11/06/2026

Harry Ann Landers




O telefone tocou. Era o escritor, Paul. Estava deprimido. Estava em Northridge.
– Harry!
– Sim?
– Nancy e eu rompemos.
– Sim?
– Escuta, eu quero voltar com ela. Você pode me ajudar? A não ser que você queira voltar com ela.
Harry sorriu para o telefone.
– Não quero voltar com ela, Paul.
– Não sei o que deu errado. Ela começou com o papo do dinheiro. Começou a berrar sobre dinheiro. Sacudia contas de telefone em minha cara. Escuta, andei me prostituindo. Fiz um número. Barney e eu vestidos de pinguim... Ele diz um verso do poema, eu digo o outro... quatro microfones... um grupo de jazz tocando no fundo...
– As contas de telefone, Paul, às vezes são irritantes – disse Harry. – Você devia ficar longe da linha dela quando está mamado. Você conhece gente demais no Maine, Boston e New Hampshire. Nancy é um caso de neurose-ansiedade. Não pode ligar o carro sem ter um ataque. Se amarra com o cinto, começa a tremer e a buzinar. Maluca como um chapeleiro. E isso se estende a outras áreas. Não pode entrar numa mercearia sem se ofender com um servente mastigando uma barra de doce.
– Ela diz que sustentou você durante três meses.
– Ela sustentou meu pau. Sobretudo com cartões de crédito.
– Você é tão bom quanto dizem?
Harry deu uma risada.
– Eu dou alma a elas. Isso não pode ser medido em centímetros.
– Eu quero voltar com ela. Me diga o que fazer.
– Ou você chupa xoxota como um homem ou procura um emprego.
– Mas você não trabalha.
– Não se meça por mim. Esse é o erro que a maioria comete.
– Mas onde posso arranjar alguma grana? Me prostituí mesmo. Que vou fazer?
– Sugue ar.
– Você não tem nenhuma piedade?
– As únicas pessoas que sabem de piedade são as que precisam dela.
– Você vai precisar de piedade um dia.
– Eu preciso agora... só que eu preciso de uma forma diferente da sua.
– Preciso de grana, Harry, como vou conseguir?
– Pegue um trabuco. Trêsoitão. Se conseguir, está limpo. Se não, consegue uma cela de cadeia: nada de contas de luz, telefone, gás, megeras. Pode aprender um ofício e ganhar quatro centavos a hora.
– Você sabe mesmo massacrar um cara.
– Tudo bem, deixa de frescura que eu lhe digo uma coisa.
– Certo.
– Eu diria que o motivo de Nancy ter largado você é outro cara. Negro, branco, vermelho ou amarelo. Guarde essa regra e vai sempre estar protegido: uma fêmea raramente se afasta de uma vítima sem ter outra à mão.
– Cara – disse Paul –, eu preciso de ajuda, não de teoria.
– Se não entender a teoria, vai sempre precisar de ajuda...
Harry pegou o telefone, discou o número de Nancy.
– Alô? – ela atendeu.
– É Harry.
– Oh.
– Eu soube que você foi passada pra trás no México. Ele pegou tudo?
– Ah, isso...
– Um toureiro espanhol desbotado, não foi?
– Com os olhos mais lindos. Não como os seus. Ninguém pode ver seus olhos.
– Não quero que ninguém veja meus olhos.
– Por que não?
– Se vissem o que estou pensando, eu não podia enganar ninguém.
– Então, me ligou pra dizer que está andando de viseira?
– Você sabe disso. Eu liguei pra dizer que Paul quer que você volte. Isso lhe ajuda de algum modo?
– Não.
– Foi o que eu pensei.
– Ele ligou mesmo pra você?
– Ligou.
– Oh, eu estou com um novo cara agora. É maravilhoso!
– Eu disse a Paul que você provavelmente estava interessada em outra pessoa.
– Como você sabia?
– Eu sabia.
– Harry?
– Sim, boneca?
– Vai te foder...
Nancy desligou.

Ora veja, ele pensou, eu tento bancar o pacificador e os dois ficam putos. Harry entrou no banheiro e olhou seu rosto no espelho. Deus do céu, tinha um rosto bondoso. Será que ninguém via isso? Compreensivo. Nobreza. Localizou um cravo perto do nariz. Espremeu. Ele saiu, negro e lindo, trazendo uma cauda amarela de pus. A grande sacada, pensou, está em compreender homens e mulheres. Rolou o cravo e o pus entre os dedos. Ou talvez estivesse na capacidade de matar sem ligar. Sentou-se para dar uma cagada enquanto pensava no assunto.

Charles Bukowski, em Numa Fria

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