Um século após a publicação do
Capital, o então primeiro-ministro britânico Harold Wilson
gabava-se de nunca ter lido o livro. “Não fui além da página
dois – quase completamente tomada por uma nota de rodapé. Achei
que uma página de nota para duas frases era demais.” Um rápido
olhar no primeiro volume da obra deixa evidente que este é um enorme
exagero: há de fato muitas notas nas páginas iniciais, mas todas de
pequena extensão. Entretanto, Wilson talvez falasse em nome de
muitos outros leitores que foram desencorajados pela “dificuldade”,
imaginária ou real, do livro.
Marx antecipou essa reação no
prefácio. “O entendimento do Capítulo 1, em especial da parte que
contém a análise da mercadoria, apresentará a maior dificuldade.
Quanto às passagens que se referem à análise da substância e da
magnitude do valor, procurei torná-las acessíveis ao máximo.” A
forma do valor, alegava ele, era extremamente simples.
Mesmo assim, a mente humana tem
procurado fundamentá-la em vão há mais de dois mil anos…. Por
isso, com exceção da parte relativa à forma do valor, não se
poderá acusar este livro de ser de difícil compreensão.
Pressuponho, naturalmente, leitores que desejam aprender algo de novo
e queiram, portanto, também pensar por conta própria.
Engels não estava certo disso.
Durante a composição do livro alertou Marx de que era um erro grave
não esclarecer a argumentação teórica com uma divisão em seções
menores, com títulos próprios.
Embora tivesse a aparência de um
livro escolar, uma vasta camada de leitores o consideraria muito mais
fácil de entender com essa organização. As massas e até mesmo os
estudiosos não estão mais familiarizados com essa forma de
pensamento, assim, é imprescindível facilitar-lhes ao máximo a
questão.
De fato, Marx fez algumas alterações
nas provas do livro, porém, não mais que emendas irrelevantes.
“Como pôde manter a configuração do livro na forma atual?”,
desesperançou-se Engels ao ver as provas finais.
O quarto capítulo tem quase 200
páginas e apenas quatro subseções…. Além do mais, a linha de
raciocínio é constantemente interrompida por exemplificações, e o
tema a ser ilustrado jamais é retomado, de tal forma que sempre se
passa diretamente do exemplo de um tópico à exposição de outro. É
terrivelmente cansativo, e confuso também.
Os olhos de outros admiradores ficaram
igualmente embaçados à medida que lutavam com os obscuros primeiros
capítulos. “Por favor, faça a gentileza de dizer à sua esposa”,
escreveu Marx a Ludwig Kugelmann, um amigo de Hanôver,
… que os capítulos sobre “A
jornada de trabalho”, “Cooperação, divisão do trabalho e
maquinaria” e, finalmente, “Acumulação primitiva” são os
mais imediatamente legíveis. Você precisará explicar-lhe qualquer
terminologia que ela não domine. Se restarem outros aspectos
duvidosos, ficarei feliz em ajudar.
Quando leu o primeiro tomo do Capital,
o grande socialista inglês William Morris apreciou “imensamente a
parte histórica”, mas confessou sofrer de “confusão cerebral
com os trechos de economia pura dessa grande obra. De qualquer modo,
li o que pude, e espero que alguma informação tenha em mim se
fixado depois dessa leitura”. (Na verdade, a experiência provou-se
um bom investimento em todos os sentidos: o exemplar de Morris, com
encadernação de couro esplendidamente decorada, foi leiloado por 50
mil dólares em maio de 1989.)
Uma absoluta incompreensão, mais que
antipatia política, pode explicar a indiferente resposta à primeira
edição do Capital. “O silêncio sobre meu livro me
exaspera”, queixou-se Marx. Engels procurou incitar alguma
publicidade ao submeter, sob pseudônimo, resenhas hostis aos jornais
alemães e ao convocar outros amigos de Marx a fazer o mesmo. “O
que importa é que o livro seja cada vez mais discutido, de todas as
formas possíveis”, disse a Kugelmann. “Nas palavras de nosso
velho amigo Jesus Cristo, sejamos tão inocentes quanto pombas e tão
astutos quanto serpentes.” Kugelmann fez o melhor que pôde,
estampou artigos em alguns jornais de Hanôver, mas como ele próprio
mal compreendia o livro, os artigos nada tinham de esclarecedores.
“Kugelmann torna-se a cada dia mais obtuso”, irritava-se Engels.
Foram necessários quatro anos para
que as mil cópias da primeira edição se esgotassem. Embora Marx
alegasse no prefácio à segunda edição (1872) que a compreensão
que O Capital rapidamente encontrou em amplos círculos da
classe operária alemã fosse a maior recompensa de seu trabalho,
parece improvável que o volume tenha chegado a muitos trabalhadores
– embora eles tenham sido apresentados aos seus principais temas em
uma série de artigos de Joseph Dietzgen para o jornal socialista
Demokratisches Wochenblatt. “Há possivelmente poucos livros
que tenham sido escritos em circunstâncias mais difíceis”,
escreveu Jenny Marx. “Se os trabalhadores tivessem noção dos
sacrifícios necessários para que essa obra fosse finalizada,
produzida unicamente para eles e em seu benefício, talvez
demonstrassem um pouco mais de interesse.” Mas como poderiam, dada
a extensão, a densidade e o tema tão pouco familiar? Marx depois
observou: “Na Alemanha, a economia política continua uma ciência
estrangeira.”
Em outros lugares, entretanto, houve
manifestações de interesse. Ainda em janeiro de 1868, dois meses
após a publicação, o Saturday Review de Londres incluiu O
Capital em um apanhado de livros alemães recém-lançados. “A
visão do autor pode ser tão perniciosa quanto acreditamos”,
concluiu o artigo, “mas não há dúvida sobre a plausibilidade de
sua lógica, o vigor de sua retórica e o fascínio com que recobre
os mais áridos problemas da economia política.” Uma nota no
Contemporary Review cinco meses depois, ainda que desdenhasse
patrioticamente da economia alemã (“não duvidamos que Karl Marx
tenha muito a nos ensinar”), cumprimentava o autor por não
esquecer “o interesse humano – ‘a preocupação com a fome e a
sede’ que a ciência ignora”.
Uma tradução russa do Capital
apareceu na primavera de 1872, ao passar pelos censores do czar com a
justificativa de que não teria qualquer aplicação na Rússia e,
portanto, não poderia ser subversivo (embora tenham removido o
retrato do autor, temendo que inspirasse um culto à sua
personalidade). Julgaram o texto tão impenetrável que “poucos o
leriam e ainda menos o compreenderiam”. Porém, grande parte dos
três mil exemplares impressos se esgotou em menos de um ano.
Enquanto na maioria dos países capitalistas a obra era ignorada,
jornais e periódicos na Rússia pré-capitalista publicavam resenhas
favoráveis. “Não é uma ironia do destino”, escreveu Marx a
Engels, “que os russos, contra os quais lutei por 25 anos, sempre
queiram ser meus patronos? Eles correm, por pura glutonaria, atrás
das mais extremadas ideias que o Ocidente tem a oferecer.”
Sentia-se especialmente gratificado por uma notícia no Jornal de
São Petersburgo, que lhe elogiava a “incomum vivacidade” da
prosa. “A esse respeito”, acrescentava o periódico, “o autor
de modo algum se assemelha … à maioria dos sábios alemães que …
escrevem seus livros em uma linguagem tão seca e obscura que
despedaça a cabeça dos mortais comuns.”
A produção de uma edição francesa
foi mais problemática. Apesar de o trabalho ter sido iniciado em
1867, imediatamente após a publicação na Alemanha, ao longo dos
quatro anos seguintes cinco tradutores foram testados e rejeitados.
Eventualmente, Marx deu sua bênção a um professor de Bordeaux,
Joseph Roy. Contudo, depois de rever os primeiros capítulos, julgou
que, embora “no geral bem-feita”, a tradução de Roy era
frequentemente muito literal. “Senti-me portanto forçado a
reescrever passagens inteiras em francês para torná-las
palatáveis.” Com a aprovação de Marx, o editor decidiu publicar
o livro em fascículos (“mais acessível à classe operária”), e
o primeiro deles apareceu em maio de 1875.
Em seu país de adoção, as
promissoras primeiras resenhas foram seguidas de um longo silêncio.
“Embora Marx tenha vivido muito tempo na Inglaterra”, escreveu o
advogado John MacDonnel na Fortnightly Review em março de
1875, “ele é aqui quase a sombra de um nome. As pessoas podem
honrá-lo com seus insultos; mas não o leem.” Marx acreditava que
“o dom peculiar da descabida estupidez” era um direito
hereditário britânico, e o fato de que não se tenha publicado
nenhuma edição inglesa ao longo de sua vida confirmou seu
preconceito. “Ficamos muito gratos por sua carta”, escreveram os
editores da Macmillan & Co. a Carl Schorlemmer, amigo de Engels e
professor de química orgânica na Universidade de Manchester, “mas
não estamos dispostos a publicar uma tradução do Capital.”
Os poucos britânicos que o desejavam estudar tinham de lutar o
melhor possível com as versões alemã, russa e francesa. O
jornalista radical inglês Peter Fox, editor do National Reformer,
comentou, depois de ser presenteado com a edição alemã, que se
sentia como um homem que havia adquirido um elefante e não sabia o
que fazer com ele. Um trabalhador escocês, Robert Banner, enviou a
Marx esse angustiado pedido de ajuda:
Não há qualquer esperança de que
seja traduzido? Não existe em inglês sequer uma obra que defenda a
causa das massas trabalhadoras; todo livro em que nós, jovens
socialistas, pomos as mãos defende os interesses do capital. Por
isso nossa causa está tão atrasada neste país. Com uma obra que
aborde a economia do ponto de vista do socialismo, veríamos em breve
um movimento que colocaria um ponto final nessa situação.
Aqueles que mais precisavam do livro
eram os que estavam menos aptos a compreendê-lo, enquanto a elite
educada, que o poderia ler, não o desejava. Como o socialista inglês
Henry Hyndman escreveu:
Acostumados como estamos hoje,
especialmente na Inglaterra, a esgrimir sempre com grandes chumaços
de algodão nas pontas de nossos floretes, o terrível golpe da
lâmina nua de Marx sobre seus adversários parecia tão impróprio
que seria impossível para nossos cavalheirescos pseudolutadores e
ginastas mentais acreditar que esse polemista impiedoso e crítico
furioso do capital e do capitalismo fosse na realidade o mais
profundo pensador de nosso tempo.
Hyndman era uma exceção à regra. No
início de 1880, depois de ler a tradução francesa do Capital,
cobriu o autor de tamanhas homenagens extravagantes que Marx se
sentiu obrigado a encontrá-lo. No entanto, embora Hyndman se
declarasse “ávido de aprender”, foi ele quem conduziu quase toda
a conversa: Marx viria a temer as visitas desse “complacente
tagarela”. A inevitável ruptura ocorreu em junho de 1881, quando o
manifesto socialista de Hyndman, England for All, incluiu dois
capítulos amplamente plagiados do Capital sem autorização
ou mesmo reconhecimento, a não ser por uma nota no prefácio: “A
respeito das ideias e grande parte do conteúdo dos Capítulos 2 e 3,
estou em débito com a obra de um grande pensador e original escritor
que em breve, tenho certeza, estará disponível para a maioria de
meus compatriotas.” Marx considerou isso vergonhosamente
inadequado: por que não mencionar O Capital ou o nome de seu
autor? A frágil desculpa de Hyndman foi que o público inglês tinha
“horror ao socialismo” e “pavor aos ensinamentos estrangeiros”.
Porém, como indicou Marx, era pouco provável que a evocação do
“sonho do socialismo” aplacasse esse horror, e qualquer leitor de
inteligência mediana com certeza adivinharia pelo prefácio que o
“grande pensador” anônimo era estrangeiro. Tratava-se pura e
simplesmente de uma apropriação – marcada pela inserção de
erros crassos nos poucos parágrafos não literalmente retirados do
Capital.
Mal se livrara de um discípulo
inglês, Marx já conquistava outro, embora desta vez tenha tomado a
precaução de jamais encontrar o sujeito. Ernest Belfort Bax,
nascido em 1854, tornara-se um radical, quando ainda jovem estudante,
sob a influência da Comuna de Paris. Em 1879 iniciou uma longa série
de artigos para o intelectualizado mensário Modern Thought
sobre os titãs intelectuais da época, entre eles Schopenhauer,
Wagner e (em 1881) Karl Marx. Tendo estudado a filosofia hegeliana na
Alemanha, Bax era provavelmente o único socialista inglês de sua
geração a aceitar a dialética como dinâmica inerente à vida. Ele
descreveu O Capital como um livro “que encerra a elaboração
de uma doutrina econômica comparável em seu caráter revolucionário
e também por sua importância ao sistema de Copérnico na
astronomia, ou à lei da gravitação na mecânica”. Marx ficou
compreensivelmente lisonjeado e saudou o artigo de Bax como “a
primeira publicação desse tipo que é impregnada de um verdadeiro
entusiasmo por ideias novas e corajosamente se levanta contra o
‘filistinismo’ inglês”.
Apesar de todos os seus defeitos, o
desprezado Hyndman fizera mais do que Bax ou qualquer outro para
disseminar as ideias de Marx na nação filistéia. Em 1883, ainda
fervoroso discípulo, citou Marx exaustivamente – e, desta vez, com
o devido crédito – em seu livro The Historical Basis of
Socialism in England. Hyndman até fundou um partido político
explicitamente marxista, a Federação Democrática (posteriormente,
Federação Social-democrata), cuja liderança era formada por Bax,
William Morris, Walter Crane, Eleanor Marx (uma das filhas de Marx) e
o namorado dela, Edward Aveling. A entusiástica defesa do Capital
feita por Hyndman nos encontros da Federação motivaram o jovem
escritor irlandês George Bernard Shaw a dedicar o outono de 1883 ao
estudo da edição francesa na sala de leitura do Museu Britânico,
de onde o próprio Marx extraíra parte da matéria-prima de sua
obra. “Aquele foi o ponto crucial de minha carreira”, lembrava
Shaw. “Marx foi uma revelação…. Abriu meus olhos para os fatos
da história e da civilização, deu-me uma concepção inteiramente
nova do universo, proporcionou-me um propósito e uma missão na
vida.” O Capital, escreveu ele, “atingiu a maior façanha
que um livro é capaz: mudar a mente das pessoas que o leem”.
A paixão de Shaw pelo Capital
jamais se extinguiria, como demonstrou com essa homenagem
caracteristicamente extravagante logo na primeira página de
Everybody’s Political What’s What, escrito mais de 60 anos
depois:
Apenas no século XIX, quando Karl
Marx extraiu os relatórios dos inspetores de fábrica de nossos
esquecidos livros azuis e revelou todas as atrocidades do
capitalismo, o pessimismo e o cinismo atingiram a mais sombria
profundidade. Ele comprovou exaustivamente que o capital, ao buscar
aquilo que denominou Mehrwerth,
que traduzimos por mais-valia (e incluiu aluguel, juros e lucros
comerciais), é implacável, e nada o deterá, nem mesmo mutilação,
massacre, escravidão branca e negra, droga e bebida, caso
prometam-lhe um xelim a mais que os dividendos da filantropia. Antes
de Marx, houvera bastante pessimismo. Na Bíblia, o livro do
Eclesiástico está cheio disso. Shakespeare, em Rei
Lear, Timão de Atenas, Coriolano, bebeu dessa fonte e se
fartou. O mesmo fizeram Swift e Goldsmith. Porém, nenhum deles pôde
documentar a questão a partir de fontes oficiais como fez Marx.
Dessa forma, ele criou aquela demanda por “um novo mundo” que não
só inspirou os modernos comunismo e socialismo, mas também se
tornou, em 1941, o lema de zelosos conservadores e religiosos.
Shaw teve pouco sucesso em divulgar o
evangelho aos colegas da Sociedade Fabiana, na qual ingressou em
1884. Seu amigo H.G. Wells considerava Marx “um teórico enfadonho,
egocêntrico e mal-intencionado” que “concedeu aos mais baratos e
baixos impulsos humanos a aparência de pretensiosa filosofia”. Sob
influência de seu principal teórico, Sidney Webb, os fabianos
afastaram o socialismo inglês das noções de luta de classes e
revolução rumo à crença de que, com o sufrágio universal, o
Estado britânico poderia promulgar a legislação social que
melhoraria o bem-estar da classe trabalhadora e a eficácia do
sistema econômico.
Este também se tornou o credo
dominante do Partido Trabalhista, criado em 1900. O antigo gracejo de
que o partido devia mais ao metodismo que a Marx talvez seja um
exagero: entre seus adeptos e representantes no Parlamento,
contavam-se muitos socialistas que poderiam se considerar marxianos,
senão marxistas; em 1947 o partido até editou uma reimpressão do
Manifesto Comunista para “reconhecer a dívida com Marx e
Engels, que foram a inspiração de todo o movimento da classe
trabalhadora”. Entretanto, os líderes trabalhistas sustentaram a
visão de Harold Wilson de que o legado de Marx era irrelevante,
talvez verdadeiramente prejudicial a um partido constitucional de
centro-esquerda.
[…]
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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