Mostrando postagens com marcador Jacques Fux. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jacques Fux. Mostrar todas as postagens

09/10/2026

Sertão-Veneza

 



Só importa a Beleza. Mas a Beleza é incapturável.
A Beleza é uma porta encruzilhada.
João Guimarães Rosa

Em 9 de outubro de 1949, João Guimarães Rosa, acompanhado da esposa Aracy, registrou em seus Diários da Itália sua partida no trem das 9h15 de Milão para Veneza. Era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de fruição, após anos de inquietações. Depois desse dia, o olhar de Rosa para a encantada Veneza – e para a Itália – nunca mais foi o mesmo. E o desejo de retornar, de visitar novamente museus, restaurantes e praças, de observar pombos, passarinhos e gatos, de passear nas gôndolas, capturar e registrar momentos, visões e sensações permaneceu latente até seus últimos dias. Walter Benjamin, no seu livro Rua de mão única, escreveu: “Por meio de Moscou se aprende a ver Berlim mais rapidamente que a própria Moscou”. Durante essa viagem pela Itália – e a partir das observações e anotações – o viaggiatore Rosa conseguiu ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse “sertão” insular, milenar e suspenso.

No dia 28 de maio de 1952, Rosa faria outra viagem, ainda mais sensorial e literária. Uma investigação detalhada, uma apurada pesquisa in loco, um retorno ao passado e às memórias de infância. Saindo de Sirga até Araçuaí, acompanhado de seu primo Francisco Moreira, e conduzido por Manuelzão, ele se juntaria a uma boiada de vaqueiros durante a travessia dos mais de 240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Nos diários ou cadernos de anotações – A boiada 1 e A boiada 2 –, Rosa registraria, assim como já havia feito nos Diários da

Itália e no Diário da Alemanha, casos, acasos, minúcias, detalhes, cenários, pessoas, situações, sensações, sentimentos e reminiscências. Benjamin afirmava ser possível dividir o olhar do viajante em dois grupos, o dos autóctones e o dos estrangeiros. Segundo ele, os escritos e registros do primeiro grupo são minoria, já que o motivo superficial, o exótico, o pitoresco só atrai os de fora. Para o autóctone, o importante é resgatar imagens e sensações de sua cidade. Ele tem a motivação de quem, ao invés de viajar para longe e se colocar na posição distante e fria de estrangeiro, busca viajar para o passado a fim de se encontrar consigo mesmo. O retrato produzido pelo autóctone terá afinidade com o próprio livro de memórias. Nessas travessias, Rosa, que passou sua infância no sertão, se reconectou e redescobriu sua voz. Quatro anos após essa aventura, seriam lançados Corpo de baile e Grande sertão: veredas.

Sobre o desejo de empreender essa viagem-retorno, Rosa relatou ao amigo Mário Calábria, cônsul do Brasil em Munique: “Estou-me preparando para, daqui a dias, ir acompanhar, rústica, árdua, autenticamente, uma boiada brava, em percurso de 40 léguas, lá do sertão sagarânico, da fazenda da Sirga – entre buritizais belíssimos e chapadões de matagal inviolado – até a fazenda São Francisco, de um meu primo, lá perto de Cordisburgo. Já ando nos preparativos, arrumando mochila, cantil, roupa cáqui, pois serão 15 dias no ermo, a carne seca com farinha-de-mandioca e café com rapadura, sob sol, poeira, lama e chuva. Odisseus”. Ao citar a jornada do herói grego, ele se preparava para a sua travessia/retorno ao sertão. Não era a primeira vez: em 1945, esteve em Minas, e suas observações estão em “Notas da Grande Excursão a Minas”; e, em 1947, em Nhecolândia, no Pantanal Mato-Grossense, cujo relato pode ser lido nos textos Com o vaqueiro Mariano, Sanga Puytã, Cipango, Ao pantanal e Uns índios – sua fala.

Viagem ao passado. Jornada de sonhos, mitos e místicas. Travessias e reencontros é o que também realizou Italo Calvino. No livro As cidades invisíveis, o autor italiano resgata as suas lembranças – e as lembranças, crenças e criações da cultura italiana – em relação à encantada Veneza – ou às encantadas Venezas. Esse livro canônico se tornou fundamental para sonhar as inúmeras possibilidades dessa cidade. Por meio de seu personagem-protagonista Marco Polo, Calvino transformou a geografia física e histórica em uma linguagem de símbolos, e a viagem em epifanias. Ele – criador e criatura – reconstrói as cidades visitadas elucidando o contorno brumoso e “cadavérico” de Veneza – cidade natal do viajante e coração silencioso de toda a narrativa. Cada cidade descrita ao imperador Kublai Khan funciona como um reflexo – mas também como uma distorção – da cidade-mãe-mito Veneza. Cidade-sonho insular, flutuante, aterrorizante; sempre à beira e à margem, tanto do desaparecimento quanto da eternidade.

Os mesmos detalhes e rigor, o mesmo fruir e encantamento que se percebe em A boiada também são saboreados em seus Diários da Itália. Rosa se mostra apaixonado pelas gôndolas e pelas conversas dos gondoleiros (ao chegar em Veneza, ele se deslumbra de tal forma que até a sua letra garranchada, tremida e inelegível se transforma). Em vários momentos, desenha essas embarcações venezianas, comenta seus nomes e anota também o que está ao redor. Parece não ter medo, só encanto e fascínio pelo rio e por aquele que o conduz. “(cidade de) Mestre: chegamos a Veneza às 6h40. As gondolas, no lusco-fusco, como bichos do mar. O deslumbramento. A lua aponta.”

Jacques Fux, em Sertão-Veneza – Retornos e travessias roseanas