Entrei no elevador, dois sujeitos
grandes gordos estavam lá dentro. Um apartamento desse tamanho e só
moram lá o velho e aquela vigarista, disse um deles. A filha da puta
só quer o dinheiro do velho, respondeu o outro, mas ele não morre,
noventa anos e não morre, ela deve estar muito decepcionada, já
atura o velho há cinco anos.
Depois ficaram calados, saíram na
minha frente. Na portaria perguntei ao porteiro, quem são esses dois
caras que acabaram de sair? São filhos do doutor Gumercindo, ele
respondeu. É a primeira vez que os vejo por aqui, eu disse. Eles não
se dão com o velho, respondeu o porteiro. Desde que ele casou com
dona Teresa só apareceram agora.
Eu sempre via o doutor Gumercindo
saindo de braço com dona Teresa. Eles moravam no apartamento que
ficava em cima do meu, costumávamos descer juntos no elevador, então
trocávamos amabilidades. Eu abria a porta para eles, que agradeciam
amavelmente. Dona Teresa não parecia de jeito nenhum uma mulher que
tivesse casado por interesse.
Um dia depois de ouvir a conversa dos
filhos no elevador, desci com o doutor Gumercindo e dona Teresa. Sem
que percebessem, olhei dona Teresa atentamente. Ela cuidava do doutor
Gumercindo com carinho e desvelo, nenhuma outra mulher do prédio
tratava o marido daquela maneira.
Um dia o doutor Gumercindo teve um
acidente vascular cerebral. Tempos depois, descemos os três pelo
elevador, o doutor Gumercindo numa cadeira de rodas.
Vamos passear na praça, disse dona
Teresa. Você gosta de passear na praça, não gosta?, perguntou ela.
Gumercindo meneou a cabeça afirmativamente. Posso ir junto?,
perguntei.
Depois de darmos uma volta pela praça
sentamos à sombra de uma árvore. O doutor Gumercindo começou a
cochilar e dona Teresa limpou um pouco de saliva que escorria pelos
cantos da boca do marido. Notei que os olhos dela se encheram de
lágrimas.
Ele era tão cheio de vida, ela disse,
com um sorriso triste.
Encontrei-me com eles outras vezes e
notei que dona Teresa ficara muito abatida com a doença do marido.
Ela tinha setenta anos, mas aparentava muito mais, emagrecera, seu
rosto ficara muito pálido. Há casos em que o cônjuge doente acaba
matando o que cuida dele.
Fiquei alguns dias em São Paulo
fazendo um serviço para o Despachante, um freguês fácil de
despachar.
Na volta subi ao apartamento dos
velhos. Dona Teresa abriu a porta, seu aspecto era tão doentio que
me senti obrigado a dizer, dona Teresa, a senhora devia arranjar uma
enfermeira, alguém para ajudar a senhora a cuidar do doutor
Gumercindo.
Ele não quer, ela respondeu, ele quer
que eu mesma cuide dele, somente eu, e acho que ele tem razão, uma
enfermeira não o trataria como ele merece.
Viajei durante uma semana fazendo
outro serviço para o Despachante, esse mais complicado, o freguês
tinha um guarda-costas que deu trabalho. Ao voltar tornei a encontrar
no elevador os dois filhos grandes gordos do doutor Gumercindo,
acompanhados de duas mulheres magras. Eles me cumprimentaram
amavelmente e saíram na minha frente.
Aqueles são os filhos e as noras do
doutor Gumercindo?
São, respondeu o porteiro, agora
estão morando aqui, o doutor Gumercindo morreu, mas o apartamento é
grande, dá para morar todo mundo nele. E dona Teresa?, perguntei.
Ela não tem aparecido, respondeu o porteiro.
Voltei a encontrar os novos moradores
do apartamento do doutor Gumercindo. As duas mulheres tinham cara de
putas. Eu conheço putas. Os dois filhos estavam cada vez mais
gordos. Falavam dos novos carros que haviam comprado. As duas
mulheres estavam vestidas com roupas caras. Esses caras andaram
fazendo coisas erradas, pensei. No meu trabalho sou obrigado a sacar
quem é perigoso, quem não é, quem é filho da puta, quem não é.
Eles eram as duas coisas.
Depois de um mês achei estranho não
encontrar mais dona Teresa no elevador. Ela gostava de passear na
praça, sentar num dos bancos para apanhar sol. Perguntei ao
porteiro, tem visto dona Teresa? Não, ele respondeu.
Subi ao apartamento do doutor
Gumercindo, toquei a campainha. Uma empregada abriu a porta.
Vim visitar dona Teresa, eu disse. A
mulher bateu com a porta na minha cara. Toquei novamente a campainha.
Ouvi a voz da empregada, gritando do lado de dentro, dona Teresa não
pode receber visitas. Eu gritei, e a senhora não pode abrir a porta
para falar comigo? Tenho ordem de não abrir a porta para estranhos,
a mulher gritou do lado de dentro.
Dois dias depois voltei ao apartamento
de dona Teresa. Sabia que a empregada estava de folga. Era a hora do
almoço do porteiro. Antes tirei algo de dentro da maleta de couro
onde guardava os folhetos sobre informática. Toquei a campainha e
notei que o olho mágico havia escurecido, alguém me olhava de
dentro.
Um dos grandões entreabriu a porta.
Vim visitar dona Teresa, eu disse. Ela não pode receber visitas, ele
respondeu irritado, dá o fora. Começou a fechar a porta, mas não
deixei. Abre essa merda, eu disse, encostando a pistola nos cornos
dele.
Em pé na sala estava o irmão dele.
Onde é que ela está, seus filhos da puta? Ela viajou, balbuciou um
deles. Viajou o caralho, eu disse, dando uma porrada com a pistola na
cara dele, em cima do nariz.
Dona Teresa estava numa cama dessas de
hospital, os dois pulsos amarrados no estrado de ferro. Solta ela, eu
disse. Eles soltaram. Senta ela naquela poltrona.
A senhora está bem?, perguntei. Ela
meneou a cabeça dizendo que sim. A senhora é capaz de guardar um
segredo? Sou, ela respondeu com voz fraca. Um segredo terrível? Sim,
seu José, ela respondeu.
Levei os dois grandões para o
banheiro, mandei entrarem na banheira e dei um tiro na cabeça de
cada um. Sempre atiro na cabeça. Tirei as carteiras com cartões de
crédito dos bolsos deles. Voltei para a sala.
Matei aqueles dois canalhas, ninguém
pode saber que fui eu, diga que foi um ladrão. Sim, ela respondeu.
Fui ao quarto das putas e peguei as
joias das gavetas. Depois saí, deixando a porta aberta.
No meu apartamento botei aquele
bagulho todo em várias sacolinhas de supermercado. Coloquei tudo na
minha maleta de couro, saí, peguei um táxi, saltei bem longe,
noutro bairro, joguei cada saco numa lata de lixo diferente.
Quando voltei para casa havia uma
grande movimentação no prédio. Assaltaram o apartamento do doutor
Gumercindo, disse o porteiro, mataram os dois filhos dele.
É mesmo? Como isso foi possível?
Foi na hora do meu almoço, respondeu
o porteiro.
E dona Teresa?
Ela está bem, respondeu o porteiro.
Subi para o apartamento do doutor
Gumercindo. As duas putas estavam lá dentro, choramingando.
Vocês podem fazer as malas e ir
baixar noutro terreiro, eu disse, o apartamento pertence à dona
Teresa.
Quando as duas putas saíram, dona
Teresa deu um beijo na minha mão, o senhor é um santo, seu José,
vou guardar até morrer o nosso segredo.
Voltei para o meu apartamento. Um
santo. Um santo porra nenhuma. Sou um assassino profissional, mato
por dinheiro.
Nem sempre.
Rubem Fonseca, em Ela e Outras Mulheres

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