Traigo los ojos con que ella miró
estas cosas, porque me dio sus ojos para ver.
Juan Rulfo
Caminho
Ele não tinha mais sapatos e seus
pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos
disformes. Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos
tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante,
conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.
Nos primeiros dias o sangue e a água
que minavam das bolhas arrebentadas nos seus pés chiavam em contato
com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio.
Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobra, esturricado, admirável
engenho da natureza para os que não podem contar com nenhum lapso de
piedade do inimigo. As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras,
mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que
sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado,
andando sempre em linha reta.
Dezesseis dias. Por vezes olhava para
baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na
história do homem caído que a mãe, Mariinha, contava. Dizia que
foi num dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre, quando
ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta. Foi abrir,
levando a alegria discreta que sempre doava aos vizinhos ou aos
compradores de chapéu. O sorriso acabou-se no espanto, porque ali
estava um homem esticado no chão, tão faminto que a pele da barriga
colara nas costelas. O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou.
As mulheres da vizinhança não demoraram a ferver um mingau de
milho, cozinhar uma galinha gorda, um quilo de arroz refogado com
alho e sal, uma panela grande de farofa com carne-seca e coentro,
nove copos de leite com canela e oito ovos cozidos. Não faltaram
voluntárias para trazer os pratos, dar comida na boca, fazer a
barba, limpar o rosto com pano perfumado de colônia. Foram dois dias
de comilança para que a barriga do desinfeliz descolasse das
costelas, fazendo um estalido seco e alto que se ouviu por todo o
Horto. Voltou dos mortos tão cheio de desejo que não demorou para
que pedisse a mão de uma das moças em casamento. Era Estelita, a
que lhe trouxe mingau de milho.
Samuel também tinha o ventre quase
colado nas costas e oxalá ainda fosse possível desgrudar quando
chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um
desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da
mãe enchendo o seu prato de louça branco leitoso, com as bordas
quebradas e a pinturinha de flores descascada. Das mãos da mãe ele
tentava não lembrar. Era uma dor sem nome.
Sapatos, as pernas da calça, mangas
da camisa, o parco dinheiro: tudo ficou pelo caminho. (Existe quem
compre mangas de camisa, isso é espantoso.) Seu torso mal protegido
tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada
além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não
tinha quase nenhuma, o corpo pede e pune, na mesma medida. A mala que
levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou
isso, ou a fome. Trocou por um prato de carne cozida e baião de
dois. A dona de uma pensão aceitou, de má vontade, só porque
precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas.
Restavam apenas os seus vinte e oito
anos e o endereço de poucas palavras no bolso esquerdo. Às vezes o
pequeno pedaço de papel pegava fogo e torrava a única pista do seu
destino. Samuel enfiava a mão no bolso com desespero: era o pior do
elenco de pesadelos daquela jornada. Ele queria chegar lá, no lugar
indicado por oito palavras e um número. Chegar lá era a única
coisa que tinha na vida.
Os cabelos escuros e lisos cresciam
rápido e já escorriam de forma irritante sobre a testa,
atrapalhando a vista. Tinha olhos pequenos, sobrancelhas fartas e
juntas acima do nariz, boca carnuda e traços de índio, herdados da
mãe, Mariinha.
Samuel era um corpo magro e faminto,
quase uma sombra, que não parava de andar. Quase dez horas de
caminhada por dia. Pouca água, comida rara, sono em cotas breves.
Tudo ficou pelo caminho: juventude, alegria, pedaços de pele,
mililitros de suor, quilos do corpo, e os parcos e velhos fios de
esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse os
homens sobre a Terra. As esperanças nunca foram suas, eram de
Mariinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele
momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito. Do
outro lado da estrada, em direção contrária, caminhavam exemplares
do seu extremo oposto.
Socorro Acioli, em A cabeça do santo

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