domingo, 27 de abril de 2025

1563 – Forte de Arauco

A história que será

O cerco afoga. Neste forte de fronteira, duas vezes queimado e renascido, quase não resta água. Logo haverá que beber o pouco que se mija. Tantas flechas caíram dentro que os espanhóis as usam como lenha para cozinhar.
O chefe dos araucanos se aproxima, a cavalo, até os pés da muralha:
Capitão! Me escutas?
Lorenzo Bernal aparece lá no alto.
O chefe indígena anuncia que rodearão a fortaleza com palha e acenderão o fogo. Diz que não deixaram homem com vida em Concepción.
Que nada! – grita Bernal.
Renda-se, capitão! Não tem saída!
Que nada! Nunca!
O cavalo fica em pé em duas patas.
Então, vão morrer!
Pois morreremos – diz Bernal, e grita: “Mas com o tempo ganharemos a guerra! Seremos cada vez mais!”
O índio responde com uma gargalhada.
Com que mulheres? – pergunta.
Se não há espanholas, teremos as vossas – diz o capitão, lento, saboreando, e acrescenta:
E nelas faremos filhos que serão vossos amos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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