Eu detestava ler essas entrevistas em
que o jornalista perguntava quando e como fora a primeira experiência
sexual do entrevistado. E elas, eram sempre mulheres, atrizes ou
modelos, respondiam sem hesitar, eu tinha dezesseis anos, foi na
escada do prédio onde eu morava, quinze, no banheiro da boate,
treze, na capela mortuária velando o corpo da mãe morta, catorze,
no motel. As idades variavam de doze a dezessete.
Eu tinha vinte e três anos e ainda
não tivera a minha primeira experiência sexual. Todos os amigos da
minha idade começaram cedo, com putas. Um deles foi levado pelo pai,
entrou no quarto da puta e contou a verdade para ela, que era veado,
e pediu à puta para dizer ao pai que ele tinha comido ela, e quando
saíram do quarto a puta disse, o seu filho é uma fera, e o pai
ficou feliz da vida e até hoje não sabe da verdadeira inclinação
sexual do filho.
Eu não tive experiência sexual com
puta nem com nenhuma outra mulher. Não que me faltasse vontade. Era
coragem o que me faltava. Eu tinha uma fimose que impedia o recuo do
prepúcio que cobria a glande, e a cabeça do meu pau era coberta por
uma pele que parecia uma pequena tromba de elefante. Essa era uma das
desvantagens de não ser judeu. Meus pais teriam me operado quando eu
era criança. Que bobagem eu estava dizendo, não tive pai nem mãe,
eles morreram quando eu tinha dois anos. Fui criado por uma tia
solteirona que não estava interessada no meu pau.
Por isso eu evitava todas as mulheres,
putas e também moças de família e empregadinhas mulatinhas, e
essas últimas viviam dando bola para mim e quanto mais bola me davam
mais infeliz eu ficava.
No meu prédio morava uma moça que
era da minha idade, Selma, quase sempre vestida de branco. Um dia
subíamos só nós dois no elevador e ela me deu um beijo, mas foi um
beijo muito estranho, ela enfiou a língua na minha boca e aquilo me
deixou perplexo. Era o primeiro beijo que eu recebia na boca, minha
tia me beijava no rosto e eu não esperava que um beijo fosse tão
perturbador. Quando o elevador chegou no andar dela a garota de
branco disse, o meu nome é Selma e eu quero namorar você.
Eu não disse nada. Estava muito
perturbado com aquele beijo. Aquilo não saía da minha cabeça.
Normalmente eu gostava de ficar em casa lendo, na verdade eu não
gostava de sair de casa a não ser para trabalhar, porque era
obrigado, e voltava correndo, tinha a impressão de que as pessoas
olhavam para mim e viam o meu pau coberto pela trombinha de elefante.
Fiquei em casa mas não consegui ler, aquele beijo da Selma me deixou
abalado, desassossegado.
Passei a vigiar a entrada do meu
prédio, se eu a visse esperando o elevador dava meia-volta e sumia.
Tinha medo de subir com Selma e ela me beijar novamente e querer
fazer coisas comigo, o que seria impossível. Que desculpa eu ia
inventar, que não fosse vergonhosa ou humilhante? Meu pau é uma
tromba de elefante?
Selma era muito esperta. Um dia saltei
no meu andar e ela estava esperando na minha porta. Está com medo de
mim?, perguntou. Abri a minha porta, disse, com licença, e fechei a
porta na cara dela sem fazer barulho.
Dias depois ela me escorou de novo na
porta do meu apartamento. Então? Quando vamos tomar um cafezinho
juntos?, ela perguntou. Fiquei ruborizado e fugi covardemente,
entrando no meu apartamento.
Eu sabia que aquele meu problema de
fimose podia ser resolvido cirurgicamente, mas sempre ouvi dizer que
em criança era fácil mas que em adulto era muito perigoso. Me
contaram a história de um adolescente que foi operar a fimose e teve
tantos problemas com essa operação que tiveram que cortar o pau
dele.
Fui na internet. Fimose, dizia o site,
é a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade de expor a glande
(“cabeça” do pênis) porque o prepúcio (“pele” que recobre
a glande, a cabeça do pênis) tem um anel muito estreito. Havia um
desenho que mostrava o prepúcio cobrindo a glande e o denominado
anel prepucial, a minha tromba de elefante. Dizia um especialista que
o prepúcio tinha como função proteger a glande contra traumatismos
diversos, pois os mesmos eram frequentes no homem primitivo que vivia
nas florestas. Uma informação importante: a fimose não prejudicava
o crescimento do pênis.
Quis saber mais sobre essa operação.
A postectomia — postium: prepúcio e tomia:
secção —, dizia o site, devia ser feita com anestesia local. O
próprio cirurgião realizava um bloqueio no tecido subcutâneo da
base peniana, geralmente com lidocaína, sem vasoconstritor. O ato
cirúrgico tinha uma duração média de trinta minutos. As
complicações pós-operatórias eram raras, mas podiam acontecer
hematomas e excepcionais infecções, entre outras coisas.
Tardiamente alguns pacientes queixavam-se de alterações da
sensibilidade e dores, sendo na grande maioria distúrbios
psicogênicos, somatizados na genitália.
Vou fazer essa cirurgia, decidi.
Procurei um médico no livro do meu plano de saúde e marquei uma
consulta.
Eu estava deitado na mesa operatória
quando chegaram o cirurgião e uma enfermeira, ambos com aquela
máscara cirúrgica. A enfermeira segurou o meu pênis delicadamemte
e aplicou a injeção.
Fechei os olhos durante todo o
procedimento cirúrgico.
Pronto, ouvi o médico dizer.
Abri os olhos. Ele havia tirado a
máscara.
Foi tudo bem, não foi, doutor?, disse
a enfermeira, também tirando a máscara.
Perfeito, dona Selma.
A enfermeira era a Selma, a minha
vizinha que andava vestida de branco.
Ela olhou para mim enquanto acariciava
a minha mão.
Você está indo para casa daqui a
pouco. Mais tarde eu passo lá para ver se está tudo bem. Agora você
não vai mais fugir de mim, vai?
Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

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