A
história que será
O
cerco afoga. Neste forte de fronteira, duas vezes queimado e
renascido, quase não resta água. Logo haverá que beber o pouco que
se mija. Tantas flechas caíram dentro que os espanhóis as usam como
lenha para cozinhar.
O
chefe dos araucanos se aproxima, a cavalo, até os pés da muralha:
– Capitão!
Me escutas?
Lorenzo
Bernal aparece lá no alto.
O
chefe indígena anuncia que rodearão a fortaleza com palha e
acenderão o fogo. Diz que não deixaram homem com vida em
Concepción.
– Que
nada! – grita Bernal.
– Renda-se,
capitão! Não tem saída!
– Que
nada! Nunca!
O
cavalo fica em pé em duas patas.
– Então,
vão morrer!
– Pois
morreremos – diz Bernal, e grita: “Mas com o tempo ganharemos a
guerra! Seremos cada vez mais!”
O
índio responde com uma gargalhada.
– Com
que mulheres? – pergunta.
– Se
não há espanholas, teremos as vossas – diz o capitão, lento,
saboreando, e acrescenta:
– E
nelas faremos filhos que serão vossos amos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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