segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

jamais perguntei por quê


Eu queria que ele fosse uma menina. Achava que seria menina. Com sete meses, o médico disse que poderíamos fazer uma ultrassonografia para saber o sexo, última novidade na época, mas não quis. “É menina. Tenho certeza.” O enxoval já estava pronto, mas Sarinha nasceu um menino, para a minha decepção. Nos primeiros meses só o vestia de rosa e amarelo, até que cresceu e passou a usar as roupinhas do Nicolas que eu tinha guardado.
Demorou quase uma semana para decidirmos por um nome, e no final Afonso sugeriu Marcos por não existir feminino possível. Tinha medo, confessou-me mais tarde, que eu continuasse a chamar o filho de Sara. Continuei, mas sem pronunciar palavra. No meu silêncio sempre foi ela, minha menininha.
Marquinhos não quis ir ao enterro do pai. Não deu explicações, e também não pedi. Nos meses seguintes passou a ir com certa frequência ao cemitério, primeiro sem contar para ninguém, depois comentando brevemente com Nicolas ou com o avô, e eu ficava sabendo dias depois. Mas jamais perguntei por quê.
Talvez se culpasse pela morte do pai. Ele, adolescente, querendo se mostrar homem a cada segundo, arrotando na mesa de jantar, gritando palavrões pelo telefone. Uma bola mais curta, um voleio maldoso, e o pai correu do fundo de quadra até a rede. Rebateu a bola, quase sem forças, e ela passou lenta para o lado da quadra do filho. Que o arrasou em um golpe forte, certeiro e a bola morreu entre as tranças do alambrado soltando um barulho metálico.
E o pai ajoelhou-se com a mão no coração, para nunca mais levantar.
Imagino isto tudo, as nuances, os possíveis lances da partida, se o ponto que matou meu marido era decisivo ou apenas um 15-15, sem ameaça de quebra de saque no início de um game. Afonso adorava jogar tênis, sentia-se rico, realizado. Morreu em quadra. Marquinhos nunca contou quase nada daquele jogo, do último ponto, da última palavra de Afonso, da penúltima. Disse apenas, entre lágrimas, que o pai morrera.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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