Eu disse: vim aqui só para falar de
coisas miúdas, as grandezas do ínfimo, não se inquiete. Manoel
sorriu: tenho doutorado em formigas, sente-se. Sentei. Duas cadeiras
na varanda de sua fazenda no Pantanal. A distância infinita entre
dois homens — e, para anulá-la, inesperadamente, uma ema cruzou,
distraída, os nossos olhos. As garças e os tuiuiús só andariam
pela sua obra, em bando, um pouco mais à frente. Difícil conversar
sobre algo tão natural como a água e as suas criaturas com um poeta
que fixou sua vida em terras alagadas. Como começar? Pela seca
sinceridade: digo logo que apreciei o livro, estarei sendo fiel à
verdade. Então, falei: bonito, bonito esse seu O guardador de águas,
Manoel. E acrescentei: é um livro-riacho, e você aqui nesse
aguaçal... Manoel concordou, desimportante: é que só choveu
na palavra onde eu estava. Nas páginas iniciais, você apresenta o
Bernardo da Mata; gostei de ele encurtar as águas, eu disse. Manoel:
e de encolher o horizonte em olho de inseto? Também, respondi, e de
quando ele prende o silêncio com fivela! Manoel atento ao azul
arriscado a pássaro. E aqueles vidrinhos de guardar moscas?,
perguntei. O poeta respondeu: trecos do Bernardo, nadifúndios dele.
E seus, Manoel, eu pensei, mas não disse nada. Os passarinhos vinham
pousar, sanfranciscamente, nos ombros de Bernardo: ele enriquecia a
natureza com a sua incompletude. Ainda não possuía, em seus
instrumentos de trabalho, um abridor de amanhecer. Mas era só o
tempo de o mundo pegar lodo — e aí o ontem choveria no futuro.
Retomei a conversa, curioso: e esse Dialeto-Rã, do Bernardo? Manoel
respondeu: é só linguagem escorregadia. Insisti: eu também me
interesso pelas consoantes líquidas. Ele, quieto, só me mirava.
Será que ele me árvore? Lembrei-me de um verso do livro, marcador
nítido de sua poética: “O que desabre o ser é ver e ver-se”.
Guardei para mim. Falei, apenas: Manoel, a primeira parte me lembrou
O guardador de rebanhos, do Caeiro. Não só no título, mas na
metafísica que ele não tem, como fechar o rio com trinco. Manoel
aquiesceu: “O nada o aperfeiçoa”! E eu: não vale usar verso seu
para escapar. Ele riu. A segunda parte, “Passos para a
transfiguração”, você inseriu desenhos entre os poemas, foi a
primeira vez, não é, Manoel? Ele não confirmou, nem desmentiu.
Pensei em citar um dos versos das páginas seguintes: “Poesia é a
ocupação da Imagem pelo Ser”. Pensei em mudar o rumo da conversa,
perguntar sobre as borboletas, por que afinal adotam os lugares
vazios? Mas resolvi saltar para as teorias de árvore. Quem te
ensinou sobre elas, Manoel? Aprendi sozinho, ele respondeu, na
prática das águas. Comentei: a quarta teoria é a minha preferida —
“há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes”.
O poeta fez um gesto de galho. Manoel, perguntei, a chuva é íntima
só mesmo se o escuro umedece nosso corpo? Ele permaneceu num
silêncio de águas paradas, fazendo jus a seus versos da penúltima
parte: “Ao poeta faz bem/ Desexplicar —/ Tanto quanto escurecer
acende os vaga-lumes”. Manoel, continuei, o dialeto coisal, larval,
pedral, você descobriu quando leu Ovídio, não é? O poeta
contemplava o céu, onde ocorria um incêndio de garças nas nuvens.
Eu também desejava fugir daquela conversa, queria conhecer ali, no
seu trastal, a matéria líquida da vida — e de sua escrita. A
poesia, ele diria mais tarde, é um inutensílio. Um beija-flor de
rodas vermelhas voejou perto de nós e fechou o assunto, livrando-me
de prosseguir ali, monumentando a sua obra. Educado, Manoel se
levantou e propôs: vamos dar um giro, enfiar idioma nos mosquitos?
Aceitei o convite e estendo-o a você, leitor: venha! Guarde-se nessa
poesia, de águas e barros, ela engrandece as miudezas da vida.
João Anzanello Carrascoza, em O guardador de águas, de Manoel de Barros
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