[…]
A pseudociência é mais fácil de
inventar que a ciência, porque há uma maior disposição a evitar
confrontações perturbadoras com a realidade que não permitem
controlar o resultado da comparação. Os níveis de argumentação,
o que passa por provas, são muito mais relaxados. Em parte pelas
mesmas razões, é muito mais fácil apresentar ao público em geral
a pseudociência que a ciência. Mas isso não basta para explicar
sua popularidade.
Naturalmente, a gente prova distintos
sistemas de crenças para ver se lhe servem. E, se estivermos muito
desesperados, todos chegamos a estar mais dispostos a abandonar o que
podemos perceber como uma pesada carga de ceticismo. A pseudociência
enche necessidades emocionais capitalistas que a ciência está
acostumada deixar insatisfeita. Proporciona fantasias sobre poderes
pessoais que nos faltam e desejamos (como os que se atribuem aos
super-heróis dos gibis hoje em dia, e anteriormente aos deuses). Em
algumas de suas manifestações oferece uma satisfação da fome
espiritual, a cura das enfermidades, a promessa de que a morte não é
o fim. Confirma-nos nossa centralidade e importância cósmica.
Assegura que estamos conectados, vinculados, ao universo. Às vezes é
uma espécie de lar a meio caminho entre a antiga religião e a nova
ciência, do que ambas desconfiam.
No coração de alguma pseudociência
(e também de alguma religião antiga ou da “Nova Era”)
encontra-se a ideia de que o desejo o converte quase tudo em
realidade. Que satisfatório seria, como nos contos infantis e lendas
folclóricas, satisfazer o desejo de nosso coração só desejando-o.
Que sedutora é esta ideia, especialmente se compara com o trabalho e
a sorte que se está acostumado a necessitar para encher nossas
esperanças. O peixe encantado ou o gênio do abajur nos concederão
três desejos: o que queiramos, exceto mais desejos. Quem não pensou
— só no caso de, só se por acaso nos encontramos ou roçamos
acidentalmente uma velha lâmpada — o que pediria?
Lembrança que nas tiras de gibi e
livro de minha infância saía um mago com chapéu e bigode que
brandia uma bengala de ébano. Chamava-se Zatara. Era capaz de
provocar algo, o que fora. Como o fazia? Fácil. Dava suas ordens ao
reverso. Ou seja, se queria um milhão de dólares, dizia “seralód
ed oãhlim, mu de eM”. Com isso bastava. Era como uma espécie de
oração, mas com resultados muito mais seguros.
Aos oito anos dediquei muito tempo a
experimentar desta guisa, dando ordens às pedras para que se
elevassem: “metivel, sardep”. Nunca funcionou. Decidi que era
culpa de minha pronúncia.
Poderia afirmar-se que se abraça a
pseudociência na mesma proporção que se compreende mal a ciência
real... só que aqui acaba a comparação. Se a gente nunca ouviu
falar de ciência (por não falar de seu funcionamento), dificilmente
será consciente de estar abraçando a pseudociência. Simplesmente,
estará pensando de uma das maneiras que pensaram sempre os humanos.
As religiões revistam ser os viveiros de amparo estatal da
pseudociência, embora não há razão para que tenham que
representar este papel. Em certo modo é um dispositivo procedente de
tempos já passados. Em alguns países, quase todo mundo acredita na
astrologia e a adivinhação, incluindo os líderes governamentais.
Mas isso não lhes inculcou só através da religião; deriva da
cultura que os rodeia, em que todo mundo se sente cômodo com estas
práticas e se encontram testemunhos que o afirmam em todas as
partes.
A maioria dos casos aos que me refiro
neste livro são norte-americanos... porque são os que conheço
melhor, não porque a pseudociência e o misticismo tenham maior
incidência nos Estados Unidos que em outra parte. Uri Geller,
entorta dor de colheres e canalizador de extraterrestres, vem de
Israel. À medida que crescem as tensões entre os secularistas
argelinos e os fundamentalistas muçulmanos aumenta o número de
gente que consulta discretamente aos dez mil adivinhos e
clarividentes (dos que perto da metade operam com licença do
governo). Altos cargos franceses, incluído um antigo presidente da
República, ordenaram o investimento de milhões de dólares em uma
empresa fraudulenta (o escândalo Elf-Aquitaine) para encontrarem
novas reservas de petróleo do ar. Na Alemanha há preocupação
pelos “raios da Terra” cancerígenos que a ciência não detecta;
só podem ser captados por experimentados adivinhos brandindo
forquilhas. Nas Filipinas floresce a “cirurgia psíquica”. Os
fantasmas são uma obsessão nacional em Grã-Bretanha. Da segunda
guerra mundial, no Japão apareceu uma enorme quantidade de novas
religiões que prometem o sobrenatural. O número estimado de
adivinhos que prosperam no Japão é de cem mil, com uma clientela
majoritária de mulheres jovens. Aum Shirikyo, uma seita que se supõe
implicada na fuga de gás nervoso sarin no metrô do Tóquio em março
de 1995, conta entre seus principais dogmas com a levitação, a cura
pela fé e a percepção extrassensorial (EPS). Os seguidores bebiam,
a um alto preço, a água do “lago milagroso”... do banho da
Asahara, sua líder. Em Tailândia se tratam enfermidades com
pastilhas fabricadas com Escrituras Sagradas pulverizadas. Ainda hoje
se queimam “bruxas” na Africa do Sul. As forças australianas que
mantêm a paz no Haiti resgatam a uma mulher atada a uma árvore;
está acusada de voar de coberto em coberto e chupar o sangue aos
meninos. Na Índia abunda a astrologia, a geomancia está muito
estendida na China.
Possivelmente a pseudociência global
recente de mais êxito —-segundo muitos critérios, já uma
religião — é a doutrina hindu da meditação transcendental (MT).
As soporíferas homilias de seu fundador e líder espiritual, o
Maharishi Mahesh Yogi, podem-se seguir por televisão. Sentado em
posição de lótus, com seus cabelos brancos salpicado de negro,
rodeado de grinaldas e oferendas florais, seu aspecto é imponente.
Um dia, trocando de canais, encontramo-nos com esta Face. “Sabem
quem é esse cara?”, perguntou nosso filho de quatro anos. “Deus.”
A organização mundial da MT tem uma valoração estimada de três
mil e milhões de dólares. Prévio pagamento de uma taxa promete que
através da meditação podem fazer que alguém atravesse paredes,
volte-se invisível e voe. Pensando ao uníssono, conforme dizem,
reduziram o índice de delitos em Washington, D.C. e provocaram o
colapso da União Soviética, entre outros milagres seculares. Não
se ofereceu a mais mínima prova real de tais afirmações. MT vende
medicina popular, dirige companhias comerciais, clínicas médicas e
universidades de “investigação”, e tem feito uma incursão sem
êxito na política. Com sua líder de estranho carisma, sua promessa
de comunidade e o oferecimento de poderes mágicos em troca de
dinheiro e uma fé fervente, é o paradigma de muitas pseudociências
comercializadas para a exportação sacerdotal.
Cada vez que se renuncia aos controles
civis e à educação científica se produz outro pequeno puxão da
pseudociência.
Liev Trotski o descreveu referindo-se
a Alemanha em vésperas da tira do poder por parte do Hitler (mas a
descrição poderia haver-se aplicado igualmente à União Soviética
de 1933):
Não só nas casas dos camponeses, mas
também nos arranha-céu da cidade, junto ao século XX convive o
XIII. Cem milhões de pessoas usam a eletricidade e acreditam ainda
nos poderes mágicos dos signos e exorcismos... As estrelas de cinema
vão a médiuns. Os aviadores que pilotam milagrosos mecanismos
criados pelo gênio do homem levam amuletos na jaqueta. Que
inesgotável reserva de escuridão, ignorância e selvageria possuem!
Rússia é um caso instrutivo. Na
época dos czares se estimulava a superstição religiosa, mas se
suprimiu sem contemplações o pensamento científico e cético, só
permitido a uns quantos cientistas adestrados. Com o comunismo se
suprimiram sistematicamente a religião e a pseudociência... exceto
a superstição da religião ideológica estatal. apresentava-se como
científica, mas estava tão longe deste ideal como o culto
misterioso menos provido de autocrítica. considerava-se um perigo o
pensamento crítico — exceto por parte dos cientistas em
compartimentos de conhecimento hermeticamente isolados—, não se
acostumava nas escolas e se castigava quando alguém o expressava.
Como resultado, com o fim do comunismo, muitos russos contemplam a
ciência com suspeita. Ao levantar a tampa, como ocorreu com os
virulentos ódios étnicos, saiu à superfície o que até então
tinha estado fervendo por debaixo dela. Agora toda a zona está
alagada de óvnis, poltergeist, curadores, curandeiros, águas
mágicas e antigas superstições. Um assombroso declive da
expectativa de vida, o aumento da mortalidade infantil, as violentas
epidemias de enfermidades, as condições sanitárias por debaixo do
mínimo e a ignorância da medicina preventiva se unem para elevar a
soleira a partir do qual se dispara o ceticismo de uma população
cada vez mais se desesperada. No momento de escrever estas linhas, o
membro mais popular e mais votado da Duma, um importante defensor do
ultranacionalista Vladimir Zhirinovski, é um tal Anatoli
Kashprirovski: um curandeiro que, à distância, com a luz
deslumbrante de seu rosto na tela do televisor, cura enfermidades que
vão de uma hérnia até a AIDS. Sua Face põe em funcionamento
relógios danificados.
Existe uma situação mais ou menos
análoga na China. depois da morte do Mao Zedong e a gradual
emergência de uma economia de mercado, apareceram os óvnis, a
canalização e outros exemplos de pseudociência Ocidental, junto
com práticas chinesas tão antigas como a adoração dos ancestrais,
a astrologia e as adivinhações, especialmente a versão que
consiste em jogar gravetos e examinar os velhos hexagramas do I
Ching. O periódico do governo lamentava que “a superstição
da ideologia feudal cobre nova vida em nosso país”. Era (e segue
sendo) um mal principalmente rural, não urbano.
Os indivíduos com “poderes
especiais” atraíam um grande número de seguidores. Conforme
diziam, podiam projetar Qi, o “campo de energia do universo”,
desde seu corpo para trocar a estrutura molecular de um produto
químico a dois mil quilômetros de distância, comunicar-se com
extraterrestres, curar enfermidades. Alguns pacientes morreram sob os
cuidados de um desses “professores do Qi Gongo”, que foi detido e
condenado em 1993. Wang Hong-cheng, um aficionado à química,
afirmava ter sintetizado um líquido que, se acrescentava à água em
pequenas quantidades, convertia-a em gasolina ou um equivalente.
Durante um tempo recebeu recursos do exército e a polícia secreta,
mas, quando se constatou que seu invento era uma fraude, foi detido e
encarcerado. Naturalmente, propagou-se a história de que sua
desgraça não era produto da fraude mas sim de sua negativa a
revelar a “fórmula secreta” ao governo. (Na América do Norte
circularam histórias similares durante décadas, normalmente com a
substituição do papel do governo pelo de uma companhia petroleira
ou automobilística importante.) está-se levando aos rinocerontes
asiáticos à extinção porque dizem que seus chifres, pulverizados,
acautelam a impotência; o mercado abrange todo o leste da Ásia.
O governo da China e a Partido
Comunista chinês estavam alarmadas por estas tendências. Em 5 de
dezembro de 1994 emitiram uma declaração conjunta que dizia, entre
outras coisas: debilitou-se a educação pública em temas
científicos em anos recentes. Ao mesmo tempo foram crescendo
atividades de superstição e ignorância e se feito frequentes os
casos de anti-ciência e pseudociência. Em consequência, devem-se
aplicar medidas eficazes o antes possível para fortalecer a educação
pública na ciência. O nível de educação pública em ciência e
tecnologia é um sinal importante do lucro científico nacional. É
um assunto da maior importância no desenvolvimento econômico,
avance cientista e progresso da sociedade. Devemos emprestar atenção
e potencializar esta educação pública como parte da estratégia de
modernização de nosso país socialista para conseguir uma nação
poderosa e próspera. A ignorância, como a pobreza, nunca é
socialista.
Assim, a pseudociência nos Estados
Unidos é parte de uma tendência global. Suas causas, perigos,
diagnósticas e tratamento são iguais em todas as partes. Aqui, os
psíquicos vendem seus serviços em compridos anúncios de televisão
com o respaldo pessoal dos apresentadores. Têm seu canal próprio, o
Psychic Friends Network, com um milhão de abonados anuais que o usam
como guia em sua vida cotidiana. Há uma espécie de
astrólogo-adivinho-médium disposto a aconselhar os altos executivos
de grandes corporações, analistas financeiros, advogados e
banqueiros sobre qualquer tema. “Se a gente soubesse quantas
pessoas, especialmente entre os mais ricos e poderosos, vão aos
psíquicos, ficaria com a boca aberta para sempre”, diz um psíquico
de Cleveland, Ohio. Tradicionalmente, a realeza foi vulnerável às
fraudes psíquicas. Na antiga a China e em Roma a astrologia era
propriedade exclusiva do imperador; qualquer uso privado desta
poderosa arte se considerava uma ofensa capital. Procedentes de uma
cultura do sul da Califórnia particularmente crédula, Nancy e
Ronald Reagan consultavam a um astrólogo para temas privados e
públicos, sem que os votantes tivessem conhecimento disso. Parte do
processo de tira de decisões que influem no futuro de nossa
civilização está simplesmente em mãos de enganadores. De todas as
formas, a prática é relativamente desce na América; sua extensão
é mundial.
Por divertida que possa parecer a
pseudociência, por muito que confiemos em que nunca seremos tão
crédulos como para que nos afete uma doutrina assim, sabemos que
está ocorrendo a nosso redor. A Meditação Transcendental e Aum
Shin-rikyo parecem ter atraído a grande número de pessoas
competentes, algumas com títulos avançados de física ou
engenharia. Não são doutrinas para mentecaptos. Há algo mais.
Mais ainda, ninguém que esteja
interessado no que são as religiões e como começam pode as
ignorar. Embora pareça que se elevam amplas barreiras entre uma
opinião local pseudocientífica e algo assim como uma religião
mundial, os tabiques de separação são muito magros. O mundo nos
apresenta problemas quase insuperáveis. oferece-se uma ampla
variedade de soluções, algumas de visão mundial muito limitada,
outras de um alcance prodigioso. Na habitual seleção natural
darwiniana das doutrinas, algumas resistem durante um tempo, enquanto
a maioria se desvanece rapidamente. Mas umas poucas — às vezes,
como mostrou a história, as mais descuidadas e menos atrativas de
entre elas — podem ter o poder de trocar profundamente a história
do mundo.
O continuum que vai da ciência mal
praticada, a pseudociência e a superstição (antiga e da “Nova
Era”) até a respeitável religião apoiada na revelação é
confuso. Intento não utilizar a palavra “culto” neste libero no
sentido habitual de uma religião que desagrada ao que fala. Só
pretendo chegar à pedra angular do conhecimento: sabem realmente o
que afirmam saber? Todo mundo, pelo visto, tem uma opinião
relevante.
Em algumas passagens deste livro me
mostrarei crítico com os excessos da teologia, porque nos extremos é
difícil distinguir a pseudociência da religião rígida e
doutrinária. Entretanto, quero reconhecer de entrada a diversidade e
complexidade prodigiosa do pensamento e prática religiosa ao longo
dos séculos, o crescimento da religião liberal e da comunidade
ecumênica no último século e o fato de que —como na Reforma
protestante, a ascensão do judaísmo da Reforma, o Vaticano II e a
chamada alta critica da Bíblia— a religião lutou (com distintos
níveis de êxito) contra seus próprios excessos. Mas, igual a
muitos cientistas parecem resistentes a debater ou inclusive comentar
publicamente a pseudociência, muitos defensores das religiões
principais resistem a enfrentar-se a conservadores ultras e
fundamentalistas. Se mantiver a tendência, à larga o campo é dele;
podem ganhar o debate por evitando-o.
Um líder religioso me escreve sobre
seu desejo de “integridade disciplinada” na religião:
Tornamo-nos muito sentimentais... A devoção extrema e a psicologia
troca por um lado, e a arrogância e intolerância dogmática pelo
outro, distorcem a autêntica vida religiosa até fazê-la
irreconhecível. Às vezes quase roço o desespero, mas também vivo
com tenacidade e sempre com esperança... A religião sincera, mais
familiar que seus críticos com as distorções e absurdos
perpetrados em seu nome, tem um interesse ativo em respirar um
ceticismo saudável para seus propósitos... Existe a possibilidade
de que a religião e a ciência forjem uma relação poderosa contra
a pseudociência. Por estranho que pareça, acredito que logo se
unirão para opor-se a pseudorreligião.
A pseudociência é distinta da
ciência errônea. A ciência avança com os enganos e vai eliminando
um a um. chega-se continuamente a conclusões falsas, mas se formulam
hipoteticamente. expõem-se hipótese de modo que possam refutar-se.
confronta-se uma sucessão de hipótese alternativas mediante
experimento e observação. A ciência anda a provas e titubeando
para uma maior compreensão. Certamente, quando se descarta uma
hipótese científica se veem afetados os sentimentos de propriedade,
mas se reconhece que este tipo de refutação é o elemento central
da empresa científica.
A pseudociência é justo o contrário.
As hipótese revistam formular-se precisamente de modo que sejam
invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma possibilidade
de refutação, por isso em princípio não podem ser invalidadas. Os
praticantes se mostram precavidos e à defensiva. opõem-se ao
escrutínio cético. Quando a hipótese dos pseudocientíficos não
consegue coalhar entre os cientistas se alegam conspirações para
suprimi-la.
A capacidade barco a motor na gente sã
é quase perfeita. Raramente tropeçamos ou caímos, exceto de
pequenos ou na velhice. Aprendemos tarefas como montar em bicicleta,
patinar, saltar à curva ou conduzir um carro e conservamos este
domínio para toda a vida. Embora estejamos uma década sem
praticá-lo, não nos custa nenhum esforço recuperá-lo. A precisão
e retenção de nossas habilidades barcos a motor, entretanto, dá-nos
um falso sentido de confiança em nossos outros talentos. Nossas
percepções são falíveis. Às vezes vemos o que não existe. Somos
vítimas de ilusões ópticas. Em ocasiões alucinamos. Tendemos a
cometer enganos. Um livro francamente ilustrativo, titulado Como
sabemos que não é assim: a falibilidade da razão humana na
vida cotidiana, do Thomas Gilovich, mostra como a gente erra
sistematicamente na compreensão de números, como rechaça as provas
desagradáveis, como lhe influem as opiniões de outros. Somos bons
em algumas costure, mas não em tudo. A sabedoria radica em
compreender nossas limitações. “Porque o homem é uma criatura
atordoada”, ensina-nos William Shakespeare. Aqui é onde entra o
puntilioso rigor cético da ciência.
Possivelmente a distinção mais clara
entre a ciência e a pseudociência é que a primeira tem uma
apreciação muito mais pormenorizada das imperfeições humanas e a
falibilidade que a pseudociência (ou revelação “inequívoca”).
Se nos negarmos categoricamente a reconhecer que somos suscetíveis
de cometer um engano, podemos estar seguros de que o engano —incluso
um engano grave, um equívoco profundo— nos acompanhará sempre.
Mas se formos capazes de nos avaliar com um pouco de coragem, por
muito lamentáveis que sejam as reflexões que possamos engendrar,
nossas possibilidades melhoram enormemente.
Se nos limitarmos a mostrar os
descobrimentos e produtos da ciência —não importa o úteis e até
inspiradores que possam ser— sem comunicar seu método crítico,
como pode distinguir o cidadão médio entre ciência e
pseudociência? Ambas se apresentam como afirmação sem fundamento.
Na Rússia e China estava acostumada ser fácil. A ciência
autorizada era a que ensinavam as autoridades. A distinção entre
ciência e pseudociência se fazia a medida. Não fazia falta
explicar as dúvidas. Mas assim que se produziram mudanças políticas
profundas e se liberaram as restrições do livre pensamento houve
uma série de afirmações seguras ou carismáticas —especialmente
as que nos diziam o que queríamos ouvir— que conseguiram muitos
seguidores. Qualquer ideia, por improvável que fora, conseguia
autoridade.
Para o divulgador da ciência é um
desafio supremo esclarecer história atual e tortuosa de seus grandes
descobrimentos e equívocos, e a teimosia ocasional de seus
praticantes em sua negativa a trocar de caminho. Muitos,
possivelmente a maioria dos livros de texto de ciências para
cientistas em florações, abordam-no com ligeireza. É muito mais
fácil apresentar de modo atrativo a sabedoria destilada durante
séculos de interrogação paciente e coletiva sobre a natureza que
detalhar o complicado aparelho de destilação. O método, embora
seja indigesto e espesso, é muito mais importante que os
descobrimentos da ciência.
Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios

Nenhum comentário:
Postar um comentário