segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Os casos


Uma paz que vinha de tempos antigos, que nem eu nem os outros miúdos do musseque lembrávamos, mas as mães e os homens, nas portas, à noite, conversavam agora, manteve amigas e vizinhas aquelas famílias, mesmo com as conversas e confusões e as zangas e as pazes que, às vezes, pareciam estragar a vida, mas que eram afinal essa paz de longa vizinhança e amizade...
Assim falavam o mestre de barco de cabotagem, don’Ana, Sebastião Domingos Mateus, pai do Zito, até mesmo o pai do Zeca, antigo já ali no musseque. E essa paz que não sabíamos e que vinha, no cacimbo, com as manhãs orvalhadas e no calor com o sumo dos cajus em Dezembro, que voava em bandos de gungos e januários e nos rodeava no capim das primeiras chuvas, começou a ser falada com saudade e com medo na hora que, pela Ingombota acima, telhados vermelhos de casas começaram espreitar o nosso musseque com seus olhos invejosos.
Muitos papéis da Câmara tinham sido entregues nas pessoas lá para os lados do Braga e a gente soube, meses mais tarde, que o tractor veio com os serventes e deitou abaixo as casas, alisando o terreno. E as pessoas que não tinham acreditado no papel tiravam suas coisas nas cubatas, nas corridas, na hora dos serventes despregarem as chapas de zinco e, ainda quentes dos moradores, as paredes resistiam na faca do tractor, para depois, duma vez só, a máquina entrar por cima de tudo, no meio da poeirada vermelha do barro desfeito. Homens de sombrinha e óculo para espreitar punham sinais com os braços e monangambas andavam com umas tábuas riscadas. Camionetas começavam a carregar burgau e areia do Bungo. E a paz do nosso musseque, mesmo com o capim verdinho e os cajus ao sol de Janeiro, cheirava às vezes ao fumo do tractor e cobria-se de fina nuvem de poeira que o vento do Mussulo empurrava, à tarde, para cima de nós.
Nosso azar também chegou.
Foi numa manhã. De todas as famílias de nosso musseque, só o pai do Biquinho recebeu papel, estavam morar longe, para lá do imbondeiro, perto já do Braga. Sô Augusto disparatou o branco que lhe entregou o aviso, ameaçou destruir a Câmara, foi buscar o livro, mas nga Xica apareceu, pediu desculpa e meteu o homem na cubata, antes que passasse mais confusão. E quando passavam os que estavam fugir lá mais para cima, Burity, Terra Nova, com as imbambas e os monas pelo areal fora, sô Augusto vinha com o livro aberto, ameaçava:
Não saio de minha casa! Pago a renda, ninguém me tira nem com a porrada!
Ouve ainda, mano Augusto, você sabe com a Câmara é assim…
Sô Augusto crescia os olhos parecia onça e arreganhava:
E o que eu inventei? Só carrego no botão...
Nga Xica ainda andou procurar casa noutro sítio mas, cada dia que saía, ninguém que ficava para fazer o trabalho e a comida depois faltava. A gente via o tractor correr pelo capim, com os dentes amarelos a destruir tudo e avisava nga Xica: um dia ia de chegar ali e, depois, sucedia como a senhora Fefa que escapou morrer dentro da cubata.
Branco não tem coração! Chegam aí, nem que você se põe lá dentro, mana, derrubam!
Nga Xica não aceitava. Ela mesma queria se convencer, pensava ia pedir no homem do tractor, lhe deixava ficar. Estava morar muito longe das casas novas, não iam precisar a cubata dela para nada. Sá Domingas vinha, aconselhava; capitão foi ainda falar no sô Augusto para fazer um pedido no sô Laureano da Câmara, mas era difícil não lhe encontrar bêbado e ameaçador.
E o tempo correu, os cajus maduros caíram no chão e o capim começou a ficar seco. Biquinho saiu na escola, foi na oficina. Zito, com uma confusão do dinheiro do doceiro, lhe levaram na esquadra. Com as férias e muito sol, sem esses dois companheiros, nesse dia em que o tractor apareceu outra vez, amarelo e novo, correndo pelo areal, fumando o fumo preto e ameaçando com a faca bem afiada, eu, o Zeca Bunéu e o Xoxombo estávamos brincar às quigozas. Era um jogo que cansava. De tarde, sem vontade, ficámos debaixo da gajajeira falando nossas conversas.
O dia estava bonito, os bigodes do Zito cantavam na gaiola de alçapão do menino. De noite tinha caído uma chuva muito boa que molhou bem a terra vermelha, refrescou o ar e lavou os ramos dos paus que cresciam pelo capim. As flores brancas, as buganvílias, as mandioqueiras cheiravam até dentro das cubatas.
Quatro horas já passava. O sol não magoava mais e essa tarde ia ser uma calma tarde de férias mas o tractor veio logo de manhã. Com sua voz rouca, vomitando fumo estragava o vento até debaixo do pau onde estávamos. Nga Xica sentiu o barulho, veio na porta mas depois, vendo-lhe lá muito longe, voltou para dentro fazer o matete do Biquinho. E só quando o filho saiu embora foi acordar sô Augusto que estava dormir na esteira.
O tractor veio...
E depois? Tenho nada com isso?
Ai homê, não fala assim só. Você não percebe vem para nos correr?
Sô Augusto bocejou e virou no outro lado. Nga Xica, com aquele pressentimento no coração, saiu e foi aconselhar com suas vizinhas. Sá Domingas achou o melhor era ir mesmo falar com o homem do tractor para saber a verdade.
P’ra quê você tem um homem, mana? P’ra quê então? Ala chiça! Ele é que vai falar no branco!
E quando nga Xica saiu mais confortada, caminho de casa, Xoxombo, que espreitou a conversa, veio nos avisar; mas nessa manhã nada que sucedeu. O tractor estava ainda trabalhar longe, lá em cima, nos cajueiros grandes e só o barulho e o fumo dele é que chegavam dentro da cubata.
Onze horas já sô Augusto saiu sem falar na mulher e nga Xica, o coração apertado, ficou na porta ora olhando o homem afastar pelo capim ora espreitando a máquina amarela a rugir lá em cima contra os troncos dos cajueiros velhos. Mas só mesmo depois das quatro horas é que sucedeu. O tractor virou para baixo, caminho do Makulusu, e veio com depressa, correndo por cima da areia e do capim, engolindo os quinjongos, espantando os catetes. A faca, na frente, afiada, brilhava no sol. Nga Xica estava na porta, pequeno descanso depois da selha, e o barulho do motor adiantou nas suas orelhas. A mãe de Biquinho levantou e o vento encostou no seu corpo de miúda magrinha o barulho da máquina.
Aiuê Ngana Zambi’ê! Chegou a hora!...
Nem que fechou a porta, apanhou o papel que o branco tinha trazido muito tempo e começou a correr, chorando e gritando:
Nakuetu’ê! Vizinhos, acudam! Minha desgraça!
Xoxombo e Zeca foram os primeiros a ouvir. O Antoninho desceu da gajajeira e nos avisou:
Mãe do Biquinho vem aí com as corridas!
Quando nga Xica chegou na cubata do capitão já don’Ana, a mãe do Zito, dona Branca e os meninos estavam a lhe esperar.
Aiuê, lamba diami! O tractor está a vir mesmo.
Deixa ainda, Xica! Calma!
Não posso, não posso, mana! Como vou fazer então? Ninguém p’ra me ajudar.
A mãe do Biquinho abanava a cabeça para todos os lados e dos olhos usados as lágrimas corriam. Sá Domingas entrou em casa dela, calçou suas sandálias, e com Carmindinha e Tunica disse nas vizinhas:
Quem quiser vem nos ajudar. Se Bento estava, ele ia falar no branco, talvez o homem aceita esperar...
É melhor mesmo!
Com os miúdos atrás gabando o tractor e nga Xica no meio já com as lágrimas caladas, o grupo partiu pelo carreiro no meio do capim, debaixo dos olhares de dona Branca, na porta com seu marido, mestre sapateiro, dizendo:
Deixa lá! Não temos nada com isso!
Ó homem, mas a desgraçada vai ser posta na rua. Podias ir lá falar...
Já foram avisados há muito tempo!
Quando chegaram, o tractorista já tinha descido do tractor. A máquina, calada agora, olhava de frente a cubata, a faca no chão, e um monangamba despejava gasóleo no depósito. Os meninos adiantaram correr e nga Xica avançou para a cubata. O tractorista andava dentro da casa, ouvia-se a voz dele a chamar:
Não há ninguém em casa? Raça de negros!…
Sá Domingas adiantou com a vizinha e chocaram com um homem baixo e gordo, na saída da porta. Nga Xica insultou:
Xê, ngueta! Então o senhor entra assim na casa do outro, sem pedir licença nem nada?!
Não há direito, abusar assim as pessoas! — don’Ana levantou o punho na direcção dele.
Agarrado assim, o homem olhou o grupo de mulheres paradas, outras com os monas pela mão e, depois, mudando de conversa, falou bem:
Não tenho culpa. Bati, não estava ninguém...
E entrou logo assim, não é? Na casa leia?
Está bem, já acabou. Quem é o dono?
Nga Xica adiantou.
O teu homem?
Não está.
Não receberam um papel a avisar para ir embora até ao fim do mês?
Recebemos. Mas a gente não encontrámos cubata para mudar.
O tractorista sorriu.
Chiça! Em três meses não encontraram cubata? Queriam um palácio?
Verdade, senhor! — meteu don’Ana. — A gente lhe ajudámos a procurar.
Cala a boca! É tudo uma cambada de aldrabões.
Sá Domingas, don’Ana e a mãe de Zito ainda insistiram, o homem não aceitou. Refilou que tinha ordens, a Câmara tinha avisado e agora mesmo ia deitar a cubata abaixo. Um murmúrio de protesto se levantou do grupo da gente reunida, ganhou força, aumentou e algumas vozes insultaram:
Ngueta da tuji!
Cangundo ordinário!
Saindo no meio das amigas, nga Xica correu para casa e pôs o seu corpo magro a tapar a porta. Batido pelo vento, o vestido parecia uma bandeira.
Você, seu cangundo, estás a fazer pouco porque são as mulheres, não é? Senão te rebentávamos as fuças!
Pena o homem dela não estar! Escolheu mesmo a hora!...
O tractorista surpreso olhava as mulheres zangadas, a mãe do Biquinho na porta com a vassoura e os serventes, escondidos atrás do tractor, riam os casos em quimbundo.
Mandou:
Dou meia hora, se quiserem tirar as imbambas. Depois disso, faço o que me mandaram. A cubata já devia estar vazia!
Então vem cá, vem cá, cangundo! Te rebento-te as fuças!
Nga Xica nem parecia a senhora que a gente conhecia. Todas as veias do pescoço e dos braços se viam debaixo da pele e a vassoura fazia voltas de ameaça. As mulheres murmuravam, umas insultando, outras pedindo o favor de deixar ficar uns dias até arranjar outra casa. O tractorista, todo suado, olhava ora umas ora outras, mas não queria aceitar. Só quando a mãe do Biquinho, sem pensar mais nada, a gritar parecia era maluca, lhe pôs vassourada é que ele fez qualquer coisa. Agarrou-lhe na cintura e começou lutar para tirar a vassoura. Don’Ana e as outras amigas correram, os miúdos começaram a uatobar, os serventes rindo a bater as palmas e o tractorista, num minuto, estava cercado por um grupo ameaçador de mãos fechadas e bocas gritando. Berrou por cima do barulho todo, empurrou as mulheres uma a uma e depois falou, tentando convencer:
Não tenho a culpa do que se passa! Porra! Fui mandado! Tenho que deitar abaixo a cubata hoje, amanhã vem o Presidente para ver o terreno. Merda!... Tirem as imbambas da cubata senão eu deito abaixo assim mesmo!
Nga Xica se atirou no chão a chorar de raiva, batendo mãos e pés na areia, insultando sô Augusto.
P’ra quê uma mulher tem homem? P’ra quê? Só para dormir na cama e fazer filhos? Bêbado, vadio!
As vizinhas lhe ajudaram a levantar e sacudiram a poeira da infeliz, lhe empurravam para a cubata. Os soluços e as lamentações chegavam cá fora e nem os serventes mesmo estavam rir mais. A gente viu o tractorista falar zangado as asneiras e andar para cima da máquina nos dando berrida, gritando parecia a gente ia-lhe comer no tractor. Pôs o motor a trabalhar, enchendo o ar com o cheiro podre do fumo preto, e as vizinhas e as meninas adiantaram trazer para fora as mobílias da família do Biquinho. A gente corremos também para lhes ajudar e todo o mundo, parecia era formigas, começou a trabalhar.
Fazia pena ver assim tudo atirado no chão de areia, aquelas coisas a gente conhecia, cada qual no seu sítio dentro da casa, bem arrumadas. Agora ali, no sol da tarde, tudo parecia era porcaria, lixo. Na sombra da casa, na arrumação de nga Xica, esses objectos falavam na gente. O moringue dizia água fresquinha, a caneca falava quicuerra, as quindas farinha fina, farinha musseque... Posto tudo assim no chão, à toa, com depressa, para salvar, parecia mas é uma dixita.
As esteiras onde que estava nga Xica e sô Augusto, a cama de ferro do Biquinho, velha e enferrujada, onde a gente tantas vezes pelejava, parecia era sucata. No lençol branco, os percevejos começavam passear assustados no sol e no barulho. As cadeiras sem o verniz muito tempo, a mesa com suas nódoas da comida saíam, e nga Xica e as vizinhas carregaram a sanga e a pedra, o fogareiro, os luandos, as panelas, os balaios...
Ficámos muito tristes a ver as coisas assim, a mala de madeira do Biquinho onde depois don’Ana veio meter a saca da escola, a pedra e o livro da segunda. O tractorista com mais respeito agora parecia, o motor estava calado e os serventes adiantaram ajudar a retirar tudo da cubata. Nga Xica veio com aquele velho quadro do Sagrado Coração de Jesus e outro, aquele que o Biquinho fez com o retrato do Presidente Carmona, e atirou-lhes também no monte.
Eram mais de cinco horas, o sol já não queimava nada e algumas lavadeiras e outras pessoas que adiantaram sair nos serviços começavam já passar, parando para perguntar, saindo depois a lamentar a sorte da vida.
Quando tudo estava já cá fora estendido no areal, os serventes adiantaram então tirar as portas e janelas. Nga Xica desatou a chorar. A cubata olhava as pessoas parecia tinha pena também. Ali tinha nascido Biquinho, ali tinha vivido tanto tempo, não acreditava ia sair naquela hora. As paredes vazias mostravam o sítio dos quadros, o sujo das moscas, os pregos espetados, as manchas de água da chuva. E depois, quando os serventes tiraram as chapas de zinco, ficaram de repente feias, todas nuas e velhas no sol sem telhado.
Ficámos todos calados. Podia se ouvir o vento nos paus, pássaros voando baixo, vozes de outra gente longe, o respirar suado dos monangambas a arrancar os zincos e o barulho das chapas a cair na areia. As amigas de nga Xica e as meninas mais velhas tinham sentado nas coisas espalhadas no chão, pensativas e tristes, e a mãe do Biquinho chorava um choro silencioso, só lágrimas.
Pronto! Agora é que vai! Fujam, que podem apanhar com algum bocado!
O tractorista estragou assim aquele silêncio e a voz grossa dele ficou parecia corvo a ameaçar desgraça. O tractor gritou alto, cuspindo fumo e rapidamente, com a faca bem afiada onde o sol batia, a máquina correu para a cubata e encostou-lhe, gemendo e bufando. Sentiam-se as paredes a resistir, o barro vermelho e as canas de mãos dadas a aguentar, gemendo baixinho, mas, depois, tudo era só um grande barulho e bocados de barro e canas e poeira vermelha subindo no ar, com o vento do mar a enxotar para longe e a máquina amarela a correr maluca com o tractorista a tossir. A casa onde que tinha nascido Biquinho, o nosso silencioso companheiro, era só restos de paredes meio caídas que, com pequenos golpes da faca do tractor, caíam sem força já para ficar ainda de pé a falar uma vitória que não podiam ter.
As mães e as meninas, que tinham fugido, vieram a correr outra vez, para sacudir o pó das imbambas e afastar para o tractor acabar o trabalho. Os meninos, admirados, miravam com os olhos bem abertos a máquina feiticeira, alisando o chão, fazendo desaparecer tudo na frente dela, nada que podia resistir, era dona.
Nga Xica, sá Domingas, a mãe do Zito e as outras vizinhas começaram arrumar tudo para levar no Bairro Operário. A mãe do Biquinho ia lá para cima onde que estava viver a irmã, na cubata dela ainda tinha lugar e nga Xica ia pedir, naquela hora de pouca sorte, para deixar viver os três num quarto. O melhor era mesmo para o Biquinho, o trabalho ia ficar mais perto, era só descer as barrocas e já estava na oficina da Boavista.
E agora, mana, para levar as mobílias, como vai fazer?
Não sei nada! Espero Augusto. Poça! Esse homem tem que resolver!
Sukuama! Se você fica esperar aquele bêbado, vai dormir com as coisas mesmo aqui. O melhor é a gente adiantar pedir no branco do tractor...
Ih!? Não aceita!
Com jeito a gente pede. A carrinha dele está lá, debaixo do cajueiro. Lhe vejo daqui.
Pede você, mana! Eu não posso mais. Minha raiva é muito grande. Se lhe apanho naquele bêbado…
Sá Domingas puxou seu pano no ombro e andou para o pau onde o tractorista estava já com o tractor parado, limpando as mãos.
O que é, mais reclamações?!
Não é! O senhor ouve ainda. Esta minha amiga, marido dela é doente. O senhor sabe as coisas estão pesadas para a pobre levar, é sozinha...
E depois?
Se o senhor fazia o favor podia-lhe levar nas coisas pesadas na carrinha, era um grande favor...
O tractorista olhou espantado sá Domingas.
Homessa! Você é maluca ou quê? A carrinha é da Câmara!
Ficou um tempo a pensar, olhando a mãe do Xoxombo, as outras mulheres, as imbambas espalhadas pelo areal. Os olhos de toda a gente estavam postos na boca dele. Percebeu a espera e, sem falar uma palavra, afastou-se muito devagar para o cajueiro e veio depois com a carrinha.
Eh! João e Toko! Carreguem as imbambas na carrinha, depressa!
As mulheres agradeceram com muitas palavras e nga Xica veio ainda desculpar a vassoura, mas sabe o marido é doente, o filho está embora a trabalhar na oficina e como é que uma pobre ia fazer então?
Tá bem, ’tá bem, já conheço essa conversa...
Com a carrinha carregada, toda a gente despediu de nga Xica desejando felicidades, prometendo avisar Biquinho e sô Augusto e também dona Guilhermina por causa dos doces. A mãe do nosso amigo estava para subir na carroçaria mas o homem do tractor aí mandou-lhe mesmo na frente. A carrinha arrancou, no meio dos gritos e adeus e a gente aproveitávamos para quigozar um bocado.
Ai, mana! — dizia sá Domingas para don’Ana, areal abaixo, caminho das cubatas. — Alguns brancos ainda são bons. Se não fosse ele, a pobre ia dormir ali!
Don’Ana não aceitava, falava se fossem bons não mandavam mesmo partir as cubatas sem dar outras, mas as amigas desviavam e atacavam sô Augusto:
Culpa é do homem dela! Lhe avisaram com tempo.
A coitada não tem a culpa, é verdade.
E o sol caía no fim da tarde, muita gente regressando em suas casas, cruzando os caminhos de todos os dias, admirados de não encontrarem mais aquela cubata ali, perguntando saber o que passava. Com muitos gestos, imitando o tractor, Zeca Bunéu contava a confusão. O Xoxombo ajudava e as pessoas seguiam pelos carreiros acima, falando ou pensando sozinhas nesta vida. Ainda naquela hora da manhã, quando iam para baixo, bem que viram a mulher na porta, raspando a língua, e agora? Nem o sítio da casa estava lá. Só uma mancha mais vermelha que o resto do caminho, canas partidas e torrões de barro seco.
Ali ficámos sentados, conversando o assunto, brincando no tractor que um servente estava tomar conta. Sá Domingas nos tinha pedido para avisar no Biquinho quando ele voltasse no serviço ou falar no sô Augusto. Era noite quase quando o nosso silencioso companheiro apareceu. Não foi preciso a gente lhe contar nada: ele nos afastou, andou em cima dos torrões e do sítio do quarto dele, ficou ali parado muito tempo. Depois, bem de frente, cuspiu no tractor, insultou-lhe com todas as asneiras que a gente sabia e começou chorar baixinho sem falar para ninguém. Só o Xoxombo é que adiantou, mais tarde:
Vai ainda, Biquinho! Tua mãe foi na casa da mamã Lolota, no Bairro Operário.
Mas o Biquinho não aceitou. Se sentou no chão, deixou de chorar e começou falar na gente, a cubata, o tractor, o aviso.
Bem que disse no meu pai para adiantar procurar casa...
Mais satisfeitos com esta conversa, sentíamos a noite sair e só as palavras se ouviam porque a lua ainda não tinha nascido e Biquinho contou para nós o patrão lhe dera aumento, estava gostar muito ser electricista e ia pedir no pai o livro dele para estudar mais.
Mas como então, Biquinho?! Se você sabe ler pouco ainda.
Pois é, Zeca! Mas assim aprendo a ler e a electricidade!
Mais tarde, pelo caminho do imbondeiro que sai na quitanda do Rascão, a gente adiantou ouvir uma voz conhecida falando as máquinas de destruir casas e cantigas de ameaças, soubemos porquê o Biquinho não tinha aceitado ir embora. O nosso companheiro estava à espera do pai e pediu para irmos nas nossas casas.
Xoxombo despediu, prometendo ir com o Zeca Bunéu brincar no domingo, mas Biquinho não aceitou:
Deixa, Xoxombo! Agora eu vou morar muito longe... e no domingo quero estudar.
De mão dada com Xoxombo, e Zeca Bunéu a assobiar para assustar o medo, viemos para nossas casas, pelo alto capim fora. Quando passámos no imbondeiro, a lua já estava nascer atrás do Tanque d’Água. Olhámos no sítio da cubata do Biquinho. De lá, o tractor amarelo estava nos mirar, debaixo da sua lona. O servente que tomava conta já tinha acendido uma fogueira para cozinhar o jantar. E na luz branca da lua que nascia e do fogo da fogueira, a gente viu o Biquinho ainda sentado no chão e sô Augusto de pé, em cima dos bocados de barro duro espetado de canas, o livro numa mão e a outra apontando ameaçadora pelo areal abaixo.
Pópilas, Zeca! Mira só! — disse o Xoxombo. — Parece mesmo aqueles homens que andam falar a chegada do castigo do Céu, que estão lá na Bíblia!
Senti o Zeca Bunéu encostar-se mais a mim e, a assobiar, os três viemos para casa muito calados.

José Luandino Vieira, in Nosso Mussuque

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