[4]
Quando papai teve a ideia do concurso,
eu tinha dez anos e estava no terceiro ano do primário. Sua ideia
consistiu em mandar a gente, um por um, para o cinema, e depois nos
fazer contar o filme. Quem contasse melhor iria toda vez que passasse
um dos bons. Ou um mexicano. O mexicano podia ser bom ou ruim, para
meu pai isso não importava. Desde, é claro, que houvesse dinheiro
para a entrada.
Os outros iam ter de se conformar em
ouvir, depois, o filme ser contado em casa. Nós todos gostamos da
ideia; todos nós nos sentíamos capazes de ganhar. Não era em vão
que, como todas as outras crianças do povoado, cada vez que íamos
ao cinema saíamos imitando os mocinhos do filme em suas melhores
cenas.
Meus irmãos sabiam imitar
perfeitamente o caminhar cambaio e o olhar oblíquo de John Wayne, o
gesto de desprezo de Humphrey Bogart e as incríveis caretas de Jerry
Lewis.
Eu os matava de rir ao tratar de
piscar as pestanas feito Marilyn Monroe, ou de imitar as boquinhas de
menina inocente – voluptuosamente inocente – de Brigitte Bardot.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

Nenhum comentário:
Postar um comentário