A papelaria perto da esquina da minha
casa em Buenos Aires tinha uma boa seleção de livros infantis. Eu
tinha (e tenho ainda) um desejo voluptuoso por cadernos de notas (que
na Argentina costumavam trazer o perfil de um herói nacional na
capa e, às vezes, uma página destacável com figurinhas coláveis
de história natural ou cenas de batalha) e frequentemente circulava
pela loja. A papelaria ficava na frente; nos fundos, havia
prateleiras de livros. Lá estavam os livros grandes e ilustrados da
Editorial Abril, com letras grandes e desenhos brilhantes, escritos
para as criancinhas por Constancio C. Vigil (que, depois de morto,
descobriu-se possuir uma das maiores coleções de literatura
pornográfica da América Latina). Lá estava (como mencionei) a
série de capa amarela de Robin Hood. E havia fileiras duplas de
livros com capa de papelão e formato de bolso, alguns encadernados
em verde, outros em cor-de-rosa. Na série verde, havia as aventuras
do rei Artur, terríveis traduções para o espanhol dos livros de
Just William, Os três mosqueteiros, as histórias de bichos
de Horácio Quiroga. Na série cor-de-rosa, estavam os romances de
Louisa May Alcott, A cabana do Pai Tomas, as histórias da
condessa de Ségur, toda a saga de Heidi. Uma das minhas primas
adorava ler (mais tarde, em certo verão, tomei emprestado dela The
black spectacles [Os óculos escuros], de John Dickson Carr:
viciei-me em romances policiais para o resto da vida), e ambos líamos
às aventuras de piratas de Salgari, encadernadas em amarelo. Às
vezes, ela me pedia emprestado um livro de Just William, da série
encadernada em verde. Mas a série cor-de-rosa, que ela lia
impunemente, estava proibida (aos dez anos de idade eu sabia disso
muito bem) para mim. Suas capas eram uma advertência, mais clara do
que qualquer holofote, de que aqueles eram livros que nenhum menino
decente leria. Eram livros para meninas.
A noção de que certos livros se
destinam aos olhos de certos grupos é quase tão antiga quanto a
própria literatura. Alguns estudiosos sugeriram que, tal como a
epopeia e o teatro gregos tinham como alvo primário uma plateia
masculina, os primeiros romances gregos destinavam-se provavelmente a
uma plateia predominantemente feminina.
Embora Platão escrevesse que na sua
república ideal a escola seria compulsória para ambos os sexos, um
de seus discípulos, Teofrasto, argumentava que se deveria ensinar às
mulheres apenas o suficiente para administrar um lar, porque a
educação avançada "transforma a mulher numa comadre
preguiçosa e briguenta". Uma vez que a alfabetização entre as
mulheres gregas era baixa (ainda que se tenha sugerido que as
cortesãs fossem "perfeitamente letradas"), escravos
instruídos leriam os romances em voz alta para elas. Devido à
sofisticação de linguagem dos autores e ao número relativamente
pequeno de fragmentos que sobreviveram, o historiador Wil iam V.
Harris sustentou que esses romances não eram muito populares, sendo
antes a leitura amena de um limitado público feminino com certo grau
de instrução.
O tema era amor e aventura; o herói e
a heroína eram sempre jovens, belos e bem-nascidos; a desgraça caía
sobre eles, mas o final era sempre feliz; esperava-se que houvesse
confiança nos deuses, bem como virgindade e castidade (pelo menos da
heroína). Desde os romances mais antigos, o conteúdo era exposto
com clareza ao leitor Tendo vivido por volta do começo da era
cristã, o autor do mais antigo romance grego que sobreviveu inteiro"
apresenta a si mesmo a ao seu tema nas duas primeiras linhas: “Meu
nome é Cáriton, de Afrodísias [cidade da Ásia Menor], e sou
empregado do advogado Atenágoras. Vou contar uma história de amor
que aconteceu em Siracusa”. “História de amor - pathos
erotikon: desde as primeiras linhas, os livros destinados às
mulheres estiveram associados com o que mais tarde seria chamado de
amor romântico. Lendo essa literatura permitida, desde a sociedade
patriarcal da Grécia do século I até a Bizâncio do século XII
(quando o último desses romances foi escrito), as mulheres de algum
modo devem ter encontrado estímulos intelectuais nesse mingau: nas
labutas, perigos e agonias de casais amorosos, as mulheres às vezes
descobriam alimento insuspeitado para o pensamento. Séculos mais
tarde, criança leitora de novelas de cavalaria (inspiradas às vezes
em romances gregos), santa Teresa descobriu muitas das imagens que
desenvolveria em seus escritos devotos. “Acostumei-me a lê-las, e
essa pequena falha arrefeceu em mim o desejo e a vontade de fazer
minhas outras tarefas. E eu não me importava em passar muitas horas
do dia e da noite nesse exercício vão, escondida de meu pai. Meu
arrebatamento nisso era tão grande que, se não tivesse um livro
novo para ler, parecia-me que não poderia me sentir feliz.” Vão o
exercício pode ter parecido – contudo, as histórias de Margarida
de Navarra, A princesa de Clèves, de madame de La Fayette, e
os romances das irmãs Brontê e de Jane Austen devem muito à
leitura de romances.
Como mostra a crítica inglesa Kate
Flint, a leitura desses romances não oferecia à leitora apenas um
meio de ocasionalmente "retirar-se para a passividade induzida
pelo ópio da ficção. Muito mais excitante, permitia a ela afirmar
seu sentimento de individualidade e saber que não estava sozinha
nisso Desde tempos antigos, as leitoras descobriram maneiras de
subverter o material que a sociedade colocava em suas prateleiras.
A separação de um grupo de livros ou
de um gênero para um grupo específico de leitores (sejam romances
gregos ou a série cor-de-rosa da minha infância) não apenas cria
um espaço literário fechado que esses leitores são estimulados a
explorar; com frequência, toma esse espaço proibido para os outros.
Disseram-me que os livros de capa cor-de-rosa eram para meninas e que
se fosse visto com um deles nas mãos seria rotulado de efeminado.
Lembro da expressão de censura e surpresa no rosto de um balconista
de Buenos Aires quando comprei um desses livros e de como tive de
explicar rapidamente que se tratava de um presente para uma menina.
(Mais tarde encontrei preconceito semelhante, quando, depois de
coeditar uma antologia de ficção homossexual masculina, amigos
“machos” me disseram que ficariam embaraçados se fossem vistos
com o livro em público, por medo de serem considerados bichas.)
Aventurar-se numa literatura que a sociedade, num gesto de
condescendência, põe de lado para um grupo “menos privilegiado”
ou “menos aceito” é arriscar-se a ser infectado por associação,
uma vez que a mesma cautela não se aplicava à minha prima, que
podia migrar para a série verde sem provocar mais que um gracejo de
sua mãe sobre seus “gostos ecléticos”.
Mas, às vezes, o material de leitura
de um grupo segregado é criado deliberadamente por leitores de
dentro do próprio grupo. Essa criação aconteceu entre as mulheres
da corte japonesa em algum momento do século XI.
Em 894 – cem anos depois da fundação
da nova capital, HeianKyo, onde hoje é Quioto –, o governo japonês
decidiu parar de mandar enviados oficiais à China. Durante os três
séculos anteriores, os embaixadores tinham trazido a arte e os
ensinamentos da milenar vizinha do Japão, e o modo de vida japonês
fora dominado pelos hábitos da China; naquele momento, com o
rompimento da influência chinesa, o país começou a desenvolver um
estilo de vida de sua própria invenção, que atingiu o apogeu no
final do século X, durante a regência de Fujiwara no Michinaga.
Como em qualquer sociedade
aristocrática, os que gozaram dos benefícios desse renascimento
foram poucos. As mulheres da corte japonesa, embora muito
privilegiadas em comparação com as das classes mais baixas, estavam
sujeitas a uma série de regras e limites. Quase totalmente isoladas
do mundo externo, forçadas a seguir rotinas monótonas, limitadas
pela própria linguagem (pois, com raras exceções, não eram
instruídas nos vocabulários de história, filosofia, direito “e
qualquer outra forma de conhecimento”, e suas trocas normalmente se
realizavam por cartas e não através de conversas), as mulheres
tiveram de desenvolver por si mesmas – apesar das pilhas de
restrições – métodos – astutos de explorar e ler sobre o mundo
em que viviam, bem como sobre o mundo fora de suas paredes de papel.
Falando de uma jovem princesa, o príncipe Genji, herói de A
história de Genji, da sra. Murasaki Shikibu, observa: “Não
penso que precisemos nos preocupar com a educação dela. As mulheres
devem ter um conhecimento geral de vários assuntos, mas causa má
impressão se se mostram apegadas a determinado ramo do conhecimento.
Eu não as deixaria completamente ignorantes em nenhum campo. O
importante é que elas devem dar a impressão de que tratam de forma
suave e despreocupada mesmo daqueles temas que levam mais a sério”.
A aparência era fundamental, e, desde
que aparentassem indiferença pelo conhecimento e ignorância
inabálavel, as mulheres da corte podiam manejar para se subtrair à
sua condição. Nessas circunstâncias, é espantoso que tenham
conseguido criar a principal literatura daquele período, inventando
até alguns gêneros no processo. Ser ao mesmo tempo a criadora e a
fruidora da literatura – formar, por assim dizer, um círculo
fechado que produz e consome o que produz, em meio às coerções de
uma sociedade que deseja que o círculo permaneça subserviente –
deve ser visto como um extraordinário ato de coragem.
Na corte, as mulheres passavam os dias
principalmente “olhando para o espaço”, numa agonia de lazer
(“sofrendo de lazer” é uma expressão recorrente) algo
aparentada com a melancolia europeia. Os aposentos quase vazios, com
suas telas e cortinas de seda, estavam geralmente às escuras. Mas
isso não oferecia privacidade. As paredes finas e as balaustradas de
treliça faziam com que os sons viajassem com facilidade, e centenas
de pinturas representam voyeurs espiando as atividades das
mulheres.
As longas horas de lazer compulsório,
interrompidas quando muito por festivais anuais e visitas esporádicas
a templos elegantes, levaram-nas a praticar música e caligrafia,
mas, sobretudo, a ler em voz alta ou ouvir leituras. Nem todos os
livros eram permitidos. No Japão do período Heian, assim como na
Grécia clássica, no islã, na Índia pós-védica e em tantas
outras sociedades, as mulheres estavam proibidas de ler o que se
considerava literatura "séria": deviam confinar-se ao
reino da diversão banal e frívola, que os eruditos confucianos
desprezavam, e havia uma distinção clara entre literatura e
linguagem “masculina” (com temas heroicos e filosóficos e voz
pública) e “feminina” (trivial, doméstica e íntima). Essa
distinção foi levada para muitas áreas diferentes: por exemplo,
como os modos chineses continuavam a ser admirados, a pintura chinesa
era chamada de “masculina”, enquanto a pintura japonesa, mais
leve, era “feminina”.
Mesmo que todas as bibliotecas de
literatura chinesa e japonesa estivessem abertas para elas, as
mulheres do período Heian não encontrariam o som de suas vozes na
maioria dos livros do período. Portanto, em parte para aumentar seu
estoque de material de leitura, em parte para obter acesso a material
de leitura que respondesse às suas preocupações específicas, elas
criaram uma literatura própria. Para registrá-la, desenvolveram uma
transcrição fonética da língua que tinham permissão de falar, o
kanabungaku, um japonês expurgado de quase todas as
construções com palavras chinesas. Essa língua escrita veio a ser
conhecida como “escrita das mulheres” e, estando restrita à mão
feminina, adquiriu, aos olhos dos homens que as dominavam, uma
qualidade erótica. Para ser atraente, uma mulher precisava não
apenas possuir encantos físicos, mas também escrever com caligrafia
elegante, bem como ser versada em música e saber ler, interpretar e
escrever poesia. Essas realizações, no entanto, jamais eram
consideradas equiparáveis às dos artistas e estudiosos masculinos.
“De todas as maneiras de adquirir
livros, escrevê-los é tido como o método mais louvável”,
comentou Walter Benjamim. Em alguns casos, descobriram as mulheres do
período Heian, é o único método. Em sua nova linguagem, elas
escreveram algumas das obras mais importantes da literatura japonesa
e, talvez, de todos os tempos. As mais famosas delas são a
monumental História de Genji, de Murasaki Shikibu, que o
tradutor e erudito inglês Arthur Waley considerou ser o primeiro
romance autêntico do mundo, iniciado provavelmente em 1001 e
terminado não antes de 1010, e O livro de travesseiro, de Sei
Shonagon, mais ou menos da mesma época de Genji e assim chamado
porque foi escrito no quarto da autora e com certeza mantido nas
gavetas de seu travesseiro de madeira.
Em livros como os citados, a vida
cultural e social de homens e mulheres é explorada em minúcias, mas
pouca atenção é dada às manobras políticas que absorviam tanto
tempo dos funcionários da corte. Waley julgou que nesses livros a
“extraordinária imprecisão das mulheres quanto às atividades
puramente masculinas” era desconcertante; mantidas à distância da
linguagem e das atividades políticas, mulheres como Sei Shonagon e a
senhora Murasaki não poderiam, de forma alguma, ir além de
descrições baseadas no que ouviriam falar de tais atividades. De
qualquer forma, essas mulheres estavam escrevendo essencialmente para
elas mesmas – espelhando suas vidas. Exigiam da literatura não as
imagens que interessavam a seus equivalentes masculinos e com as
quais eles se compraziam, mas um reflexo daquele outro mundo em que o
tempo era lento e a conversação escassa, onde a paisagem pouco
mudava, exceto quando as estações traziam mudanças. A história de
Genji, ao mesmo tempo em que exibe uma enorme tela da vida de então,
destinava-se a ser lida sobretudo por mulheres como a autora,
mulheres que compartilhassem sua inteligência e sua perspicácia
sutil em assuntos psicológicos.
Alguns anos após o aparecimento da
História de Genji, a sra. Sarashina, outra mulher brilhante,
descreveu como era apaixonada por histórias quando ainda não
passava de uma menina em alguma província remota. “Mesmo confinada
no interior, de algum modo vim a saber que no mundo existiam coisas
conhecidas como contos, e a partir desse momento meu maior desejo foi
lê-los por mim mesma. Para passar o tempo, minha irmã, minha
madrasta e outras da casa contavam-me histórias tiradas dos Contos,
incluindo episódios sobre Genji, o Príncipe Brilhante; mas, como
dependiam da memória, com certeza não me contavam tudo o que
sabiam, e suas histórias acabavam me deixando mais curiosa do que
antes. Em minha impaciência, consegui uma estátua do Benevolente
Buda que tinha a minha altura. Quando não havia ninguém olhando,
introduzia-me às escondidas na sala do altar, ajoelhava-me e orava
com devoção: ‘Oh, por favor, dê um jeito para que eu possa ir
logo para a Capital, onde há tantos contos, e, por favor permita que
eu leia todos eles’.”
O livro de travesseiro de Sei
Shonagon é um registro aparentemente despreocupado de impressões,
descrições, mexericos, listas de coisas agradáveis e desagradáveis
- repleto de opiniões extravagantes, preconceituosas e petulantes,
totalmente dominadas pela noção de hierarquia. Seus comentários
têm um traço de sinceridade que ela diz (devemos acreditar nela?)
vir do fato de que “nunca pensei que essas notas seriam lidas por
outra pessoa e assim incluí tudo o que veio à minha cabeça, por
mais estranho ou desagradável”. Sua simplicidade explica boa parte
de seu encanto. Eis aqui dois exemplos de “coisas que são
deliciosas”: Descobrir um grande número de histórias que ainda
não lemos. Ou adquirir o segundo volume de uma história cujo
primeiro volume nos deu prazer. Mas com frequência é um
desapontamento.
As cartas são bastante banais, mas
como são esplêndidas! Quando alguém está numa província distante
e nos preocupamos com ele, e então chega subitamente uma carta, é
como se o estivéssemos vendo face a face. E é um grande conforto
termos expressado nossos sentimentos numa carta –
mesmo sabendo que ela ainda pode não ter chegado.
Tal como A história de Genji,
O livro de travesseiro, com sua paradoxal adoração ao poder
imperial e desprezo pelos modos masculinos, valoriza o ócio forçado
e põe a vida doméstica das mulheres no mesmo nível literário das
vidas “épicas” dos homens. Porém, a sra. Murasaki, para quem a
narrativa das mulheres precisava ser trazida à luz dentro da epopeia
dos homens e não, frivolamente, nos limites de suas paredes de
papel, achava a escrita de Sei Shonagon “cheia de imperfeições”:
“Ela é uma mulher bem-dotada, com certeza. Contudo, se alguém dá
rédeas soltas às próprias emoções, mesmo nas circunstâncias
mais inapropriadas. se alguém precisa exemplificar cada coisa
interessante que acontece, as pessoas irão considerar essa pessoa
frívola. E como as coisas podem acabar bem para uma tal mulher?”.
***
Pelo menos dois tipos diferentes de
leitura parecem ocorrer dentro de um grupo segregado.
No primeiro, as leitoras, como
arqueólogas imaginativas, abrem caminho através da literatura
oficial para resgatar das entrelinhas a presença de suas colegas
proscritas, para encontrar espelhos de si mesmas nas histórias de
Clitemnestra, de Gertrude, das cortesãs de Balzac. No segundo tipo,
as leitoras tornam-se escritoras, inventando para si mesmas novas
maneiras de contar histórias, a fim de redimir sobre a página as
crônicas cotidianas de suas vidas confinadas ao laboratório da
cozinha, ao estúdio da saleta de costura, às selvas do quarto das
crianças.
Há talvez uma terceira categoria, em
algum ponto entre essas duas. Muitos séculos depois de Sei Shonagon
e Murasaki Shikibu, do outro lado do globo, a escritora inglesa
George Eliot, escrevendo sobre a literatura de sua época, descreveu
o que chamou “romances tolos de Senhoras Romancistas [...] um
gênero com muitas espécies, determinado pela qualidade particular
de tolice que predomina neles – o frívolo, o prosaico, o devoto ou
o pedante. Mas é uma mistura de todos – uma ordem compósita de
fatuidade feminina responsável pela produção da maior parte de
tais romances, que deveremos distinguir como sendo da espécie
cérebro-e-chapelaria. [...] A desculpa habitual para as
mulheres que se tornam escritoras sem nenhuma qualificação especial
é que a sociedade as segrega de outras esferas de ocupação. A
sociedade é uma entidade que tem uma boa dose de culpa, devendo
responder pela manufatura de muitas mercadorias insalubres, de picles
ruins a má poesia. Mas, como ‘assunto’, a sociedade, o Governo
de Sua Majestade e outras abstrações grandiosas têm uma fatia
excessiva de acusação, bem como de elogio”. E concluía ela: “Em
toda labuta há proveito’; mas os romances tolos das senhoras,
imaginamos, resultam menos da labuta do que da ociosidade atarefada”.
O que George Eliot descrevia era uma ficção que, embora escrita
dentro do grupo, limita-se praticamente a repetir os estereótipos e
preconceitos oficiais que, antes de mais nada, conduziram à criação
do grupo.
Tolice era também a falha que a
senhora Murasald, como leitora, via na escrita de Sei Shonagon.
Porém, a diferença óbvia era que Sei Shonagon não oferecia a suas
leitoras uma versão ridicularizada da imagem delas tal como
consagrada pelos homens. O que Murasaki achava frívolo era o tema: o
mundo cotidiano dentro do qual ela mesma vivia, um mundo cuja
trivialidade Sei Shonagon documentara com tanta atenção como se
fora o mundo cintilante de Genji. Apesar das críticas de sua
colega, o estilo de literatura íntimo e aparentemente banal de Sei
Shonagon floresceu entre as mulheres leitoras da época. O exemplo
mais antigo desse período é o diário de uma senhora da corte
conhecida apenas como a “Mãe de Michitsuna” - o Diário do
fim do verão ou Diário fugaz. Nele a autora tentou fazer
a crônica, tão fiel quanto possível, da realidade de sua
existência. Falando em si mesma na terceira pessoa, escreveu:
"Enquanto os dias arrastavam-se monotonamente, ela lia os velhos
romances e achava a maioria deles uma coleção de invenções
grosseiras. Talvez, disse para si mesma, a história de sua
existência enfadonha, na forma de um diário, pudesse provocar algum
grau de interesse. Talvez pudesse até ser capaz de responder: isto é
vida apropriada para uma dama bem-nascida?”.
Apesar das críticas da senhora
Murasaki, é fácil entender por que a forma confessional, a página
em que uma mulher podia parecer estar dando “rédeas soltas às
emoções”, tornou-se o material de leitura favorito das mulheres
do período Heian. Genji apresentava algo da vida das mulheres
nas personagens que cercavam o príncipe, mas O livro de
travesseiro dava espaço para que as leitoras se tornassem suas
próprias historiadoras.
“Há quatro maneiras de escrever a
vida de uma mulher”, sustenta a crítica americana Carolyn G.
Heilbrun. “A própria mulher pode contá-la, no que ela escolhe
chamar autobiografia; pode contá-la no que escolhe chamar ficção;
um(a) biógrafo(a) pode escrever a vida de uma mulher no que é
chamado de biografia; ou a mulher pode escrever sua própria vida
antes de vivê-la, inconscientemente, sem reconhecer ou nomear o
processo.”
A rotulagem cuidadosa que Carolyn
Heilbrun faz das formas também corresponde vagamente às distintas
literaturas que as escritoras do período Heian produziram:
monogatari (romances), livros de travesseiro e outros. Nesses
textos, as leitoras encontravam suas próprias vidas vividas ou não
vividas, idealizadas ou fantasiadas, ou expostas com prolixidade e
fidelidade documentais. Essa costuma ser a norma em se tratando de
leitores segregados: a literatura que exigem é confessional,
autobiográfica e até didática, porque leitores cujas identidades
são negadas não têm outro lugar onde encontrar suas histórias
exceto na literatura que eles mesmos produzem. No século XVII, em
Portugal, sóror Mariana Alcoforado (ou, com maior probabilidade, um
autor anônimo que usou seu nome) encontrou nas cartas de amor
proibidas um meio de atravessar as paredes do claustro. Essas famosas
Cartas portuguesas, que inspiraram o romance de Diderot La
religieuse, se tornam, na verdade, material de leitura para a própria
freira, como substituição do amante ausente e remédio para seu
desejo insatisfeito, um lugar onde pode encenar sua vida erótica, um
recinto dentro do qual palavras, em vez de ações, encarnam os
eventos de sua paixão, dando um relato factual de seu amor
impossível. Num argumento aplicado à leitura homossexual - e que
pode ser perfeitamente aplicado à leitura feminina, à leitura de
qualquer grupo excluído do reino do poder -, o escritor americano
Edmund White observa que tão logo alguém nota que ele (podemos
acrescentar “ou ela”) é diferente, essa pessoa deve responder
por isso, e que tais prestações de contas são um tipo primitivo de
ficção, “as narrativas orais contadas e recontadas como conversa
de travesseiro, ou em bares, ou no divã do psicanalista”. Ao
contar "uns para os outros - ou para o mundo hostil em torno
deles - as histórias de suas vidas, não estão apenas registrando o
passado, mas também dando forma ao futuro, forjando uma identidade
e, ao mesmo tempo, revelando-a". Em Sei Shonagon, bem como na
sra. Murasaki, encontram-se as sombras da literatura feminina que
lemos hoje.
Uma geração depois de George Eliot,
na Inglaterra vitoriana, a Gwendolen de Oscar Wilde, em A
importância de ser sério, declarava que jamais viajava sem seu
diário porque “deve-se sempre ter algo sensacional para ler no
trem”; ela não estava exagerando. Na definição de Cecily,
réplica de Gwendolen, um diário era “simplesmente um registro,
feito por uma moça muito jovem, de seus pensamentos e impressões e,
consequentemente, destinado a publicação”. A publicação – ou
seja, a reprodução de um texto a fim de multiplicar seus leitores
através de cópias manuscritas, da leitura em voz alta ou da
imprensa – permitiu às mulheres encontrar vozes similares às
suas, descobrir que seu fardo não era único, descobrir na
confirmação da experiência uma base sólida sobre a qual construir
uma imagem autêntica de si mesmas. Isso foi verdade tanto para as
mulheres do período Heian como para George Eliot.
Diferentes das papelarias da minha
infância, as livrarias de hoje não têm somente os livros para
mulheres distribuídos no mercado por interesses comerciais alheios
ao negócio, para determinar e limitar o que uma mulher deve ler, mas
também os livros criados de dentro do grupo, nos quais mulheres
escrevem para elas mesmas aquilo que está ausente dos textos
oficiais. Isso estabelece a tarefa da leitora, talvez prevista pelas
escritoras do período Heian: escalar as paredes: pegar qualquer
livro que pareça atraente, despi-lo daquelas coloridas capas
codificadas e arrumá-lo entre os volumes que o acaso e a experiência
puseram na sua mesinha-de-cabeceira.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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