O sujeito detestável encostou seu
enorme jipe de guerra, construído para desbravar dunas e abrir
trilhas no mato, na traseira do meu carro e começou a buzinar. Não
entendi o que ele queria. O sinal estava fechado.
Ele começou a gritar que eu era uma
“bicha velha”, e eu fiquei sem entender, porque, além de eu não
ser bicha nem velha, adoro bichas e velhas e não entendi por que é
que ele odeia bichas e velhas a ponto de achar que isso vai ofender
alguém.
Como o “bicha velha” não surtiu o
efeito desejado, ele disse que eu estava cometendo uma falta de
civilidade. “Do que você está falando?” Ele falou que o espaço
que havia entre o meu carro e o carro da frente era enorme. Olhei
para a frente. Três metros me separavam de um caminhão. Achei uma
distância segura e razoável.
O sujeito detestável berrou que a mãe
dele estava doente, gritou que eu era uma “vedete” (sic) que me
achava melhor do que os outros, mas eu não consegui entender qual
era a relação disso tudo com a distância que eu tomava do carro da
frente. Ele saiu do carro dele com a intenção de me bater. O sinal
abriu. Acelerei.
Outra vez, há muito tempo, abri a
porta do carro sem checar se vinha alguém. Vinha uma moto, em alta
velocidade. O motoqueiro desviou da minha porta e caiu no chão,
arrastando a perna no asfalto. Se viesse um carro na outra pista, ele
teria morrido. Se ele andasse armado, teria me matado.
A moto estava por cima do corpo dele.
Só conseguia pensar: “matei alguém”. As pessoas começaram a se
aglomerar e a tomar partido. “Eu vi! O cara abriu a porta do carro
sem olhar pra trás.” O júri popular já estava me condenando por
homicídio culposo quando a vítima se levantou do chão com a roupa
toda rasgada e disse: “Calma, gente”. “Você tá bem?”,
perguntei. “Tô andando, tô no lucro”, ele disse.
Dei meu telefone para reparar os
estragos. Ele me ligou na semana seguinte para dizer que eu não
precisaria pagar nada, porque ele não iria consertar a moto. “Foi
só um arranhãozinho.” “E suas roupas?”, perguntei. Ele
respondeu que já eram velhas mesmo. Fiquei esperando o esporro que
eu merecia levar. Nada.
Tem vezes que a vida te dá um
vale-esporro. Um acidente em que você não tem culpa. Um serviço
mal prestado. A doença da sua mãe. O.k., você pode ser detestável.
Mas o direito de ser detestável não te obriga a sê-lo. Abrir mão
do direito de ser detestável: nada mais adorável.
Gregório Duvivier, em Put some farofa
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