Eu queria que ele fosse uma menina.
Achava que seria menina. Com sete meses, o médico disse que
poderíamos fazer uma ultrassonografia para saber o sexo, última
novidade na época, mas não quis. “É menina. Tenho certeza.” O
enxoval já estava pronto, mas Sarinha nasceu um menino, para a minha
decepção. Nos primeiros meses só o vestia de rosa e amarelo, até
que cresceu e passou a usar as roupinhas do Nicolas que eu tinha
guardado.
Demorou quase uma semana para
decidirmos por um nome, e no final Afonso sugeriu Marcos por não
existir feminino possível. Tinha medo, confessou-me mais tarde, que
eu continuasse a chamar o filho de Sara. Continuei, mas sem
pronunciar palavra. No meu silêncio sempre foi ela, minha menininha.
Marquinhos não quis ir ao enterro do
pai. Não deu explicações, e também não pedi. Nos meses seguintes
passou a ir com certa frequência ao cemitério, primeiro sem contar
para ninguém, depois comentando brevemente com Nicolas ou com o avô,
e eu ficava sabendo dias depois. Mas jamais perguntei por quê.
Talvez se culpasse pela morte do pai.
Ele, adolescente, querendo se mostrar homem a cada segundo, arrotando
na mesa de jantar, gritando palavrões pelo telefone. Uma bola mais
curta, um voleio maldoso, e o pai correu do fundo de quadra até a
rede. Rebateu a bola, quase sem forças, e ela passou lenta para o
lado da quadra do filho. Que o arrasou em um golpe forte, certeiro e
a bola morreu entre as tranças do alambrado soltando um barulho
metálico.
E o pai ajoelhou-se com a mão no
coração, para nunca mais levantar.
Imagino isto tudo, as nuances, os
possíveis lances da partida, se o ponto que matou meu marido era
decisivo ou apenas um 15-15, sem ameaça de quebra de saque no início
de um game. Afonso adorava jogar tênis, sentia-se rico, realizado.
Morreu em quadra. Marquinhos nunca contou quase nada daquele jogo, do
último ponto, da última palavra de Afonso, da penúltima. Disse
apenas, entre lágrimas, que o pai morrera.
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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