domingo, 27 de abril de 2025

Estrelas e santos


Espera, me deixa explicar…
A vida inteira eu me vi nesse tipo de situação, como naquele dia com o psiquiatra. Ele estava hospedado no chalé atrás da minha casa enquanto a sua casa nova passava por uma reforma. Parecia muito simpático, além de bonito, e claro que eu queria causar uma boa impressão; pensei até em levar uns brownies para ele, mas não queria que ele me achasse oferecida. Uma manhã, logo depois do amanhecer, como de costume, eu estava tomando café e olhando pela janela para o meu jardim, que estava lindo naquela época, com ervilhas-de-cheiro, delfínios e cosmos. Eu estava sentindo, bem, eu estava sentindo uma enorme alegria… por que hesito em te contar isso? Não quero que você me ache boba, quero causar uma boa impressão. Enfim, eu estava feliz e joguei um punhado de alpiste no deque lá fora, depois fiquei sentada, sorrindo sozinha enquanto dezenas de rolinhas e tentilhões vinham voando para comer o alpiste. De repente, num relâmpago, dois gatos enormes saltaram para o deque e começaram a estraçalhar os passarinhos, penas voando para todo lado, justo na hora em que o psiquiatra estava saindo pela porta do chalé. Ele olhou para mim, chocado, disse “Que horror!” e foi embora. Depois daquela manhã, ele passou a me evitar completamente, e não era imaginação minha. Não havia jeito de explicar que tudo tinha acontecido rápido demais, que eu não estava sorrindo porque os gatos estavam devorando os passarinhos. É que a minha alegria com as ervilhas-de-cheiro e os tentilhões não tinha tido tempo de murchar.
Até onde me lembro, eu sempre causei uma péssima primeira impressão. Como naquela vez em Montana em que o que eu estava tentando fazer era só tirar as meias de Kent Shreve para a gente ficar descalço, mas elas estavam presas às ceroulas dele. Mas o que eu queria falar mesmo é da escola St. Joseph’s. Sabe, os psiquiatras (por favor, não me entenda mal, eu não sou obcecada por psiquiatras nem nada disso)… é só que tenho a impressão de que os psiquiatras se concentram demais na cena primária e na privação pré-edipiana e ignoram o trauma da escola e das outras crianças, que são cruéis, secas, impiedosas.
Não vou nem mencionar o que aconteceu na Vilas, a primeira escola que frequentei em El Paso. Um grande mal-entendido do início ao fim. Então, dois meses depois de iniciado o ano letivo, na terceira série, lá estava eu no pátio em frente à St. Joseph’s. Minha nova escola. Absolutamente apavorada. Eu tinha pensado que usar uniforme fosse ajudar. Só que o problema era o trambolho que eu tinha nas costas, um colete de metal para corrigir o que chamavam de curvatura, mas que era, vamos encarar os fatos, uma corcunda. Então, eu tive que comprar uma blusa branca e uma saia xadrez de um tamanho muito maior do que o meu para poder vesti-las por cima do colete, e claro que nem passou pela cabeça da minha mãe fazer pelo menos uma bainha na saia.
Outro grande mal-entendido. Meses mais tarde, a irmã Mercedes estava encarregada de monitorar o hall. Ela era aquele tipo de freira jovem e doce que devia ter tido um caso amoroso trágico. Ele provavelmente tinha morrido na guerra, num avião bombardeiro. Quando estávamos passando por ela em fila, duas a duas, ela pôs a mão na minha corcunda e disse baixinho: “Minha querida, você tem uma cruz para carregar”. Ora, como ela poderia saber que eu tinha me transformado numa fanática religiosa àquela altura, que aquelas suas palavras inocentes só iriam confirmar a minha suspeita de estar predestinada a me unir ao Nosso Salvador?
(Ah, e as mães. Outro dia mesmo, no ônibus, uma mãe entrou com o filho pequeno. Ela obviamente trabalhava fora, tinha acabado de pegar o filho na escola maternal, estava cansada, mas feliz de vê-lo, e perguntou como tinha sido o dia dele. O menino contou a ela todas as coisas que ele havia feito. “Você é tão especial!”, ela disse e o abraçou. “Especial quer dizer que eu sou retardado!”, disse o menino. Lágrimas enormes brotaram de seus olhos e ele ficou lá sentado, com uma expressão de pânico no rosto, enquanto a mãe continuava sorrindo exatamente como eu no episódio dos passarinhos.)
Aquele dia no pátio eu tive a certeza de que nunca na vida ia conseguir me enturmar. Não falo da coisa de se adequar, mas de se enturmar. Num canto do pátio, duas meninas giravam uma corda grossa e pesada e, uma a uma, lindas meninas de bochechas rosadas saíam da fila correndo para pular sob a corda, pulavam, pulavam e saíam de novo na hora exata, depois voltavam para a fila. Vapt, vapt, ninguém perdia uma única batida. No meio do pátio havia um balanço redondo, com um assento circular que girava vertiginosa e alegremente sem nunca parar, mas crianças risonhas saltavam para subir ou descer dele sem… não só sem cair, mas sem sequer titubear. Ao meu redor no pátio, em todo canto, havia simetria, sincronia. Duas freiras, as contas do rosário estalando em uníssono, os rostos lavados se virando para cumprimentar as crianças como se fossem um só. O jogo das pedrinhas. A bola quicando no cimento com um baque seco, as doze pedrinhas voando para o alto e agarradas todas de uma vez com o giro de um pequeno pulso. Tapa, tapa, tapa, outras meninas faziam complicadas brincadeiras de bater as mãos. Era uma vez um pequeno holandês. Tapa, tapa. Fiquei circulando, não só incapaz de me enturmar, mas aparentemente invisível, o que era um misto de bênção e maldição. Fugi para a lateral do edifício, onde ouvi ruídos e risos vindos da cozinha da escola. Foi ali que me escondi do pátio; os barulhos amistosos que vinham lá de dentro me tranquilizavam. Mas eu também não podia entrar lá. Pouco depois, no entanto, ouvi gritos e brados e uma freira dizendo “Ah, eu não consigo, eu simplesmente não consigo”, e concluí que eu poderia entrar, porque o que ela não conseguia fazer era tirar os ratos mortos das ratoeiras. “Eu faço isso”, eu disse. E as freiras ficaram tão contentes que não disseram nada sobre o fato de eu estar na cozinha, embora uma delas tenha cochichado “Protestante” para a outra.
E foi assim que começou. Além disso, elas me deram um pãozinho, quente e delicioso, com manteiga. Claro que eu tinha tomado café da manhã, mas o pãozinho era tão delicioso que eu o devorei num instante e elas me deram outro. Então, todo dia, em troca de esvaziar e rearmar duas ou três ratoeiras, eu ganhava não só pãezinhos, mas também uma medalha de são Cristóvão, que eu usava mais tarde como ficha para comprar lanche. Isso me poupava do embaraço de entrar na fila, antes de a aula começar, para trocar moedas pelas medalhas que serviam como fichas para o lanche.
Por causa das minhas costas, as freiras deixavam que eu ficasse na sala durante a aula de educação física e o recreio. Era só de manhã cedo que era difícil, porque o ônibus chegava lá antes da hora em que o portão do prédio era aberto. Eu me forçava a tentar fazer amizade, a puxar conversa com meninas da minha turma, mas era inútil. Todas elas eram católicas e se conheciam desde o jardim de infância. Eram, justiça seja feita, boas meninas, meninas normais. Eu estava adiantada na escola e, portanto, era bem mais nova do que elas. Além disso, só tinha morado em campos de mineração remotos antes da guerra. Não sabia dizer coisas como “Você gosta de estudar o Congo Belga?” ou “O que você gosta de fazer no seu tempo livre?”. Chegava perto delas de repente e disparava: “O meu tio tem um olho de vidro”. Ou “Uma vez eu encontrei um urso morto com a cara cheia de larvas”. Elas me ignoravam, davam risadinhas ou diziam “Quem mente o nariz cresce!”.
Então, durante algum tempo eu tive um lugar para ir antes das aulas. Eu me sentia útil e valorizada. Mas depois comecei a ouvir as meninas sussurrarem “bolsista carente” e “protestante” quando me viam e, passado um tempo, elas começaram a me chamar de “menina da ratoeira” e “Minnie Mouse”. Eu fingia não ligar e, além do mais, adorava a cozinha, o riso suave e os murmúrios das freiras cozinheiras, que usavam batinas rústicas, parecidas com camisolas, na cozinha.
Claro que a essa altura eu tinha decidido me tornar freira, não só porque elas nunca pareciam ficar nervosas, mas principalmente por causa das batinas pretas e das toucas brancas, que pareciam enormes flores de lis brancas e engomadas. Aposto que a Igreja católica perdeu uma porção de aspirantes a freiras quando elas começaram a se vestir como guardas femininas comuns. Então, a minha mãe resolveu fazer uma visita à escola para saber como eu estava me saindo. Elas disseram que o meu desempenho nos trabalhos de classe era excelente e o meu comportamento, perfeito. A irmã Cecilia disse que elas eram muito gratas a mim na cozinha e sempre zelavam para que eu tomasse um bom café da manhã. Minha mãe, a esnobe, com aquele seu casaco velho e xexelento que tinha uma gola de raposa xexelenta cujos olhos de conta tinham caído, ficou chocada, enojada com a história dos ratos e furiosa com a medalha de são Cristóvão, porque eu continuava a receber dinheiro para o lanche todas as manhãs e o gastava com balas quando saía da escola. Ladrazinha trapaceira. Vapt, vapt. Chocada!
Então, fim da história, e foi um grande mal-entendido de todos os lados. Ao que parece, as freiras achavam que eu fazia ponto na cozinha porque era uma pobre criancinha desamparada e faminta, e só me davam a tarefa de cuidar das ratoeiras por caridade, não porque de fato precisassem de mim. O problema é que até hoje eu não sei como a falsa impressão poderia ter sido evitada. Talvez se eu tivesse recusado o pãozinho?
Foi assim que eu acabei indo matar o tempo antes das aulas na igreja e decidi realmente virar freira, ou santa. O primeiro mistério que encontrei foi que as fileiras de velas em frente a cada uma das estátuas de Jesus, Maria e José ficavam bruxuleando e tremendo como se estivessem recebendo lufadas de vento, quando na verdade a enorme igreja estava toda muito bem fechada e nenhuma de suas portas pesadas estava aberta. Concluí, então, que o espírito de Deus nas estátuas era tão forte que fazia as chamas das velas se agitarem e sibilarem, trêmulas de sofrimento. Cada pequeno pique de luz iluminava o sangue coagulado nos pés brancos e ossudos de Jesus e fazia com que ele parecesse úmido.
No início, eu ficava bem no fundo da igreja, grogue, embriagada com o cheiro de incenso. Ajoelhava e rezava. Ajoelhar era muito doloroso, por causa do problema nas minhas costas e porque o colete se encravava na coluna. Eu tinha certeza de que isso me tornava santa e servia como penitência pelos meus pecados, mas doía demais e, por fim, acabei desistindo e passei a ficar só sentada lá, na igreja escura, até o sinal da entrada tocar. Geralmente não havia ninguém na igreja além de mim, salvo nas quintas-feiras, quando o padre Anselmo ia para o confessionário e se trancava lá. Algumas senhoras, meninas dos últimos anos do colegial e, de vez em quando, uma ou outra aluna do ginásio se dirigiam até lá, parando para se ajoelhar e fazer o sinal da cruz diante do altar, depois se ajoelhando e fazendo o sinal da cruz de novo antes de entrarem pelo outro lado do confessionário. O que me intrigava era o tempo variável que elas passavam rezando depois que saíam de lá. Eu teria dado qualquer coisa no mundo para saber o que acontecia lá dentro. Não sei ao certo quanto demorou até eu conseguir reunir coragem para entrar, com o coração martelando no peito. O interior do confessionário era muito mais bonito do que eu poderia ter imaginado. Enevoado pela mirra, uma almofada de veludo para ajoelhar, uma virgem abençoada olhando para mim lá do alto com infinita piedade e compaixão. Atrás da treliça trabalhada estava o padre Anselmo, que normalmente era um homenzinho ensimesmado. Mas ele estava em silhueta, como o homem de cartola na parede de Mamie. Poderia ser qualquer um… Tyrone Power, meu pai, Deus. Sua voz não parecia nem um pouco com a do padre Anselmo; era uma voz grave, com um leve eco. Como eu não conhecia a oração que me pediu para rezar, ele recitou os versos e eu os repeti, profundamente arrependida de vos ter ofendido. Então, ele me perguntou quais eram os meus pecados. Eu não estava mentindo. Realmente não tinha nenhum pecado para confessar. Nenhum mesmo. Fiquei muito envergonhada. Não era possível que eu não conseguisse pensar em alguma coisa. Procure bem no fundo do seu coração, minha filha… Nada. Aflita, querendo desesperadamente agradar, eu inventei um pecado. Tinha batido na cabeça da minha irmã com uma escova de cabelo. Você tem ciúme da sua irmã? Tenho, tenho sim, padre. O ciúme é um pecado, minha filha, reze para ficar livre dele. Três ave-marias. Enquanto rezava, ajoelhada, eu me dei conta de que tinha recebido uma penitência curta. Da próxima vez eu me sairia melhor. Mas não haveria próxima vez. Naquele dia, a irmã Cecilia quis conversar comigo depois da aula. O fato de ela ser tão gentil tornou a coisa ainda pior. Ela entendia que eu quisesse vivenciar os sacramentos e os mistérios da Igreja. Os mistérios, sim! Mas eu era protestante e não tinha sido batizada nem crismada. Podia frequentar a escola delas, e ela era grata por isso, porque eu era uma aluna estudiosa e obediente, mas não podia tomar parte na Igreja delas. Tinha que ficar no pátio com as outras crianças.
Um pensamento terrível me passou pela cabeça e eu tirei quatro santinhos de dentro do bolso. Toda vez que a gente tirava nota máxima em leitura ou aritmética, ganhava uma estrela. Nas sextas-feiras, a aluna que tivesse mais estrelas recebia um santinho, que era parecido com um card de beisebol, só que na auréola tinha purpurina. “Eu posso ficar com os meus santinhos?”, perguntei a ela, com o coração apertado.
Claro que pode. E eu espero que você ganhe vários outros.” Ela sorriu para mim e me fez outro favor. “Você ainda pode rezar, minha querida, pedindo que Deus a guie. Vamos rezar uma ave-maria juntas.” Eu fechei os olhos e rezei com fervor para Nossa Senhora, que para mim sempre vai ter o rosto da irmã Cecilia.
Sempre que uma sirene soava lá fora, na rua, perto ou longe, a irmã Cecilia nos fazia parar o que quer que estivéssemos fazendo, deitar a cabeça nas nossas mesas e rezar uma ave-maria. Eu ainda faço isso. Rezar uma ave-maria, quero dizer. Bem, às vezes eu também deito a cabeça em mesas de madeira, para ouvi-las, porque elas de fato produzem sons, como galhos ao vento, como se ainda fossem árvores. Várias coisas andavam me intrigando muito naquela época, como o que dava vida às velas ou de onde exatamente vinha o som das mesas de madeira. Se tudo o que existe no mundo de Deus tem alma, até as mesas, já que elas têm uma voz, então deve existir um céu. Eu não podia ir para o céu, porque era protestante. Ia ter que ir para o limbo. Eu preferia ir para o inferno a ir para o limbo. Que palavra feia, limbo. Parece lombo, molambo. Um lugar sem dignidade nenhuma.
Eu disse à minha mãe que queria virar católica. Ela e meu avô tiveram um ataque. Ele queria me botar de volta na escola Vilas, mas minha mãe disse que não, que lá era cheio de mexicanos e de delinquentes juvenis. Eu disse a ela que havia muitas alunas mexicanas na St. Joseph’s, mas ela disse que elas eram de boas famílias. A gente era uma boa família? Eu não sabia. Uma coisa que eu ainda faço até hoje é espiar pelas janelas o interior de salas onde famílias estão reunidas e ficar pensando o que será que aquelas pessoas fazem, como será que elas falam umas com as outras.
Uma tarde, a irmã Cecilia e outra freira foram até a nossa casa. Eu não sei por que elas foram lá e elas não tiveram a chance de dizer. Estava tudo uma bagunça. A minha mãe chorando e Mamie, a minha avó, também. Vovô estava bêbado e avançou para cima delas, chamando-as de bruxas. No dia seguinte eu estava com medo de que a irmã Cecilia tivesse ficado zangada comigo e não me dissesse mais “Até logo, minha querida” quando me deixasse sozinha na sala durante o recreio. Mas, antes de sair, ela me deu um livro chamado Understood Betsy e disse que achava que eu ia gostar. Foi o primeiro livro de verdade que eu li, o primeiro livro pelo qual me apaixonei.
Ela elogiava os meus trabalhos na escola e comentava com as outras alunas sempre que eu recebia uma estrela ou ganhava um santinho às sextas-feiras. Eu fazia tudo para agradar-lhe, escrevia A.M.D.G.* com letras cuidadosamente desenhadas no alto de todos os trabalhos, corria para apagar o quadro-negro. A minha voz era a mais alta quando rezávamos, a minha mão era a primeira a se erguer quando ela fazia uma pergunta. Ela continuou a me dar livros para ler e, uma vez, me deu um marcador de livro de papel que dizia “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Eu mostrei o marcador para Melissa Barnes na cafeteria. Tinha posto na cabeça, tolamente, que, já que a irmã Cecilia gostava de mim, as meninas também passariam a gostar. Mas agora, em vez de rir de mim, elas me odiavam. Quando eu me levantava para responder a alguma pergunta na aula, elas sussurravam queridinha, queridinha, queridinha. Se a irmã Cecilia me escolhia para recolher as moedas e distribuir as medalhas para comprar lanche, cada uma das meninas sussurrava queridinha quando recebia a medalha de mim.
Então um dia, sem mais nem menos, a minha mãe ficou furiosa comigo porque o meu pai escrevia mais para mim do que para ela. É porque eu escrevo mais para ele. Não, é porque você é a queridinha dele. Um dia, eu cheguei tarde em casa. Tinha perdido o ônibus que passava na praça. Minha mãe apareceu no alto da escada, segurando uma carta aérea azul do meu pai numa das mãos. Com a outra, ela acendeu um fósforo na unha do polegar e queimou a carta enquanto eu corria escada acima. Aquilo sempre me assustava. Quando era pequena, eu não via o fósforo e achava que ela acendia os cigarros dela com um polegar em chamas.
Parei de falar. Não disse: agora, eu não vou mais falar. Simplesmente fui parando aos poucos e, quando sirenes passavam, eu deitava a cabeça na mesa e sussurrava a oração para mim mesma. Quando a irmã Cecilia me chamava, eu sacudia a cabeça e me sentava de novo. Parei de ganhar estrelas e santinhos. Mas já era tarde demais. Agora elas me chamavam de burralda. Um dia, a irmã Cecilia ficou na sala depois que a turma saiu para a aula de educação física. “O que há com você, minha querida? Eu posso ajudar? Por favor, fale comigo.” Eu trinquei os dentes e me recusei a olhar para ela. Ela saiu e eu fiquei lá sentada, na penumbra quente da sala de aula. Ela voltou mais tarde, com um exemplar de Beleza negra, que pousou na minha mesa. “Esse livro é maravilhoso, só que muito triste. Diga para mim, você está triste com alguma coisa?”
Eu fugi dela e do livro e corri para o pequeno vestiário de guardar casacos. Claro que não havia casaco nenhum lá, já que no Texas faz muito calor, mas sim caixas cheias de livros didáticos empoeirados, enfeites de Páscoa, enfeites de Natal. A irmã Cecilia entrou no vestiário minúsculo atrás de mim. Ela me fez virar de frente para ela e ajoelhar. “Vamos rezar”, disse.
Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus… Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Eu não consegui suportar a ternura que havia neles e me desvencilhei dela, derrubando-a sem querer no chão. A touca ficou presa num gancho de casaco e foi arrancada. Ela não tinha a cabeça raspada como as meninas diziam. Ela gritou e saiu de lá correndo.
Fui mandada para casa naquele dia mesmo, expulsa da Saint Joseph’s por agredir uma freira. Não sei como ela pode ter achado que eu seria capaz de bater nela. Não tinha sido nada disso.
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* Ad maiorem Dei gloriam (“para maior glória de Deus”), lema dos jesuítas. (N. T.)

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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