quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Leitura intramuros





A papelaria perto da esquina da minha casa em Buenos Aires tinha uma boa seleção de livros infantis. Eu tinha (e tenho ainda) um desejo voluptuoso por cadernos de notas (que na Argentina costumavam trazer o perfil de um herói nacional na capa e, às vezes, uma página destacável com figurinhas coláveis de história natural ou cenas de batalha) e frequentemente circulava pela loja. A papelaria ficava na frente; nos fundos, havia prateleiras de livros. Lá estavam os livros grandes e ilustrados da Editorial Abril, com letras grandes e desenhos brilhantes, escritos para as criancinhas por Constancio C. Vigil (que, depois de morto, descobriu-se possuir uma das maiores coleções de literatura pornográfica da América Latina). Lá estava (como mencionei) a série de capa amarela de Robin Hood. E havia fileiras duplas de livros com capa de papelão e formato de bolso, alguns encadernados em verde, outros em cor-de-rosa. Na série verde, havia as aventuras do rei Artur, terríveis traduções para o espanhol dos livros de Just William, Os três mosqueteiros, as histórias de bichos de Horácio Quiroga. Na série cor-de-rosa, estavam os romances de Louisa May Alcott, A cabana do Pai Tomas, as histórias da condessa de Ségur, toda a saga de Heidi. Uma das minhas primas adorava ler (mais tarde, em certo verão, tomei emprestado dela The black spectacles [Os óculos escuros], de John Dickson Carr: viciei-me em romances policiais para o resto da vida), e ambos líamos às aventuras de piratas de Salgari, encadernadas em amarelo. Às vezes, ela me pedia emprestado um livro de Just William, da série encadernada em verde. Mas a série cor-de-rosa, que ela lia impunemente, estava proibida (aos dez anos de idade eu sabia disso muito bem) para mim. Suas capas eram uma advertência, mais clara do que qualquer holofote, de que aqueles eram livros que nenhum menino decente leria. Eram livros para meninas.
A noção de que certos livros se destinam aos olhos de certos grupos é quase tão antiga quanto a própria literatura. Alguns estudiosos sugeriram que, tal como a epopeia e o teatro gregos tinham como alvo primário uma plateia masculina, os primeiros romances gregos destinavam-se provavelmente a uma plateia predominantemente feminina.
Embora Platão escrevesse que na sua república ideal a escola seria compulsória para ambos os sexos, um de seus discípulos, Teofrasto, argumentava que se deveria ensinar às mulheres apenas o suficiente para administrar um lar, porque a educação avançada "transforma a mulher numa comadre preguiçosa e briguenta". Uma vez que a alfabetização entre as mulheres gregas era baixa (ainda que se tenha sugerido que as cortesãs fossem "perfeitamente letradas"), escravos instruídos leriam os romances em voz alta para elas. Devido à sofisticação de linguagem dos autores e ao número relativamente pequeno de fragmentos que sobreviveram, o historiador Wil iam V. Harris sustentou que esses romances não eram muito populares, sendo antes a leitura amena de um limitado público feminino com certo grau de instrução.
O tema era amor e aventura; o herói e a heroína eram sempre jovens, belos e bem-nascidos; a desgraça caía sobre eles, mas o final era sempre feliz; esperava-se que houvesse confiança nos deuses, bem como virgindade e castidade (pelo menos da heroína). Desde os romances mais antigos, o conteúdo era exposto com clareza ao leitor Tendo vivido por volta do começo da era cristã, o autor do mais antigo romance grego que sobreviveu inteiro" apresenta a si mesmo a ao seu tema nas duas primeiras linhas: “Meu nome é Cáriton, de Afrodísias [cidade da Ásia Menor], e sou empregado do advogado Atenágoras. Vou contar uma história de amor que aconteceu em Siracusa”. “História de amor - pathos erotikon: desde as primeiras linhas, os livros destinados às mulheres estiveram associados com o que mais tarde seria chamado de amor romântico. Lendo essa literatura permitida, desde a sociedade patriarcal da Grécia do século I até a Bizâncio do século XII (quando o último desses romances foi escrito), as mulheres de algum modo devem ter encontrado estímulos intelectuais nesse mingau: nas labutas, perigos e agonias de casais amorosos, as mulheres às vezes descobriam alimento insuspeitado para o pensamento. Séculos mais tarde, criança leitora de novelas de cavalaria (inspiradas às vezes em romances gregos), santa Teresa descobriu muitas das imagens que desenvolveria em seus escritos devotos. “Acostumei-me a lê-las, e essa pequena falha arrefeceu em mim o desejo e a vontade de fazer minhas outras tarefas. E eu não me importava em passar muitas horas do dia e da noite nesse exercício vão, escondida de meu pai. Meu arrebatamento nisso era tão grande que, se não tivesse um livro novo para ler, parecia-me que não poderia me sentir feliz.” Vão o exercício pode ter parecido – contudo, as histórias de Margarida de Navarra, A princesa de Clèves, de madame de La Fayette, e os romances das irmãs Brontê e de Jane Austen devem muito à leitura de romances.
Como mostra a crítica inglesa Kate Flint, a leitura desses romances não oferecia à leitora apenas um meio de ocasionalmente "retirar-se para a passividade induzida pelo ópio da ficção. Muito mais excitante, permitia a ela afirmar seu sentimento de individualidade e saber que não estava sozinha nisso Desde tempos antigos, as leitoras descobriram maneiras de subverter o material que a sociedade colocava em suas prateleiras.
A separação de um grupo de livros ou de um gênero para um grupo específico de leitores (sejam romances gregos ou a série cor-de-rosa da minha infância) não apenas cria um espaço literário fechado que esses leitores são estimulados a explorar; com frequência, toma esse espaço proibido para os outros. Disseram-me que os livros de capa cor-de-rosa eram para meninas e que se fosse visto com um deles nas mãos seria rotulado de efeminado. Lembro da expressão de censura e surpresa no rosto de um balconista de Buenos Aires quando comprei um desses livros e de como tive de explicar rapidamente que se tratava de um presente para uma menina. (Mais tarde encontrei preconceito semelhante, quando, depois de coeditar uma antologia de ficção homossexual masculina, amigos “machos” me disseram que ficariam embaraçados se fossem vistos com o livro em público, por medo de serem considerados bichas.) Aventurar-se numa literatura que a sociedade, num gesto de condescendência, põe de lado para um grupo “menos privilegiado” ou “menos aceito” é arriscar-se a ser infectado por associação, uma vez que a mesma cautela não se aplicava à minha prima, que podia migrar para a série verde sem provocar mais que um gracejo de sua mãe sobre seus “gostos ecléticos”.
Mas, às vezes, o material de leitura de um grupo segregado é criado deliberadamente por leitores de dentro do próprio grupo. Essa criação aconteceu entre as mulheres da corte japonesa em algum momento do século XI.
Em 894 – cem anos depois da fundação da nova capital, HeianKyo, onde hoje é Quioto –, o governo japonês decidiu parar de mandar enviados oficiais à China. Durante os três séculos anteriores, os embaixadores tinham trazido a arte e os ensinamentos da milenar vizinha do Japão, e o modo de vida japonês fora dominado pelos hábitos da China; naquele momento, com o rompimento da influência chinesa, o país começou a desenvolver um estilo de vida de sua própria invenção, que atingiu o apogeu no final do século X, durante a regência de Fujiwara no Michinaga.
Como em qualquer sociedade aristocrática, os que gozaram dos benefícios desse renascimento foram poucos. As mulheres da corte japonesa, embora muito privilegiadas em comparação com as das classes mais baixas, estavam sujeitas a uma série de regras e limites. Quase totalmente isoladas do mundo externo, forçadas a seguir rotinas monótonas, limitadas pela própria linguagem (pois, com raras exceções, não eram instruídas nos vocabulários de história, filosofia, direito “e qualquer outra forma de conhecimento”, e suas trocas normalmente se realizavam por cartas e não através de conversas), as mulheres tiveram de desenvolver por si mesmas – apesar das pilhas de restrições – métodos – astutos de explorar e ler sobre o mundo em que viviam, bem como sobre o mundo fora de suas paredes de papel. Falando de uma jovem princesa, o príncipe Genji, herói de A história de Genji, da sra. Murasaki Shikibu, observa: “Não penso que precisemos nos preocupar com a educação dela. As mulheres devem ter um conhecimento geral de vários assuntos, mas causa má impressão se se mostram apegadas a determinado ramo do conhecimento. Eu não as deixaria completamente ignorantes em nenhum campo. O importante é que elas devem dar a impressão de que tratam de forma suave e despreocupada mesmo daqueles temas que levam mais a sério”.
A aparência era fundamental, e, desde que aparentassem indiferença pelo conhecimento e ignorância inabálavel, as mulheres da corte podiam manejar para se subtrair à sua condição. Nessas circunstâncias, é espantoso que tenham conseguido criar a principal literatura daquele período, inventando até alguns gêneros no processo. Ser ao mesmo tempo a criadora e a fruidora da literatura – formar, por assim dizer, um círculo fechado que produz e consome o que produz, em meio às coerções de uma sociedade que deseja que o círculo permaneça subserviente – deve ser visto como um extraordinário ato de coragem.
Na corte, as mulheres passavam os dias principalmente “olhando para o espaço”, numa agonia de lazer (“sofrendo de lazer” é uma expressão recorrente) algo aparentada com a melancolia europeia. Os aposentos quase vazios, com suas telas e cortinas de seda, estavam geralmente às escuras. Mas isso não oferecia privacidade. As paredes finas e as balaustradas de treliça faziam com que os sons viajassem com facilidade, e centenas de pinturas representam voyeurs espiando as atividades das mulheres.
As longas horas de lazer compulsório, interrompidas quando muito por festivais anuais e visitas esporádicas a templos elegantes, levaram-nas a praticar música e caligrafia, mas, sobretudo, a ler em voz alta ou ouvir leituras. Nem todos os livros eram permitidos. No Japão do período Heian, assim como na Grécia clássica, no islã, na Índia pós-védica e em tantas outras sociedades, as mulheres estavam proibidas de ler o que se considerava literatura "séria": deviam confinar-se ao reino da diversão banal e frívola, que os eruditos confucianos desprezavam, e havia uma distinção clara entre literatura e linguagem “masculina” (com temas heroicos e filosóficos e voz pública) e “feminina” (trivial, doméstica e íntima). Essa distinção foi levada para muitas áreas diferentes: por exemplo, como os modos chineses continuavam a ser admirados, a pintura chinesa era chamada de “masculina”, enquanto a pintura japonesa, mais leve, era “feminina”.
Mesmo que todas as bibliotecas de literatura chinesa e japonesa estivessem abertas para elas, as mulheres do período Heian não encontrariam o som de suas vozes na maioria dos livros do período. Portanto, em parte para aumentar seu estoque de material de leitura, em parte para obter acesso a material de leitura que respondesse às suas preocupações específicas, elas criaram uma literatura própria. Para registrá-la, desenvolveram uma transcrição fonética da língua que tinham permissão de falar, o kanabungaku, um japonês expurgado de quase todas as construções com palavras chinesas. Essa língua escrita veio a ser conhecida como “escrita das mulheres” e, estando restrita à mão feminina, adquiriu, aos olhos dos homens que as dominavam, uma qualidade erótica. Para ser atraente, uma mulher precisava não apenas possuir encantos físicos, mas também escrever com caligrafia elegante, bem como ser versada em música e saber ler, interpretar e escrever poesia. Essas realizações, no entanto, jamais eram consideradas equiparáveis às dos artistas e estudiosos masculinos.
De todas as maneiras de adquirir livros, escrevê-los é tido como o método mais louvável”, comentou Walter Benjamim. Em alguns casos, descobriram as mulheres do período Heian, é o único método. Em sua nova linguagem, elas escreveram algumas das obras mais importantes da literatura japonesa e, talvez, de todos os tempos. As mais famosas delas são a monumental História de Genji, de Murasaki Shikibu, que o tradutor e erudito inglês Arthur Waley considerou ser o primeiro romance autêntico do mundo, iniciado provavelmente em 1001 e terminado não antes de 1010, e O livro de travesseiro, de Sei Shonagon, mais ou menos da mesma época de Genji e assim chamado porque foi escrito no quarto da autora e com certeza mantido nas gavetas de seu travesseiro de madeira.
Em livros como os citados, a vida cultural e social de homens e mulheres é explorada em minúcias, mas pouca atenção é dada às manobras políticas que absorviam tanto tempo dos funcionários da corte. Waley julgou que nesses livros a “extraordinária imprecisão das mulheres quanto às atividades puramente masculinas” era desconcertante; mantidas à distância da linguagem e das atividades políticas, mulheres como Sei Shonagon e a senhora Murasaki não poderiam, de forma alguma, ir além de descrições baseadas no que ouviriam falar de tais atividades. De qualquer forma, essas mulheres estavam escrevendo essencialmente para elas mesmas – espelhando suas vidas. Exigiam da literatura não as imagens que interessavam a seus equivalentes masculinos e com as quais eles se compraziam, mas um reflexo daquele outro mundo em que o tempo era lento e a conversação escassa, onde a paisagem pouco mudava, exceto quando as estações traziam mudanças. A história de Genji, ao mesmo tempo em que exibe uma enorme tela da vida de então, destinava-se a ser lida sobretudo por mulheres como a autora, mulheres que compartilhassem sua inteligência e sua perspicácia sutil em assuntos psicológicos.
Alguns anos após o aparecimento da História de Genji, a sra. Sarashina, outra mulher brilhante, descreveu como era apaixonada por histórias quando ainda não passava de uma menina em alguma província remota. “Mesmo confinada no interior, de algum modo vim a saber que no mundo existiam coisas conhecidas como contos, e a partir desse momento meu maior desejo foi lê-los por mim mesma. Para passar o tempo, minha irmã, minha madrasta e outras da casa contavam-me histórias tiradas dos Contos, incluindo episódios sobre Genji, o Príncipe Brilhante; mas, como dependiam da memória, com certeza não me contavam tudo o que sabiam, e suas histórias acabavam me deixando mais curiosa do que antes. Em minha impaciência, consegui uma estátua do Benevolente Buda que tinha a minha altura. Quando não havia ninguém olhando, introduzia-me às escondidas na sala do altar, ajoelhava-me e orava com devoção: ‘Oh, por favor, dê um jeito para que eu possa ir logo para a Capital, onde há tantos contos, e, por favor permita que eu leia todos eles’.”
O livro de travesseiro de Sei Shonagon é um registro aparentemente despreocupado de impressões, descrições, mexericos, listas de coisas agradáveis e desagradáveis - repleto de opiniões extravagantes, preconceituosas e petulantes, totalmente dominadas pela noção de hierarquia. Seus comentários têm um traço de sinceridade que ela diz (devemos acreditar nela?) vir do fato de que “nunca pensei que essas notas seriam lidas por outra pessoa e assim incluí tudo o que veio à minha cabeça, por mais estranho ou desagradável”. Sua simplicidade explica boa parte de seu encanto. Eis aqui dois exemplos de “coisas que são deliciosas”: Descobrir um grande número de histórias que ainda não lemos. Ou adquirir o segundo volume de uma história cujo primeiro volume nos deu prazer. Mas com frequência é um desapontamento.
As cartas são bastante banais, mas como são esplêndidas! Quando alguém está numa província distante e nos preocupamos com ele, e então chega subitamente uma carta, é como se o estivéssemos vendo face a face. E é um grande conforto termos expressado nossos sentimentos numa carta mesmo sabendo que ela ainda pode não ter chegado.
Tal como A história de Genji, O livro de travesseiro, com sua paradoxal adoração ao poder imperial e desprezo pelos modos masculinos, valoriza o ócio forçado e põe a vida doméstica das mulheres no mesmo nível literário das vidas “épicas” dos homens. Porém, a sra. Murasaki, para quem a narrativa das mulheres precisava ser trazida à luz dentro da epopeia dos homens e não, frivolamente, nos limites de suas paredes de papel, achava a escrita de Sei Shonagon “cheia de imperfeições”: “Ela é uma mulher bem-dotada, com certeza. Contudo, se alguém dá rédeas soltas às próprias emoções, mesmo nas circunstâncias mais inapropriadas. se alguém precisa exemplificar cada coisa interessante que acontece, as pessoas irão considerar essa pessoa frívola. E como as coisas podem acabar bem para uma tal mulher?”.

***

Pelo menos dois tipos diferentes de leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo, as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie cérebro-e-chapelaria. [...] A desculpa habitual para as mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles ruins a má poesia. Mas, como ‘assunto’, a sociedade, o Governo de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: “Em toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras, imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”. O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação do grupo.
Tolice era também a falha que a senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon. Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua colega, o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei Shonagon floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo mais antigo desse período é o diário de uma senhora da corte conhecida apenas como a “Mãe de Michitsuna” - o Diário do fim do verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer a crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua existência. Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu: "Enquanto os dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos romances e achava a maioria deles uma coleção de invenções grosseiras. Talvez, disse para si mesma, a história de sua existência enfadonha, na forma de um diário, pudesse provocar algum grau de interesse. Talvez pudesse até ser capaz de responder: isto é vida apropriada para uma dama bem-nascida?”.
Apesar das críticas da senhora Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas próprias historiadoras.
Há quatro maneiras de escrever a vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G. Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção; um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas literaturas que as escritoras do período Heian produziram: monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de leitores segregados: a literatura que exigem é confessional, autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a própria freira, como substituição do amante ausente e remédio para seu desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida erótica, um recinto dentro do qual palavras, em vez de ações, encarnam os eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu amor impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e que pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura de qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos acrescentar “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve responder por isso, e que tais prestações de contas são um tipo primitivo de ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas como conversa de travesseiro, ou em bares, ou no divã do psicanalista”. Ao contar "uns para os outros - ou para o mundo hostil em torno deles - as histórias de suas vidas, não estão apenas registrando o passado, mas também dando forma ao futuro, forjando uma identidade e, ao mesmo tempo, revelando-a". Em Sei Shonagon, bem como na sra. Murasaki, encontram-se as sombras da literatura feminina que lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot, na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily, réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro, feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e, consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência puseram na sua mesinha-de-cabeceira.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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