Só importa a Beleza. Mas a Beleza
é incapturável.
A Beleza é uma porta encruzilhada.
João Guimarães Rosa
Em 9 de outubro de 1949, João
Guimarães Rosa, acompanhado da esposa Aracy, registrou em seus
Diários da Itália sua partida no trem das 9h15 de Milão
para Veneza. Era a primeira vez que visitaria Veneza; uma viagem de
fruição, após anos de inquietações. Depois desse dia, o olhar de
Rosa para a encantada Veneza – e para a Itália – nunca mais foi
o mesmo. E o desejo de retornar, de visitar novamente museus,
restaurantes e praças, de observar pombos, passarinhos e gatos, de
passear nas gôndolas, capturar e registrar momentos, visões e
sensações permaneceu latente até seus últimos dias. Walter
Benjamin, no seu livro Rua de mão única, escreveu: “Por
meio de Moscou se aprende a ver Berlim mais rapidamente que a própria
Moscou”. Durante essa viagem pela Itália – e a partir das
observações e anotações – o viaggiatore Rosa conseguiu
ver mais rapidamente, e reconheceu afetivamente, outras veredas desse
“sertão” insular, milenar e suspenso.
No dia 28 de maio de 1952, Rosa faria
outra viagem, ainda mais sensorial e literária. Uma investigação
detalhada, uma apurada pesquisa in loco, um retorno ao passado e às
memórias de infância. Saindo de Sirga até Araçuaí, acompanhado
de seu primo Francisco Moreira, e conduzido por Manuelzão, ele se
juntaria a uma boiada de vaqueiros durante a travessia dos mais de
240 quilômetros pelo sertão de Minas Gerais. Nos diários ou
cadernos de anotações – A boiada 1 e A boiada 2 –,
Rosa registraria, assim como já havia feito nos Diários da
Itália e no Diário da Alemanha,
casos, acasos, minúcias, detalhes, cenários, pessoas, situações,
sensações, sentimentos e reminiscências. Benjamin afirmava ser
possível dividir o olhar do viajante em dois grupos, o dos
autóctones e o dos estrangeiros. Segundo ele, os escritos e
registros do primeiro grupo são minoria, já que o motivo
superficial, o exótico, o pitoresco só atrai os de fora. Para o
autóctone, o importante é resgatar imagens e sensações de sua
cidade. Ele tem a motivação de quem, ao invés de viajar para longe
e se colocar na posição distante e fria de estrangeiro, busca
viajar para o passado a fim de se encontrar consigo mesmo. O retrato
produzido pelo autóctone terá afinidade com o próprio livro de
memórias. Nessas travessias, Rosa, que passou sua infância no
sertão, se reconectou e redescobriu sua voz. Quatro anos após essa
aventura, seriam lançados Corpo de baile e Grande sertão:
veredas.
Sobre o desejo de empreender essa
viagem-retorno, Rosa relatou ao amigo Mário Calábria, cônsul do
Brasil em Munique: “Estou-me preparando para, daqui a dias, ir
acompanhar, rústica, árdua, autenticamente, uma boiada brava, em
percurso de 40 léguas, lá do sertão sagarânico, da fazenda da
Sirga – entre buritizais belíssimos e chapadões de matagal
inviolado – até a fazenda São Francisco, de um meu primo, lá
perto de Cordisburgo. Já ando nos preparativos, arrumando mochila,
cantil, roupa cáqui, pois serão 15 dias no ermo, a carne seca com
farinha-de-mandioca e café com rapadura, sob sol, poeira, lama e
chuva. Odisseus”. Ao citar a jornada do herói grego, ele se
preparava para a sua travessia/retorno ao sertão. Não era a
primeira vez: em 1945, esteve em Minas, e suas observações estão
em “Notas da Grande Excursão a Minas”; e, em 1947, em
Nhecolândia, no Pantanal Mato-Grossense, cujo relato pode ser lido
nos textos Com o vaqueiro Mariano, Sanga Puytã, Cipango, Ao
pantanal e Uns índios – sua fala.
Viagem ao passado. Jornada de sonhos,
mitos e místicas. Travessias e reencontros é o que também realizou
Italo Calvino. No livro As cidades invisíveis, o autor
italiano resgata as suas lembranças – e as lembranças, crenças e
criações da cultura italiana – em relação à encantada Veneza –
ou às encantadas Venezas. Esse livro canônico se tornou fundamental
para sonhar as inúmeras possibilidades dessa cidade. Por meio de seu
personagem-protagonista Marco Polo, Calvino transformou a geografia
física e histórica em uma linguagem de símbolos, e a viagem em
epifanias. Ele – criador e criatura – reconstrói as cidades
visitadas elucidando o contorno brumoso e “cadavérico” de Veneza
– cidade natal do viajante e coração silencioso de toda a
narrativa. Cada cidade descrita ao imperador Kublai Khan funciona
como um reflexo – mas também como uma distorção – da
cidade-mãe-mito Veneza. Cidade-sonho insular, flutuante,
aterrorizante; sempre à beira e à margem, tanto do desaparecimento
quanto da eternidade.
Os mesmos detalhes e rigor, o mesmo
fruir e encantamento que se percebe em A boiada também são
saboreados em seus Diários da Itália. Rosa se mostra
apaixonado pelas gôndolas e pelas conversas dos gondoleiros (ao
chegar em Veneza, ele se deslumbra de tal forma que até a sua letra
garranchada, tremida e inelegível se transforma). Em vários
momentos, desenha essas embarcações venezianas, comenta seus nomes
e anota também o que está ao redor. Parece não ter medo, só
encanto e fascínio pelo rio e por aquele que o conduz. “(cidade
de) Mestre: chegamos a Veneza às 6h40. As gondolas, no lusco-fusco,
como bichos do mar. O deslumbramento. A lua aponta.”
Jacques Fux, em Sertão-Veneza – Retornos e travessias roseanas

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