15/06/2026

O Mestre e Margarida — 8



O duelo entre o professor e o poeta
No exato momento em que a consciência abandonou Stiôpa em Ialta, ou seja, por voltas das onze e meia da manhã, ela retornou a Ivan Nikoláievitch Bezdômny, que havia despertado depois de um sono longo e profundo. Durante algum tempo tentou raciocinar sobre o fato de ter ido parar naquele quarto desconhecido com paredes brancas, uma surpreendente mesinha de cabeceira de algum metal leve e uma persiana branca, por trás da qual se podia sentir o sol.
Ivan balançou a cabeça, certificou-se de que não estava doendo e lembrou-se de que estava em uma clínica. Esse pensamento trazia a lembrança da morte de Berlioz, mas hoje isso já não o abalava tanto. Depois de pôr o sono em dia, Ivan Nikoláievitch ficou mais tranquilo e começou a raciocinar com mais clareza. Após ficar algum tempo deitado, imóvel, naquela cama de molas bem limpa, macia e confortável, Ivan viu o botão de uma campainha ao seu lado. Como tinha o hábito de tocar em objetos mesmo sem necessidade, apertou o botão. Esperava que algum retinir ou alguma aparição viriam depois de apertá-lo, mas aconteceu algo totalmente diferente.
Aos pés da cama de Ivan acendeu-se um cilindro translúcido no qual estava escrito a palavra “Beber”. O cilindro ficou algum tempo parado, mas logo começou a girar até que surgiu a inscrição “Enfermeira”. Não é preciso dizer que Ivan ficou espantado com esse esperto cilindro. A inscrição “Enfermeira” foi substituída por “Chamem o doutor”.
Hum... — proferiu Ivan, sem saber o que mais fazer com aquele cilindro. Mas por acaso deu sorte: apertou o botão uma segunda vez na palavra “Assistente”. Em resposta o cilindro soou baixinho, parou, apagou-se e no quarto entrou uma simpática senhora roliça de jaleco branco, limpo, que disse a Ivan:
Bom dia!
Ivan não respondeu, pois considerou a saudação descabida diante das circunstâncias em que se encontrava. Realmente, trancafiaram um homem saudável em uma clínica e ainda fazem de conta que era assim mesmo que tinha de ser!
A mulher, no entanto, sem perder a expressão benevolente do rosto, levantou as cortinas com a ajuda de um apertão em um botão e o quarto foi invadido pelo sol através de uma grade larga, tortuosa e leve que descia até o chão. Do outro lado se abria uma varanda, e atrás dela se avistava a margem de um rio sinuoso e, na outra margem do rio, um alegre bosque de pinheiros.
Hora de tomar um banho — convidou a mulher e, ao alcance de suas mãos, abriu-se uma parede interna e atrás dela surgiu um banheiro maravilhosamente equipado.
Apesar de ter decidido não falar com a mulher, Ivan não resistiu e, quando viu como a água jorrava forte de uma torneira reluzente para a banheira, disse, com ironia:
Nossa! É como no Metropol!
Oh, não — respondeu a mulher, com orgulho —, é bem melhor. Esse equipamento não existe em lugar algum, nem no exterior. Cientistas e médicos vêm especialmente para inspecionar a nossa clínica. Turistas estrangeiros nos visitam todos os dias.
Ao ouvir as palavras “turistas estrangeiros”, Ivan lembrou-se imediatamente do consultor do dia anterior. Ficou taciturno, deu uma olhada, carrancudo, e disse:
Turistas estrangeiros... Como vocês todos adoram turistas estrangeiros, não? Mas no meio deles, entre outras coisas, encontra-se tudo quanto é tipo de gente. Eu, por exemplo, ontem conheci um, precisa ver!
Por pouco não começou a contar sobre Pôncio Pilatos, mas se segurou, entendendo que para a mulher aquelas histórias de nada serviriam, e que tanto fazia, ela não poderia ajudá-lo mesmo.
De banho tomado, imediatamente deram a Ivan Nikoláievitch tudo que um homem de fato precisava depois de um banho: uma camisa passada, ceroulas, meias. Mas isso ainda não era nada: abrindo a porta de um pequeno armário, a mulher apontou para dentro e perguntou:
O que o senhor deseja vestir, um roupão ou um pijama?
Vinculado à nova moradia à força, Ivan quase ergueu os braços por causa do atrevimento da mulher, mas, calado, indicou com o dedo um pijama de flanela cor de papoula.
Depois disso, Ivan Nikoláievitch foi conduzido pelo corredor vazio e silencioso até um consultório de proporções enormes. Ivan resolveu tratar com ironia tudo o que havia naquele prédio equipado às mil maravilhas e logo batizou mentalmente o gabinete de “cozinha industrial”.
E tinha motivo para tanto. Ali havia gaveteiros e pequenos armários de vidro com instrumentos reluzentes e niquelados. Havia poltronas de construção extraordinariamente complexa, luminárias abauladas com cúpulas brilhantes, uma infinidade de frascos, bicos de gás, fios elétricos e aparelhos totalmente desconhecidos para todo mundo.
No consultório, três pessoas tomavam conta de Ivan — duas mulheres e um homem, todos de branco. Antes de mais nada, levaram Ivan para um canto e sentaram-no diante de uma pequena mesa, com a visível intenção de fazê-lo falar.
Ivan começou a examinar a situação. Tinha três caminhos diante de si. O primeiro era extremamente fascinante: lançar-se sobre aquelas lâmpadas e coisas intrincadas e destroçá-las, mandá-las para o espaço; assim expressaria seu protesto por ter sido preso à toa. Porém, o Ivan de hoje se distinguia significativamente do Ivan de ontem, e o primeiro caminho pareceu-lhe duvidoso: se optasse por ele, o pensamento de que ele era um louco desgovernado se enraizaria neles. Por isso, Ivan descartou o primeiro caminho. Havia o segundo: começar o relato sobre o consultor e Pôncio Pilatos imediatamente. No entanto, a experiência do dia anterior demonstrara que não acreditavam em sua história ou a entendiam de maneira distorcida. Por isso Ivan também desistiu desse caminho e resolveu eleger o terceiro: trancafiar-se em um silêncio majestoso.
Não conseguiu realizar isso por completo e, querendo ou não, viu-se obrigado a responder, embora taciturno e carrancudo, uma série de perguntas. E arrancaram dele definitivamente tudo sobre seu passado, chegando ao ponto de perguntar como e quando teve escarlatina, uns quinze anos antes. Depois de preencherem uma página inteira com suas respostas, viraram a folha e a mulher de branco passou a indagar sobre os parentes de Ivan. Iniciou-se uma verdadeira ladainha: quem morreu, quando, por quê, se bebia, se teve doenças venéreas e coisas do gênero. Para concluir, pediram que contasse sobre o acontecimento, desgraça, evento, incidente, infortúnio do dia anterior em Patriarchi Prudý, mas não insistiram muito e não se espantaram com a informação sobre Pôncio Pilatos.
Em seguida a mulher passou Ivan para o homem, que se ocupou dele de maneira diferente e já não perguntou mais nada. Ele tirou sua temperatura, tomou o pulso, examinou seus olhos, iluminando-os com uma espécie de lâmpada. Depois, a outra mulher veio ajudar o homem e furaram as costas de Ivan com alguma coisa, mas não doeu nada; com o cabo de um martelinho desenharam sobre a pele de seu peito alguns sinais; bateram nos joelhos com o martelinho, o que fez as pernas de Ivan pularem; furaram seu dedo e tiraram sangue, furaram a dobra interna do braço na altura do cotovelo e colocaram uma espécie de braceletes emborrachados nos braços…
Ivan apenas sorria para si, malicioso e amargo, e remoía como tudo aquilo acontecera de maneira tola e estranha. Imaginem só! Queria precaver todo mundo contra o perigo que representava aquele consultor desconhecido, pretendia agarrá-lo, mas tudo o que conseguiu foi parar em um misterioso consultório para contar tudo quanto é tipo de asneira sobre o tio Fiôdor, que bebia até cair em Vôlogda. Insuportavelmente tolo!
Finalmente o soltaram. Ele foi acompanhado de volta para seu quarto, onde recebeu uma xícara de café, dois ovos cozidos moles e pão branco com manteiga.
Depois de comer e beber o que lhe foi oferecido, Ivan resolveu esperar algum chefe daquela instituição chegar e tentar conseguir tanto atenção como justiça.
E ele chegou, logo depois do café da manhã. A porta do quarto de Ivan abriu-se de maneira inesperada e por ela entrou uma infinidade de pessoas de jaleco branco. À frente de todos, caminhava um homem de uns quarenta e cinco anos, meticuloso, barbeado à maneira dos artistas de cinema, olhos agradáveis, mas muito penetrantes, e maneiras educadas. A comitiva inteira lhe dispensava sinais de atenção e respeito e, por isso, sua entrada acabou sendo muito solene. “Como Pôncio Pilatos!”, pensou Ivan.
É, sem dúvida, esse era o chefe. Ele se sentou em um banco, enquanto os outros ficaram de pé.
Doutor Stravinski — o homem apresentou-se a Ivan enquanto se sentava e olhou para ele com afabilidade.
Aqui está, Aleksandr Nikoláievitch — disse em voz baixa alguém com uma barbicha bem cuidada e entregou ao chefe uma folha toda preenchida.
Arranjaram um verdadeiro dossiê!”, pensou Ivan. O chefe percorreu a folha com olhos acostumados, balbuciou “uh-hum, uh-hum...” e trocou algumas frases com os que estavam ao redor em uma língua pouco conhecida.
E fala latim, como Pilatos...”, pensou Ivan, triste. Então uma palavra o fez estremecer, e essa palavra era “esquizofrenia”, que coisa, que já tinha sido pronunciada ontem pelo maldito estrangeiro em Patriarchi Prudý, e hoje era repetida aqui pelo doutor Stravinski.
Também disso ele sabia!”, pensou Ivan, aflito.
O chefe, pelo visto, tinha como regra concordar e contentar-se com tudo que lhe dissessem os que estavam ao redor, expressando isso com as palavras “muito bem, muito bem...”.
Muito bem! — disse Stravinski, devolvendo a folha para alguém, e dirigiu-se a Ivan: — O senhor é poeta?
Sou poeta — respondeu Ivan, sombrio, e de repente sentiu pela primeira vez uma inexplicável aversão à poesia, e seus próprios poemas, que súbito lhe vieram à memória, sabe-se lá por que lhe pareceram desagradáveis.
Por sua vez, ele perguntou a Stravinski, franzindo o rosto:
O senhor é doutor?
Ao que Stravinski inclinou a cabeça, precavido e respeitoso.
E o senhor é o chefe daqui? — continuou Ivan.
Stravinski também fez uma reverência.
Preciso falar com o senhor — disse Ivan Nikoláievitch, com ar de importância.
É para isso que estou aqui — retorquiu Stravinski.
A questão é a seguinte — começou Ivan, sentindo que tinha chegado a sua hora. — Tomaram-me por louco e ninguém deseja me ouvir!
Oh, não, vamos escutá-lo com muita atenção — disse Stravinski, em tom sério e tranquilizador — e não permitiremos que o tomem por louco em hipótese alguma.
Então, ouça: ontem à noite, conheci em Patriarchi Prudý um indivíduo misterioso, um estrangeiro de meia-tigela, que sabia da morte de Berlioz de antemão e viu Pôncio Pilatos pessoalmente.
A comitiva ouvia o poeta muda, imóvel.
Pilatos? Pilatos, aquele que viveu na época de Jesus Cristo? — perguntou Stravinski, apertando os olhos para Ivan.
Esse mesmo.
A-hã — disse Stravinski. — E esse Berlioz morreu debaixo de um bonde?
Justamente, ele foi degolado por um bonde ontem, em Patriarchi, diante de meus olhos, e esse mesmo cidadão enigmático...
O conhecido de Pôncio Pilatos? — perguntou Stravinski, que, pelo visto, se distinguia por sua grande compreensão.
Justamente ele — confirmou Ivan, estudando Stravinski. — Então, ele disse, de antemão, que Ánnuchka derramaria o óleo de girassol... E Berlioz escorregou bem naquele lugar! O que o senhor acha disso? — quis saber Ivan, com ar de importância, esperando causar grande efeito com suas palavras.
Mas esse efeito não se deu e Stravinski simplesmente fez a próxima pergunta:
E quem é essa Ánnuchka?
A pergunta deixou Ivan um pouco transtornado, seu rosto contorceu-se.
Ánnuchka não tem nenhuma importância aqui — disse ele, fora de si. — Vai saber diabo quem é ela! Só uma idiota qualquer da Sadôvaia. O importante é que ele sabia de antemão, entende, do óleo de girassol! O senhor está me entendendo?
Entendo perfeitamente — respondeu Stravinski seriamente, e, tocando os joelhos do poeta, acrescentou: — Não se inquiete, continue.
Vou continuar — disse Ivan, tentando acompanhar o tom de Stravinski; já sabia, por sua amarga experiência, que somente a tranquilidade o ajudaria. — Então, esse tipo horroroso, e ele mente que é consultor, é dotado de uma força extraordinária... Por exemplo, você o persegue, mas não há possibilidade de alcançá-lo. E ele anda com mais dois sujeitinhos, também dos bons, mas cada um no seu estilo: um alto de lentes quebradas, e, além desse daí, há também um gato de proporções incríveis, que anda de bonde sozinho. Além disso — sem ser interrompido por ninguém, Ivan falava com cada vez mais ardor e convicção —, ele esteve na varanda de Pôncio Pilatos pessoalmente, sem sombra de dúvida. O que significa isso? Hein? Ele precisa ser preso imediatamente, do contrário causará desgraças indescritíveis.
Então o senhor está tentando prendê-lo? Entendi bem?
Ele é inteligente”, pensou Ivan. “Deve-se reconhecer que em meio aos membros da intelligentsia1 também é possível encontrar uns de inteligência rara. Não dá para negar isso.” E respondeu:
Muito bem! E como não tentar, pense bem! Enquanto isso, detiveram-me aqui à força, enfiaram uma lâmpada nos olhos, dão banho de banheira e fazem perguntas sobre o tio Fiêdia!... Mas já faz tempo que ele não está nesse mundo! Exijo que me soltem imediatamente.
Bom, muito bem, muito bem! — retorquiu Stravinski. — Então, tudo foi esclarecido. Realmente, que sentido tem deter um homem saudável em uma clínica? Tudo bem. Eu lhe darei alta daqui agora mesmo, se o senhor me disser que é normal. Não precisa provar, é só dizer. Então, o senhor é normal?
Fez-se silêncio absoluto. A mulher gorda, que cuidara de Ivan de manhã, olhou para o doutor com devoção, e Ivan pensou mais uma vez: “Definitivamente inteligente.”
Ele gostou muito da proposta do doutor, mas, antes de responder, pensou e repensou, franzindo a testa, e, finalmente, disse, com firmeza:
Eu sou normal.
Então muito bem — exclamou Stravinski, aliviado. — Se é assim, vamos raciocinar logicamente. Tomemos o seu dia de ontem. — Ele se virou e imediatamente lhe entregaram a folha de Ivan. — Em busca de um homem desconhecido, que se apresentou como conhecido de Pôncio Pilatos, o senhor realizou as seguintes ações ontem — Stravinski começou a dobrar seus dedos compridos, olhando ora para a folha, ora para Ivan. — Pendurou um ícone no peito. Não foi?
Foi — concordou Ivan, carrancudo.
Despencou de uma cerca e feriu o rosto. Certo? Apareceu em um restaurante com uma vela acesa na mão, só de roupa de baixo e lá bateu em alguém. Foi trazido para cá amarrado. Uma vez aqui, o senhor ligou para a polícia e pediu que enviassem metralhadoras. Depois, fez uma tentativa de se atirar pela janela. Certo? Pergunta-se: será que é possível, agindo dessa maneira, agarrar ou prender alguém? Se é uma pessoa normal, o senhor mesmo vai responder: de maneira alguma. O senhor quer sair daqui? À vontade. Mas me permita lhe perguntar, para onde o senhor pretende ir?
Até a polícia, claro — respondeu Ivan, já sem a mesma firmeza e se perdendo um pouco diante do olhar do doutor.
Direto daqui?
A-hã.
E não vai passar no seu apartamento? — perguntou rapidamente Stravinski.
Não há tempo para passar lá! Enquanto eu ficar dando voltas pelo apartamento, ele vai escapulir!
Certo. E o que dirá à polícia, antes de mais nada?
Sobre Pôncio Pilatos — respondeu Ivan Nikoláievitch, e seus olhos cobriram-se com uma névoa sombria.
Então, muito bem! — exclamou Stravinski, resignado, virando-se para aquele de barbicha, e ordenou: — Fiódor Vassílievitch, dê alta, por favor, ao cidadão Bezdômny, para que ele vá à cidade. Mas não coloque ninguém naquele quarto e não precisa trocar a roupa de cama. Daqui a duas horas o cidadão Bezdômny estará aqui de novo. Bom — voltou-se ele para o poeta —, não vou desejar-lhe êxito, porque não acredito nem um bocado nessa sorte. Até daqui a pouco! — Ele se levantou e sua comitiva se movimentou.
Por que razão estarei aqui de novo? — perguntou Ivan, aflito.
Stravinski parecia esperar essa pergunta e sentou-se imediatamente, dizendo:
Porque, assim que o senhor aparecer na polícia de ceroulas e disser que viu um homem que conheceu Pôncio Pilatos pessoalmente, será trazido para cá no mesmo instante, e de novo se encontrará naquele mesmo quarto.
O que as ceroulas têm a ver com isso? — perguntou Ivan, olhando ao redor, perplexo.
A razão principal é Pôncio Pilatos. Mas as ceroulas também. Veja bem, nós vamos recolher a roupa emprestada do Estado e devolveremos a roupa que você trajava ao chegar aqui. Mais precisamente, ceroulas. Entretanto, o senhor não pretende ir até o seu apartamento de jeito o nenhum, apesar de eu ter lhe sugerido isso. A seguir, vem Pilatos... e o negócio está fechado!
Então aconteceu algo estranho com Ivan Nikoláievitch. Sua vontade pareceu se fender e ele se sentiu fraco, precisava de um conselho.
Mas o que fazer? — perguntou ele, dessa vez tímido.
Então muito bem! — retorquiu Stravinski. — É uma pergunta muito razoável. Agora, vou lhe dizer o que aconteceu com o senhor de verdade. Ontem, alguém o deixou muito assustado e transtornado com uma história sobre Pôncio Pilatos e outras coisas. Então, o senhor, um homem muito nervoso e irritadiço, saiu pela cidade falando sobre Pôncio Pilatos. É totalmente natural que o tomem por louco. O senhor só tem uma salvação agora: repouso absoluto. É imprescindível que o senhor fique aqui.
Mas ele precisa ser agarrado! — exclamou Ivan, agora implorando.
Tudo bem, mas por que você mesmo precisa persegui-lo? Ponha no papel todas as suas suspeitas e acusações contra essa pessoa. Não há nada mais simples do que enviar sua declaração para o local apropriado, e caso se trate, como o senhor supõe, de estarmos lidando com um criminoso, tudo isso será esclarecido muito rapidamente. Mas com uma condição: não vá quebrar a cabeça e procure pensar menos em Pôncio Pilatos. Sabe-se lá o que contam por aí! Não se deve acreditar em tudo.
Entendi! — declarou Ivan, decidido. — Peço que me deem papel e caneta.
Dê-lhe papel e um lápis pequeno — ordenou Stravinski à mulher gorda, e a Ivan disse o seguinte: — Mas eu o aconselho a não escrever hoje.
Não, não, tem que ser hoje, hoje, é imprescindível — gritou Ivan, com aflição.
Tudo bem. Só que não vá fundir o cérebro. Se não der certo hoje, vai dar amanhã.
Ele vai fugir!
Oh, não — retrucou Stravinski com segurança —, ele não fugirá para lugar algum, isso eu lhe garanto. Lembre-se que aqui ajudarão o senhor com tudo que for possível, e sem isso nada vai dar certo para o senhor. Está me ouvindo? — perguntou Stravinski de repente, com ar de importância, e tomou as duas mãos de Ivan Nikoláievitch. Segurando-as nas suas, e fixando um olhar demorado em Ivan, ele repetiu: — Aqui o ajudarão... está me ouvindo?... Aqui o ajudarão... O senhor se sentirá aliviado. É silencioso e tranquilo aqui... Aqui o ajudarão...
Inesperadamente, Ivan Nikoláievitch bocejou, a expressão de seu rosto se aplacou.
Isso, isso — disse ele em voz baixa.
Então muito bem! — Stravinski concluiu a conversa como estava acostumado e levantou-se. — Até logo! — Apertou a mão de Ivan e, já de saída, virou-se para aquele de barbicha e disse: — Isso, experimente oxigênio... e banhos.
Alguns instantes depois, diante de Ivan não havia mais nem Stravinski, nem a comitiva. Do outro lado da tela da janela, sob o sol do meio-dia, o bosque alegre e primaveril resplandecia às margens do rio, que brilhava um pouco mais próximo.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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