“Tenho quarenta anos, sou um homem
sensível, gosto de música, poesia e cinema. Sou advogado, solteiro,
moro sozinho. Procuro parceira para uma relação duradoura, de amor
e respeito. Romântico Incorrigível.”
Fiquei uma semana, eu, o Romântico
Incorrigível, entrando em vários sites de chat, e já estava
ficando cansado quando a mulher que eu procurava apareceu:
“Querido Romântico Incorrigível.
Como você, estou também à procura de uma relação duradoura com
alguém carinhoso e digno. Também amo música e poesia e
principalmente cinema. Fale mais de você. Louise Brooks.”
“Querida Louise Brooks. Nunca casei,
não porque não tivesse condições financeiras para isso, pelo
contrário, sou um homem de recursos, não obstante leve uma vida
modesta. Até hoje não me casei por não ter encontrado a mulher
ideal. Dizem que isso não existe, que é uma visão romântica. Mas
eu me recuso a aceitar esse pessimismo. É por isso que adotei o
pseudônimo de Romântico Incorrigível. E você? Qual a razão de
Louise Brooks?”
“Querido Romântico. Louise Brooks
era uma atriz linda, do cinema mudo. Um dia um namorado me deu uma
foto dela tão parecida comigo que eu a guardo até hoje. Uma mulher
com um ar misterioso, que eu, na verdade, não tenho. Sou um livro
aberto. Também nunca casei e procuro o homem ideal. Sei que vou
encontrá-lo. Quem sabe ele não é você? Você tem namorada? Louise
Brooks.”
“Querida Louise. Não, não tenho
namorada. Gostaria de me encontrar com você. Você deve estar
pensando, ele não me conhece, como pode querer se encontrar comigo?
Mas eu tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. Pensa nisso.
Romântico.”
“Querido Romântico. Sou uma pessoa
tímida, moro com a minha mãe, estou fazendo essa loucura pela
primeira vez na minha vida, conversar com um estranho pela internet.
Não sei se devo levar isso adiante. Tenho medo. Louise.”
Eu tinha pressa de pegar aquela
mulher.
“Querida Louise. Também sou uma
pessoa tímida como você, esta é a primeira vez que faço isso. Mas
sei, numa espécie de premonição, que vamos nos dar muito bem.
Posso passar na sua casa? Sei que a sua mãe vai gostar de mim.
Romântico.”
“Querido Romântico. Na minha casa é
impossível, tem que ser na sua. Me dá o endereço. Passo aí
amanhã, no início da noite. Beijos. Louise.”
“Querida Louise. Meu endereço é
rua Gomes Monteiro, terceiro andar. É um edifício de quatro
andares, um apartamento por andar, um daqueles prédios antigos que a
especulação imobiliária ainda não conseguiu destruir. Você toca
o interfone que eu abro a porta. Aguardo você ansioso. Romântico.”
Fiquei tenso o dia inteiro, e à
medida que a hora se aproximava eu ficava ainda mais. Eu precisava
pegar aquela mulher.
Então o interfone tocou.
“É a Louise.”
Apertei o controle remoto. Pouco
depois a campainha do apartamento soou. Abri.
Era um mulher muito branca, de cabelos
tão negros que pareciam pintados. Vestia uma minissaia que exibia
lindas e longas pernas alvas.
“Por favor, entre.”
Ali estava a mulher que eu procurava.
Ela entrou. Pedi que se sentasse.
“Bonito apartamento. É seu?”
“É. Tenho outro, na Barra, que está
alugado.”
“Meu nome verdadeiro é Diana.”
“O meu é Carlos.”
“Olha aqui a foto da Louise Brooks”,
ela disse.
Olhei. Uma foto em preto e branco. O
cabelo também era de um negror raro e o rosto muito branco. Linda
mulher.
“Quer beber alguma coisa?”
“Um uisquinho.”
Eu apanhei na copa uma garrafa de
uísque, uma de água mineral e um balde de gelo.
“Gosto do meu sem gelo, só água e
uísque, mais uísque do que água”, eu disse.
“O meu com gelo, por favor, e
bastante água.”
Preparei as nossas bebidas. Coloquei
os copos em uma bandeja.
“Você tem alguma coisa para a gente
beliscar?”, ela perguntou.
“Vou ver lá dentro, não demoro,
respondi.”
Demorei um pouco, com o saco de
biscoitos na mão, sentado na copa. Queria dar tempo a ela.
Depois de uns minutos voltei. Louise
ergueu o copo.
“Queria fazer um brinde, desejando
que o nosso relacionamento seja duradouro, como você disse no seu
e-mail.”
Levei meu copo aos lábios.
“Antes de beber vou apanhar também
uns salgadinhos na cozinha”, falei. “Eu só trouxe biscoitos.”
Fui para a cozinha levando o meu copo.
Fiz o que tinha de fazer. Voltei com um prato de salgadinhos.
Ergui o copo. “A uma relação
duradoura”, eu disse.
“Tim, tim”, respondeu ela, batendo
com o seu copo no meu.
Bebemos enquanto conversávamos.
Ela era órfã de pai, e a mãe viúva
com quem morava era muito controladora. Não tinha outros parentes.
Contei que tinha quatro irmãs, todas
mais velhas do que eu. Disse que gostaria de viajar com ela, ir a
Paris, ou Nova York. Eu já tinha os dólares para a viagem
separados. Ela disse que queria conhecer Katmandu.
“Vou buscar mais água na cozinha”,
eu disse, levantando-me.
Mas assim que levantei, cambaleei,
apoiando-me no espaldar da poltrona.
“Estou meio tonto...”
Ela me abraçou.
“Está tonto mesmo ou isso é um
truque para eu abraçar você?” Segurou no meu pau, que estava
mole. “Daqui a pouco eu faço ele ficar duro. Senta um pouco na
poltrona”, ela disse.
Sentei-me e logo minha cabeça pendeu
para a frente.
“Carlos, Carlos, você está bem?”
Não obteve resposta.
Um pouco depois ela sacudiu o meu
braço.
“Carlos, está me ouvindo?”
Continuei mudo.
Ouvi o barulho de Diana tentando abrir
o quarto fechado. Senti as mãos dela revistando meus bolsos. Em
seguida ouvi a voz dela, devia estar falando num celular.
“Ígor, ele colapsou. As coisas
devem estar num quarto trancado. Sim, eu espero, você sabe o
endereço, não sabe? Toca a campainha.”
Continuei imóvel, derreado na
poltrona. Ouvi a campainha.
“É o Ígor”, ouvi a voz no
interfone.
“Sobe”, disse Diana.
Barulho de porta sendo aberta.
“Foi fácil?”, voz de homem.
“Moleza. Acho que joias, dólares e
o que interessa estão nesse quarto trancado. Mas não achei a
chave.”
“Deve estar no bolso dele.”
“Já revistei. Não tem chave
nenhuma. Ígor, vamos apagar o cara, fazer o serviço completo.”
“Não gosto disso, Marta.”
“Porra, ele viu a minha cara. Se
você cortar a garganta dele o cara não vai sentir nada. Serviço
completo, Ígor, pra isso você leva metade e ainda me come.”
“Vamos arrombar a porta”, disse
Ígor.
Mas a porta se abriu antes que a
arrombassem.
Os dois tiras que trabalhavam comigo
saíram do quarto com as armas apontadas para eles. Mandaram que os
dois se deitassem no chão com as mãos para trás.
Enquanto os dois eram algemados eu me
levantei do sofá.
“Marta Castro e Ígor da Silva,
vocês estão presos pelo assassinato de Edgard Gouveia”, eu disse.
Os dois começaram uma discussão
acalorada em que Ígor dizia que a ideia fora de Marta, que o
obrigara a matar o sujeito, e Marta dizia que tentara impedir, mas
Ígor matara assim mesmo.
“Quem matou foi você”, repetia
Marta.
“Você mandou, sua puta”, dizia
Ígor.
Discutiram sem parar, até chegarmos à
delegacia, onde foram autuados e a prisão preventiva solicitada ao
juiz. Iam ser condenados a uma pena longa de reclusão.
Antes de ser trancafiada, Marta
conversou comigo.
“Você não ficou desacordado e eu
coloquei uma dose cavalar de entorpecente no seu copo. Como foi
isso?”
“Quando fui na cozinha troquei de
copo. O que eu bebi estava limpo.”
“Como foi que vocês me
descobriram?”
“Examinando o computador da vítima
de vocês, o Edgard Gouveia, que vocês mataram cortando a garganta.
Estava lá inteirinho, o chat com a Louise Brooks. Você devia ter
mudado o seu nome.”
“Mas eu queria ser ela. Louise é
parecida comigo, não é?”
“Sim, muito”, respondi.
E era, realmente. Um rosto raro. Marta
poderia ser modelo fotográfico ou fazer carreira no cinema. Mesmo
sem mudar de nome. Mas quando saísse da cadeia seria tarde demais.
Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

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