Inspirada
na urgência do movimento punk, com um discurso político contundente
e libertário, a Legião Urbana se tornou uma das bandas mais
representativas do rock brasileiro dos anos 1980. Sucesso absoluto
desde a estreia em disco, o grupo foi adotado e adorado como um
porta-voz crítico da autodenominada geração Coca-Cola. Mas, além
da vertente de crítica e combate, muito presente nos discos
iniciais, o lado lírico e existencialista de Renato Russo foi um
fator fundamental para o grupo avançar além dos limites do rock.
Faixa
de abertura do arrasador disco de estreia, em novembro de 1984,
“Será” tem letra de Renato Russo (1960-1996) e música dividida
com o guitarrista Dado Villa-Lobos (1965) e o baterista Marcelo Bonfá
(1965). Sucesso que também continua como o principal exemplo do
crossover conseguido pela Legião: no início dos anos 1990, seria
regravada tanto por Simone quanto pelo grupo de pagode Raça Negra.
Primeiro
sucesso da Legião nas rádios, a canção permitia diversas
associações, como um protesto contra a sociedade opressiva da época
em versos como “Tire suas mãos de mim” e “Não é me dominando
assim”, mas, antes de tudo, era uma poderosa canção de amor,
tentando usar da razão para sobreviver à paixão avassaladora que o
consome.
Como
Renato revelou anos depois, entre as inspirações para “Será”
estava a leitura de O médico e o monstro, o clássico de
Robert Louis Stevenson do século XIX. A frase “Nos perderemos
entre monstros / da nossa própria criação?” mostra que cada um
de nós tem dentro de si tanto Dr. Jekyll quanto Mr. Hyde.
Duas
décadas após a morte de Renato – aos 36 anos, em outubro de 1996
–, a dupla Villa-Lobos e Bonfá retomou a Legião, voltando aos
palcos para o encanto de velhos e novos fãs. E, nos shows, “Será”
tem lugar certo.
Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

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