Uma
paz que vinha de tempos antigos, que nem eu nem os outros miúdos do
musseque lembrávamos, mas as mães e os homens, nas portas, à
noite, conversavam agora, manteve amigas e vizinhas aquelas famílias,
mesmo com as conversas e confusões e as zangas e as pazes que, às
vezes, pareciam estragar a vida, mas que eram afinal essa paz de
longa vizinhança e amizade...
Assim
falavam o mestre de barco de cabotagem, don’Ana, Sebastião
Domingos Mateus, pai do Zito, até mesmo o pai do Zeca, antigo já
ali no musseque. E essa paz que não sabíamos e que vinha, no
cacimbo, com as manhãs orvalhadas e no calor com o sumo dos cajus em
Dezembro, que voava em bandos de gungos e januários e nos rodeava no
capim das primeiras chuvas, começou a ser falada com saudade e com
medo na hora que, pela Ingombota acima, telhados vermelhos de casas
começaram espreitar o nosso musseque com seus olhos invejosos.
Muitos
papéis da Câmara tinham sido entregues nas pessoas lá para os
lados do Braga e a gente soube, meses mais tarde, que o tractor veio
com os serventes e deitou abaixo as casas, alisando o terreno. E as
pessoas que não tinham acreditado no papel tiravam suas coisas nas
cubatas, nas corridas, na hora dos serventes despregarem as chapas de
zinco e, ainda quentes dos moradores, as paredes resistiam na faca do
tractor, para depois, duma vez só, a máquina entrar por cima de
tudo, no meio da poeirada vermelha do barro desfeito. Homens de
sombrinha e óculo para espreitar punham sinais com os braços e
monangambas andavam com umas tábuas riscadas. Camionetas começavam
a carregar burgau e areia do Bungo. E a paz do nosso musseque, mesmo
com o capim verdinho e os cajus ao sol de Janeiro, cheirava às vezes
ao fumo do tractor e cobria-se de fina nuvem de poeira que o vento do
Mussulo empurrava, à tarde, para cima de nós.
Nosso
azar também chegou.
Foi
numa manhã. De todas as famílias de nosso musseque, só o pai do
Biquinho recebeu papel, estavam morar longe, para lá do imbondeiro,
perto já do Braga. Sô Augusto disparatou o branco que lhe entregou
o aviso, ameaçou destruir a Câmara, foi buscar o livro, mas nga
Xica apareceu, pediu desculpa e meteu o homem na cubata, antes que
passasse mais confusão. E quando passavam os que estavam fugir lá
mais para cima, Burity, Terra Nova, com as imbambas e os monas pelo
areal fora, sô Augusto vinha com o livro aberto, ameaçava:
— Não
saio de minha casa! Pago a renda, ninguém me tira nem com a porrada!
— Ouve
ainda, mano Augusto, você sabe com a Câmara é assim…
Sô
Augusto crescia os olhos parecia onça e arreganhava:
— E
o que eu inventei? Só carrego no botão...
Nga
Xica ainda andou procurar casa noutro sítio mas, cada dia que saía,
ninguém que ficava para fazer o trabalho e a comida depois faltava.
A gente via o tractor correr pelo capim, com os dentes amarelos a
destruir tudo e avisava nga Xica: um dia ia de chegar ali e, depois,
sucedia como a senhora Fefa que escapou morrer dentro da cubata.
— Branco
não tem coração! Chegam aí, nem que você se põe lá dentro,
mana, derrubam!
Nga
Xica não aceitava. Ela mesma queria se convencer, pensava ia pedir
no homem do tractor, lhe deixava ficar. Estava morar muito longe das
casas novas, não iam precisar a cubata dela para nada. Sá Domingas
vinha, aconselhava; capitão foi ainda falar no sô Augusto para
fazer um pedido no sô Laureano da Câmara, mas era difícil não lhe
encontrar bêbado e ameaçador.
E
o tempo correu, os cajus maduros caíram no chão e o capim começou
a ficar seco. Biquinho saiu na escola, foi na oficina. Zito, com uma
confusão do dinheiro do doceiro, lhe levaram na esquadra. Com as
férias e muito sol, sem esses dois companheiros, nesse dia em que o
tractor apareceu outra vez, amarelo e novo, correndo pelo areal,
fumando o fumo preto e ameaçando com a faca bem afiada, eu, o Zeca
Bunéu e o Xoxombo estávamos brincar às quigozas. Era um jogo que
cansava. De tarde, sem vontade, ficámos debaixo da gajajeira falando
nossas conversas.
O
dia estava bonito, os bigodes do Zito cantavam na gaiola de alçapão
do menino. De noite tinha caído uma chuva muito boa que molhou bem a
terra vermelha, refrescou o ar e lavou os ramos dos paus que cresciam
pelo capim. As flores brancas, as buganvílias, as mandioqueiras
cheiravam até dentro das cubatas.
Quatro
horas já passava. O sol não magoava mais e essa tarde ia ser uma
calma tarde de férias mas o tractor veio logo de manhã. Com sua voz
rouca, vomitando fumo estragava o vento até debaixo do pau onde
estávamos. Nga Xica sentiu o barulho, veio na porta mas depois,
vendo-lhe lá muito longe, voltou para dentro fazer o matete do
Biquinho. E só quando o filho saiu embora foi acordar sô Augusto
que estava dormir na esteira.
— O
tractor veio...
— E
depois? Tenho nada com isso?
— Ai
homê, não fala assim só. Você não percebe vem para nos correr?
Sô
Augusto bocejou e virou no outro lado. Nga Xica, com aquele
pressentimento no coração, saiu e foi aconselhar com suas vizinhas.
Sá Domingas achou o melhor era ir mesmo falar com o homem do tractor
para saber a verdade.
— P’ra
quê você tem um homem, mana? P’ra quê então? Ala chiça! Ele é
que vai falar no branco!
E
quando nga Xica saiu mais confortada, caminho de casa, Xoxombo, que
espreitou a conversa, veio nos avisar; mas nessa manhã nada que
sucedeu. O tractor estava ainda trabalhar longe, lá em cima, nos
cajueiros grandes e só o barulho e o fumo dele é que chegavam
dentro da cubata.
Onze
horas já sô Augusto saiu sem falar na mulher e nga Xica, o coração
apertado, ficou na porta ora olhando o homem afastar pelo capim ora
espreitando a máquina amarela a rugir lá em cima contra os troncos
dos cajueiros velhos. Mas só mesmo depois das quatro horas é que
sucedeu. O tractor virou para baixo, caminho do Makulusu, e veio com
depressa, correndo por cima da areia e do capim, engolindo os
quinjongos, espantando os catetes. A faca, na frente, afiada,
brilhava no sol. Nga Xica estava na porta, pequeno descanso depois da
selha, e o barulho do motor adiantou nas suas orelhas. A mãe de
Biquinho levantou e o vento encostou no seu corpo de miúda magrinha
o barulho da máquina.
— Aiuê
Ngana Zambi’ê! Chegou a hora!...
Nem
que fechou a porta, apanhou o papel que o branco tinha trazido muito
tempo e começou a correr, chorando e gritando:
— Nakuetu’ê!
Vizinhos, acudam! Minha desgraça!
Xoxombo
e Zeca foram os primeiros a ouvir. O Antoninho desceu da gajajeira e
nos avisou:
— Mãe
do Biquinho vem aí com as corridas!
Quando
nga Xica chegou na cubata do capitão já don’Ana, a mãe do Zito,
dona Branca e os meninos estavam a lhe esperar.
— Aiuê,
lamba diami! O tractor está a vir mesmo.
— Deixa
ainda, Xica! Calma!
— Não
posso, não posso, mana! Como vou fazer então? Ninguém p’ra me
ajudar.
A
mãe do Biquinho abanava a cabeça para todos os lados e dos olhos
usados as lágrimas corriam. Sá Domingas entrou em casa dela, calçou
suas sandálias, e com Carmindinha e Tunica disse nas vizinhas:
— Quem
quiser vem nos ajudar. Se Bento estava, ele ia falar no branco,
talvez o homem aceita esperar...
— É
melhor mesmo!
Com
os miúdos atrás gabando o tractor e nga Xica no meio já com as
lágrimas caladas, o grupo partiu pelo carreiro no meio do capim,
debaixo dos olhares de dona Branca, na porta com seu marido, mestre
sapateiro, dizendo:
— Deixa
lá! Não temos nada com isso!
— Ó
homem, mas a desgraçada vai ser posta na rua. Podias ir lá falar...
— Já
foram avisados há muito tempo!
Quando
chegaram, o tractorista já tinha descido do tractor. A máquina,
calada agora, olhava de frente a cubata, a faca no chão, e um
monangamba despejava gasóleo no depósito. Os meninos adiantaram
correr e nga Xica avançou para a cubata. O tractorista andava dentro
da casa, ouvia-se a voz dele a chamar:
— Não
há ninguém em casa? Raça de negros!…
Sá
Domingas adiantou com a vizinha e chocaram com um homem baixo e
gordo, na saída da porta. Nga Xica insultou:
— Xê,
ngueta! Então o senhor entra assim na casa do outro, sem pedir
licença nem nada?!
— Não
há direito, abusar assim as pessoas! — don’Ana levantou o punho
na direcção dele.
Agarrado
assim, o homem olhou o grupo de mulheres paradas, outras com os monas
pela mão e, depois, mudando de conversa, falou bem:
— Não
tenho culpa. Bati, não estava ninguém...
— E
entrou logo assim, não é? Na casa leia?
— Está
bem, já acabou. Quem é o dono?
Nga
Xica adiantou.
— O
teu homem?
— Não
está.
— Não
receberam um papel a avisar para ir embora até ao fim do mês?
— Recebemos.
Mas a gente não encontrámos cubata para mudar.
O
tractorista sorriu.
— Chiça!
Em três meses não encontraram cubata? Queriam um palácio?
— Verdade,
senhor! — meteu don’Ana. — A gente lhe ajudámos a procurar.
— Cala
a boca! É tudo uma cambada de aldrabões.
Sá
Domingas, don’Ana e a mãe de Zito ainda insistiram, o homem não
aceitou. Refilou que tinha ordens, a Câmara tinha avisado e agora
mesmo ia deitar a cubata abaixo. Um murmúrio de protesto se levantou
do grupo da gente reunida, ganhou força, aumentou e algumas vozes
insultaram:
— Ngueta
da tuji!
— Cangundo
ordinário!
Saindo
no meio das amigas, nga Xica correu para casa e pôs o seu corpo
magro a tapar a porta. Batido pelo vento, o vestido parecia uma
bandeira.
— Você,
seu cangundo, estás a fazer pouco porque são as mulheres, não é?
Senão te rebentávamos as fuças!
— Pena
o homem dela não estar! Escolheu mesmo a hora!...
O
tractorista surpreso olhava as mulheres zangadas, a mãe do Biquinho
na porta com a vassoura e os serventes, escondidos atrás do tractor,
riam os casos em quimbundo.
Mandou:
— Dou
meia hora, se quiserem tirar as imbambas. Depois disso, faço o que
me mandaram. A cubata já devia estar vazia!
— Então
vem cá, vem cá, cangundo! Te rebento-te as fuças!
Nga
Xica nem parecia a senhora que a gente conhecia. Todas as veias do
pescoço e dos braços se viam debaixo da pele e a vassoura fazia
voltas de ameaça. As mulheres murmuravam, umas insultando, outras
pedindo o favor de deixar ficar uns dias até arranjar outra casa. O
tractorista, todo suado, olhava ora umas ora outras, mas não queria
aceitar. Só quando a mãe do Biquinho, sem pensar mais nada, a
gritar parecia era maluca, lhe pôs vassourada é que ele fez
qualquer coisa. Agarrou-lhe na cintura e começou lutar para tirar a
vassoura. Don’Ana e as outras amigas correram, os miúdos começaram
a uatobar, os serventes rindo a bater as palmas e o tractorista, num
minuto, estava cercado por um grupo ameaçador de mãos fechadas e
bocas gritando. Berrou por cima do barulho todo, empurrou as mulheres
uma a uma e depois falou, tentando convencer:
— Não
tenho a culpa do que se passa! Porra! Fui mandado! Tenho que deitar
abaixo a cubata hoje, amanhã vem o Presidente para ver o terreno.
Merda!... Tirem as imbambas da cubata senão eu deito abaixo assim
mesmo!
Nga
Xica se atirou no chão a chorar de raiva, batendo mãos e pés na
areia, insultando sô Augusto.
— P’ra
quê uma mulher tem homem? P’ra quê? Só para dormir na cama e
fazer filhos? Bêbado, vadio!
As
vizinhas lhe ajudaram a levantar e sacudiram a poeira da infeliz, lhe
empurravam para a cubata. Os soluços e as lamentações chegavam cá
fora e nem os serventes mesmo estavam rir mais. A gente viu o
tractorista falar zangado as asneiras e andar para cima da máquina
nos dando berrida, gritando parecia a gente ia-lhe comer no tractor.
Pôs o motor a trabalhar, enchendo o ar com o cheiro podre do fumo
preto, e as vizinhas e as meninas adiantaram trazer para fora as
mobílias da família do Biquinho. A gente corremos também para lhes
ajudar e todo o mundo, parecia era formigas, começou a trabalhar.
Fazia
pena ver assim tudo atirado no chão de areia, aquelas coisas a gente
conhecia, cada qual no seu sítio dentro da casa, bem arrumadas.
Agora ali, no sol da tarde, tudo parecia era porcaria, lixo. Na
sombra da casa, na arrumação de nga Xica, esses objectos falavam na
gente. O moringue dizia água fresquinha, a caneca falava quicuerra,
as quindas farinha fina, farinha musseque... Posto tudo assim no
chão, à toa, com depressa, para salvar, parecia mas é uma dixita.
As
esteiras onde que estava nga Xica e sô Augusto, a cama de ferro do
Biquinho, velha e enferrujada, onde a gente tantas vezes pelejava,
parecia era sucata. No lençol branco, os percevejos começavam
passear assustados no sol e no barulho. As cadeiras sem o verniz
muito tempo, a mesa com suas nódoas da comida saíam, e nga Xica e
as vizinhas carregaram a sanga e a pedra, o fogareiro, os luandos, as
panelas, os balaios...
Ficámos
muito tristes a ver as coisas assim, a mala de madeira do Biquinho
onde depois don’Ana veio meter a saca da escola, a pedra e o livro
da segunda. O tractorista com mais respeito agora parecia, o motor
estava calado e os serventes adiantaram ajudar a retirar tudo da
cubata. Nga Xica veio com aquele velho quadro do Sagrado Coração de
Jesus e outro, aquele que o Biquinho fez com o retrato do Presidente
Carmona, e atirou-lhes também no monte.
Eram
mais de cinco horas, o sol já não queimava nada e algumas
lavadeiras e outras pessoas que adiantaram sair nos serviços
começavam já passar, parando para perguntar, saindo depois a
lamentar a sorte da vida.
Quando
tudo estava já cá fora estendido no areal, os serventes adiantaram
então tirar as portas e janelas. Nga Xica desatou a chorar. A cubata
olhava as pessoas parecia tinha pena também. Ali tinha nascido
Biquinho, ali tinha vivido tanto tempo, não acreditava ia sair
naquela hora. As paredes vazias mostravam o sítio dos quadros, o
sujo das moscas, os pregos espetados, as manchas de água da chuva. E
depois, quando os serventes tiraram as chapas de zinco, ficaram de
repente feias, todas nuas e velhas no sol sem telhado.
Ficámos
todos calados. Podia se ouvir o vento nos paus, pássaros voando
baixo, vozes de outra gente longe, o respirar suado dos monangambas a
arrancar os zincos e o barulho das chapas a cair na areia. As amigas
de nga Xica e as meninas mais velhas tinham sentado nas coisas
espalhadas no chão, pensativas e tristes, e a mãe do Biquinho
chorava um choro silencioso, só lágrimas.
— Pronto!
Agora é que vai! Fujam, que podem apanhar com algum bocado!
O
tractorista estragou assim aquele silêncio e a voz grossa dele ficou
parecia corvo a ameaçar desgraça. O tractor gritou alto, cuspindo
fumo e rapidamente, com a faca bem afiada onde o sol batia, a máquina
correu para a cubata e encostou-lhe, gemendo e bufando. Sentiam-se as
paredes a resistir, o barro vermelho e as canas de mãos dadas a
aguentar, gemendo baixinho, mas, depois, tudo era só um grande
barulho e bocados de barro e canas e poeira vermelha subindo no ar,
com o vento do mar a enxotar para longe e a máquina amarela a correr
maluca com o tractorista a tossir. A casa onde que tinha nascido
Biquinho, o nosso silencioso companheiro, era só restos de paredes
meio caídas que, com pequenos golpes da faca do tractor, caíam sem
força já para ficar ainda de pé a falar uma vitória que não
podiam ter.
As
mães e as meninas, que tinham fugido, vieram a correr outra vez,
para sacudir o pó das imbambas e afastar para o tractor acabar o
trabalho. Os meninos, admirados, miravam com os olhos bem abertos a
máquina feiticeira, alisando o chão, fazendo desaparecer tudo na
frente dela, nada que podia resistir, era dona.
Nga
Xica, sá Domingas, a mãe do Zito e as outras vizinhas começaram
arrumar tudo para levar no Bairro Operário. A mãe do Biquinho ia lá
para cima onde que estava viver a irmã, na cubata dela ainda tinha
lugar e nga Xica ia pedir, naquela hora de pouca sorte, para deixar
viver os três num quarto. O melhor era mesmo para o Biquinho, o
trabalho ia ficar mais perto, era só descer as barrocas e já estava
na oficina da Boavista.
— E
agora, mana, para levar as mobílias, como vai fazer?
— Não
sei nada! Espero Augusto. Poça! Esse homem tem que resolver!
— Sukuama!
Se você fica esperar aquele bêbado, vai dormir com as coisas mesmo
aqui. O melhor é a gente adiantar pedir no branco do tractor...
— Ih!?
Não aceita!
— Com
jeito a gente pede. A carrinha dele está lá, debaixo do cajueiro.
Lhe vejo daqui.
— Pede
você, mana! Eu não posso mais. Minha raiva é muito grande. Se lhe
apanho naquele bêbado…
Sá
Domingas puxou seu pano no ombro e andou para o pau onde o
tractorista estava já com o tractor parado, limpando as mãos.
— O
que é, mais reclamações?!
— Não
é! O senhor ouve ainda. Esta minha amiga, marido dela é doente. O
senhor sabe as coisas estão pesadas para a pobre levar, é
sozinha...
— E
depois?
— Se
o senhor fazia o favor podia-lhe levar nas coisas pesadas na
carrinha, era um grande favor...
O
tractorista olhou espantado sá Domingas.
— Homessa!
Você é maluca ou quê? A carrinha é da Câmara!
Ficou
um tempo a pensar, olhando a mãe do Xoxombo, as outras mulheres, as
imbambas espalhadas pelo areal. Os olhos de toda a gente estavam
postos na boca dele. Percebeu a espera e, sem falar uma palavra,
afastou-se muito devagar para o cajueiro e veio depois com a
carrinha.
— Eh!
João e Toko! Carreguem as imbambas na carrinha, depressa!
As
mulheres agradeceram com muitas palavras e nga Xica veio ainda
desculpar a vassoura, mas sabe o marido é doente, o filho está
embora a trabalhar na oficina e como é que uma pobre ia fazer então?
— Tá
bem, ’tá bem, já conheço essa conversa...
Com
a carrinha carregada, toda a gente despediu de nga Xica desejando
felicidades, prometendo avisar Biquinho e sô Augusto e também dona
Guilhermina por causa dos doces. A mãe do nosso amigo estava para
subir na carroçaria mas o homem do tractor aí mandou-lhe mesmo na
frente. A carrinha arrancou, no meio dos gritos e adeus e a gente
aproveitávamos para quigozar um bocado.
— Ai,
mana! — dizia sá Domingas para don’Ana, areal abaixo, caminho
das cubatas. — Alguns brancos ainda são bons. Se não fosse ele, a
pobre ia dormir ali!
Don’Ana
não aceitava, falava se fossem bons não mandavam mesmo partir as
cubatas sem dar outras, mas as amigas desviavam e atacavam sô
Augusto:
— Culpa
é do homem dela! Lhe avisaram com tempo.
— A
coitada não tem a culpa, é verdade.
E
o sol caía no fim da tarde, muita gente regressando em suas casas,
cruzando os caminhos de todos os dias, admirados de não encontrarem
mais aquela cubata ali, perguntando saber o que passava. Com muitos
gestos, imitando o tractor, Zeca Bunéu contava a confusão. O
Xoxombo ajudava e as pessoas seguiam pelos carreiros acima, falando
ou pensando sozinhas nesta vida. Ainda naquela hora da manhã, quando
iam para baixo, bem que viram a mulher na porta, raspando a língua,
e agora? Nem o sítio da casa estava lá. Só uma mancha mais
vermelha que o resto do caminho, canas partidas e torrões de barro
seco.
Ali
ficámos sentados, conversando o assunto, brincando no tractor que um
servente estava tomar conta. Sá Domingas nos tinha pedido para
avisar no Biquinho quando ele voltasse no serviço ou falar no sô
Augusto. Era noite quase quando o nosso silencioso companheiro
apareceu. Não foi preciso a gente lhe contar nada: ele nos afastou,
andou em cima dos torrões e do sítio do quarto dele, ficou ali
parado muito tempo. Depois, bem de frente, cuspiu no tractor,
insultou-lhe com todas as asneiras que a gente sabia e começou
chorar baixinho sem falar para ninguém. Só o Xoxombo é que
adiantou, mais tarde:
— Vai
ainda, Biquinho! Tua mãe foi na casa da mamã Lolota, no Bairro
Operário.
Mas
o Biquinho não aceitou. Se sentou no chão, deixou de chorar e
começou falar na gente, a cubata, o tractor, o aviso.
— Bem
que disse no meu pai para adiantar procurar casa...
Mais
satisfeitos com esta conversa, sentíamos a noite sair e só as
palavras se ouviam porque a lua ainda não tinha nascido e Biquinho
contou para nós o patrão lhe dera aumento, estava gostar muito ser
electricista e ia pedir no pai o livro dele para estudar mais.
— Mas
como então, Biquinho?! Se você sabe ler pouco ainda.
— Pois
é, Zeca! Mas assim aprendo a ler e a electricidade!
Mais
tarde, pelo caminho do imbondeiro que sai na quitanda do Rascão, a
gente adiantou ouvir uma voz conhecida falando as máquinas de
destruir casas e cantigas de ameaças, soubemos porquê o Biquinho
não tinha aceitado ir embora. O nosso companheiro estava à espera
do pai e pediu para irmos nas nossas casas.
Xoxombo
despediu, prometendo ir com o Zeca Bunéu brincar no domingo, mas
Biquinho não aceitou:
— Deixa,
Xoxombo! Agora eu vou morar muito longe... e no domingo quero
estudar.
De
mão dada com Xoxombo, e Zeca Bunéu a assobiar para assustar o medo,
viemos para nossas casas, pelo alto capim fora. Quando passámos no
imbondeiro, a lua já estava nascer atrás do Tanque d’Água.
Olhámos no sítio da cubata do Biquinho. De lá, o tractor amarelo
estava nos mirar, debaixo da sua lona. O servente que tomava conta já
tinha acendido uma fogueira para cozinhar o jantar. E na luz branca
da lua que nascia e do fogo da fogueira, a gente viu o Biquinho ainda
sentado no chão e sô Augusto de pé, em cima dos bocados de barro
duro espetado de canas, o livro numa mão e a outra apontando
ameaçadora pelo areal abaixo.
— Pópilas,
Zeca! Mira só! — disse o Xoxombo. — Parece mesmo aqueles homens
que andam falar a chegada do castigo do Céu, que estão lá na
Bíblia!
Senti
o Zeca Bunéu encostar-se mais a mim e, a assobiar, os três viemos
para casa muito calados.
José Luandino Vieira, in Nosso Mussuque

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