possível àqueles aviõezinhos decolar e pousar
na terra batida. Num galpão ao lado do Mère Louise, Edmundo
Bittencourt começou a explorar um cinema, projetando numa telinha de
pano os faroestes de Broncho Billy e os seriados do francês
Fantômas.
Em
1916, o cabaré ganhou um possante vizinho: o Forte de Copacabana,
com o que se criou certa atmosfera vienense em torno do Mère Louise
— soldados e oficiais fardados às vezes disputavam alguma
frequentadora do estabelecimento. A igrejinha sobreviveu ao forte,
mas não sobreviveria à necessidade de se construir um quartel para
o alojamento da guarnição. O terreno foi desapropriado, a
igrejinha, demolida, e o quartel, em 1918, concluído. Com isso,
findou-se uma prática que vinha desde o começo do século: depois
de acertar suas contas com Deus nos bancos do templo, muitos cidadãos
iam beber, dançar e se esbaldar no Mère Louise — ou vice-versa.
Só lhes restava agora beber, dançar e se esbaldar.
Na
tarde do dia 5 de julho de 1922, em que dezoito oficiais e soldados
rebeldes deixaram o Forte de Copacabana para se bater até a morte
contra as forças do governo de Epitácio Pessoa — os “18 do
Forte” —, o Mère Louise não tinha por que se meter. Aliás,
tudo recomendava a neutralidade. Mas, quando os militares passaram
pela sua porta, um de seus clientes, o gaúcho Otavio Corrêa, veio
lá de dentro, chegou à calçada e lhes fez um aceno. Estava
aderindo à rebelião e queria uma arma. O tenente Newton Prado
acedeu e entregou-lhe um fuzil Mauser. Corrêa juntou-se a eles e, na
mais famosa foto que se fez da marcha, pode-se vê-lo de terno escuro
e chapéu-chile — o único civil da foto —, na primeira fila.
Talvez por isso tenha sido um dos primeiros a ser abatido, antes
mesmo que chegassem à rua Bolívar. Com isso, o Mère Louise tinha
agora um mártir.
Em
novembro de 1930, o ex-presidente Washington Luiz, já deposto e
preso no Forte de Copacabana, recusou-se a comer a boia da soldadesca
e exigiu que suas refeições lhe fossem trazidas do Mère Louise.
Fizeram-lhe a vontade e, com isso, todos os dias, o garçom espanhol
Francisco Pino ia servir-lhe o café da manhã às sete e meia, o
almoço ao meio-dia e o jantar, às sete horas. Mas nem isso foi
suficiente para salvar a face do Mère Louise, que, já então, se
reduzira a uma simples casa de prostituição. A polícia fechou-o de
vez, em 1931, como imoral.
Ruy Castro, in A noite do meu bem
22/03/2022
05/06/2017
12/04/2016
24/02/2016
Eliane Elias - Chega De Saudade
Que
grande pianista e intérprete! E DESCONHECIDA NO BRASIL! Mas foi a
única brasileira a vencer um Grammy 2016, com seu disco Made
in Brazil,
que foi o escolhido na categoria de melhor álbum de jazz latino. Por
tudo isso, E EM RECONHECIMENTO, repliquei esse vídeo no blog. Vale a pena conferir outros vídeos no Youtube.
22/10/2015
Uma leoa chamada Nara
A
pobre menina rica de Vinícius de Moraes, a musa da Bossa Nova, a
moça dos joelhos mais bonitos da MPB, a voz dos desconhecidos da
música, a garota da Banda, o açúcar com afeto de Chico Buarque, a
mãe da Isabel e do Francisco, a mulher doce e de opinião forte.
Essa foi Nara Leão. Uma das presenças femininas mais marcantes da
música brasileira.
A
bela e doce menina Nara, sempre cercada por personas importantes do
âmbito musical, sentiu despertar seu interesse pela música muito
cedo. Ainda com 14 anos, em meados de 1956, começou a ter aulas de
violão com dois daqueles que seriam grandes influenciadores da sua
carreira Carlos Lyra e Roberto Menescal. E, desde então, não tirou
mais o instrumento de debaixo do braço.
“Se
alguém perguntar por mim/Diz que fui por aí/Levando o violão
embaixo do braço” (Diz que fui por aí - Zé Keti e H.
Rocha, interpretada por Nara Leão).
Em
sua casa, todas as noites, dizem que aconteciam reuniões que deram
início à Bossa Nova. Ronaldo Bôscoli, com quem teve um romance,
Carlos Lyra e Roberto Menescal, seus mentores musicais, eram alguns
dos que participavam desses famosos encontros. Sempre muito tímida,
Nara custou a aceitar que tinha voz e potencial para seguir uma
carreira artística. Mas não tardou muito para que ela se entregasse
de corpo, alma e coração à música. Sua estreia profissional nos
palcos aconteceu ao lado de ninguém menos que Vinicius de Moraes, na
comédia Pobre Menina Rica (1963).
“Eu
acho que quem me vê crê/Que eu sou feliz/Feliz só porque/Tenho
tudo quanto existe/Pra não ser infeliz” (Pobre Menina Rica
- Vinicius de Moraes e Carlos Lyra)
Além
da Bossa
Nova,
Nara, levada pelo seu lado político esquerdista, também passou a se
interessar pelo chamado samba do morro, com canções contra o regime
ditatorial da época. Em 1964, Nara lançou, em parceria com Zé Keti
e João do Vale, a peça Opinião,
composta em protesto contra as autoridades que queriam retirar as
favelas do Rio de Janeiro. Então, de musa da Bossa Nova passou a ser
cantora de protesto, mostrando a todos que ela não era apenas uma
menininha de classe média que gostava de cantar. Nara tinha
personalidade. Uma personalidade que talvez seja até mais lembrada
que seu rico repertório musical.
“Podem
me prender, podem me bater/Podem até deixar-me sem comer/Que eu não
mudo de opinião” (Opinião - Nara Leão)
Veja
a matéria completa da Obvious aqui.
29/08/2012
28/11/2011
Wave*
*Bossa Nova? Jazz? É a musicalidade universal desse imortal Dominguinhos, com o auxílio luxuoso de Yamandu Costa, fenômeno do violão, que afirmou: "Reaprendi a tocar com Dominguinhos".
02/11/2011
Um disco fundamental da MPB
João Gilberto
Chega de Saudade - 1959
De tempos em tempos a humanidade vive momentos de grandes renovações, sejam elas no campo das artes ou no seu comportamento social e moral, provocando profundas transformações no curso do desenvolvimento humano. Algumas dessas mudanças às vezes surgem movidas por muita dor. É o caso, por exemplo, das guerras, que após um período de trevas, proporciona invariavelmente uma reflexão sobre a própria destruição que gerou e assim força aos homens a busca de sua renovação e a não repetição de erros tão graves. Outras aparecem para clarear horizontes e demonstrar a vontade do nosso espírito em caminhar rumo a um progresso sempre renovado que vai lhe descortinar horizontes, abrindo caminhos e proporcionando uma visão cada vez maior da necessidade humana em caminhar para o aprimoramento de suas necessidades evolutivas, tornando-se assim corresponsável pelo seu destino, escrevendo, portanto a sua história.
Em nosso país passamos por muitos desses momentos, e um deles surge durante a década de cinquenta quando o Brasil se redescobre como uma nação pronta a atingir níveis de desenvolvimento que iriam lhe colocar na vanguarda de sua época e marcaria profundamente nossos destinos até hoje. Mesmo com a tragédia proporcionada com o suicídio do presidente Getúlio Vargas, a nação se renova e esse período vem acompanhado de uma autoestima como nunca havíamos experimentado antes. E no curso desse processo de afirmação nacional e patriotismo, vimos o nascimento com grande pujança de nosso parque industrial, a ascensão da classe média e seus sonhos de consumo, a televisão invadindo lares e mudando os hábitos cotidianos, o rádio em seu apogeu através dos programas de auditório, a imprensa livre, o cinema com as produções da Vera Cruz e da Atlântida, esta última fazendo da chanchada o retrato de um país livre e feliz, a democracia reafirmada como o processo político ideal e por fim para culminar esse momento tão especial: nada melhor do que ouvir a batida revolucionária de um violão vindo da Bahia e que iria ganhar o mundo. Estamos na Bossa Nova. Viva João Gilberto e todos seus companheiros que mudaram para sempre os rumos da música popular brasileira.
Um movimento musical sempre vem acompanhado de uma situação fértil de perspectivas de grandes mudanças, o Brasil vivia esse período quando Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, Roberto Menescal e muitos outros verificaram que aquele era um momento especial, e estavam criando a trilha sonora perfeita que reproduzisse a ambiência da época. Faltava apenas o intérprete ideal. E ele surge na figura do violonista baiano João Gilberto que iria gravar um disco que representaria a síntese daquele estado de espírito que inebriava toda a nação.
As gravações do LP Chega de Saudade começaram em janeiro de 1959 e terminaram em 4 de fevereiro, a intenção era ampliar o sucesso obtido por João Gilberto em seus dois últimos discos, gravados no anterior na Odeon ainda em 78 rotações com as músicas, "Chega de saudade", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; "Bim bom", de João Gilberto; "Desafinado", de Tom Jobim e Newton Mendonça e "Ôba lá lá", também de João Gilberto. No LP seriam aproveitadas as gravações dos discos 78 rotações, faltando, portanto, gravar apenas mais oito canções que seriam "Lobo bobo", e "Saudade fez um samba", de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli; "Brigas nunca mais", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; "Maria ninguém", de Carlos Lyra; "Rosa morena", de Dorival Caymmi; "Morena boca de ouro", de Ary Barroso; "Aos pés da cruz", de Marino Pinto e Zé Gonçalves e "É luxo so", de Ary Barroso e Luiz Peixoto. As gravações terminaram no dia 4 de fevereiro de 1959 e de saída o disco venderia 35 mil cópias, confirmando as expectativas de sucesso, apesar do ceticismo de alguns integrantes da gravadora.
Como o trabalho foi feito em duas etapas aproveitando-se gravações anteriormente lançadas e já conhecidas do público, vários foram os músicos que participaram das sessões de gravação, como por exemplo, Milton Banana, na bateria, Guarany, na caixeta, Juquinha, no triangulo, Rubens Bassini, nos bongôs e Copinha, na flauta, todos presentes na gravação da música "Chega de saudade". Durante a gravação de "Bim bom" além dos músicos citados ainda tínhamos a presença de três integrantes do grupo Garotos da Lua, Milton, Acyr e Edgardo. Os arranjos são de Tom Jobim e João Gilberto, a direção artística de Aloysio de Oliveira e o diretor técnico de gravação era Z. J. Merky.
Um fato curioso diz respeito a capa do disco: quando o fotógrafo Chico Pereira ajustou as luzes e a câmara para tirar a foto de João Gilberto (que usava um suéter emprestado de Ronaldo Bôscoli) um dos spots de iluminação queimou deixando aparecer sua sombra em forma de machadinha apontada para a cabeça por detrás de João Gilberto. As fotos então deveriam ser refeitas, porém como o tempo de lançamento do disco já estava praticamente se esgotando, André Midami responsável pelas capas dos discos da Odeon resolveu que deveria sair como estava, e assim foi feito.
No texto da contracapa Tom Jobim afirmava entre outras coisas que "João Gilberto é um baiano Bossa Nova de vinte e sete anos" (...) "Em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores" e ainda que "quando João Gilberto se acompanha ao violão é ele, quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele".
Assim, este disco surge com uma aura toda especial provocando um divisor de águas na nossa música popular que invade o mundo fazendo-o sentir o gosto do acarajé com a maresia de Ipanema. E assim se fez a história! Viva a Bossa Nova!
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br
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