04/08/2026

Nora Rubi



Meu nome é Nora Rubi, o Nora é verdadeiro, mas o Rubi é falso. Sou cleptomaníaca. Não vejo imoralidade nisso, seria imoral se eu não fizesse o que sinto que tenho que fazer. O poeta disse que o mundo é um palco e todos os homens e mulheres, meros atores. Eu faço o meu papel, abduzo coisas sem cometer nenhuma violência. Elas não têm utilidade ou valor monetário, se tivessem eu seria uma ladra e eu sou uma pessoa honesta. E nem me aposso das coisas dos outros para expressar um sentimento de rancor, ou de frustração, ou de vingança, nem sou impulsiva, nem delirante, nem sofro de distúrbio bipolar, anorexia ou bulimia nervosa, nem de ansiedade, sintomas que o meu psiquiatra, o doutor Paulo, erradamente atribui aos cleptomaníacos. Tenho consciência do que faço e não sinto culpa pelos meus atos. Sou uma pessoa normal. Gosto de abduzir coisas, como algumas pessoas gostam de fazer palavras cruzadas. Esses também serão doentes, por gostarem desse tipo solipsista de passatempo? Eu pelo menos sou gregária, faço abduções na companhia de outras pessoas.
Dizem que é melhor aprender com a desgraça dos outros do que com a nossa. Mas eu aprendi tudo quebrando a cara. Dizem que é mais fácil começar um namoro do que terminá-lo. Mas só aprendi que antes de começar uma aventura devemos saber a maneira de pular fora dela depois de ser esfaqueada por um amante psicótico. É um erro pensar que Deus está do nosso lado, ele não está, vi um filme em que o Diabo diz que Deus é um senhorio desleixado, deixa essa casa onde a gente mora cair de podre. Se ele realmente existe, está pensando em outras coisas e não em nós.
A primeira coisa que abduzi foi uma folha de papel cheia de garranchos. Isso mesmo, uma folha de papel cheia de nomes e números. O sujeito estava parado junto de uma dessas mesas que os bancos colocam perto dos caixas eletrônicos, com formulários de depósitos e canetas, e tirou de uma pasta uma folha de papel e tentou anotar algo nela. A caneta da mesa não funcionava. Então ele revistou os bolsos procurando uma caneta. Rapidamente, peguei a folha e a coloquei na pasta que tinha na minha mão. Saí em seguida. Não me interessava o espetáculo de perplexidade que o sujeito pudesse dar, eu já tinha feito o que tinha que ser feito, o assunto estava encerrado. Não me lembro do que fiz com a folha de papel, não sei onde ela foi parar, o que aconteceu com ela. Devia tê-la guardado como um galardão? Nada disso. Para nós, cleptomaníacos autênticos, o que foi abduzido deixa de ter valor depois que a ação é encerrada.
É claro que existem aspectos logísticos, na acepção grega original da palavra, relativa a cálculo e raciocínio, a serem observados. Tenho que avaliar, com instantaneidade, a importância concreta ou abstrata do produto a ser abduzido e os riscos possíveis, a partir das informações obteníveis.
Acho que sou a única pessoa que tem a biografia do doutor Samuel Johnson, escrita pelo James Boswell, na mesinha de cabeceira. O livro é chato, eu o uso para ficar com sono e poder dormir. Esta noite, antes da ação soporífera ter efeito, li uma frase interessante: leia os seus textos e, sempre que chegar a um trecho que considere especialmente bem escrito, risque-o e elimine-o. Reli o que escrevi até agora e verifico que não há nada a eliminar, está tudo mal escrito. Meu texto já foi melhor, talvez o fato de eu estar escrevendo à mão num papel ordinário que me forneceram aqui na prisão esteja contribuindo para essa piora. Devo contar os acontecimentos que causaram a minha prisão? Sim, mas, para que pressa? Ainda vou ficar aqui durante algum tempo. Estou numa cela isolada, com vagar para ler e escrever. Se a comida não fosse tão ruim, até que seria uma vilegiatura agradável.
A segunda coisa que abduzi foi uma espátula com a ponta quebrada. Foi na casa de uma mulher que estava vendendo os livros da biblioteca do marido, que acabara de falecer. A primeira coisa que as mulheres fazem quando o marido morre é vender os livros dele para o sebo. Então vi uma espátula quebrada sobre a mesa. Eu disse para a mulher que aquela espátula, se usada para abrir uma brochura daquelas com as páginas encadernadas, poderia rasgar o livro. Ela perguntou qual seria o problema se o livro rasgasse, se a brochura ainda não fora aberta isso significava que o marido não se interessara pelo livro. Acabei comprando a brochura. Ao chegar à rua joguei a espátula na primeira lata de lixo que encontrei. A brochura está na minha estante e não foi aberta até hoje. Uma homenagem simbólica ao marido morto.
Reconheço que, não obstante as coisas que eu abduzo não terem nenhum valor para mim e o único lucro obtido com elas ser a satisfação de ter realizado uma obra perfeita, às vezes, para o proprietário da coisa, ela pode fazer falta. Aquela folha de papel cheia de garatujas faria falta? Que informação ela poderia lhe dar? Que você está falido e deve dizer adeus ao mundo cruel jogando-se sob as rodas de um ônibus? Que está rico e pode se casar?
Aquela espátula talvez fosse usada exatamente para rasgar as páginas encadernadas dos livros que o marido comprara e não lera e que serviam apenas para encher as estantes de mais livros. Mas sei que esses são meros raciocínios especulativos sem o menor valor.
Outras abduções: uma batata-inglesa no supermercado (odeio batata). Uma calcinhaonde estavam bordadas, em lantejoulas, as palavras fuck me, de uma loja grã-fina que nem sentiria aquela perda. A calcinha era tão minúscula que não serviu para pano de limpeza, tive que jogar no lixo. Um batom vermelho brilhante, daqueles que deixam os lábios úmidos, e que também foi jogado no lixo. Uma camisinha de vênus, de dentro da bolsa de uma moça que se pintava no banheiro do cinema. Quem tem que carregar camisinha é o homem. Um livro de poesias de Carlos Drummond de Andrade, que abduzi da maior livraria da cidade. Aquele livro tinha para mim uma enorme utilidade, pois amo poesia, mas abduzir livro de poesia, mesmo para levar a vantagem de fruí-lo depois, não caracteriza furto. Se fosse de uma biblioteca pública, sim.
Abduzi ainda um adipômetro. Estava tomando um expresso no Talho quando uma mulher ao meu lado, toda paramentada para a aula de ginástica, pontificava sobre como manter a forma física. Não adianta comprar uma balança para se pesar nua em pelo, ela dizia, você tem é que medir o grau de adiposidade do seu corpo di-a-ria-men-te. Ela tirou da bolsa uma parafernália e disse, isto aqui é um adipômetro, custa uma ninharia, comprado na televenda da Polishop.
A mulher colocou o adipômetro na bolsa e, como acontece com a maioria das mulheres, deixou a bolsa aberta. Foi fácil abduzir aquela tralha enquanto ela pingava as gotinhas de adoçante artificial no café.
Durante algum tempo dediquei-me a abduzir cinzeiros ordinários, esses de botecos e churrascarias de rodízio. Passei a fumar, para facilitar a minha missão. Eu fazia a abdução, levava o cinzeiro para casa, depois voltava à churrascaria para devolver o cinzeiro que havia abduzido antes e em seguida abduzia um outro. O problema é que sou vegetariana e ficava nauseada com o espetáculo daqueles garçons carregando espetos fumegantes de carne e parando na minha mesa com um facão em punho perguntando se eu queria um pedaço da picanha enfiada naquela haste de ferro. Acabei desistindo dos cinzeiros, o que foi bom, pois deixei de fumar.
Afinal como é que vim parar na cadeia? Tudo aconteceu quando abduzi uma bijuteria. Eu havia sido convidada a ir ao aniversário de uma prima, numa dessas casas que alugam salões de festas. Entrei no banheiro junto com uma dondoca, daquelas narcisistas que ficam transtornadas ao se ver num espelho. Ela tirou o colar e começou a retocar a maquiagem do pescoço cuidadosamente. Percebendo que eu notara o colar sobre o mármore da pia, ela perguntou, não parecem brilhantes verdadeiros? Quando digo que é uma bijuteria ordinária que comprei num camelô, ninguém acredita. Mas quando é que eu teria dinheiro para comprar uma joia dessas? Meu marido ganha uma miséria, coitado.
Ela continuou retocando a maquiagem, embevecida com o seu reflexo no espelho, e eu pensei, enquanto abduzia o colar, que se fosse bonita como ela talvez me tornasse um pouco narcisista e me olhasse mais no espelho. Tranquei-me no reservado do banheiro e joguei o colar no vaso sanitário.
Quando ia saindo ouvi gritos desatinados, meu colar, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Creio que ela não percebeu que eu me escondera no reservado, pois saiu do banheiro esbaforida, gritando desesperada, meu colar de brilhantes, roubaram o meu colar de brilhantes!
Enfiei a mão no vaso sanitário e consegui pegar o colar de volta. Não senti o menor nojo, não apenas porque o xixi que estava no vaso era meu, como principalmente pelo fato de que, sabendo que havia abduzido algo valioso, eu, para resgatá-lo, enfiaria a mão mesmo que o vaso estivesse cheio de fezes. Com o colar molhado com o meu xixi entre as mãos, saí do reservado e fui para o salão de festas.
O salão estava em polvorosa. Um homem sacudia pelos ombros a mulher do colar, gritava com ela, brilhantes verdadeiros?, brilhantes verdadeiros?, você jurou que comprou no camelô, que eram uma bijuteria barata.
O homem agarrou a mulher pelo pescoço e perguntou, furioso e infeliz, quem lhe deu essa joia?, anda, confessa, adúltera!
A mulher, nervosa, pegava os brincos das orelhas, para se certificar de que não haviam também desaparecido, e olhava a pulseira de diamantes que refletia com fulgor as luzes dos candelabros. O marido começou a esganá-la, gritando, essas joias são todas verdadeiras, não são?, sua puta, quem te deu essas joias?
Postei-me no meio do salão e gritei, atenção, atenção, atencão, todo mundo!
Foi um brado tão alto que até o marido parou de estrangular a mulher. Quando se fez silêncio, abri as mãos e disse, o colar está aqui, eu o abduzi, sinto muito, pensei que era uma bijuteria.
A mulher arrancou o colar da minha mão com tanta força que quebrou uma unha. Alguém havia chamado a polícia, que para prender os inocentes nunca demora a chegar.
Resumindo: fui presa. Mas fui presa por ter esquecido o conto de Maupassant que liquando era adolescente, em que a mulher de um certo Monsieur Lantin também tinha um monte de joias verdadeiras que dizia serem falsas, todas presente do amante. Eu devia ter visto que uma mulher bonita e vaidosa como aquela dona do colar que abduzi era, evidentemente, uma Madame Lantin. A gente aprende lendo, e quem não aprende com o que leu se fode, como eu.
Agora estou aqui, na prisão, escrevendo à mão com uma caneta Bic, coisa que odeio. Ainda bem que hoje, durante o almoço aqui na cadeia, consegui abduzir uma colher. Fiquei muito feliz, ela está escondida debaixo do meu colchão, mas eu não sei o que fazer com ela. Acho que logo mais, no jantar, vou devolvê-la.

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

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