Minha discordância com Quintino
começou antes sequer de partirmos. No dia combinado para sairmos
para o mato ele não compareceu. Esperei em vão. Procurei aquele que
me iria guiar e que agora parecia estar perdido. E realmente ele
estava sem prestar acordo. Deitado num velho muro, ventre inchado,
embriagordo. Atordoído, titupiante, Quintino se explicou:
— Hoje sou cobra com cócega na
barriga: não saio do lugar.
— Porquê se embebou tanto,
Quintino?
— Estive com Romão Pinto, é por
isso bebi.
— Quem é esse Pinto?, perguntei.
— Não lembra? É o colono, meu
patrão. Aliás, meu ex-antigo.
— E agora?
— Agora tenho de beber mais,
respondeu.
Desisti. Minha saída da vila estava
adiada por uns dias. Decidi espreitar a velha Virgínia, conhecer
aquela que fora a segunda mãe de Farida. Quem sabe ela teria
informação sobre Gaspar? Cheguei e fiz espera, semioculto,
lembrando o conselho de Quintino:
— Se passar daqui não se mostre.
A velha não gosta.
A manhã foi subindo até que Virgínia
lá saiu e se encostou no muro do quintal. Fiquei ali horas perdidas,
espreitando a uma distância, entre os verdes-escuros das
mafurreiras. O que vi ali me encheu de fantasia, estórias de reaver
este mundo onde não cabemos. Apresento a velha Virgínia. Como se
ainda a estivesse vendo, no actual hoje. Acrescento o que dela me
disseram, em pinceladas de retrato. Entre mim e a idosa senhora a
estrada se espreguiça sem nenhum fazer. Na margem dessa estrada eu
me sento, retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que
seu desenho me fugisse.
Dona Virgínia Pinto. Ali estava ela,
varandeando no exercício de sua última meninez. Em nenhuma data os
carros por ali poeiram. As cidades agora são muito longe, a guerra
rasgou os cantos da terra. A portuguesa se vai deixando em tristonhas
vagações. Branca de nacionalidade, não de raça. O português é
sua língua materna e o makwa, sua maternal linguagem. Ela,
bidiomática. Os meninos negros lhe redondam a existência, se
empoleirando, barulhosos, no muro. Ela nem zanga.
E me contam assim: que Dona Virgínia
amealha fantasias, cada vez mais se infanciando. Suas únicas visitas
são essas crianças que, desde a mais tenra manhã, enchem o som de
muitas cores. Os pais dos meninos aplicam bondades na velha,
trazem-lhe comida, bons-cumprimentos. A vida finge, a velha faz
conta. No final, as duas se escapam, fugidias, ela e a vida.
Dentro do quintal, tudo é bravio, o
mato em minifúndio. Silvestram-se as flores, mais espinhos que
pétalas. Os capins já lhe chegam pelos ombros. Ela nem repara a
urgência de aparar o capinzal.
— Não é a relva que cresceu.
Fui eu que adimininuí.
Também a casa lhe parece maior.
Agora, ela quase se perde no inaposento. A cama de casal é uma
extensão muito enorme, acrescentando solidão na viuvice dela. Seu
marido, Romão Pinto, se retirou da vida vai fazer dez anos. Do
defunto esposo ela não guarda senão o inverso da saudade. Um
pressentimento que ele haverá ainda de chegar, fosse o falecido não
um ente do passado mas do porvir. Os vizinhos se admiram com essa
falha em sua lembrança. No princípio, acreditavam ser desbotura da
memória dela. Coitada, o hoje é para ela mais antigo que o
anteontem, diziam. Mas, depois, se convenceram de que outro
problema se tratava. Porque Virgínia seguia teimando na ideia de um
noivado ainda por estrear. No lugar do suspiro saudoso ela punha a
ânsia do há-de vir.
— Quando eu for da idade de casar
esse homem me vai chegar.
Os vizinhos não variavam: a velha
durava mais que a validade de seu corpo. Deixassem seu sonho
enlouquecer. E perguntavam, entre risos: o grilo, quando nasce, já
tem a toca feita? É assim a velhice. Virginha que trocasse
passado por futuro, sonhasse não com o fim da vida mas com as
nascenças que lhe faltavam. Tudo isso que importava?
— Sabem o motivo das orações
dela? A gaja reza para não continuar a diminuir de tamanho.
E reproduziam as longas-lengas dela:
Santíssimo Padre, se eu continuar a minguar, nem o cavaleiro
Romão me notará quando passar por estas bandas. E repetia, de
si para si, desencostadas frases: ontem, quando eu morrer.
Virgínia, Virginha, Virginhinha: o povo lhe indistinguia variedades
do nome. E todos se condoíam de sua velhice como de uma orfandade se
tratasse.
Uma ocupação lhe dava fazer: criava
sapos no quintal. De dia deixava as moscas patinharem os vidros das
janelas. À tarde, juntava-as numa caixa e lhes tirava as asas, uma a
uma. Chegada a noitinha ela saía de casa e espalhava as desasadas
moscas pela relva. Chamava os batráquios por nomes, sortidos de sua
autoria.
— Que vai ser deles quando eu
morrer?
Fosse, quem sabe, essa a ideia dela:
haver alguém neste mundo que lhe desse falta. O sol se vai
devagarinhando, parece uma das moscas a quem a velha cortara as asas
subindo pelas horas do dia. A velha se deixa ficar, misturando a sua
sombra com a do velho muro, olhando a vida como um lugar que já foi
seu. O certo é sabido: na seguinte manhã os meninos regressam,
subitamente calados, e se envoltam nela.
— Cuidado, crianças. Não me
pisem os sapos.
Uns lhe penteiam as névoas, outros
lhe cortam as unhas, outros ainda lhe corrigem os cuspos no queixo.
Ela se deixa, dissolvida, sonambulada num fecha-te sésamo. Os
meninos lhe pedem: avó, conta estória. Virgínia sorri. Eles lhe
chamam de avó. Como ela se embeleza com aquela palavrinha: avó!
— Qual querem, meus filhos?
— Conta aquela do pai de seu pai.
Virginha sorri, grata dos meninos se
introduzirem em sua família como se eles fossem tão antigos como
ela. Depois, vai soltando lembranças que escorrem como lento óleo.
Saltita do português para o makwa, já não distingue sua original
versão.
— Como chamava o mucunha, quem
lembra?
— Mucunha Curucho, responde a
miudagem numa só voz.
Ela acena, em festa: isso, o senhor
Cruz, seu avô, homem frequente em terras do outro lado da montanha.
Sua única obra havia sido um farol. Os meninos se disputam, todos
querendo mexer na fábula da velhinha.
— Mas esse farol dele, afinal
vavó? Se o mucunha vivia lá nos interiores, onde mar nem chega...
— Não acreditam?
Ela amuada, se desliga. As crianças
lhe entregam mimos, rogam para que prossiga. Ela, nada. Por fim, eles
aceitam a verdade dela. Sim, um farol. Um, próprio. Seja perto ou
longe do mar, quem proíbe os faróis de nascerem onde bem entendem?
Pois, esse farol: desempregado, nem de vista conhecendo nenhum barco.
— E para quê o mucunha precisava
um farol dele?
Era promessa que ele jurara da vez que
sobrevivera a um naufrágio. No enquanto da estória, o dito avô ia
perdendo o nome, saltitando de morada e profissão. As falas de
Virgínia não se acertavam. Os meninos, por vezes, corrigiam: o
mucunha Curucho, não esqueça vavó. Mais Virgínia repete os
contos mais a verdade se resvala: o avô Cruz de olhos louros, hoje;
amanhã um negro de rosto carapinhoso. A criançada nem se importa.
Verdade, em infância, é um jogo de brincar. Em redor da anciãzinha,
os miúdos sempre folgam, sem desilusão. Com gesto largo, ela pede
menos barulho. Deixassem chegar, audíveis, as ordens de Deus. Que
Ele é quem mandava os viventes descansarem.
— Vocês com vosso barulho nem me
deixam ouvir a ordem Dele. Se calhar, até já me mandou descansar,
nem dei por isso...
Terminadas as estoriazinhas, a velha
leva a criançada ao poço. Vão em excursão, passarinhando.
Chegados ao pátio vizinho, Virginha repete o mesmo ritual: pede aos
meninos que lancem uma pedra no poço.
— É para ver se ainda tem água,
vavó Virginha?
Ela não responde. Pega numa pedra e
atira na boca escura da terra. Lá, do fundo húmido, responde um
lamento. Depois, sobe um canto, tche-tche-tchém. É um barulho,
surdimudo, que vai crescendo.
— O que é isso, vavó?
— É a água chorando.
— E por que chora?
— A água chora com pena de uma
viúva que perdeu seu marido, vítima de maldição.
— E essa viúva quem é, vavó?
— Não sei, meus filhos, essa
mulher parece já morreu, faz conta foi há tantíssimo tempo.
Eram as palavras dela fechando o dia.
Pouso os cadernos e espreito a
portuguesa. Vou refazendo a velha Virgínia enquanto ela, alheia e
distante, está no outro lado da estrada, à mão de semelhar. Está
tão perto que não resisto a me chegar mais, ouvir sua voz cheia de
tempo. Atravesso a estrada, desobedeço das instruções de Quintino.
A velha só quer ser visitada por infâncias? E se eu me mostrar
criança, quem sabe ela me aceita? Estou quase junto a ela, chamo por
seu nome. A velha levanta o rosto, fresteja os olhos para me
enfrentar.
— Quem tu és?
— Sou Kindzu. Quero falar com a
senhora...
— Falar?
— Quero saber de Gaspar. Se
lembra dele, Dona Virginha?
A velha se alheia, passa os dedos pelo
rosto em exame das minúcias. Toca os lábios e depois, tirando a
língua de fora, pergunta:
— Vês a minha língua?
— Vejo. Porquê?
— É que a minha língua está a
aumentar de tamanho.
Ri-me, inesperado. Séria, ela
argumenta: a tua língua também há-de aumentar quando fores
velho. Ou será que é o resto da cara que diminui com o tempo?
— Não lembra, Farida?
— Com a língua assim não posso
lembrar nada.
A velha brincava-me. Então me excedi,
em altos tons. Falei em desordem, com pronúncia que me vinha do
peito. Disse tudo. Que vinha por causa de Farida, tinha sido ela que
me pedira que procurasse seu filho dela.
— Não diga que não se lembra de
Farida. Não posso acreditar que tenha esquecido.
Dona Virgínia bastante se admira com
meus modos, me puxa pelos braços para dentro de casa. Está com
nervos na flor da pele. Me ordena silêncio, enquanto segredeia:
— Não posso falar aqui.
— Porquê?
— Senão esta minha casinha se
enche de fantasmas.
— Falamos onde, então?
— Vamos para minha antiga casa.
Me faça uma coisa, entretanto: me chama de vovó. Para eu lhe ver
como uma criança.
E fomos ao passo lento de Virgínia.
No caminho ela me confessa seu medo: nunca tinha regressado ao velho
casarão. Por isso, quando chegamos prefere não entrar. Ficamos os
dois nas escadas da moradia colonial. Sentamos nos degraus. Virgínia
recorda seu cruzamento com Gaspar, o menino de Farida. Lembra uma
incerta manhã, alguém batendo em sua janela:
— Vavó: está um menino morto no
seu quintal.
Virgínia acorreu às traseiras e viu
um corpo estendido entre os capins. Não estava morto. Apenas dormia,
exausto. Ela confirmou que o menino ainda estava vivo mas não o
apanhou nem amparou. Foi buscar uma pá e atirou-lhe com terra,
enquanto dizia:
— Morre, meu menino. É melhor
morrer-se, enterradinho, que ficar aqui. É que esta vida não dá
acesso aos meninos.
As outras crianças chegaram e lhe
viram sepultando o vivo. Se intrometem, suspendendo a intenção da
velha.
— Vavó, deixe ele viver! Só um
bocadinho!
— Para o quê?
— Para ele nos contar a estória
dele.
Virginha duvidou, mas concorda. E
assentaram. O intruso que se mantivesse e repousasse até se recompor
da palavra. Que eles andavam carecidos de novidades, dessas que vale
a gente acreditar. Os meninos e a velha se conluiaram: nós lhe
curamos e alimentamos e depois matamos, ninguém mais vai pôr
ouvidos na narração dele. Fica estória só nossa. E se
ajustaram:
— Lhe guardamos no poço,
amarradinho para não fugir.
O poço estava seco, devido da
ausência das chuvas. Levavam-lhe comidas, lhe trocavam os trapos já
molhados e fedorentos. Outro qualquer teria esvanecido. Mas Gaspar
era constituído, moço de suar e ressoar. Mesmo dentro do húmido
poço ele foi ganhando forças, sua pele se rebrilhou. Quando, de
noite, lhe tiravam das funduras ele se mantinha calado, dobrado e
vincado. Os meninos, olhos cheios, punham nele toda a expectativa.
Mas ele demorava a soltar a voz.
— Vão ver é mudo.
Desencadearam-se então grandes
chuvadas, dessas de encher todos os mares. Virgínia pensou no poço,
Gaspar-zito no fundo. Os meninos foram com ela ver se a água já
cobrira o buraco do poço. Ainda não. A chuva torrenciava, quase nem
se via um palmo mesmo em noite de lua plena. Espreitaram, nada viram.
Escutaram: só o timbiliar das gotas no fundo. Já se retiravam
quando uma voz lhes chamou. Era Gaspar que gritava. Tinha-se decidido
a falar. Foi uma geral exclamação, um plenário de alegrias. A
velha ordenou que juntassem forças e, no puxar-junto, retiraram o
miúdo do poço. Estava encharcado, tremia dos pés aos cabelos.
— Tenho frio, foi a primeira
coisa que disse.
Deram-lhe um agasalho e ordenaram:
conta, conta uma estória. Fizeram uma roda à volta dele. Um
dos meninos endurou um dedo e avisou:
— Ai de ti se não gostarmos da
tua estória.
Gaspar começou a medo. Contou a sua
vida, sem esconder detalhe. Desfiou prosa por tempo. Quando se calou
a chuva tinha parado. Os miúdos se entreolharam. Não tinham
gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje, quem quer
fantasiar desgraças? Um coro de estridências se levantou clamando
para que o contador fosse punido. E que fosse castigo de peso, para
aprender no curto resto de sua vida. Relançado no poço e coberto de
pedra, sugeriam uns. Outros simplificavam: seja enraizado na horta da
avó, volte-se ao princípio da vontade dela. Enquanto os ânimos se
enroscavam um silêncio se foi compondo. Todos esperavam a sentença
de Virgínia. A velha, contudo, parecia desértica, abstasiada. Os
olhos duravam mais que uma tristeza eterna, tanto que doíam de serem
vistos. Com um gesto vasto mandou que a meninada se afastasse.
— Deixem-me ficar sozinha com
ele.
As crianças, surpresas, obedeceram.
Saíram pelo escuro, pés lentos de contrariedade. A velha enfrentou
o jovem, sem nada pronunciar.
— Não posso ir, eu também?,
perguntou Gaspar.
— Não.
— Porquê?
— Porque tu és meu filho. Teu
pai foi o meu falecido homem, tu és quase-quase do meu sangue.
A velha se ergueu e sacudiu a
capulana. Passou o pano pelos ombros do miúdo e lhe disse:
— Vem, vamos para nossa casa.
Sentada no degrau de sua antiga casa,
Virgínia ajeita o agasalho, resguardando-se do cacimbo da noite.
Parou de falar, deixa pelo meio a narrativa. Está preocupada com
alguma coisa, não sei qual.
— E depois, vovó, o que
aconteceu?
— Esse menino ficou só uns dias
em minha casa. Depois, fugiu ninguém sabe para onde.
— Ele sabia de tia Euzinha?
— Sabia. Se calhar foi ter com
essa tia.
A portuguesa aponta para uma grande
mangueira. Era aquela a árvore em que ela e Farida se sentavam lendo
as cartas. Seus olhos estão carregados de saudade. Súbito, Virgínia
me manda calar.
— Shuut, vem aí alguém.
Não ouço nada. É um espírito, diz
a velha. Não. Não é alma nenhuma. É o administrador da
localidade, o próprio. É ele que vem vindo, escondido pelos
atalhos. Virgínia se interroga, em sussurro. O que vinha ele ali
fazer, a uma hora daquelas? Resposta que só tive mais tarde quando
Quintino me contou a verdade dos acontecimentos. O que se passava sem
que eu nem Virgínia soubéssemos eram atribulações que agora posso
descrever.
Disfarçado na escuridão dos trilhos,
o administrador Estêvão Jonas desconhecia o fim da sua pressa. A
mensagem lhe chegara por vias atravessadas. Fora o tal Quintino que
lhe trouxera o recado. Dizia que ele, o camarada-em-chefe, se deveria
conduzir para casa do falecido Romão Pinto, residência igualmente
falecida por nela só habitarem as vozes dos malquistos.
Chegara ao pátio da velha casa. As
árvores se sujeitavam às mágoas da ventania, que o vento nunca se
levanta contente. Os cães uivaram, o administrador estremeceu. Por
que razão aqueles bichos se intransigem em noites que tais? Será
que o cão escuta um outro uivo na lua? Estêvão Jonas tossiu alto,
mais para se confirmar, esmaltado por fora mas alcatifado de medo por
dentro. Naquele instante, ele tinha mais freios que dentes. Avançava
colado nas paredes, forrado nelas como o deslizar de uma sombra. Num
repente, saltou em danado susto. De dentro do casarão chegaram
estrondos de madeira, caixas batendo em todos os sons. Havia alguém
roubando as heranças do malvado colono?
Por momentos, pensou que o atinado
seria chamar o seu miliciano. Não por motivo de medo mas derivado da
conceituada importância da sua sobrevivência. Nesse vai-que-vai
reconsiderou. Afinal, o mensageiro tinha sido claro: ele teria que se
apresentar sozinho, mais ninguém deveria saber.
Estava na soleira de um adiado passo
quando as portas se abriram de chofre e eis que, visão dos infernos,
apareceu o falecido Romão Pinto carregando às costas o seu próprio
caixão. O administrador disparou numa correria, trepando arbustos,
galgando pedras, para além das humanas velocidades. Estrumando-se
numa valeta próxima ele se extinguiu, escuro no escuro. O defunto se
aproximou e não esteve com medidas:
— Levanta-te e ajuda-me a
carregar esta merda deste caixão.
Estêvão não tinha boca para tanto
espanto. Porém, ainda acumulou força para responder:
— Não sou um qualquer de
carregar.
— Não és o quê? Deixa-te de
calcinhices e agarra mas é desse lado. Vá!
Estêvão mediu as condições,
aplicou as mais dialécticas análises, segundo os sábios
ensinamentos do materialismo. Podia ele enfrentar um fantasma? O
melhor seria aceitar o sem-remédio da circunstância. E oferecendo
as costas, levantou a caixa. O colono, enquanto caminhava, lhe
explicava: o caixão era para oferecer ao povo. Todos dão donativos
aos pobres. Aquela era a sua solidariedade. Desperdício seria a
coisa ficar ali, simples caixão-de-correio entre vida e morte.
Arrumaram o desocupado féretro na
arrecadação. Com um empurrão o antigo colono fez sentar o
administrador. E conversaram até madrugada. Que falaram? Ninguém
sabe o certo. Mas parece que o Romão deitou muita dúvida sobre o
futuro de Estêvão. Naquele regime que segurança tinha o futuro?
Amanhã ele recebia o devido pontapé nas partes adequadas e ninguém
mais se lembraria dele. O moçambicano ripostou, quisesse o
estrangeiro ensinar o Padre-Nosso ao vigarista.
— Eu tenho os meus esquemas,
Romão. Não pense que somos burros, como sempre vocês insistiram.
Esquemas, qual o quê. Uns negócios
de tigela furada, coisa de pouco brilho. Umas cervejitas de lata
amontoadas no passeio? O colono roubava o lustro da iniciativa do
administrador. Naquele solene assento, o português lhe prometia
coisa grossa, choruda. A ideia sendo a seguinte: que ele mesmo, óbito
reconhecido, ainda por cima carregado de raça e nacionalidade, não
mais podia reaver seus antigos negócios.
— Já bastava ser branco, ainda
por cima portuga. Agora, tudo isso e falecido é que não vale a
pena.
Necessário seria que Estêvão
despachasse assinatura mais seu rosto devidamente originário à
frente do empreendimento e os cordéis correriam que nem saliva em
boca gulosa.
— Mas e o capital?, se
entusiasmava o administrador.
Esse o problema. Havia dinheiro, fora
e dentro. Bastante, mais até que bastante. Mas do falecimento em
diante, tudo passara para o nome de Virgínia, a tonta viuvinha.
Estêvão Jonas lançou a risada:
— Nós tendo-lhe pena e, afinal,
a velha cheia da mola!
Romão bateu na parede: sim, a maldita
estava podre de rica. A dúvida que permanecia era se ela estava
mesmo esmiolada, na posse de suas plenas fraquezas? Porque havia que
a convencer a assinar uns cheques, movimentar as massas de bons
modos.
— Mas ela está doente, Romão.
— Ou faz-se?
— Não sei. Uma coisa é certa:
temos que cuidar dela, a velha não pode pifar-se.
— Mas a gaja está assim tão
velha?
— Na pele dela já há lugar para
mais nenhuma ruga.
E os dois se acresciam do valor da
idosa senhora branca. Ela não se podia apagar, havia que proteger a
assinatura das papeladas bancárias. Entretanto, se arranjaria
maneira de a convencer. Combinaram as necessárias políticas:
Estêvão Jonas devia seguir uma política de ofensa e ofensiva.
Deveria manter aceso o assunto da raça, proclamar os privilégios da
maioria racial.
— Mas dessa maneira lhe
prejudico, Romão.
— Ao contrário, meu caro sócio.
E justifica: assim ninguém
desconfiaria do pacto feito com um branco. O português parece ter
meditado no assunto em sua estada pela inexistência. E desenrola
mais conselhos:
— Dás umas discursatas contra a
brancalhada. Só para disfarçar.
Para não chocar nas vistas, até dava
graça. Um regime ganha validade, caro Estêvão, é quando contra
argumentos não há factos. Mas uma coisa devemos acertar: o povinho
discursa lá nas banjas mas decidimos nós é aqui, neste mesmo
lugar, compreendes, Estêvão Jonas? Não há mais nada para ninguém,
o diabo seja bruto e cego. E falemos baixinho que as paredes têm
mais orelhas que o elefante.
E o morto reentra na obscura casa.
Estêvão Jonas fica a vê-lo a extinguir-se. Seu sorriso é o de um
vencedor. Ainda há pouco ele se acobardava. Agora, o dirigente goza
um sentimento de comando que há muito não experimentava. Lá na
administração não passava nenhuma das rédeas que faz mudar o
destino. E é assim, confiante que nem estátua de herói, que apanha
o maior susto. Carolinda, sua bela esposa, lhe surge entre escuros
arbustos.
— Que veio aqui fazer, Estêvão?
O administrador, tartamudo, se
desculpa: que nada, se tratava de um passeio digestivo para temperar
o estômago.
— Onde está a mulher com quem
você se encontrou?
Estêvão Jonas ri, aliviado. Então é
isso? A esposa, sempre alheia e abstraída, acredita que ele se veio
encontrar com uma amante? O dignitário sente-se orgulhoso. Os
inesperados ciúmes da esposa lhe levantam a crista, galo subitamente
galante. E tranquiliza a esposa, lhe conta o sucedido, acordos e
sociedades com o pseudofalecido. Pior foi a emenda:
— Agora te apanhei, Estêvão.
Você está combinado com os antigos colonos.
— Combinado como?
— Sempre eu dei o nome certo à
tua função: você é um administraidor!
Afinal que moral era a dele? O
administrador contrargumenta: ninguém vive de moral. Será, cara
esposa, que a coerência lhe vai alimentar no futuro?
— Você, Estêvão, é como a
hiena: só tem esperteza para as coisas mortas.
— Essas suas palavras já são
canto de sapo.
— O povo vai-te apanhar. Não
voltas mais a esta casa, senão te denuncio.
— Como não volto? Agora eu e
Romão Pinto temos negócios, somos sócios. Tenho que vir aqui. Ou
não diga, mulher, que quer que ele vá até lá na administração?
Carolinda lhe avisa: ele estava a
subir a árvore pelos ramos. A bronca quando viesse era para valer.
Afinal um bruxo é apanhado por outro bruxo.
— Não sabe, Estêvão? Casas
juntas, ardem juntas.
O administrador lhe pede que ferva
baixinho, ainda vinham parar ali indevidas curiosidades. Paternal lhe
aconselha bons-sensos: ela era esposa de um africano, devia
beneficiar de estar calada, subordinadinha. Devia até ficar contente
pois a riqueza que viesse seria para dividir pela família e os
parentes dela se vantajariam também.
— Não quero esse dinheiro. Nem
minha família aceita dinheiro sujo. Você há-de pagar essa traição.
— Mas Carolinda, se acalme. Isto
são contradições no seio do povo...
— Vá-se embora, Estêvão. Eu
não lhe quero ouvir.
— Tem que me ouvir.
— Vá-se, senão eu grito, grito
até isto se encher de gente.
O administrador se retira com alguma
pressa. Antes de desaparecer no escuro ainda olha para trás e se
admira com o tamanho da sombra de Carolinda. É uma sombra enorme que
se projecta no enorme casarão. Se o administrador, antes de retirar,
tivesse posto menos medo e mais atenção teria visto Virgínia se
erguendo nos degraus da escada. Chamei a sua atenção. Virgínia,
com um gesto, me faz sentir que não há perigo, Estêvão já ali
não está. Ela anuncia sua retirada:
— Já vou. É hora de dar comida
aos meus sapos.
— Eu vou consigo, lhe faço a
companhia.
— Não, eu não quero que você
seja visto comigo.
— E porquê?
— Não esqueça eu sou uma velha
tonta, não falo com gente crescida. Só mereço confiança das
crianças. Sabe o que ando a adivinhar? Que o Romão quer que eu
assine papéis autorizando dinheiros. Como é que posso assinar um
papel? E dinheiro, eu sei o que é dinheiro? Não faço nenhuma
ideia. Me entende, Kindzu?
Sim, agora eu entendia as
extravagâncias da portuguesa. A dita loucura dela era seu refúgio
mais seguro. E lhe fiquei a olhar enquanto ela se despedia pela
estrada escura. Carolinda escutara nossas vozes. Se aproximou,
desconfiada.
— Afinal, é você?
Me levantei e lhe acariciei os braços.
Ela se anichou, com um estremecer de ave. Mas depois, se endireitou,
rectificada:
— Não podemos ficar aqui. Meu
marido me desconfia muito.
— Vamos para onde, então?
— Vamos para dentro de casa.
Me arrepiei. Neguei com tanta
determinação que ela sorriu: será que eu acreditava em
ressuscitação de falecidos? Eu queria justificar as presenciadas
visões que tivera mas ela nem deixou que falasse. Que estava certo,
disse. Ficássemos ali mesmo, em plena escadaria. Sentámos em
degraus consecutivos, ela se encostou em mim. Um volume em meu bolso
me chamou a atenção. Era o colar que Carolinda esquecera da
primeira vez que fizéramos amor. Balancei o fio em frente de seus
olhos e perguntei:
— Se lembra disto?
Ela riu. Se lembra dos momentos na
cadeia quando ela me libertou. E lhe chegam as palavras de despedida
total, o seu desejo de que eu me tornasse inatingível. Mas eu ali
estava, mais possível que nunca. E ela se esfrega com doçura no meu
peito. O seu perfume me recordava o odor da sura, uma antiga
embriaguez que me vinha da infância. Quando a beijei, porém, me
fugiu um outro nome: Farida! Carolinda, de um golpe, se afastou de
mim.
— Você conhece Farida?
— Farida? Não.
— Mas me chamou de Farida.
— Impressão sua.
Carolinda pareceu acreditar. Suas
costas, contudo, ainda estavam tensas. Aquele nome lhe fazia muito
mal.
— De repente, você me fez
lembrar meus dois maridos.
— Dois?
— Sim, eu já tive um outro que
faleceu.
Então, ela falou de suas mágoas,
arrastadas águas que encheram a noite. Estêvão vivia torturado
pelos ciúmes. Juntava irrazoáveis razões para acusar Carolinda.
Passavam as datas históricas, ele nem tinha tempo para lembrar a
comemoração. Mas Carolinda lá ia, envergadinha de cerimónia,
prestar homenagem aos heróis da luta pela Independência. O
administrador interrogava: será que ela ainda lembrava o anterior,
falecido marido? Ele morrera na guerra de libertação, Carolinda era
ainda uma menina sem idade. Dizem foi emboscado não pelo inimigo
português mas por próprios elementos da guerrilha. Deste então
Carolinda ficara suspeitosa, ganhando mania de ver traições em todo
lado. A mulher insistia: as palavras de um dirigente devem encostar
com a sua prática, afinal onde estão os princípios, a razão que
pediram aos mais jovens para dar suas vidas?
Mas aquela desconfiança, no final,
tinha razão de ser. Não que houvesse um outro homem na vida dela.
Não havia era nenhum. O administrador era uma simples ausência.
Carolinda não lhe guardava nenhum afecto. Estêvão era hoje um
homem de mando, amanhã seria um pau-mandado. Ela seria ainda sua
servente, ele continuaria sem sequer a ver. Carolinda repetia: o
casamento dela não fora prematuro. Fora pré-imaturo. Ela era
criança, com muito medo e nenhum saber. Estêvão lhe dizia: não
chora, Carolinda. Não sabes a adolescente que dorme com um homem
cresce mais depressa?
— Eu, Carolinda, estou a fazer a
tua idade, acrescentava.
Mas ela nem queria crescer. Antes de
Estêvão chegar, seu único desejo era alguém que a tirasse dali.
Matimati era um abafado lugar, uma prisão para seu desejo de sonhar.
Carolinda não tivera meninice que se recordasse. Ela queria casar
permanecendo menina. Como acontecera, afinal, no primeiro casamento.
Se untava de óleos para que a sua pele brilhasse em olhos machos.
Mas, ao mesmo tempo, guardava os brinquedos da adolescência. O que
ela muito mais queria era ser escolhida, levada daquela miséria.
Andava na estrada para ser vista. Mas não parava em nenhuma aldeia
para não ser desejada por ninguém daquelas bandas. Estêvão Jonas
passou por ali, fardado de guerrilheiro, sacudu às costas. Ela
acreditava que aquele homem estivesse de passagem para muito longe,
para um mundo invislumbrável. Se ofereceu, dispondo-se a seu agrado.
Depois da Independência, ele foi nomeado para chefe da administração
de Matimati. Disseram ser coisa transitória. Mas o tempo passava e
não chegava nunca a sua transferência. Estêvão nem sequer era
dali, não entendia a língua nem os costumes daquela gente. Ele
também se frustrava embora nada dissesse. Aceitava porque aprendera
a disciplina de obedecer sem questionar. Vendo o tempo passar
Carolinda começou a deitar ódio nele. Essa raiva lhe chegava em
ondas. Ela queria magoá-lo para que ele despertasse. Fazia-lhe mal
porque era uma maneira de ele se mostrar novo, de provar que estava
vivo. No mais ele era um mortiço, acanhado de sonhar, medroso de
pensar. Estêvão estava cansado de sua militância, exausto por
sempre ter que se apagar. Foi então que surgiu na administração
uma mulher de nome Farida.
Não era apenas bonita. Sua beleza
tocava profundamente Carolinda e lhe fazia um gosto quase de ser
homem, poder tocar aquele corpo. Farida vinha ali colocar o caso de
seu filho, dado improvável nos matos. Havia centenas de outros casos
mas Estêvão pôs naquele uma atenção muito especial. Carolinda,
pela primeira vez, sentiu a vertigem do ciúme. Quando tocou o
assunto o marido lhe respondeu:
— Farida lhe irrita? Se calhar é
porque é parecida com você.
O ciúme crescia com gosto em
Carolinda. Tanto que a sua entrega na cama se passou a fazer com
incendiada paixão. Estêvão se admirava: que se passa consigo,
mulher? Mas a tal Farida inesperadamente se retirou de Matimati.
Emigrara para um naufragado barco e ali ficara. Aquilo que era
simples ciúme se converteu em ódio. O que lhe dava tanta raiva? Era
perder o objecto do ciúme? Ou seria inveja da outra estar a caminho
de sair daquele inferno? Sim, Farida fugia da pequeninez daquele
lugar mesmo que o fizesse pela loucura de embarcar num barco
encalhado. Mas sempre era uma viagem, uma saída daquele inferno. Era
essa fuga que Carolinda não podia aceitar. Assim, ela se deu a
conceber uma vingança contra Farida. Incitava Estêvão a tomar
medidas contra o barco, inventando perigos na estada de tal mulher
num tal barco. Os homens de Estêvão tinham ido ao navio recolher a
melhor parte dos bens? Pois Farida assistira àquele desvio, se
preparava para denunciar o caso. Estêvão fingia acreditar e dava
desleixadas ordens para que a dita mulher fosse retirada do barco.
— Então essa é a tal Farida?
— Sim, essa é a razão por que
fiquei chocada quando você me chamou com o nome dela.
— Mas eu não chamei.
— Acredito. É minha cabeça que
está presa nessa mania.
Carolinda, de novo, amoleceu em meus
braços. Ali nos incómodos degraus do fantasmado casarão, ela
estendeu seu corpo com a paixão do fogo e a ternura da terra.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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