segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O guardador de águas — VII

Roupa-Grande aparece no trecho.
(Crianças não o diferenciam do ave joão-grande.)
Com seu enorme casaco ele encarde o crepúsculo.
Sabe os atalhos do chão.
Caminha espaceado, de metro em metro, como quem planta mandioca na roça.
(Quem anda curto é carancho — ele diz; mas também excreta curto.
Pato que guspe longínquo…)
Roupa-Grande alcandora mosca.
Com as mãos endireita Deus para ele.
O rio conta com os seus cuidados para descer as grotas — conta
Com as suas bênçãos, com os seus escapulários…
Ele mexe com planta e com épocas.
Usa o Livro de São Cipriano contra lascívia, mal de grotas, ferroadas de arraia etc.
(Ferroada de arraia é só encostar o lugar ofendido em vaso de moça que o ferrão escurece…)
Um menino escaleno o acompanha.
Dorme no ombro dele um tordo arino.
Roupa-Grande fala de manso — como quem vai passando por dentro de uma nuvem…
Sangue de anta bebe por mês: serve na guampa o cor-de-rosa espumoso —
a língua tomando espécie…
Conta que sangue de anta desempena traste de velho.
Tresconta. Ri sobre as gengivas.
É homem proposto ao escárnio.
Arremeda que vai esperar o crepúsculo mais adiante
E se equipa.
Uma árvore espera filhos dele.
Espessura de estrela o transparenta.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

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