07/06/2026

Nono caderno de Kindzu | Apresentação de Virgínia



Minha discordância com Quintino começou antes sequer de partirmos. No dia combinado para sairmos para o mato ele não compareceu. Esperei em vão. Procurei aquele que me iria guiar e que agora parecia estar perdido. E realmente ele estava sem prestar acordo. Deitado num velho muro, ventre inchado, embriagordo. Atordoído, titupiante, Quintino se explicou:
Hoje sou cobra com cócega na barriga: não saio do lugar.
Porquê se embebou tanto, Quintino?
Estive com Romão Pinto, é por isso bebi.
Quem é esse Pinto?, perguntei.
Não lembra? É o colono, meu patrão. Aliás, meu ex-antigo.
E agora?
Agora tenho de beber mais, respondeu.
Desisti. Minha saída da vila estava adiada por uns dias. Decidi espreitar a velha Virgínia, conhecer aquela que fora a segunda mãe de Farida. Quem sabe ela teria informação sobre Gaspar? Cheguei e fiz espera, semioculto, lembrando o conselho de Quintino:
Se passar daqui não se mostre. A velha não gosta.
A manhã foi subindo até que Virgínia lá saiu e se encostou no muro do quintal. Fiquei ali horas perdidas, espreitando a uma distância, entre os verdes-escuros das mafurreiras. O que vi ali me encheu de fantasia, estórias de reaver este mundo onde não cabemos. Apresento a velha Virgínia. Como se ainda a estivesse vendo, no actual hoje. Acrescento o que dela me disseram, em pinceladas de retrato. Entre mim e a idosa senhora a estrada se espreguiça sem nenhum fazer. Na margem dessa estrada eu me sento, retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que seu desenho me fugisse.
Dona Virgínia Pinto. Ali estava ela, varandeando no exercício de sua última meninez. Em nenhuma data os carros por ali poeiram. As cidades agora são muito longe, a guerra rasgou os cantos da terra. A portuguesa se vai deixando em tristonhas vagações. Branca de nacionalidade, não de raça. O português é sua língua materna e o makwa, sua maternal linguagem. Ela, bidiomática. Os meninos negros lhe redondam a existência, se empoleirando, barulhosos, no muro. Ela nem zanga.
E me contam assim: que Dona Virgínia amealha fantasias, cada vez mais se infanciando. Suas únicas visitas são essas crianças que, desde a mais tenra manhã, enchem o som de muitas cores. Os pais dos meninos aplicam bondades na velha, trazem-lhe comida, bons-cumprimentos. A vida finge, a velha faz conta. No final, as duas se escapam, fugidias, ela e a vida.
Dentro do quintal, tudo é bravio, o mato em minifúndio. Silvestram-se as flores, mais espinhos que pétalas. Os capins já lhe chegam pelos ombros. Ela nem repara a urgência de aparar o capinzal.
Não é a relva que cresceu. Fui eu que adimininuí.
Também a casa lhe parece maior. Agora, ela quase se perde no inaposento. A cama de casal é uma extensão muito enorme, acrescentando solidão na viuvice dela. Seu marido, Romão Pinto, se retirou da vida vai fazer dez anos. Do defunto esposo ela não guarda senão o inverso da saudade. Um pressentimento que ele haverá ainda de chegar, fosse o falecido não um ente do passado mas do porvir. Os vizinhos se admiram com essa falha em sua lembrança. No princípio, acreditavam ser desbotura da memória dela. Coitada, o hoje é para ela mais antigo que o anteontem, diziam. Mas, depois, se convenceram de que outro problema se tratava. Porque Virgínia seguia teimando na ideia de um noivado ainda por estrear. No lugar do suspiro saudoso ela punha a ânsia do há-de vir.
Quando eu for da idade de casar esse homem me vai chegar.
Os vizinhos não variavam: a velha durava mais que a validade de seu corpo. Deixassem seu sonho enlouquecer. E perguntavam, entre risos: o grilo, quando nasce, já tem a toca feita? É assim a velhice. Virginha que trocasse passado por futuro, sonhasse não com o fim da vida mas com as nascenças que lhe faltavam. Tudo isso que importava?
Sabem o motivo das orações dela? A gaja reza para não continuar a diminuir de tamanho.
E reproduziam as longas-lengas dela: Santíssimo Padre, se eu continuar a minguar, nem o cavaleiro Romão me notará quando passar por estas bandas. E repetia, de si para si, desencostadas frases: ontem, quando eu morrer. Virgínia, Virginha, Virginhinha: o povo lhe indistinguia variedades do nome. E todos se condoíam de sua velhice como de uma orfandade se tratasse.
Uma ocupação lhe dava fazer: criava sapos no quintal. De dia deixava as moscas patinharem os vidros das janelas. À tarde, juntava-as numa caixa e lhes tirava as asas, uma a uma. Chegada a noitinha ela saía de casa e espalhava as desasadas moscas pela relva. Chamava os batráquios por nomes, sortidos de sua autoria.
Que vai ser deles quando eu morrer?
Fosse, quem sabe, essa a ideia dela: haver alguém neste mundo que lhe desse falta. O sol se vai devagarinhando, parece uma das moscas a quem a velha cortara as asas subindo pelas horas do dia. A velha se deixa ficar, misturando a sua sombra com a do velho muro, olhando a vida como um lugar que já foi seu. O certo é sabido: na seguinte manhã os meninos regressam, subitamente calados, e se envoltam nela.
Cuidado, crianças. Não me pisem os sapos.
Uns lhe penteiam as névoas, outros lhe cortam as unhas, outros ainda lhe corrigem os cuspos no queixo. Ela se deixa, dissolvida, sonambulada num fecha-te sésamo. Os meninos lhe pedem: avó, conta estória. Virgínia sorri. Eles lhe chamam de avó. Como ela se embeleza com aquela palavrinha: avó!
Qual querem, meus filhos?
Conta aquela do pai de seu pai.
Virginha sorri, grata dos meninos se introduzirem em sua família como se eles fossem tão antigos como ela. Depois, vai soltando lembranças que escorrem como lento óleo. Saltita do português para o makwa, já não distingue sua original versão.
Como chamava o mucunha, quem lembra?
Mucunha Curucho, responde a miudagem numa só voz.
Ela acena, em festa: isso, o senhor Cruz, seu avô, homem frequente em terras do outro lado da montanha. Sua única obra havia sido um farol. Os meninos se disputam, todos querendo mexer na fábula da velhinha.
Mas esse farol dele, afinal vavó? Se o mucunha vivia lá nos interiores, onde mar nem chega...
Não acreditam?
Ela amuada, se desliga. As crianças lhe entregam mimos, rogam para que prossiga. Ela, nada. Por fim, eles aceitam a verdade dela. Sim, um farol. Um, próprio. Seja perto ou longe do mar, quem proíbe os faróis de nascerem onde bem entendem? Pois, esse farol: desempregado, nem de vista conhecendo nenhum barco.
E para quê o mucunha precisava um farol dele?
Era promessa que ele jurara da vez que sobrevivera a um naufrágio. No enquanto da estória, o dito avô ia perdendo o nome, saltitando de morada e profissão. As falas de Virgínia não se acertavam. Os meninos, por vezes, corrigiam: o mucunha Curucho, não esqueça vavó. Mais Virgínia repete os contos mais a verdade se resvala: o avô Cruz de olhos louros, hoje; amanhã um negro de rosto carapinhoso. A criançada nem se importa. Verdade, em infância, é um jogo de brincar. Em redor da anciãzinha, os miúdos sempre folgam, sem desilusão. Com gesto largo, ela pede menos barulho. Deixassem chegar, audíveis, as ordens de Deus. Que Ele é quem mandava os viventes descansarem.
Vocês com vosso barulho nem me deixam ouvir a ordem Dele. Se calhar, até já me mandou descansar, nem dei por isso...
Terminadas as estoriazinhas, a velha leva a criançada ao poço. Vão em excursão, passarinhando. Chegados ao pátio vizinho, Virginha repete o mesmo ritual: pede aos meninos que lancem uma pedra no poço.
É para ver se ainda tem água, vavó Virginha?
Ela não responde. Pega numa pedra e atira na boca escura da terra. Lá, do fundo húmido, responde um lamento. Depois, sobe um canto, tche-tche-tchém. É um barulho, surdimudo, que vai crescendo.
O que é isso, vavó?
É a água chorando.
E por que chora?
A água chora com pena de uma viúva que perdeu seu marido, vítima de maldição.
E essa viúva quem é, vavó?
Não sei, meus filhos, essa mulher parece já morreu, faz conta foi há tantíssimo tempo.
Eram as palavras dela fechando o dia.
Pouso os cadernos e espreito a portuguesa. Vou refazendo a velha Virgínia enquanto ela, alheia e distante, está no outro lado da estrada, à mão de semelhar. Está tão perto que não resisto a me chegar mais, ouvir sua voz cheia de tempo. Atravesso a estrada, desobedeço das instruções de Quintino. A velha só quer ser visitada por infâncias? E se eu me mostrar criança, quem sabe ela me aceita? Estou quase junto a ela, chamo por seu nome. A velha levanta o rosto, fresteja os olhos para me enfrentar.
Quem tu és?
Sou Kindzu. Quero falar com a senhora...
Falar?
Quero saber de Gaspar. Se lembra dele, Dona Virginha?
A velha se alheia, passa os dedos pelo rosto em exame das minúcias. Toca os lábios e depois, tirando a língua de fora, pergunta:
Vês a minha língua?
Vejo. Porquê?
É que a minha língua está a aumentar de tamanho.
Ri-me, inesperado. Séria, ela argumenta: a tua língua também há-de aumentar quando fores velho. Ou será que é o resto da cara que diminui com o tempo?
Não lembra, Farida?
Com a língua assim não posso lembrar nada.
A velha brincava-me. Então me excedi, em altos tons. Falei em desordem, com pronúncia que me vinha do peito. Disse tudo. Que vinha por causa de Farida, tinha sido ela que me pedira que procurasse seu filho dela.
Não diga que não se lembra de Farida. Não posso acreditar que tenha esquecido.
Dona Virgínia bastante se admira com meus modos, me puxa pelos braços para dentro de casa. Está com nervos na flor da pele. Me ordena silêncio, enquanto segredeia:
Não posso falar aqui.
Porquê?
Senão esta minha casinha se enche de fantasmas.
Falamos onde, então?
Vamos para minha antiga casa. Me faça uma coisa, entretanto: me chama de vovó. Para eu lhe ver como uma criança.
E fomos ao passo lento de Virgínia. No caminho ela me confessa seu medo: nunca tinha regressado ao velho casarão. Por isso, quando chegamos prefere não entrar. Ficamos os dois nas escadas da moradia colonial. Sentamos nos degraus. Virgínia recorda seu cruzamento com Gaspar, o menino de Farida. Lembra uma incerta manhã, alguém batendo em sua janela:
Vavó: está um menino morto no seu quintal.
Virgínia acorreu às traseiras e viu um corpo estendido entre os capins. Não estava morto. Apenas dormia, exausto. Ela confirmou que o menino ainda estava vivo mas não o apanhou nem amparou. Foi buscar uma pá e atirou-lhe com terra, enquanto dizia:
Morre, meu menino. É melhor morrer-se, enterradinho, que ficar aqui. É que esta vida não dá acesso aos meninos.
As outras crianças chegaram e lhe viram sepultando o vivo. Se intrometem, suspendendo a intenção da velha.
Vavó, deixe ele viver! Só um bocadinho!
Para o quê?
Para ele nos contar a estória dele.
Virginha duvidou, mas concorda. E assentaram. O intruso que se mantivesse e repousasse até se recompor da palavra. Que eles andavam carecidos de novidades, dessas que vale a gente acreditar. Os meninos e a velha se conluiaram: nós lhe curamos e alimentamos e depois matamos, ninguém mais vai pôr ouvidos na narração dele. Fica estória só nossa. E se ajustaram:
Lhe guardamos no poço, amarradinho para não fugir.
O poço estava seco, devido da ausência das chuvas. Levavam-lhe comidas, lhe trocavam os trapos já molhados e fedorentos. Outro qualquer teria esvanecido. Mas Gaspar era constituído, moço de suar e ressoar. Mesmo dentro do húmido poço ele foi ganhando forças, sua pele se rebrilhou. Quando, de noite, lhe tiravam das funduras ele se mantinha calado, dobrado e vincado. Os meninos, olhos cheios, punham nele toda a expectativa. Mas ele demorava a soltar a voz.
Vão ver é mudo.
Desencadearam-se então grandes chuvadas, dessas de encher todos os mares. Virgínia pensou no poço, Gaspar-zito no fundo. Os meninos foram com ela ver se a água já cobrira o buraco do poço. Ainda não. A chuva torrenciava, quase nem se via um palmo mesmo em noite de lua plena. Espreitaram, nada viram. Escutaram: só o timbiliar das gotas no fundo. Já se retiravam quando uma voz lhes chamou. Era Gaspar que gritava. Tinha-se decidido a falar. Foi uma geral exclamação, um plenário de alegrias. A velha ordenou que juntassem forças e, no puxar-junto, retiraram o miúdo do poço. Estava encharcado, tremia dos pés aos cabelos.
Tenho frio, foi a primeira coisa que disse.
Deram-lhe um agasalho e ordenaram: conta, conta uma estória. Fizeram uma roda à volta dele. Um dos meninos endurou um dedo e avisou:
Ai de ti se não gostarmos da tua estória.
Gaspar começou a medo. Contou a sua vida, sem esconder detalhe. Desfiou prosa por tempo. Quando se calou a chuva tinha parado. Os miúdos se entreolharam. Não tinham gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje, quem quer fantasiar desgraças? Um coro de estridências se levantou clamando para que o contador fosse punido. E que fosse castigo de peso, para aprender no curto resto de sua vida. Relançado no poço e coberto de pedra, sugeriam uns. Outros simplificavam: seja enraizado na horta da avó, volte-se ao princípio da vontade dela. Enquanto os ânimos se enroscavam um silêncio se foi compondo. Todos esperavam a sentença de Virgínia. A velha, contudo, parecia desértica, abstasiada. Os olhos duravam mais que uma tristeza eterna, tanto que doíam de serem vistos. Com um gesto vasto mandou que a meninada se afastasse.
Deixem-me ficar sozinha com ele.
As crianças, surpresas, obedeceram. Saíram pelo escuro, pés lentos de contrariedade. A velha enfrentou o jovem, sem nada pronunciar.
Não posso ir, eu também?, perguntou Gaspar.
Não.
Porquê?
Porque tu és meu filho. Teu pai foi o meu falecido homem, tu és quase-quase do meu sangue.
A velha se ergueu e sacudiu a capulana. Passou o pano pelos ombros do miúdo e lhe disse:
Vem, vamos para nossa casa.
Sentada no degrau de sua antiga casa, Virgínia ajeita o agasalho, resguardando-se do cacimbo da noite. Parou de falar, deixa pelo meio a narrativa. Está preocupada com alguma coisa, não sei qual.
E depois, vovó, o que aconteceu?
Esse menino ficou só uns dias em minha casa. Depois, fugiu ninguém sabe para onde.
Ele sabia de tia Euzinha?
Sabia. Se calhar foi ter com essa tia.
A portuguesa aponta para uma grande mangueira. Era aquela a árvore em que ela e Farida se sentavam lendo as cartas. Seus olhos estão carregados de saudade. Súbito, Virgínia me manda calar.
Shuut, vem aí alguém.
Não ouço nada. É um espírito, diz a velha. Não. Não é alma nenhuma. É o administrador da localidade, o próprio. É ele que vem vindo, escondido pelos atalhos. Virgínia se interroga, em sussurro. O que vinha ele ali fazer, a uma hora daquelas? Resposta que só tive mais tarde quando Quintino me contou a verdade dos acontecimentos. O que se passava sem que eu nem Virgínia soubéssemos eram atribulações que agora posso descrever.
Disfarçado na escuridão dos trilhos, o administrador Estêvão Jonas desconhecia o fim da sua pressa. A mensagem lhe chegara por vias atravessadas. Fora o tal Quintino que lhe trouxera o recado. Dizia que ele, o camarada-em-chefe, se deveria conduzir para casa do falecido Romão Pinto, residência igualmente falecida por nela só habitarem as vozes dos malquistos.
Chegara ao pátio da velha casa. As árvores se sujeitavam às mágoas da ventania, que o vento nunca se levanta contente. Os cães uivaram, o administrador estremeceu. Por que razão aqueles bichos se intransigem em noites que tais? Será que o cão escuta um outro uivo na lua? Estêvão Jonas tossiu alto, mais para se confirmar, esmaltado por fora mas alcatifado de medo por dentro. Naquele instante, ele tinha mais freios que dentes. Avançava colado nas paredes, forrado nelas como o deslizar de uma sombra. Num repente, saltou em danado susto. De dentro do casarão chegaram estrondos de madeira, caixas batendo em todos os sons. Havia alguém roubando as heranças do malvado colono?
Por momentos, pensou que o atinado seria chamar o seu miliciano. Não por motivo de medo mas derivado da conceituada importância da sua sobrevivência. Nesse vai-que-vai reconsiderou. Afinal, o mensageiro tinha sido claro: ele teria que se apresentar sozinho, mais ninguém deveria saber.
Estava na soleira de um adiado passo quando as portas se abriram de chofre e eis que, visão dos infernos, apareceu o falecido Romão Pinto carregando às costas o seu próprio caixão. O administrador disparou numa correria, trepando arbustos, galgando pedras, para além das humanas velocidades. Estrumando-se numa valeta próxima ele se extinguiu, escuro no escuro. O defunto se aproximou e não esteve com medidas:
Levanta-te e ajuda-me a carregar esta merda deste caixão.
Estêvão não tinha boca para tanto espanto. Porém, ainda acumulou força para responder:
Não sou um qualquer de carregar.
Não és o quê? Deixa-te de calcinhices e agarra mas é desse lado. Vá!
Estêvão mediu as condições, aplicou as mais dialécticas análises, segundo os sábios ensinamentos do materialismo. Podia ele enfrentar um fantasma? O melhor seria aceitar o sem-remédio da circunstância. E oferecendo as costas, levantou a caixa. O colono, enquanto caminhava, lhe explicava: o caixão era para oferecer ao povo. Todos dão donativos aos pobres. Aquela era a sua solidariedade. Desperdício seria a coisa ficar ali, simples caixão-de-correio entre vida e morte.
Arrumaram o desocupado féretro na arrecadação. Com um empurrão o antigo colono fez sentar o administrador. E conversaram até madrugada. Que falaram? Ninguém sabe o certo. Mas parece que o Romão deitou muita dúvida sobre o futuro de Estêvão. Naquele regime que segurança tinha o futuro? Amanhã ele recebia o devido pontapé nas partes adequadas e ninguém mais se lembraria dele. O moçambicano ripostou, quisesse o estrangeiro ensinar o Padre-Nosso ao vigarista.
Eu tenho os meus esquemas, Romão. Não pense que somos burros, como sempre vocês insistiram.
Esquemas, qual o quê. Uns negócios de tigela furada, coisa de pouco brilho. Umas cervejitas de lata amontoadas no passeio? O colono roubava o lustro da iniciativa do administrador. Naquele solene assento, o português lhe prometia coisa grossa, choruda. A ideia sendo a seguinte: que ele mesmo, óbito reconhecido, ainda por cima carregado de raça e nacionalidade, não mais podia reaver seus antigos negócios.
Já bastava ser branco, ainda por cima portuga. Agora, tudo isso e falecido é que não vale a pena.
Necessário seria que Estêvão despachasse assinatura mais seu rosto devidamente originário à frente do empreendimento e os cordéis correriam que nem saliva em boca gulosa.
Mas e o capital?, se entusiasmava o administrador.
Esse o problema. Havia dinheiro, fora e dentro. Bastante, mais até que bastante. Mas do falecimento em diante, tudo passara para o nome de Virgínia, a tonta viuvinha. Estêvão Jonas lançou a risada:
Nós tendo-lhe pena e, afinal, a velha cheia da mola!
Romão bateu na parede: sim, a maldita estava podre de rica. A dúvida que permanecia era se ela estava mesmo esmiolada, na posse de suas plenas fraquezas? Porque havia que a convencer a assinar uns cheques, movimentar as massas de bons modos.
Mas ela está doente, Romão.
Ou faz-se?
Não sei. Uma coisa é certa: temos que cuidar dela, a velha não pode pifar-se.
Mas a gaja está assim tão velha?
Na pele dela já há lugar para mais nenhuma ruga.
E os dois se acresciam do valor da idosa senhora branca. Ela não se podia apagar, havia que proteger a assinatura das papeladas bancárias. Entretanto, se arranjaria maneira de a convencer. Combinaram as necessárias políticas: Estêvão Jonas devia seguir uma política de ofensa e ofensiva. Deveria manter aceso o assunto da raça, proclamar os privilégios da maioria racial.
Mas dessa maneira lhe prejudico, Romão.
Ao contrário, meu caro sócio.
E justifica: assim ninguém desconfiaria do pacto feito com um branco. O português parece ter meditado no assunto em sua estada pela inexistência. E desenrola mais conselhos:
Dás umas discursatas contra a brancalhada. Só para disfarçar.
Para não chocar nas vistas, até dava graça. Um regime ganha validade, caro Estêvão, é quando contra argumentos não há factos. Mas uma coisa devemos acertar: o povinho discursa lá nas banjas mas decidimos nós é aqui, neste mesmo lugar, compreendes, Estêvão Jonas? Não há mais nada para ninguém, o diabo seja bruto e cego. E falemos baixinho que as paredes têm mais orelhas que o elefante.
E o morto reentra na obscura casa. Estêvão Jonas fica a vê-lo a extinguir-se. Seu sorriso é o de um vencedor. Ainda há pouco ele se acobardava. Agora, o dirigente goza um sentimento de comando que há muito não experimentava. Lá na administração não passava nenhuma das rédeas que faz mudar o destino. E é assim, confiante que nem estátua de herói, que apanha o maior susto. Carolinda, sua bela esposa, lhe surge entre escuros arbustos.
Que veio aqui fazer, Estêvão?
O administrador, tartamudo, se desculpa: que nada, se tratava de um passeio digestivo para temperar o estômago.
Onde está a mulher com quem você se encontrou?
Estêvão Jonas ri, aliviado. Então é isso? A esposa, sempre alheia e abstraída, acredita que ele se veio encontrar com uma amante? O dignitário sente-se orgulhoso. Os inesperados ciúmes da esposa lhe levantam a crista, galo subitamente galante. E tranquiliza a esposa, lhe conta o sucedido, acordos e sociedades com o pseudofalecido. Pior foi a emenda:
Agora te apanhei, Estêvão. Você está combinado com os antigos colonos.
Combinado como?
Sempre eu dei o nome certo à tua função: você é um administraidor!
Afinal que moral era a dele? O administrador contrargumenta: ninguém vive de moral. Será, cara esposa, que a coerência lhe vai alimentar no futuro?
Você, Estêvão, é como a hiena: só tem esperteza para as coisas mortas.
Essas suas palavras já são canto de sapo.
O povo vai-te apanhar. Não voltas mais a esta casa, senão te denuncio.
Como não volto? Agora eu e Romão Pinto temos negócios, somos sócios. Tenho que vir aqui. Ou não diga, mulher, que quer que ele vá até lá na administração?
Carolinda lhe avisa: ele estava a subir a árvore pelos ramos. A bronca quando viesse era para valer. Afinal um bruxo é apanhado por outro bruxo.
Não sabe, Estêvão? Casas juntas, ardem juntas.
O administrador lhe pede que ferva baixinho, ainda vinham parar ali indevidas curiosidades. Paternal lhe aconselha bons-sensos: ela era esposa de um africano, devia beneficiar de estar calada, subordinadinha. Devia até ficar contente pois a riqueza que viesse seria para dividir pela família e os parentes dela se vantajariam também.
Não quero esse dinheiro. Nem minha família aceita dinheiro sujo. Você há-de pagar essa traição.
Mas Carolinda, se acalme. Isto são contradições no seio do povo...
Vá-se embora, Estêvão. Eu não lhe quero ouvir.
Tem que me ouvir.
Vá-se, senão eu grito, grito até isto se encher de gente.
O administrador se retira com alguma pressa. Antes de desaparecer no escuro ainda olha para trás e se admira com o tamanho da sombra de Carolinda. É uma sombra enorme que se projecta no enorme casarão. Se o administrador, antes de retirar, tivesse posto menos medo e mais atenção teria visto Virgínia se erguendo nos degraus da escada. Chamei a sua atenção. Virgínia, com um gesto, me faz sentir que não há perigo, Estêvão já ali não está. Ela anuncia sua retirada:
Já vou. É hora de dar comida aos meus sapos.
Eu vou consigo, lhe faço a companhia.
Não, eu não quero que você seja visto comigo.
E porquê?
Não esqueça eu sou uma velha tonta, não falo com gente crescida. Só mereço confiança das crianças. Sabe o que ando a adivinhar? Que o Romão quer que eu assine papéis autorizando dinheiros. Como é que posso assinar um papel? E dinheiro, eu sei o que é dinheiro? Não faço nenhuma ideia. Me entende, Kindzu?
Sim, agora eu entendia as extravagâncias da portuguesa. A dita loucura dela era seu refúgio mais seguro. E lhe fiquei a olhar enquanto ela se despedia pela estrada escura. Carolinda escutara nossas vozes. Se aproximou, desconfiada.
Afinal, é você?
Me levantei e lhe acariciei os braços. Ela se anichou, com um estremecer de ave. Mas depois, se endireitou, rectificada:
Não podemos ficar aqui. Meu marido me desconfia muito.
Vamos para onde, então?
Vamos para dentro de casa.
Me arrepiei. Neguei com tanta determinação que ela sorriu: será que eu acreditava em ressuscitação de falecidos? Eu queria justificar as presenciadas visões que tivera mas ela nem deixou que falasse. Que estava certo, disse. Ficássemos ali mesmo, em plena escadaria. Sentámos em degraus consecutivos, ela se encostou em mim. Um volume em meu bolso me chamou a atenção. Era o colar que Carolinda esquecera da primeira vez que fizéramos amor. Balancei o fio em frente de seus olhos e perguntei:
Se lembra disto?
Ela riu. Se lembra dos momentos na cadeia quando ela me libertou. E lhe chegam as palavras de despedida total, o seu desejo de que eu me tornasse inatingível. Mas eu ali estava, mais possível que nunca. E ela se esfrega com doçura no meu peito. O seu perfume me recordava o odor da sura, uma antiga embriaguez que me vinha da infância. Quando a beijei, porém, me fugiu um outro nome: Farida! Carolinda, de um golpe, se afastou de mim.
Você conhece Farida?
Farida? Não.
Mas me chamou de Farida.
Impressão sua.
Carolinda pareceu acreditar. Suas costas, contudo, ainda estavam tensas. Aquele nome lhe fazia muito mal.
De repente, você me fez lembrar meus dois maridos.
Dois?
Sim, eu já tive um outro que faleceu.
Então, ela falou de suas mágoas, arrastadas águas que encheram a noite. Estêvão vivia torturado pelos ciúmes. Juntava irrazoáveis razões para acusar Carolinda. Passavam as datas históricas, ele nem tinha tempo para lembrar a comemoração. Mas Carolinda lá ia, envergadinha de cerimónia, prestar homenagem aos heróis da luta pela Independência. O administrador interrogava: será que ela ainda lembrava o anterior, falecido marido? Ele morrera na guerra de libertação, Carolinda era ainda uma menina sem idade. Dizem foi emboscado não pelo inimigo português mas por próprios elementos da guerrilha. Deste então Carolinda ficara suspeitosa, ganhando mania de ver traições em todo lado. A mulher insistia: as palavras de um dirigente devem encostar com a sua prática, afinal onde estão os princípios, a razão que pediram aos mais jovens para dar suas vidas?
Mas aquela desconfiança, no final, tinha razão de ser. Não que houvesse um outro homem na vida dela. Não havia era nenhum. O administrador era uma simples ausência. Carolinda não lhe guardava nenhum afecto. Estêvão era hoje um homem de mando, amanhã seria um pau-mandado. Ela seria ainda sua servente, ele continuaria sem sequer a ver. Carolinda repetia: o casamento dela não fora prematuro. Fora pré-imaturo. Ela era criança, com muito medo e nenhum saber. Estêvão lhe dizia: não chora, Carolinda. Não sabes a adolescente que dorme com um homem cresce mais depressa?
Eu, Carolinda, estou a fazer a tua idade, acrescentava.
Mas ela nem queria crescer. Antes de Estêvão chegar, seu único desejo era alguém que a tirasse dali. Matimati era um abafado lugar, uma prisão para seu desejo de sonhar. Carolinda não tivera meninice que se recordasse. Ela queria casar permanecendo menina. Como acontecera, afinal, no primeiro casamento. Se untava de óleos para que a sua pele brilhasse em olhos machos. Mas, ao mesmo tempo, guardava os brinquedos da adolescência. O que ela muito mais queria era ser escolhida, levada daquela miséria. Andava na estrada para ser vista. Mas não parava em nenhuma aldeia para não ser desejada por ninguém daquelas bandas. Estêvão Jonas passou por ali, fardado de guerrilheiro, sacudu às costas. Ela acreditava que aquele homem estivesse de passagem para muito longe, para um mundo invislumbrável. Se ofereceu, dispondo-se a seu agrado. Depois da Independência, ele foi nomeado para chefe da administração de Matimati. Disseram ser coisa transitória. Mas o tempo passava e não chegava nunca a sua transferência. Estêvão nem sequer era dali, não entendia a língua nem os costumes daquela gente. Ele também se frustrava embora nada dissesse. Aceitava porque aprendera a disciplina de obedecer sem questionar. Vendo o tempo passar Carolinda começou a deitar ódio nele. Essa raiva lhe chegava em ondas. Ela queria magoá-lo para que ele despertasse. Fazia-lhe mal porque era uma maneira de ele se mostrar novo, de provar que estava vivo. No mais ele era um mortiço, acanhado de sonhar, medroso de pensar. Estêvão estava cansado de sua militância, exausto por sempre ter que se apagar. Foi então que surgiu na administração uma mulher de nome Farida.
Não era apenas bonita. Sua beleza tocava profundamente Carolinda e lhe fazia um gosto quase de ser homem, poder tocar aquele corpo. Farida vinha ali colocar o caso de seu filho, dado improvável nos matos. Havia centenas de outros casos mas Estêvão pôs naquele uma atenção muito especial. Carolinda, pela primeira vez, sentiu a vertigem do ciúme. Quando tocou o assunto o marido lhe respondeu:
Farida lhe irrita? Se calhar é porque é parecida com você.
O ciúme crescia com gosto em Carolinda. Tanto que a sua entrega na cama se passou a fazer com incendiada paixão. Estêvão se admirava: que se passa consigo, mulher? Mas a tal Farida inesperadamente se retirou de Matimati. Emigrara para um naufragado barco e ali ficara. Aquilo que era simples ciúme se converteu em ódio. O que lhe dava tanta raiva? Era perder o objecto do ciúme? Ou seria inveja da outra estar a caminho de sair daquele inferno? Sim, Farida fugia da pequeninez daquele lugar mesmo que o fizesse pela loucura de embarcar num barco encalhado. Mas sempre era uma viagem, uma saída daquele inferno. Era essa fuga que Carolinda não podia aceitar. Assim, ela se deu a conceber uma vingança contra Farida. Incitava Estêvão a tomar medidas contra o barco, inventando perigos na estada de tal mulher num tal barco. Os homens de Estêvão tinham ido ao navio recolher a melhor parte dos bens? Pois Farida assistira àquele desvio, se preparava para denunciar o caso. Estêvão fingia acreditar e dava desleixadas ordens para que a dita mulher fosse retirada do barco.
Então essa é a tal Farida?
Sim, essa é a razão por que fiquei chocada quando você me chamou com o nome dela.
Mas eu não chamei.
Acredito. É minha cabeça que está presa nessa mania.
Carolinda, de novo, amoleceu em meus braços. Ali nos incómodos degraus do fantasmado casarão, ela estendeu seu corpo com a paixão do fogo e a ternura da terra.

Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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