15/08/2026

Selma




Eu detestava ler essas entrevistas em que o jornalista perguntava quando e como fora a primeira experiência sexual do entrevistado. E elas, eram sempre mulheres, atrizes ou modelos, respondiam sem hesitar, eu tinha dezesseis anos, foi na escada do prédio onde eu morava, quinze, no banheiro da boate, treze, na capela mortuária velando o corpo da mãe morta, catorze, no motel. As idades variavam de doze a dezessete.
Eu tinha vinte e três anos e ainda não tivera a minha primeira experiência sexual. Todos os amigos da minha idade começaram cedo, com putas. Um deles foi levado pelo pai, entrou no quarto da puta e contou a verdade para ela, que era veado, e pediu à puta para dizer ao pai que ele tinha comido ela, e quando saíram do quarto a puta disse, o seu filho é uma fera, e o pai ficou feliz da vida e até hoje não sabe da verdadeira inclinação sexual do filho.
Eu não tive experiência sexual com puta nem com nenhuma outra mulher. Não que me faltasse vontade. Era coragem o que me faltava. Eu tinha uma fimose que impedia o recuo do prepúcio que cobria a glande, e a cabeça do meu pau era coberta por uma pele que parecia uma pequena tromba de elefante. Essa era uma das desvantagens de não ser judeu. Meus pais teriam me operado quando eu era criança. Que bobagem eu estava dizendo, não tive pai nem mãe, eles morreram quando eu tinha dois anos. Fui criado por uma tia solteirona que não estava interessada no meu pau.
Por isso eu evitava todas as mulheres, putas e também moças de família e empregadinhas mulatinhas, e essas últimas viviam dando bola para mim e quanto mais bola me davam mais infeliz eu ficava.
No meu prédio morava uma moça que era da minha idade, Selma, quase sempre vestida de branco. Um dia subíamos só nós dois no elevador e ela me deu um beijo, mas foi um beijo muito estranho, ela enfiou a língua na minha boca e aquilo me deixou perplexo. Era o primeiro beijo que eu recebia na boca, minha tia me beijava no rosto e eu não esperava que um beijo fosse tão perturbador. Quando o elevador chegou no andar dela a garota de branco disse, o meu nome é Selma e eu quero namorar você.
Eu não disse nada. Estava muito perturbado com aquele beijo. Aquilo não saía da minha cabeça. Normalmente eu gostava de ficar em casa lendo, na verdade eu não gostava de sair de casa a não ser para trabalhar, porque era obrigado, e voltava correndo, tinha a impressão de que as pessoas olhavam para mim e viam o meu pau coberto pela trombinha de elefante. Fiquei em casa mas não consegui ler, aquele beijo da Selma me deixou abalado, desassossegado.
Passei a vigiar a entrada do meu prédio, se eu a visse esperando o elevador dava meia-volta e sumia. Tinha medo de subir com Selma e ela me beijar novamente e querer fazer coisas comigo, o que seria impossível. Que desculpa eu ia inventar, que não fosse vergonhosa ou humilhante? Meu pau é uma tromba de elefante?
Selma era muito esperta. Um dia saltei no meu andar e ela estava esperando na minha porta. Está com medo de mim?, perguntou. Abri a minha porta, disse, com licença, e fechei a porta na cara dela sem fazer barulho.
Dias depois ela me escorou de novo na porta do meu apartamento. Então? Quando vamos tomar um cafezinho juntos?, ela perguntou. Fiquei ruborizado e fugi covardemente, entrando no meu apartamento.
Eu sabia que aquele meu problema de fimose podia ser resolvido cirurgicamente, mas sempre ouvi dizer que em criança era fácil mas que em adulto era muito perigoso. Me contaram a história de um adolescente que foi operar a fimose e teve tantos problemas com essa operação que tiveram que cortar o pau dele.
Fui na internet. Fimose, dizia o site, é a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade de expor a glande (“cabeça” do pênis) porque o prepúcio (“pele” que recobre a glande, a cabeça do pênis) tem um anel muito estreito. Havia um desenho que mostrava o prepúcio cobrindo a glande e o denominado anel prepucial, a minha tromba de elefante. Dizia um especialista que o prepúcio tinha como função proteger a glande contra traumatismos diversos, pois os mesmos eram frequentes no homem primitivo que vivia nas florestas. Uma informação importante: a fimose não prejudicava o crescimento do pênis.
Quis saber mais sobre essa operação. A postectomia — postium: prepúcio e tomia: secção —, dizia o site, devia ser feita com anestesia local. O próprio cirurgião realizava um bloqueio no tecido subcutâneo da base peniana, geralmente com lidocaína, sem vasoconstritor. O ato cirúrgico tinha uma duração média de trinta minutos. As complicações pós-operatórias eram raras, mas podiam acontecer hematomas e excepcionais infecções, entre outras coisas. Tardiamente alguns pacientes queixavam-se de alterações da sensibilidade e dores, sendo na grande maioria distúrbios psicogênicos, somatizados na genitália.
Vou fazer essa cirurgia, decidi. Procurei um médico no livro do meu plano de saúde e marquei uma consulta.
Eu estava deitado na mesa operatória quando chegaram o cirurgião e uma enfermeira, ambos com aquela máscara cirúrgica. A enfermeira segurou o meu pênis delicadamemte e aplicou a injeção.
Fechei os olhos durante todo o procedimento cirúrgico.
Pronto, ouvi o médico dizer.
Abri os olhos. Ele havia tirado a máscara.
Foi tudo bem, não foi, doutor?, disse a enfermeira, também tirando a máscara.
Perfeito, dona Selma.
A enfermeira era a Selma, a minha vizinha que andava vestida de branco.
Ela olhou para mim enquanto acariciava a minha mão.
Você está indo para casa daqui a pouco. Mais tarde eu passo lá para ver se está tudo bem. Agora você não vai mais fugir de mim, vai?

Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

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