sábado, 7 de fevereiro de 2026

| 3 | Vida Póstuma


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Na Alemanha, terra natal de Marx, suas ideias tornaram-se a ideologia dominante do Partido Socialdemocrata (SPD, na sigla em alemão), a partir do congresso de 1891 em Erfurt. Mas a programação do evento era constituída de duas partes distintas e pressagiava uma longa luta entre revolucionários e revisionistas. A primeira seção, esboçada por Karl Kautski, discípulo de Marx, reafirmava teorias familiares tiradas do Capital, tais como a tendência ao monopólio e à pauperização do proletariado; a segunda parte, escrita por Eduard Bernstein, lidava com objetivos políticos mais imediatos – sufrágio universal, educação livre, imposto progressivo. Bernstein viveu em Londres durante os anos 1880 e rendeu-se à influência dos primeiros fabianos. Rosa Luxemburgo queixava-se: “Ele vê o mundo através de lentes inglesas.”
Bernstein, na década seguinte ao congresso de Erfurt, repudiava abertamente grande parte do legado de Marx, descartando sua teoria do valor como “um conceito puramente abstrato” que deixou de explicar a relação entre oferta e demanda. Kautski relutava em criticar seu antigo camarada e parecia muitas vezes até mesmo encorajá-lo: “Você superou nossas táticas, nossa teoria do valor, nossa filosofia; agora tudo depende de qual será a boa-nova que você pensa em colocar no lugar da antiga.”
No final do século, as intenções de Bernstein estavam bastante evidentes. O capitalismo, longe de ser superado por uma crise inevitável e iminente, provavelmente resistiria e traria uma progressiva prosperidade às massas. Com o ajuste adequado, poderia até se provar o motor do progresso social:

É, portanto, muito errado presumir que o presente desenvolvimento da sociedade demonstra relativa ou mesmo absoluta diminuição do número de integrantes das classes com posses. Seu número aumenta tanto relativa quanto absolutamente…. O sucesso do socialismo depende não da diminuição, mas do aumento da riqueza social.

Embora o SPD ainda se definisse como uma organização proletária revolucionária, ele tornara-se, na prática, um partido parlamentarista, progressivamente bem-sucedido e liderado por gradualistas e tecnocratas.

Como especialista em ironias, Marx talvez tenha se visto obrigado a sorrir (ou, ao menos, a repuxar os lábios) diante de seu destino: um profeta sem muita honra em sua própria terra, e ainda menos considerado em seu país de adoção, a Inglaterra, se tornou a inspiração para um levante cataclísmico no local onde menos esperava, a Rússia, nação raramente mencionada no Capital. No entanto, no fim da vida, Marx já havia começado a se arrepender dessa omissão: o sucesso da edição russa do Capital levou-o a imaginar que lá, afinal, talvez houvesse algum potencial revolucionário.
Seu tradutor em São Petersburgo, Nikolai Danielson, era também líder do movimento populista, que acreditava que a Rússia poderia passar diretamente do feudalismo para o socialismo. A descrição de Marx dos efeitos prejudiciais do capitalismo para a alma do homem convenceram-no de que, se possível, esse estágio da evolução econômica deveria ser evitado, e, uma vez que a Rússia já tinha no campo uma forma embrionária de propriedade coletiva da terra, seria uma atrocidade dissolver as comunas camponesas e depositá-las nas mãos de proprietários particulares simplesmente para obedecer a uma suposta lei inelutável da história. Para os marxistas mais ortodoxos, como Georgi Plekhânov, que achavam que as condições para o socialismo não amadureceriam até que a Rússia se industrializasse, esta era uma insensatez – e, ao longo da década que se seguiu ao lançamento de O Capital, Marx parecia ter a mesma opinião. Em 1877, respondendo a um populista russo que protestava contra sua visão determinista da história, Marx escreveu que se a Rússia estivesse destinada a se tornar uma nação capitalista nos mesmos moldes que os países do Ocidente europeu,

ela não conseguiria isso sem antes transformar boa parte dos camponeses em proletários; e, então, quando se encontrar no âmago do regime capitalista, experimentará, como outros povos profanos, a crueldade de suas leis.

Assim mesmo, Marx acompanhava o desenrolar dos acontecimentos na Rússia, que ameaçavam contestar suas teorias. O movimento insurrecional, embora pequeno, impressionava pela sua determinação e eficácia: entre 1879 e 1881, a Vontade do Povo, uma facção dissidente do movimento populista, realizou sete atentados à vida do czar Alexandre II, o último deles bem-sucedido. (Seis anos depois, a Vontade do Povo tentou também assassinar o czar Alexandre III; uma das pessoas enforcadas por tomar parte na trama foi Alexander Ulianov, cujo irmão adolescente, Vladimir Ilich Ulianov, se tornaria mais conhecido como V.I. Lênin.)
A subsequente enxurrada de detenções e execuções levou muitos revolucionários russos ao exílio. Plekhânov mudou-se para a Suíça com vários camaradas, entre eles Vera Zasulich, que em 1876 deu um tiro no governador-geral de São Petersburgo e, quando levada a julgamento, teve um desempenho tão notável que o júri a absolveu da acusação de tentativa de assassinato. A despeito de seu passado, ela desaprovava a tendência cada vez mais regicida e violenta do socialismo russo, que parecia ter perdido de vista os imperativos econômicos formulados no Capital. Mas a questão dos camponeses e proletários continuava a incomodar Vera Zasulich e seus companheiros de exílio às margens do lago Genebra. Em fevereiro de 1881, ela apelou a Marx em busca de uma opinião abalizada: “Você não ignora que O Capital goza de grande popularidade na Rússia”, escreveu ela. “Mas talvez não tenha conhecimento do papel que seu livro desempenhou em nossa discussão sobre a questão agrária.” E pedia gentilmente que Marx “desse sua opinião sobre o possível futuro da comuna rural russa e a teoria da inevitabilidade histórica, segundo a qual todos os países do mundo atravessarão todas as fases da produção capitalista”, e assim tentar encerrar a polêmica.
Marx se debateu com o problema por várias semanas e escreveu cinco rascunhos de resposta. Finalmente enviou uma breve carta dizendo que sua “assim chamada teoria” fora mal interpretada: a inevitabilidade histórica da fase burguesa “é expressamente limitada aos países da Europa Ocidental”. A transição ocidental do feudalismo para o capitalismo representava a transformação de um tipo de propriedade privada em outro, enquanto no caso dos camponeses russos “a propriedade comunal teria, ao contrário, de ser transformada em propriedade privada. Por isso, a análise proposta no Capital não apresenta qualquer razão favorável ou contrária à viabilidade da comuna rural”. Isso era mais encorajador que o comentário que fizera apenas quatro anos antes – porém, muito mais cauteloso que o primeiro rascunho de sua carta a Vera Zasulich, que explicava por que e como o campesinato russo escaparia ao destino de seus companheiros da Europa Ocidental:

Na Rússia, graças a uma singular combinação de circunstâncias, a comuna rural, ainda assentada em escala nacional, pode aos poucos livrar-se de seus traços primitivos e desenvolver-se diretamente como um elemento da produção coletiva em escala nacional…. Para salvar a comuna russa, uma revolução é necessária. A esse respeito, o governo e os “novos pilares da sociedade” estão fazendo o melhor a fim de preparar as massas para esse desastre. Se a revolução vier no momento oportuno, se concentrar todas as forças de modo a permitir total expansão à comuna rural, esta em breve se transformará em elemento de regeneração na sociedade russa e de superioridade em relação aos países escravizados pelo sistema capitalista.

Cinco dias depois de Marx ter enviado a versão final dessa carta, um pequeno grupo da Vontade do Povo assassinou o czar Alexandre II em São Petersburgo arremessando uma bomba em sua carruagem.
Com a plena certeza de que a revolução só se realizaria pela ação coletiva da classe trabalhadora, mais que por proezas individuais ou atos de terrorismo, era de esperar que Marx se aliasse a Vera Zasulich e a Plekhânov mais que aos terroristas radicais. Todavia, em carta à filha Jenny, Marx confidenciou que os exilados na Suíça eram “meros doutrinários, desnorteados anarco-socialistas, e a influência deles no ‘teatro de guerra’ na Rússia é nula”. Os assassinos de São Petersburgo, ao contrário,

são, em todos os aspectos, verdadeiros companheiros, sem pose melodramática, simples, objetivos, heroicos…. Eles se esforçam para ensinar à Europa que seu modus operandi é especificamente russo e historicamente inevitável, que não se presta a moralizações – a favor ou contra –, mais que o terremoto em Chios.

Tal atitude seria inconcebível em um Karl Marx mais jovem: ele passara muitos anos denunciando socialistas que punham suas crenças a serviço de golpes, atentados e conspirações clandestinas. Em 1881, no entanto, estava doente e fatigado. Depois de tanto aguardar o momento oportuno para a revolução proletária e estar com a paciência esgotada, ansiava por qualquer tipo de revolta. Naquela primavera, após o nascimento de um neto, comentaria que as crianças “nascidas neste momento crucial da história … têm diante de si o período mais revolucionário que qualquer outro já visto pela humanidade. O lado ruim neste momento é ser ‘velho’, de modo a apenas prever, e não testemunhar”.
Todos os arquitetos da Revolução de 1917 citavam Marx, em particular O Capital, como a autoridade divina para a concretização de suas propostas. Trotski estudou o livro em 1900, quando se encontrava na Sibéria, exilado em uma vila horrível, infestada de insetos – “removendo as baratas para fora da página”, como lembrava. Lênin alegava ter lido o livro em 1888, com precoces 18 anos, sentado sobre um velho forno na cozinha do apartamento de seu avô. Desde então empregava O Capital – ou os trechos que serviam a seus propósitos – como a lâmina com que golpeava seus rivais. (Máximo Górki disse a respeito dos discursos de Lênin que tinham “o frio brilho de limalhas de aço”.) Embora sua primeira grande obra, O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, fosse apresentada como uma espécie de suplemento a Marx, a obra de Lênin nada tinha da ironia e da indignação do Capital. Como Edmund Wilson observou: “Todos os escritos de Lênin são funcionais; todos têm o intuito de atingir um propósito imediato…. Ele é simplesmente um homem que deseja convencer.”
O propósito imediato do livro O desenvolvimento do capitalismo na Rússia era persuadir os camaradas de que a Rússia já emergira do feudalismo graças à rápida expansão de ferrovias, minas de carvão, siderúrgicas e tecelagens nos anos 1880 e 1890. O fato era que somente em Moscou e São Petersburgo havia um proletariado industrial; isso, no entanto, reforçava a responsabilidade de ação da classe como uma organização de vanguarda que expressasse as reivindicações dos camponeses e artesãos de outras localidades. Nas novas fábricas, escreveu Lênin,

a exploração está plenamente desenvolvida e emerge em sua forma pura, sem qualquer detalhe perturbador. O trabalhador não pode deixar de perceber que é oprimido pelo capital…. É por isso que o trabalhador da fábrica é o principal representante de toda a população de explorados.

Mas em seu tratado posterior, Que fazer?, acrescentou que os trabalhadores estavam muito preocupados com sua própria luta econômica para desenvolver uma verdadeira consciência revolucionária:

Muito se fala sobre espontaneidade. Mas o desenvolvimento espontâneo de um movimento da classe trabalhadora leva à sua subordinação à ideologia burguesa; pois tal ação é o sindicalismo, que significa a escravização ideológica dos trabalhadores pela burguesia. Portanto, nossa tarefa, a tarefa da socialdemocracia, é combater a espontaneidade, afastar o movimento da classe trabalhadora desse sindicalismo espontâneo, desejoso de se abrigar sob as asas da burguesia, e trazê-lo para debaixo das asas da socialdemocracia revolucionária.

Campanhas de massa para melhorar as condições e encurtar a semana de trabalho, defendidas por Marx no Capital, eram consideradas por Lênin uma perda de tempo. Em vez disso, os trabalhadores deveriam se colocar à disposição de revolucionários profissionais como ele: “O movimento socialista contemporâneo só poderá se tornar realidade se tiver como base um profundo conhecimento científico…. O portador desse conhecimento não é o proletariado, mas a intelligentsia burguesa.” Nessas sentenças pode-se notar a forma embrionária do que, no final, se tornou uma tirania monstruosa.
Como o autoproclamado portador dos dez mandamentos, Lênin gostava de lembrar a condição intelectual inferior de seus camaradas. “É impossível compreender O Capital de Marx, em especial os primeiros capítulos, sem ter estudado e entendido completamente toda a Lógica de Hegel”, escreveu ele em seus Cadernos filosóficos. “Por conseguinte, meio século depois, nenhum dos marxistas compreende Marx.” Exceto ele, é claro. Apesar de todas as suas leituras e escritos, o “conhecimento científico” de Lênin não era mais profundo que o necessário. Eis uma aguçada avaliação feita por Trotski, que o observava mais de perto que ninguém:

O pensamento de Marx aparece por inteiro no Manifesto Comunista, em Para a crítica da economia política e no Capital. Mesmo que não estivesse destinado a tornar-se o fundador da Primeira Internacional, ele ainda permaneceria por muito tempo a figura que conhecemos hoje. As ideias de Lênin, por outro lado, aparecem na ação revolucionária. Os trabalhos científicos dele são apenas um preâmbulo à ação.

Talvez nem mesmo um preâmbulo. “A tomada do poder”, escreveu Lênin em 1917, “é o objetivo da insurreição. Sua tarefa política ficará clara após a tomada.” Como o historiador Bertram Wolfe mostra, isso faz com que o raciocínio de Marx seja virado do avesso: a convicção marxista de que a economia determina a política “torna-se a visão leninista de que, com suficiente determinação, o próprio poder, o pleno poder político, pode determinar inteiramente a economia”. Não é de causar espanto que a crença predominante na União Soviética tenha adquirido o nome de marxismo-leninismo, e não simplesmente marxismo. O lema favorito de Marx era de omnibus dubitandum (“tudo deve ser questionado”), mas ninguém que tenha tentado pôr isso em prática na Rússia comunista sobreviveu por muito tempo.
O marxismo praticado por Marx era menos uma ideologia que um processo crítico, uma argumentação dialética contínua; Lênin e em seguida Stálin transformaram-no em dogma. (Como, é claro, fizeram outros socialistas antes deles.) “A Federação Socialdemocrata aqui divide com os socialistas germano-americanos a característica de serem os únicos partidos que lograram reduzir a teoria do desenvolvimento marxista a uma rígida ortodoxia”, lamentou Engels, em maio de 1894, a Friedrich Adolph Sorge, um emigrado alemão em Nova York.

Essa teoria deve ser empurrada goela abaixo dos trabalhadores de uma só vez e sem desenvolvimento, como artigos de fé, e não fazer com que os trabalhadores se elevem a seu nível pela força de seu próprio instinto de classe. É por isso que ambas permanecem meras seitas e, como Hegel diz, vêm do nada, por meio do nada e em direção ao nada.

Seria possível até argumentar que a conquista mais verdadeiramente marxista da União Soviética foi seu colapso: uma economia dirigida – centralizada, fechada e burocrática – provou-se incompatível com as novas forças de produção, e assim precipitou uma mudança nas relações de produção. Mikhail Gorbachev o admitiu em seu livro de 1997, Perestroika:

O sistema administrativo que se formou nos anos 1930 e 1940 começou gradualmente a contradizer as demandas e condições do progresso econômico. O potencial positivo dele se exaurira. Tornara-se cada vez mais um obstáculo e originou o mecanismo de ruptura que tanto mal nos fez depois….
Foi nessas condições que se desenvolveu uma atitude preconceituosa diante do papel das relações mercadológicas e da lei do valor sob o socialismo, e em geral se alegava que eram contrárias e estranhas ao socialismo. Além do mais, subestimou-se a contabilidade de lucros e perdas, que abalou os preços e negligenciou a circulação de dinheiro…. Surgiram sinais cada vez mais evidentes de alienação do homem em relação à propriedade coletiva e da falta de coordenação entre os interesses públicos e pessoais do trabalhador.
[...]

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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