11/07/2026

O Mestre e Margarida | 10 — Notícias de Ialta



Ao mesmo tempo que ocorreu a desgraça a Nikanor Ivânovitch, não muito longe do prédio nº 302-bis, na mesma Sadôvaia, no escritório de Rímski, o diretor financeiro do Teatro de Variedades, encontravam-se duas pessoas: o próprio Rímski e o administrador do Teatro de Variedades, Variênukha.
O grande escritório com duas janelas no segundo andar do teatro dava para a rua Sadôvaia, e uma janela, a que ficava bem atrás do diretor financeiro sentado à mesa, dava para o jardim de verão do teatro, onde se localizavam as cantinas de refrescos, um clube de tiro e um palco ao ar livre. A decoração do escritório, além da mesa, consistia em um monte de velhos cartazes pendurados em uma das paredes, uma mesinha com uma jarra de água, quatro poltronas e, em um canto, um aparador sobre o qual havia uma antiga e empoeirada maquete de algum espetáculo passado. Bom, nem precisa dizer que havia no escritório um cofre de pequenas proporções, gasto, descascado e à prova de fogo, à esquerda de Rímski, ao lado da escrivaninha.
Sentado à mesa, Rímski estava mal-humorado desde muito cedo, pela manhã, enquanto Variênukha, pelo contrário, estava muito animado e especialmente agitado e ativo. No entanto, não tinha como extravasar sua energia.
Variênukha escondia-se agora no escritório do diretor financeiro, para evitar os que infernizavam sua vida pedindo entradas gratuitas, em especial nos dias em que a programação mudava. E hoje era exatamente um desses dias.
Assim que o telefone começava a tocar, Variênukha pegava o fone do gancho e mentia para ele:
Quem? Variênukha? Ele não está. Saiu.
Por favor, ligue para Likhodiêiev mais uma vez — disse Rímski de forma exasperada.
Mas ele não está em casa. Já mandei até Kárpov. Não tem ninguém no apartamento.
Sabe-se lá o que isso significa — sibilava Rímski, estalando as teclas da calculadora.
A porta se abriu e um lanterninha entrou carregando um pacote volumoso de cartazes extras recém-impressos. Com letras garrafais vermelhas em folhas verdes, estava impresso:

Hoje e Todos os Dias no Teatro de Variedades
Programação Extra:
PROFESSOR WOLAND
Sessões de Magia Negra e sua Revelação Total

Variênukha afastou-se do cartaz, que ele tinha jogado em cima da maquete, admirou-o e ordenou que o lanterninha distribuísse e afixasse todos os cartazes imediatamente.
Bom, chamativo — observou Variênukha enquanto o lanterninha saía.
Eu não estou gostando nada dessa história — rosnou Rímski, olhando perversamente para o cartaz através dos óculos de chifre — e me admiro como permitiram que ele apresente isso!
Não, Grigóri Danílovitch, tenho minhas dúvidas, é uma boa decisão. Toda a graça está na revelação.
Não sei, não sei, não tem graça nenhuma e ele sempre inventará algo do gênero! Se pelo menos tivesse nos mostrado esse mágico. Você chegou a vê-lo? Vai saber o diabo de onde ele o desenterrou!
Foi esclarecido que, assim como Rímski, Variênukha não tinha visto o mágico. Ontem Stiôpa viera correndo ver o diretor financeiro (“como um louco”, segundo a expressão de Rímski) com o rascunho já redigido de um contrato, e imediatamente mandou que fizessem uma cópia e liberassem o dinheiro. E o mago evaporou. Ninguém o viu, além do próprio Stiôpa.
Rímski tirou o relógio, viu que já eram duas e cinco e ficou completamente ensandecido. Francamente! Likhodiêiev telefonara por volta das onze horas, dissera que viria dali a meia hora, mas não só não veio como também sumiu do seu apartamento!
Tenho mais o que fazer! — Rímski agora rugia, apontando o dedo para uma pilha de papéis sem assinatura.
Será que ele não foi parar, como Berlioz, debaixo do bonde? — dizia Variênukha, segurando o fone perto da orelha, do qual se ouviam sinais profundos, longos e completamente desesperançosos.
Até que seria bom... — disse Rímski entre os dentes, e mal se ouvia o que falava.
Nesse exato momento uma mulher de jaqueta de uniforme, boné, saia preta e tênis entrou no escritório. De sua pequena bolsa no cinto, tirou um quadradinho branco e um caderno e perguntou:
Onde está o Variedades? Telegrama urgente. Assinem. — Variênukha rabiscou um garrancho no caderno da mulher e, assim que a porta bateu atrás dela, abriu o quadradinho.
Depois de ler o telegrama, pôs-se a pestanejar e entregou o quadradinho a Rímski.
O telegrama dizia o seguinte: “De Ialta a Moscou Variedades Hoje onze e meia polícia investigação apareceu moreno camisa calças descalço psicótico diz chamar-se Likhodiêiev diretor Variedades enviem telegrama urgente para polícia de Ialta onde está diretor Likhodiêiev.”
Era só o que faltava! — exclamou Rímski, e acrescentou: — Mais uma surpresa!
Um falso Dmitri1 — disse Variênukha e começou a falar para o fone: — Telégrafo? Conta do Variedades. Expedir telegrama superurgente... Está me ouvindo?.. “Ialta... delegacia de investigação... diretor Likhodiêiev em Moscou diretor financeiro Rímski”...
Independentemente do informe sobre o impostor de Ialta, Variênukha começou a procurar Stiôpa de novo por telefone em tudo quanto é lugar e, naturalmente, não o encontrou em parte alguma.
No exato instante em que ele, com o fone nas mãos, pensava para onde mais ligaria, entrou a mesma mulher que trouxera o primeiro telegrama e entregou a Variênukha um novo envelope. Variênukha abriu-o depressa, leu o que estava escrito e assobiou.
O que foi? — perguntou Rímski, contorcendo-se nervosamente. Calado, Variênukha lhe entregou o envelope e o diretor financeiro viu as seguintes palavras: “Suplico acreditar largado Ialta hipnose Woland mandem telegrama urgente polícia investigação confirmação identidade Likhodiêiev.”
Rímski e Variênukha releram o telegrama, a cabeça de um encostada na do outro, e depois de reler, calados, os olhos de um cravaram-se nos do outro.
Cidadãos! — de repente enfureceu-se a mulher. — Assinem e depois fiquem calados o quanto quiserem! Afinal, entrego telegramas superurgentes.
Sem despregar os olhos do telegrama, Variênukha rabiscou o caderno de qualquer jeito e a mulher desapareceu.
Você não conversou com ele pelo telefone um pouco depois das onze? — pôs-se a falar o administrador, totalmente perplexo.
Qual é a ordem, messire? — perguntou Fagot ao mascarado.
Bom, fazer o quê? — retrucou o mago, pensativo. — São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu... — E ordenou em voz alta: — Coloquem a cabeça no lugar.
Mirando com esmero, o gato enterrou a cabeça no pescoço e esta se assentou perfeitamente, como se nunca tivesse se ausentado de lá. E o principal, não ficou sequer uma cicatriz no pescoço. O gato espanou o fraque e o peitilho da camisa de Bengálski com as patas e os vestígios de sangue desapareceram. Fagot ergueu Bengálski, colocando-o de pé, enfiou em seu bolso um maço de dinheiro e o conduziu para fora do palco, com as seguintes palavras:
Fora daqui! Sem você é mais divertido.
Olhando ao redor insanamente, e cambaleando, o mestre de cerimônias conseguiu se arrastar até o extintor de incêndio e ali se sentiu mal. Então soltou um grito penoso:
Minha cabeça, minha cabeça!
Entre os que correram até ele, também estava Rímski. O mestre de cerimônias chorava, tentava apanhar algo no ar, balbuciava:
Devolvam minha cabeça! Devolvam a cabeça! Peguem o apartamento, os quadros, mas devolvam a cabeça!
Um recepcionista foi correndo em busca de um médico. Tentaram acomodar Bengálski em um sofá do camarim, mas ele começou a se debater, ficou violento. Foram obrigados a chamar uma ambulância. Quando o pobre do mestre de cerimônias foi levado, Rímski correu de volta para o palco e viu que novas maravilhas estavam acontecendo ali. Ah, sim, naquele momento, ou um pouco antes, o mago, junto com sua poltrona desbotada, havia desaparecido do palco, e, a propósito, é preciso dizer que o público nem sequer notou, seduzido que estava com aquelas coisas excepcionais que Fagot desdobrava no palco.
Depois de despachar o vitimado mestre de cerimônias, Fagot anunciou ao público:
Agorinha, depois de nos livrarmos desse chato, vamos abrir uma loja para damas!
E imediatamente o chão do palco cobriu-se com tapetes persas, surgiram enormes espelhos, iluminados nas laterais por tubos esverdeados. Entre os espelhos, vitrines, e nelas os espectadores, alegres e aturdidos, viram vestidos parisienses, de diversas cores e cortes. Isso só em algumas vitrines. Já em outras apareceram centenas de chapéus para damas, com plumas e sem plumas, com fivelas e sem, centenas de sapatos — pretos, brancos, amarelos, de couro, de cetim, de camurça, com tiras, com pedrinhas. Entre os sapatos apareceram estojos de perfumes, montanhas de bolsas de couro de antílope, de camurça, de seda e, entre elas — verdadeiras pilhas de pequenos estojos alongados de ouro cinzelado em que se costuma colocar o batom.
Vai saber o diabo de onde saiu uma moça ruiva com uma toalete preta de gala, uma moça bonita em todos os sentidos, não fosse por uma estranha cicatriz no pescoço que a desfigurava, com um sorriso de proprietária ao lado das vitrines.
Fagot, sorrindo, malicioso e doce, anunciou que a casa estava realizando, sem cobrar nada, a troca de vestidos e calçados femininos velhos por novos modelos parisienses e novos calçados parisienses. Ele acrescentou o mesmo com relação às bolsas e ao restante.
O gato começou a arrastar a pata traseira e com a dianteira fazia uns gestos, próprios de porteiros quando abrem uma porta.
Mesmo afônica e com a língua presa, a moça começou a cantar docemente algo pouco compreensível, mas, a julgar pelos rostos femininos da plateia, muito sedutoramente:
Guerlain, Chanel nº 5, Mitsouko, Narcisse Noir, vestidos de gala, vestidos para coquetéis...
Fagot se contorcia, o gato fazia reverências, a moça abria vitrines de vidro.
Por favor! — vociferava Fagot. — Sem constrangimento ou cerimônia!
O público estava agitado, mas ninguém se atrevia a ir até o palco. Finalmente, uma morena saiu da décima fileira da plateia e, sorrindo, digamos, como se desse na mesma e não tivesse nenhuma importância para ela, passou pela escada lateral e subiu ao palco.
Bravo! — gritou Fagot. — Vamos cumprimentar a primeira cliente! Uma cadeira, Behemoth! Vamos começar pelos calçados, madame!
A morena sentou-se na poltrona e imediatamente Fagot despejou um amontoado de sapatos no tapete diante dela. A morena tirou o sapato do pé direito, experimentou um lilás e pisou pelo tapete, examinando o salto.
Será que não vai me apertar? — perguntou de forma pensativa. Ao que Fagot exclamou, ofendido:
O que é isso, o que é isso! — e o gato miou também, ofendido.
Vou levar esse par, monsieur — disse a morena com orgulho, calçando também o outro sapato.
Os sapatos velhos da morena foram jogados para trás da cortina, para onde também seguiu ela mesma, acompanhada da moça ruiva e de Fagot, que levava vários vestidos da última moda em cabides. O gato ajudava, atarantado, e, para dar um ar de importância, pendurou uma fita métrica no pescoço.
Um minuto depois, a morena saiu de trás da cortina com um vestido que fez um suspiro rodopiar por toda a plateia. A audaciosa mulher, admiravelmente mais bela, parou diante do espelho, moveu os ombros desnudos, tocou os cabelos na nuca e virou-se, tentando ver as próprias costas.
A casa pede que aceite isso como recordação — disse Fagot, oferecendo à morena um estojo aberto com um frasco.
Merci — respondeu a morena, soberanamente, e foi para a plateia pela escada. Enquanto andava, os espectadores saltavam e tocavam no estojo.
Então, de todos os lados, como uma avalanche, mulheres foram para o palco. Em meio ao rebuliço geral de vozes, risinhos e suspiros, ouviu-se uma voz masculina: “Não vou permitir uma coisa dessas!”, e outra feminina: “Seu déspota, pequeno-burguês! Assim você vai quebrar meu braço!” Mulheres desapareciam atrás da cortina, deixavam seus vestidos e saíam com novos. Toda uma fileira de damas sentada em banquinhos de pés dourados batia energicamente os calçados novos no tapete. Fagot se ajoelhava, manejando uma calçadeira de metal. O gato, atolado no meio de um monte de bolsas e sapatos, zanzava de um lado para o outro entre as vitrines e os banquinhos. A moça do pescoço deformado aparecia e desaparecia e chegou até mesmo ao ponto de ficar papeando inteiramente em francês, e o mais impressionante era que todas as mulheres a compreendiam mesmo com meias palavras, até as que não sabiam uma palavra sequer de francês.
Admiração geral foi provocada por um homem que se enfiou no palco. Ele anunciou que sua esposa estava gripada e por isso pedia que lhe dessem algo para levar-lhe. Para provar que era realmente casado, o cidadão prontificou-se em apresentar a certidão. A declaração do marido dedicado foi recebida com gargalhadas e Fagot vociferou que acreditava nele como em si próprio, mesmo sem a certidão, e entregou ao cidadão dois pares de meias de seda, e o gato incluiu de sua parte um pequeno estojo de batom.
As mulheres atrasadas irrompiam no palco, e dali transbordavam bem-aventuradas com vestidos de baile, robes com dragões, trajes sóbrios e pequenos chapéus apoiados sobre uma sobrancelha.
Então Fagot anunciou que, dali a exatamente um minuto, em função da hora tardia, a loja ficaria fechada até a noite do dia seguinte, e uma incomensurável confusão tomou conta do palco. As mulheres agarravam sapatos apressadamente, sem experimentá-los. Uma, feito um furacão, irrompeu para trás da cortina, arrancou ali mesmo seu traje e se apossou da primeira coisa que apareceu pela frente — um chambre de seda com estampa de buquês enormes de flores. Além disso, conseguiu agarrar dois estojos de perfumes.
Exatamente depois de um minuto, houve um disparo de pistola, os espelhos desapareceram, as vitrines e os banquinhos se dissiparam, o tapete evaporou no ar, assim como a cortina. A última coisa que desapareceu foi a altíssima montanha de vestidos e calçados velhos, e o palco ficou novamente austero, vazio e desnudo.
E foi aqui que um novo personagem se intrometeu.
Um barítono agradável, sonoro e muito insistente foi ouvido do camarote número dois:
De qualquer maneira, cidadão artista, seria desejável que, sem perder mais tempo, o senhor revelasse diante dos espectadores a técnica de suas mágicas, em especial a das cédulas de dinheiro. Seria desejável, também, o retorno do mestre de cerimônias ao palco. Os espectadores estão agitados sobre o destino dele.
O barítono pertencia a ninguém menos que o convidado de honra daquela noite, Arkádi Apollônovitch Sempleiárov, presidente da Comissão de Acústica dos Teatros Moscovitas.
Arkádi Apollônovitch estava no camarote com duas damas: a mais velha usava trajes caros e da moda, e a outra — jovenzinha e bonitinha — trajes mais simples. A primeira, como se soube durante a redação do relatório, era a esposa de Arkádi Apollônovitch; a segunda, sua parente distante, atriz iniciante e promissora, que viera de Sarátov e estava morando no apartamento de Arkádi Apollônovitch e sua esposa.
Pardon! — retrucou Fagot. — Peço desculpas, aqui não há nada a ser revelado, tudo está claro.
Não, sinto muito! A revelação é totalmente necessária. Sem isso esses brilhantes números deixarão má impressão. A massa de espectadores exige explicações.
Parece que a massa de espectadores — rebateu o palhaço insolente, interrompendo Sempleiárov — não tem nada a declarar. Mas, levando em consideração o seu profundo e respeitável desejo, Arkádi Apollônovitch, que assim seja, eu farei uma revelação. Porém, para isso, permita-me mais um numerozinho?
Por que não? — respondeu Arkádi Apollônovitch, com ar condescendente. — Mas com uma revelação, sem falta!
Sim, senhor, sim, senhor. Então permita-me perguntar, onde o senhor estava ontem à noite, Arkádi Apollônovitch?
Diante dessa pergunta descabida e, digamos, indelicada, o rosto de Arkádi Apollônovitch ficou alterado, realmente bastante alterado.
Ontem à noite Arkádi Apollônovitch estava em uma reunião da Comissão de Acústica — declarou de forma muito arrogante sua esposa. — Mas não estou entendendo o que isso tem a ver com magia.
Ouiii, madame! — confirmou Fagot. — É natural que a senhora não entenda. Mas,quanto à reunião, está totalmente enganada. Quando saiu para a referida reunião, que, diga-se de passagem, nem estava marcada para ontem, Arkádi Apollônovitch dispensou seu motorista perto do edifício da Comissão de Acústica em Tchístie Prudý (o teatro inteiro silenciou) e, sozinho, tomou um ônibus até a rua Ielôkhovskaia para fazer uma visita a uma atriz do teatro itinerante do distrito, Mílitsa Andrêievna Pokobátko, e com ela passou cerca de quatro horas.
Ai! — alguém soltou uma exclamação de sofrimento em meio ao silêncio absoluto.
De repente a jovem parente de Arkádi Apollônovitch soltou uma gargalhada baixa e terrível.
Tudo está esclarecido! — exclamou ela. — Eu já desconfiava disso fazia muito tempo. Agora está claro porque aquela besta quadrada ganhou o papel de Luisa!
E, agitando-se repentinamente, bateu na cabeça de Arkádi Apollônovitch com seu pequeno e grosso guarda-chuva lilás.
O pérfido Fagot, também chamado Korôviev, gritou:
Vejam, veneráveis cidadãos, um dos casos de revelação que Arkádi Apollônovitch arrumou com tanta impertinência!
Como você se atreve, sua infame, a encostar em Arkádi Apollônovitch? — perguntou a esposa com um ar terrível, levantando-se no camarote em todo seu tamanho gigante.
Um segundo e breve acesso de riso satânico tomou conta da jovem parente.
E quem mais do que eu — respondeu ela, rindo — se atreveria a encostar nele! — E pela segunda vez o estalido seco do guarda-chuva batendo na cabeça de Arkádi Apollônovitch ressoou no teatro.
Polícia! Prendam-na! — gritou a esposa de Sempleiárov com uma voz tão terrível que muitos sentiram o coração gelar.
Então o gato apareceu na ribalta e esbravejou para o teatro inteiro ouvir com uma voz humana:
A sessão acabou! Maestro! Execute uma marcha!!
O enlouquecido maestro, sem se dar conta do que estava fazendo, agitou a batuta, e a orquestra não começou a tocar, nem mesmo a soar ou a retumbar, mas precisamente, seguindo a expressão repulsiva do gato, executou uma marcha incrível, de uma rudeza sem precedentes.
Por um momento pareceu que as palavras dessa marcha, pouco inteligíveis, mas muito audaciosas, tinham sido ouvidas outrora em um café-cantante, sob o brilho das estrelas do sul:

Sua excelência
De passarinhos gostava,

E para si
Belas mocinhas tomava!!!

Mas pode ser que não fosse nenhuma dessas palavras, mas outras com essa mesma música, com letras extremamente inadequadas. O importante não é isso, o importante é que, depois de tudo, algo parecido com uma babel teve início no Teatro de Variedades. A polícia correu até o camarote dos Sempleiárov, os curiosos subiam nas divisórias, ouviam-se explosões infernais de gargalhadas, gritos raivosos, abafados pelo retinir dourado dos pratos da orquestra.
Via-se que o palco tinha ficado repentinamente vazio. O impostor do Fagot e o insolente do gato Behemoth tinham evaporado no ar, desaparecido, como antes havia sumido o mago em sua poltrona de estofamento desbotado.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida 

Nenhum comentário:

Postar um comentário