segunda-feira, 28 de julho de 2025

O expresso das cinco horas


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No verão de 1903, Iúri viajava pelos campos, com o tio, em uma carroça. Iam para Duplianka, propriedade do fabricante de tecidos de seda e grande patrono das artes, Kologrivov. O objetivo da viagem era encontrar-se com o pedagogo e divulgador de conhecimentos úteis Ivan Ivanovitch Voskoboinikov.
Era época da Kazanskaia e a colheita estava no auge. Em razão da hora do almoço ou da festa nos campos não se encontrava vivalma. O sol queimava faixas de terra não ceifadas, que pareciam nucas raspadas de presos. Sobre os campos os pássaros voavam em círculo. Com as espigas inclinadas, o trigo esticava-se como uma corda pela total ausência de vento ou erguia-se em cruzetas longe da estrada, de onde, ante o olhar atento, assumia uma aparência de figuras móveis, como se fossem agrimensores que andavam ao longo do horizonte anotando algo.
E esses? — perguntava Nikolai Nikolaievitch a Pavel, um trabalhador braçal e vigia da editora de livros, que estava sentado de lado no banco, encurvado e com as pernas cruzadas, atitude que demonstrava bem que não era um cocheiro autêntico e que estava guiando apenas para fazer um favor. — Esses são do dono ou dos camponeses?
Esses são do dono — respondia Pavel, tentando acender um cigarro —, agora aqueles — conseguindo se livrar do fogo e dar uma tragada, apontava ele, após uma longa pausa, com a ponta do chicote virada para o outro lado —, aqueles são nossos. Ah, dormiram? — gritava ele vez por outra para os cavalos, olhando a toda hora para os rabos e ancas dos bichos, feito um maquinista para o manômetro.
Porém os cavalos andavam como qualquer cavalo do mundo, ou seja, o do meio corria sempre em linha reta como é característico de sua natureza simples; o cavalo do lado se parecia, para um ignorante, a um vagabundo rematado que só sabia dançar prisiadka, curvando-se feito um cisne, ao som dos guizos que ele mesmo tocava com seus saltos.
Nikolai Nikolaievitch levava para Voskoboinikov a tarefa de corrigir seu livro sobre a questão agrária. Pois, devido à crescente pressão da censura, a editora pedira uma revisão.
O povo anda fazendo confusão na província — dizia Nikolai Nikolaievitch. — Na região Pankovskaia mataram um comerciante, puseram fogo no haras do administrador do conselho. O que você acha disso? O que comentam na aldeia?
Mas Pavel olhava para estas coisas de maneira mais sombria do que o censor que queria conter as paixões agrárias de Voskoboinikov.
O que comentam? O povo está muito solto. Brincadeira, dizem. Nossa gente não pode ser tratada assim. Dê liberdade ao mujique, e um esmaga o outro, meu Deus do céu! Ah, dormiu?
Esta era a segunda viagem do tio e do sobrinho a Duplianka. Iúri achava que lembrava do caminho. Toda vez que os campos se ampliavam e eram abarcados por uma barra fininha de florestas, pela frente e por trás, lhe parecia que ele estava reconhecendo aquele lugar onde a estrada fazia uma curva para a direita. Depois da curva deveria surgir, e em um minuto sumir, o panorama da aldeia Kologrivovskaia, localizada a dez verstas, com o rio brilhando ao longe e a estrada de ferro do outro lado do rio. Mas, a toda hora, ele se enganava. Outros campos sucediam os campos. Eram novamente abarcados por florestas. Esta sucessão de vastidões dava boa disposição. Dava vontade de sonhar e pensar no futuro.
Nenhum dos livros de Nikolai Nikolaievitch que ficariam famosos no futuro ainda fora escrito. Mas suas ideias já estavam definidas. Ele só não sabia que já estava perto a sua hora.
Em breve, entre os representantes da literatura daquela época, entre os professores da universidade e os filósofos da revolução, deveria surgir essa pessoa que pensava em todos os temas deles, mas que, além da terminologia, não possuía nada em comum com eles. Todos eles defendiam certos dogmas e se satisfaziam com palavras e aparências. Porém, Nikolai era padre, passou pelo tolstovstvo e a revolução e ia cada vez mais longe. Ele ansiava por uma ideia, inspirada e concreta, que rabiscasse sem hipocrisia os diferentes caminhos em seu movimento, que mudasse o mundo para melhor e que fosse perceptível, como o brilho do relâmpago ou o rastro do trovão passageiro, até mesmo para a criança ou o ignorante. Ele ansiava pelo novo.
Iúri sentia-se bem com o tio. Este parecia-se com sua mãe. Como ela, ele era um homem livre, livre de preconceitos para com qualquer coisa que fosse insólita. Como ela, ele possuía o sentimento nobre de igualdade para com todos os seres. Ele, como ela, entendia tudo apenas ao primeiro olhar e sabia expressar imediatamente as ideias da maneira como estas lhe vinham à cabeça, enquanto ainda estivessem vivas e não tivessem perdido o sentido.
Iúri estava feliz por ter viajado com o tio para Duplianka. Lá era muito bonito e o local pitoresco lembrava sua mãe, que amava a natureza e frequentemente levava Iúri em seus passeios. Além do mais, pensava com satisfação, encontraria Nika Dudorov, um ginasiano que morava com Voskoboinikov, que provavelmente o odiava porque era dois anos mais velho que ele e, que ao cumprimentá-lo, puxava com força a mão para baixo e inclinava tanto a cabeça que os cabelos lhe caíam na testa, cobrindo o rosto pela metade.

Boris Pasternak, em Doutor Jivago

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