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Na Alemanha, terra natal de Marx, suas
ideias tornaram-se a ideologia dominante do Partido Socialdemocrata
(SPD, na sigla em alemão), a partir do congresso de 1891 em Erfurt.
Mas a programação do evento era constituída de duas partes
distintas e pressagiava uma longa luta entre revolucionários e
revisionistas. A primeira seção, esboçada por Karl Kautski,
discípulo de Marx, reafirmava teorias familiares tiradas do Capital,
tais como a tendência ao monopólio e à pauperização do
proletariado; a segunda parte, escrita por Eduard Bernstein, lidava
com objetivos políticos mais imediatos – sufrágio universal,
educação livre, imposto progressivo. Bernstein viveu em Londres
durante os anos 1880 e rendeu-se à influência dos primeiros
fabianos. Rosa Luxemburgo queixava-se: “Ele vê o mundo através de
lentes inglesas.”
Bernstein, na década seguinte ao
congresso de Erfurt, repudiava abertamente grande parte do legado de
Marx, descartando sua teoria do valor como “um conceito puramente
abstrato” que deixou de explicar a relação entre oferta e
demanda. Kautski relutava em criticar seu antigo camarada e parecia
muitas vezes até mesmo encorajá-lo: “Você superou nossas
táticas, nossa teoria do valor, nossa filosofia; agora tudo depende
de qual será a boa-nova que você pensa em colocar no lugar da
antiga.”
No final do século, as intenções de
Bernstein estavam bastante evidentes. O capitalismo, longe de ser
superado por uma crise inevitável e iminente, provavelmente
resistiria e traria uma progressiva prosperidade às massas. Com o
ajuste adequado, poderia até se provar o motor do progresso social:
É, portanto, muito errado presumir
que o presente desenvolvimento da sociedade demonstra relativa ou
mesmo absoluta diminuição do número de integrantes das classes com
posses. Seu número aumenta tanto relativa quanto absolutamente…. O
sucesso do socialismo depende não da diminuição, mas do aumento da
riqueza social.
Embora o SPD ainda se definisse como
uma organização proletária revolucionária, ele tornara-se, na
prática, um partido parlamentarista, progressivamente bem-sucedido e
liderado por gradualistas e tecnocratas.
Como especialista em ironias, Marx
talvez tenha se visto obrigado a sorrir (ou, ao menos, a repuxar os
lábios) diante de seu destino: um profeta sem muita honra em sua
própria terra, e ainda menos considerado em seu país de adoção, a
Inglaterra, se tornou a inspiração para um levante cataclísmico no
local onde menos esperava, a Rússia, nação raramente mencionada no
Capital. No entanto, no fim da vida, Marx já havia começado a se
arrepender dessa omissão: o sucesso da edição russa do Capital
levou-o a imaginar que lá, afinal, talvez houvesse algum potencial
revolucionário.
Seu tradutor em São Petersburgo,
Nikolai Danielson, era também líder do movimento populista, que
acreditava que a Rússia poderia passar diretamente do feudalismo
para o socialismo. A descrição de Marx dos efeitos prejudiciais do
capitalismo para a alma do homem convenceram-no de que, se possível,
esse estágio da evolução econômica deveria ser evitado, e, uma
vez que a Rússia já tinha no campo uma forma embrionária de
propriedade coletiva da terra, seria uma atrocidade dissolver as
comunas camponesas e depositá-las nas mãos de proprietários
particulares simplesmente para obedecer a uma suposta lei inelutável
da história. Para os marxistas mais ortodoxos, como Georgi
Plekhânov, que achavam que as condições para o socialismo não
amadureceriam até que a Rússia se industrializasse, esta era uma
insensatez – e, ao longo da década que se seguiu ao lançamento de
O Capital, Marx parecia ter a mesma opinião. Em 1877,
respondendo a um populista russo que protestava contra sua visão
determinista da história, Marx escreveu que se a Rússia estivesse
destinada a se tornar uma nação capitalista nos mesmos moldes que
os países do Ocidente europeu,
… ela não conseguiria isso sem
antes transformar boa parte dos camponeses em proletários; e, então,
quando se encontrar no âmago do regime capitalista, experimentará,
como outros povos profanos, a crueldade de suas leis.
Assim mesmo, Marx acompanhava o
desenrolar dos acontecimentos na Rússia, que ameaçavam contestar
suas teorias. O movimento insurrecional, embora pequeno,
impressionava pela sua determinação e eficácia: entre 1879 e 1881,
a Vontade do Povo, uma facção dissidente do movimento populista,
realizou sete atentados à vida do czar Alexandre II, o último deles
bem-sucedido. (Seis anos depois, a Vontade do Povo tentou também
assassinar o czar Alexandre III; uma das pessoas enforcadas por tomar
parte na trama foi Alexander Ulianov, cujo irmão adolescente,
Vladimir Ilich Ulianov, se tornaria mais conhecido como V.I. Lênin.)
A subsequente enxurrada de detenções
e execuções levou muitos revolucionários russos ao exílio.
Plekhânov mudou-se para a Suíça com vários camaradas, entre eles
Vera Zasulich, que em 1876 deu um tiro no governador-geral de São
Petersburgo e, quando levada a julgamento, teve um desempenho tão
notável que o júri a absolveu da acusação de tentativa de
assassinato. A despeito de seu passado, ela desaprovava a tendência
cada vez mais regicida e violenta do socialismo russo, que parecia
ter perdido de vista os imperativos econômicos formulados no
Capital. Mas a questão dos camponeses e proletários continuava a
incomodar Vera Zasulich e seus companheiros de exílio às margens do
lago Genebra. Em fevereiro de 1881, ela apelou a Marx em busca de uma
opinião abalizada: “Você não ignora que O Capital goza de
grande popularidade na Rússia”, escreveu ela. “Mas talvez não
tenha conhecimento do papel que seu livro desempenhou em nossa
discussão sobre a questão agrária.” E pedia gentilmente que Marx
“desse sua opinião sobre o possível futuro da comuna rural russa
e a teoria da inevitabilidade histórica, segundo a qual todos os
países do mundo atravessarão todas as fases da produção
capitalista”, e assim tentar encerrar a polêmica.
Marx se debateu com o problema por
várias semanas e escreveu cinco rascunhos de resposta. Finalmente
enviou uma breve carta dizendo que sua “assim chamada teoria”
fora mal interpretada: a inevitabilidade histórica da fase burguesa
“é expressamente limitada aos países da Europa Ocidental”. A
transição ocidental do feudalismo para o capitalismo representava a
transformação de um tipo de propriedade privada em outro, enquanto
no caso dos camponeses russos “a propriedade comunal teria, ao
contrário, de ser transformada em propriedade privada. Por isso, a
análise proposta no Capital não apresenta qualquer razão
favorável ou contrária à viabilidade da comuna rural”. Isso era
mais encorajador que o comentário que fizera apenas quatro anos
antes – porém, muito mais cauteloso que o primeiro rascunho de sua
carta a Vera Zasulich, que explicava por que e como o campesinato
russo escaparia ao destino de seus companheiros da Europa Ocidental:
Na Rússia, graças a uma singular
combinação de circunstâncias, a comuna rural, ainda assentada em
escala nacional, pode aos poucos livrar-se de seus traços primitivos
e desenvolver-se diretamente como um elemento da produção coletiva
em escala nacional…. Para salvar a comuna russa, uma revolução é
necessária. A esse respeito, o governo e os “novos pilares da
sociedade” estão fazendo o melhor a fim de preparar as massas para
esse desastre. Se a revolução vier no momento oportuno, se
concentrar todas as forças de modo a permitir total expansão à
comuna rural, esta em breve se transformará em elemento de
regeneração na sociedade russa e de superioridade em relação aos
países escravizados pelo sistema capitalista.
Cinco dias depois de Marx ter enviado
a versão final dessa carta, um pequeno grupo da Vontade do Povo
assassinou o czar Alexandre II em São Petersburgo arremessando uma
bomba em sua carruagem.
Com a plena certeza de que a revolução
só se realizaria pela ação coletiva da classe trabalhadora, mais
que por proezas individuais ou atos de terrorismo, era de esperar que
Marx se aliasse a Vera Zasulich e a Plekhânov mais que aos
terroristas radicais. Todavia, em carta à filha Jenny, Marx
confidenciou que os exilados na Suíça eram “meros doutrinários,
desnorteados anarco-socialistas, e a influência deles no ‘teatro
de guerra’ na Rússia é nula”. Os assassinos de São
Petersburgo, ao contrário,
são, em todos os aspectos,
verdadeiros companheiros, sem pose melodramática, simples,
objetivos, heroicos…. Eles se esforçam para ensinar à Europa que
seu modus operandi é
especificamente russo e historicamente inevitável, que não se
presta a moralizações – a favor ou contra –, mais que o
terremoto em Chios.
Tal atitude seria inconcebível em um
Karl Marx mais jovem: ele passara muitos anos denunciando socialistas
que punham suas crenças a serviço de golpes, atentados e
conspirações clandestinas. Em 1881, no entanto, estava doente e
fatigado. Depois de tanto aguardar o momento oportuno para a
revolução proletária e estar com a paciência esgotada, ansiava
por qualquer tipo de revolta. Naquela primavera, após o nascimento
de um neto, comentaria que as crianças “nascidas neste momento
crucial da história … têm diante de si o período mais
revolucionário que qualquer outro já visto pela humanidade. O lado
ruim neste momento é ser ‘velho’, de modo a apenas prever, e não
testemunhar”.
Todos os arquitetos da Revolução de
1917 citavam Marx, em particular O Capital, como a autoridade
divina para a concretização de suas propostas. Trotski estudou o
livro em 1900, quando se encontrava na Sibéria, exilado em uma vila
horrível, infestada de insetos – “removendo as baratas para fora
da página”, como lembrava. Lênin alegava ter lido o livro em
1888, com precoces 18 anos, sentado sobre um velho forno na cozinha
do apartamento de seu avô. Desde então empregava O Capital –
ou os trechos que serviam a seus propósitos – como a lâmina com
que golpeava seus rivais. (Máximo Górki disse a respeito dos
discursos de Lênin que tinham “o frio brilho de limalhas de aço”.)
Embora sua primeira grande obra, O desenvolvimento do capitalismo
na Rússia, fosse apresentada como uma espécie de suplemento a
Marx, a obra de Lênin nada tinha da ironia e da indignação do
Capital. Como Edmund Wilson observou: “Todos os escritos de
Lênin são funcionais; todos têm o intuito de atingir um propósito
imediato…. Ele é simplesmente um homem que deseja convencer.”
O propósito imediato do livro O
desenvolvimento do capitalismo na Rússia era persuadir os
camaradas de que a Rússia já emergira do feudalismo graças à
rápida expansão de ferrovias, minas de carvão, siderúrgicas e
tecelagens nos anos 1880 e 1890. O fato era que somente em Moscou e
São Petersburgo havia um proletariado industrial; isso, no entanto,
reforçava a responsabilidade de ação da classe como uma
organização de vanguarda que expressasse as reivindicações dos
camponeses e artesãos de outras localidades. Nas novas fábricas,
escreveu Lênin,
… a exploração está
plenamente desenvolvida e emerge em sua forma pura, sem qualquer
detalhe perturbador. O trabalhador não pode deixar de perceber que é
oprimido pelo capital…. É por isso que o trabalhador da fábrica é
o principal representante de toda a população de explorados.
Mas em seu tratado posterior, Que
fazer?, acrescentou que os trabalhadores estavam muito
preocupados com sua própria luta econômica para desenvolver uma
verdadeira consciência revolucionária:
Muito se fala sobre espontaneidade.
Mas o desenvolvimento espontâneo de um movimento da classe
trabalhadora leva à sua subordinação à ideologia burguesa; pois
tal ação é o sindicalismo, que significa a escravização
ideológica dos trabalhadores pela burguesia. Portanto, nossa tarefa,
a tarefa da socialdemocracia, é combater a espontaneidade, afastar o
movimento da classe trabalhadora desse sindicalismo espontâneo,
desejoso de se abrigar sob as asas da burguesia, e trazê-lo para
debaixo das asas da socialdemocracia revolucionária.
Campanhas de massa para melhorar as
condições e encurtar a semana de trabalho, defendidas por Marx no
Capital, eram consideradas por Lênin uma perda de tempo. Em
vez disso, os trabalhadores deveriam se colocar à disposição de
revolucionários profissionais como ele: “O movimento socialista
contemporâneo só poderá se tornar realidade se tiver como base um
profundo conhecimento científico…. O portador desse conhecimento
não é o proletariado, mas a intelligentsia burguesa.”
Nessas sentenças pode-se notar a forma embrionária do que, no
final, se tornou uma tirania monstruosa.
Como o autoproclamado portador dos dez
mandamentos, Lênin gostava de lembrar a condição intelectual
inferior de seus camaradas. “É impossível compreender O
Capital de Marx, em especial os primeiros capítulos, sem ter
estudado e entendido completamente toda a Lógica de Hegel”,
escreveu ele em seus Cadernos filosóficos. “Por
conseguinte, meio século depois, nenhum dos marxistas compreende
Marx.” Exceto ele, é claro. Apesar de todas as suas leituras e
escritos, o “conhecimento científico” de Lênin não era mais
profundo que o necessário. Eis uma aguçada avaliação feita por
Trotski, que o observava mais de perto que ninguém:
O pensamento de Marx aparece por
inteiro no Manifesto Comunista,
em Para a crítica da economia
política e no Capital.
Mesmo que não estivesse destinado a tornar-se o fundador da Primeira
Internacional, ele ainda permaneceria por muito tempo a figura que
conhecemos hoje. As ideias de Lênin, por outro lado, aparecem na
ação revolucionária. Os trabalhos científicos dele são apenas um
preâmbulo à ação.
Talvez nem mesmo um preâmbulo. “A
tomada do poder”, escreveu Lênin em 1917, “é o objetivo da
insurreição. Sua tarefa política ficará clara após a tomada.”
Como o historiador Bertram Wolfe mostra, isso faz com que o
raciocínio de Marx seja virado do avesso: a convicção marxista de
que a economia determina a política “torna-se a visão leninista
de que, com suficiente determinação, o próprio poder, o pleno
poder político, pode determinar inteiramente a economia”. Não é
de causar espanto que a crença predominante na União Soviética
tenha adquirido o nome de marxismo-leninismo, e não simplesmente
marxismo. O lema favorito de Marx era de omnibus dubitandum
(“tudo deve ser questionado”), mas ninguém que tenha tentado pôr
isso em prática na Rússia comunista sobreviveu por muito tempo.
O marxismo praticado por Marx era
menos uma ideologia que um processo crítico, uma argumentação
dialética contínua; Lênin e em seguida Stálin transformaram-no em
dogma. (Como, é claro, fizeram outros socialistas antes deles.) “A
Federação Socialdemocrata aqui divide com os socialistas
germano-americanos a característica de serem os únicos partidos que
lograram reduzir a teoria do desenvolvimento marxista a uma rígida
ortodoxia”, lamentou Engels, em maio de 1894, a Friedrich Adolph
Sorge, um emigrado alemão em Nova York.
Essa teoria deve ser empurrada
goela abaixo dos trabalhadores de uma só vez e sem desenvolvimento,
como artigos de fé, e não fazer com que os trabalhadores se elevem
a seu nível pela força de seu próprio instinto de classe. É por
isso que ambas permanecem meras seitas e, como Hegel diz, vêm do
nada, por meio do nada e em direção ao nada.
Seria possível até argumentar que a
conquista mais verdadeiramente marxista da União Soviética foi seu
colapso: uma economia dirigida – centralizada, fechada e
burocrática – provou-se incompatível com as novas forças de
produção, e assim precipitou uma mudança nas relações de
produção. Mikhail Gorbachev o admitiu em seu livro de 1997,
Perestroika:
O sistema administrativo que se
formou nos anos 1930 e 1940 começou gradualmente a contradizer as
demandas e condições do progresso econômico. O potencial positivo
dele se exaurira. Tornara-se cada vez mais um obstáculo e originou o
mecanismo de ruptura que tanto mal nos fez depois….
Foi nessas condições que se
desenvolveu uma atitude preconceituosa diante do papel das relações
mercadológicas e da lei do valor sob o socialismo, e em geral se
alegava que eram contrárias e estranhas ao socialismo. Além do
mais, subestimou-se a contabilidade de lucros e perdas, que abalou os
preços e negligenciou a circulação de dinheiro…. Surgiram sinais
cada vez mais evidentes de alienação do homem em relação à
propriedade coletiva e da falta de coordenação entre os interesses
públicos e pessoais do trabalhador.
[...]
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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