Já contei procês que, em 1991, minha
mulher e eu sofremos um grave acidente de carro. Fiz uma operação
difícil, placas e parafusos ao longo do fêmur esquerdo. Passei a
claudicar — um eufemismo bacaninha.
Anos depois, bastante deprimido, eu
estava quase deixando a peteca ir pro espaço quando chegaram Os
Quatro Cavaleiros do Apocalápis, A Poca Roupa, A Poca Vergonha,
criem os neologismos que quiserem: meus netos, Pedro, Joana, Milena e
Vinícius. Foi uma paixão devastadora, à primeira vista. E
correspondida.
Assim que aprenderam a falar, os
quatro — tenho certeza de que há comunicação por telepatia entre
as feras — começaram a me chamar de Bidu. Morri de orgulho. Vovó,
com muito jeito, procurou esclarecer a origem do apelido. Minha
autoestima levou um baque de bola sete, despencando no fundo da
caçapa, com direito a rasgão no pano verde:
— Eles acham você parecido com o
cachorro do Franjinha, aquele cachorro azul, da Turma da Mônica.
Ora, mas que falta de respeito dessa
galera! Num domingo memorável, comecei a sempre adiada arrumação
do escritório. Sou um modesto bibliófilo. Surpresa: os netinhos
ofereceram-se entre risadas marotas, pra ajudar na limpeza. Que
alegria. Até o cachorro, meu superlabrador Batuque, cúmplice deles
em todas as armações, carregava livros e ria. Juro que ria.
A avó, ao fim de um dia glorioso, organizou, antes da pizza, um
banho conjunto,todos em trajes de praia.
Foi uma bagunça histórica. Meia hora
após a orgiástica lustração, voltei ao escritório pra apreciar o
trabalho realizado. Eu, além de brilhar feito um ET, exalava um
cheiro assaz penetrante. Vovó Mary, quase sem ar de tanto rir,
novamente esclareceu a celeuma:
— Eles te deram um banho com o xampu
antipulga do Batuque.
Ouvi a explosão de cinco
risadas nas minhas costas. Cinco, sim. Não errei na conta. Quem mais
ria — posso asseverar com a mão direita sobre a Bíblia — era o
cachorro, a ponto de rolar no carpete.
Essa vai ter forra.
Aldir Blanc, em Direto do Balcão

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