sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Carta VIII


Meu querido Vermelindo,

Então, quer dizer que você nutre “grandes esperanças de que a fase religiosa do seu paciente esteja definhando”, não é? Eu sempre achei que a Academia de Treinamento havia chegado ao fundo do poço desde que empossaram o velho Remeleca como diretor, mas agora tenho certeza. Será que ninguém nunca lhe contou sobre a Lei da Ondulação?
Os seres humanos são anfíbios — em parte animais, em parte espíritos. (A insistência do Inimigo em produzir tal híbrido revoltante foi um dos fatores determinantes para o Nosso Pai retirar o seu apoio a ele). Como espíritos, eles pertencem à eternidade, mas, como animais, estão fadados à temporalidade. Isso significa que, enquanto o seu espírito pode ser direcionado para um objeto eterno, seus corpos, suas paixões e suas imaginações estão em constante mudança, pois mudar significa estar inserido na temporalidade. Eles experimentam a constância apenas em meio à ondulação — o retorno repetitivo a um nível do qual frequentemente se desviam, uma série de altos e baixos. Se você tivesse observado seu paciente cuidadosamente, teria visto essa ondulação em todos os aspectos de sua vida — seu interesse pelo trabalho, sua afeição pelos amigos, seus apetites físicos, todos têm seus altos e baixos. Enquanto seu humano viver sobre a Terra, os períodos de riqueza e vivacidade emocional e física se alternarão com períodos de entorpecimento e de pobreza. A aridez e o tédio que seu paciente está passando agora não são, como você entusiasticamente supõe, obra sua; eles são meramente um fenômeno natural que de nada nos servirá se não soubermos tirar vantagem disso.
Para decidir qual é a maior vantagem que se pode tirar, você deve perguntar o que o Inimigo pretende fazer com isso, e, então, fazer o oposto. Talvez você se surpreenda com o fato de que ele, em seus esforços para ter a posse permanente de uma alma, confie muito mais nos baixos que nos altos. Alguns dos seus filhos prediletos passaram por vales e depressões maiores e mais profundos do que qualquer pessoa. E a razão é a seguinte: para nós, os humanos não passam de comida. Nosso objetivo é a absorção da vontade deles na nossa, o aumento da nossa própria reserva de egoísmo à custa deles. Mas a obediência que o Inimigo demanda dos seres humanos é algo bem diferente. Deve-se encarar o fato de que toda aquela conversa sobre o seu amor pelos homens e a liberdade perfeita que vem de se entregar e dedicar-se a ele não é mera propaganda (como se poderia de bom grado acreditar), e sim uma verdade aterrorizante. Ele quer realmente encher o universo com um monte de pequenas réplicas repugnantes de si mesmo. Criaturas cujas vidas, numa escala em miniatura, serão qualitativamente como a sua, não porque ele as tenha absorvido, mas porque elas desejam se conformar de livre e espontânea vontade a ele. O que nós queremos é apenas gado que possa acabar nos servindo de comida; ele deseja servos que possam acabar se tornando seus filhos. Nós desejamos sugar, ele deseja retribuir. Nós somos vazios e queremos ser preenchidos; ele é pleno e, por isso, transborda. O objetivo de nossa guerra é um mundo em que o Nosso Pai nas Profundezas tenha absorvido todos os outros seres em si: já o Inimigo deseja um mundo cheio de seres unidos a ele, mas que, ainda assim, continuem sendo distintos.
E é aí que entram os períodos de baixa. Você já deve ter se perguntado muitas vezes por que o Inimigo não utiliza os seus poderes para estar sensivelmente presente nas almas humanas em qualquer nível sempre que desejar. Mas agora você vê que o Irresistível e o Incontestável são duas armas que a própria natureza de seu desígnio o impede de usar. Atropelar a vontade humana (o que aconteceria se ele se tornasse perceptível, mesmo no nível mais tênue e mínimo) não valeria de nada para ele, porque não pode violentá-los, pode apenas encantá-los. Pois sua ideia desprezível é fazer duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo; as criaturas devem ser um com ele, sem deixarem de ser elas mesmas; simplesmente anulá-las, ou assimilá-las não servirá aos seus propósitos. Ele está preparado para intervir um pouquinho, no início. Irá instigá-los com pequenos sinais de sua presença que, embora minguados, parecem grandes para eles, repletas de doçura emocional e representativas de uma resistência fácil à tentação. Mas ele nunca permitirá que esse estado de coisas dure muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, irá retirar, se não de fato, pelo menos de sua experiência consciente, todo apoio e incentivo. Deixará a criatura andar com suas próprias pernas — a fim de executar a partir da própria vontade aqueles deveres que já perderam o atrativo. É durante esses períodos de baixa, muito mais do que nos períodos de pico, que ela amadurecerá e se tornará o tipo de criatura que ele deseja que ela seja. Desse modo, as orações feitas no estado de aridez são aquelas que o agradam mais. Podemos arrastar nossos pacientes por meio da tentação contínua, porque nosso propósito em relação a eles é apenas que sirvam de refeição, e quanto mais conseguirmos interferir na vontade deles, melhor. O Inimigo não pode “tentá-los” para a virtude da mesma forma que “tentamos” para o vício. Ele quer que eles aprendam a andar sozinhos e deve, por isso, retirar a sua mão. E se o que restar for apenas a vontade de andar, ele ficará satisfeito até mesmo com seus tropeços. Não se iluda, Vermelindo. Não haverá um perigo maior para a nossa causa do que quando um ser humano, que não mais deseja, mas ainda assim pretende fazer a vontade de nosso Inimigo, olhar em redor, para um universo do qual todo traço dele parece ter desaparecido, e perguntar-se por que foi abandonado e ainda obedece.
Mas é claro que os períodos de baixa oferecem oportunidades também para nosso lado. Na semana que vem vou lhe dar algumas dicas de como explorá-las.
Com carinho,
Seu tio, Maldanado

C. S. Lewis, em Cartas de um diabo a seu aprendiz

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