domingo, 17 de maio de 2026

O Mestre e Margarida — 3




3

A sétima prova

É, eram aproximadamente dez horas da manhã, respeitável Ivan Nikoláievitch — disse o professor.
O poeta passou a mão pelo rosto como faz uma pessoa que acaba de voltar a si e viu que a noite havia caído em Patriarchi.
A água do lago havia escurecido, agora um barquinho leve deslizava por ela e ouvia-se o bater dos remos e as risadinhas de alguma cidadã a bordo. Apareceu gente nos bancos das aleias, mas novamente nos outros três lados do quadrado, e não naquele em que estavam nossos interlocutores.
O céu sob Moscou parecia ter desbotado, e no alto via-se a lua cheia totalmente nítida, só que ainda não estava dourada, mas sim branca. Era bem mais fácil respirar, e as vozes sob as tílias soavam agora mais suaves, noturnais.
Como é possível que eu não tenha percebido que ele conseguiu engendrar toda uma história?”, pensou Bezdômny admirado. “Já é noite! Ou será que não foi ele que contou, e eu simplesmente adormeci e sonhei com tudo isso?”
No entanto, deve-se supor que o professor contou mesmo tudo aquilo. Caso contrário, seríamos obrigados a admitir que Berlioz teve o mesmo sonho, pois ele disse, examinando atento o rosto do estrangeiro:
Sua história é extremamente interessante, professor, apesar de não coincidir em nada com o Evangelho.
Perdão — replicou o professor, sorrindo indulgente —, mas ninguém mais do que o senhor deveria saber que absolutamente nada do que está escrito no Evangelho jamais aconteceu na realidade, e se começarmos a aludir ao Evangelho como fonte histórica... — Ele sorriu uma vez mais, e Berlioz engasgou, pois ele dissera o mesmo, palavra por palavra, a Bezdômny, quando caminhavam pela Brônnaia em direção a Patriarchi Prudý.
Isso mesmo — observou Berlioz. — Mas temo que ninguém poderá comprovar que o que o senhor nos contou aconteceu de verdade.
Oh, não! Há quem possa comprovar! — retrucou o professor extremamente convencido, começando a falar num russo macarrônico. E, do nada, misterioso, fez um gesto para que os dois colegas se aproximassem dele.
Ambos se inclinaram para ele, cada um de um lado, e ele disse, mas já sem nenhum sotaque, que, sabe-se lá por quê, ora sumia, ora aparecia:
É o seguinte... — Então o professor olhou ao redor receoso e começou a cochichar. — Eu presenciei tudo isso pessoalmente. Estive na varanda com Pôncio Pilatos, no jardim, quando ele conversou com Caifás, estive também no palanque, só que às escondidas, incógnito, por assim dizer, então peço aos senhores, nem uma palavra a ninguém, segredo total! Shh!
Caiu o silêncio e Berlioz empalideceu.
O senhor... há quanto tempo o senhor está em Moscou? — perguntou ele, com a voz trêmula.
Acabei de chegar, neste instante, a Moscou — respondeu o professor, perplexo, e só então os colegas resolveram olhar bem em seus olhos e se convenceram de que o olho esquerdo, o verde, era totalmente demente e o direito era vazio, negro e morto.
Pronto, está tudo explicado”, pensou Berlioz, confuso. “Chegou um alemão louco ou acabou de ficar pinel em Patriarchi. Que história!”
É, realmente, tudo estava explicado: o estranhíssimo café da manhã com o falecido filósofo Kant, o papo-furado sobre óleo de girassol e Ánnuchka, as profecias sobre como a cabeça seria cortada e tudo mais — o professor era louco.
Imediatamente Berlioz percebeu o que deveria fazer. Reclinando-se no encosto do banco, ele começou a piscar para Bezdômny, pelas costas do professor — querendo dizer que era melhor não o contrariar, mas o poeta, perplexo, não entendeu os sinais.
Sim, sim, sim — dizia Berlioz, exaltado. — Aliás, tudo isso é possível! Muito provável, até, tanto Pôncio Pilatos, como a varanda e todo o resto... Mas o senhor veio sozinho ou com a esposa?
Sozinho, sozinho, estou sempre só — respondeu o professor amargamente.
E onde estão suas coisas, professor? — perguntou Berlioz de forma insinuante. — No Metropol? Onde se hospedou?
Eu? Em lugar nenhum — respondeu o alemão maluco, enquanto seu olho verde triste e selvagem vagava por Patriarchi Prudý.
Como assim? Mas... onde é que o senhor vai ficar?
Em seu apartamento — respondeu de repente o louco de forma atrevida, depois piscou.
Eu... eu fico muito feliz — balbuciou Berlioz. — Mas, na verdade, na minha casa o senhor não ficará muito bem acomodado... No Metropol há quartos maravilhosos, é um hotel de primeira...
E o diabo, também não existe? — de repente quis saber o doente, alegre, de Ivan Nikoláievitch.
Nem o diabo...
Melhor não contrariar! — cochichou Berlioz apenas com os lábios, despencando sobre as costas do professor e fazendo caretas.
Não existe diabo algum! — gritou Ivan Nikoláievitch imprudentemente, perplexo com todo aquele lero-lero. — Que castigo! Pare de bancar o biruta!
O demente soltou uma gargalhada tão forte que um pardal alçou voo da tília acima deles.
Bom, isso é realmente interessante — pronunciou o professor, sacudindo-se de tanto rir. — O que há com vocês? Vocês não se agarram a nada, nada existe para vocês! — Inesperadamente ele parou de gargalhar e, de forma bem compreensível quando se trata de doença mental, depois da gargalhada caiu no outro extremo. Enfurecido, gritou rispidamente: — Então quer dizer que é isso aí, que o diabo não existe?
Calma, calma, calma, professor — balbuciava Berlioz, temendo alvoroçar o doente. — Fique um minutinho aqui sentado com o camarada Bezdômny que eu vou correndo até a esquina dar um telefonema e depois nós o acompanhamos aonde o senhor desejar. Afinal, o senhor não conhece a cidade...
Deve-se reconhecer que o plano de Berlioz estava correto: ele tinha de correr até o telefone público mais próximo e informar ao departamento de estrangeiros que um consultor havia chegado do exterior e estava em Patriarchi Prudý em estado visivelmente anormal. Então seria necessário tomar algumas medidas, ou o resultado seria louco e desagradável.
Dar um telefonema? Está bem, telefone — concordou o doente com tristeza e, de repente, pediu, ávido: — Mas suplico, antes de se despedir, acredite pelo menos que o diabo existe! Não estou pedindo nada além disso. Saiba que quanto a isso, existe a sétima prova, que é a mais certa! E ela será apresentada ao senhor agora mesmo.
Está bem, está bem — dizia Berlioz em tom falso e carinhoso, e, piscando para o transtornado poeta, que não estava nem um pouco contente com a ideia de ficar vigiando o alemão louco, precipitou-se para aquela saída de Patriarchi que ficava na esquina da Brônnaia e da travessa Iermoláievski.
Então era como se o professor tivesse se restabelecido e se reavivado imediatamente.
Mikhail Aleksándrovitch! — gritou ele, atrás de Berlioz.
Este estremeceu, virou-se, mas acalmou-se com a ideia de que o professor soubera de seu nome e patronímico também por meio de algum jornal. Então o professor gritou, com as mãos ao redor da boca:
O senhor não deseja que eu mande enviar agora mesmo um telegrama a seu tio em Kíev?
De novo Berlioz sentiu um sobressalto. Como o louco sabia da existência de um tio em Kíev? Afinal, com certeza nunca havia saído nada sobre isso em jornal algum. Oh-oh, será que Bezdômny não tem razão? Mas e esses documentos, são falsos? Ah, que sujeito mais estranho... Telefonar, telefonar! Telefonar imediatamente! Vão esclarecer tudo rapidamente!
E sem ouvir mais nada, Berlioz continuou correndo.
Então, na própria saída para a Brônnaia, exatamente aquele mesmo cidadão, que havia sido formado a partir do denso bafo sob a luz do sol, levantou-se de um banco ao encontro do editor. Só que agora ele já não era vaporoso, mas comum, corpóreo e, no lusco-fusco incipiente, Berlioz discerniu nitidamente que ele tinha bigodinhos feito penas de galinha, olhos miudinhos, irônicos e meio embriagados e calças xadrez tão puxadas para cima que as meias brancas encardidas apareciam.
Mikhail Aleksándrovitch recuou, mas se consolou, percebendo que era uma coincidência boba e que agora não tinha tempo para refletir sobre isso.
Está procurando a catraca, cidadão? — quis saber o tipo de xadrez com uma voz de taquara rachada. — Por aqui, por favor! Vá em frente e sairá onde precisa. Pela indicação poderia cobrar do senhor um quartinho de litro... para emendar... um ex-regente! — gesticulando, o sujeito tirou o boné de jóquei com o dorso da mão.
Berlioz não parou para dar ouvidos ao regente pedinte e afetado, correu até a catraca e agarrou-a. Contornando-a ele quase pisou em cima dos trilhos, quando uma luz vermelha e branca jorrou em seu rosto: uma inscrição se acendeu numa caixa de vidro — “Cuidado com o bonde”.
Imediatamente, o tal bonde chegou voando, virando pela linha recém-inaugurada, da Iermoláievski para a Brônnaia. Depois de contornar e seguir em frente, inesperadamente, o bonde iluminou-se por dentro com eletricidade, sinalizou e acelerou.
O precavido Berlioz, mesmo estando em um lugar fora de perigo, resolveu voltar para trás da barreira, pousou a mão no molinete e deu um passo para trás. Imediatamente, sua mão escorregou e escapuliu. Uma perna incontrolável, como se estivesse no gelo, escorregou pela pedra do calçamento, inclinada até os trilhos, a outra ficou suspensa e Berlioz foi jogado para frente.
Tentando segurar-se em algo, Berlioz caiu de costas, bateu de leve com a nuca contra o calçamento e conseguiu avistar, no alto, a lua dourada, mas se era à direita, ou à esquerda, ele já não conseguia mais raciocinar. Conseguiu virar-se de lado e, com um movimento desvairado, no mesmo átimo encolheu as pernas até a barriga e, virando-se, discerniu o rosto completamente pálido de horror da motorneira com seu lenço vermelho escarlate que vinha em sua direção numa velocidade incontrolável. Berlioz não gritou, mas ao seu redor, com vozes femininas desesperadas, a rua inteira berrou. A motorneira acionou o freio elétrico, o vagão afundou o nariz no chão e, depois disso, pulou instantaneamente e de suas janelas voaram estilhaços com estrondo. Na cabeça de Berlioz, alguém gritou em desespero: “Será?...” Uma vez mais, pela última vez, a lua cintilou, mas ela já se despedaçava, e então ficou escuro.
O bonde passou por cima de Berlioz e um objeto redondo e escuro foi lançado para o declive de pedras por baixo da cerca da aleia de Patriarchi. Depois de descer por esse declive, o objeto saltou pelo calçamento da Brônnaia.
Era a cabeça decepada de Berlioz.

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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