São todos gestos comuns: tirar os
óculos da caixa, limpá-los com papel ou tecido, com a bainha da
blusa ou a ponta da gravata, empoleirá-los no nariz e firmá-los
atrás das orelhas antes de olhar para a página agora lúcida diante
de nós. Então, ajustá-los para cima ou para baixo sobre o nariz,
para colocar as letras em foco, e, depois de algum tempo, levantá-los
e esfregar a pele entre as sobrancelhas, apertando os olhos fechados
para manter afastado o texto-sereia. E o ato final: tirá-los,
dobrá-los, e inseri-los entre as páginas do livro para marcar o
lugar onde paramos a leitura. Na iconografia cristã, Santa Luzia é
representada carregando um par de óculos numa bandeja; os óculos
são, com efeito, olhos que os leitores de visão ruim podem pôr e
tirar à vontade. São uma função destacável do corpo, uma máscara
através da qual o mundo pode ser observado, uma criatura semelhante
a um inseto, carregada como um animal de estimação à caça de um
louva-deus. Discretos, sentados de pernas cruzadas sobre uma pilha de
livros ou em pé, em expectativa, num canto atravancado da
escrivaninha, eles se tornaram o emblema do leitor, a marca da
presença do leitor, um símbolo do ofício do leitor.
É desnorteante imaginar os muitos
séculos anteriores a invenção dos óculos, séculos durante os
quais os leitores se envesgaram para penetrar nas linhas nebulosas de
um texto, e é emocionante imaginar se o alívio extraordinário,
quando surgiram os óculos, ao ver subtamente, quase sem esforço,
uma página escrita. Um sexto de toda a humanidade é míope; entre
os leitores, a proporção é muito maior, perto de 24%. Aristóteles,
Lutero, Samuel Pepys, Schopenhauer, Goethe, Schil er, Keats,
Tennyson, o dr. Johnson, Alexander Pope, Quevedo, Wordsworth, Daute
Gabriel Rossetti, Elizabeth Barrett Browning, Kipling, Edward Lear,
Dorothy L. Sayers, Yeats, Unamuno, Rabindranath Tagore, James Joyce -
todos tinham visão fraca. Em muitas pessoas essa condição piora, e
um notável número de leitores famosos ficou cego na velhice, de
Homero a Milton, James Thurber e Jorge Luis Borges. O escritor
argentino, que começou a perder a visão no início da década de
1930 e foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires em
1955, quando não enxergava mais, comentou o destino peculiar do
leitor debilitado a quem um dia concedem o reino dos livros:
Que ninguém avilte com lágrimas
ou reprove
Esta declaração da habilidade de
Deus
Que em sua ironia magnífica
Deu-me escuridão e livros ao mesmo
tempo.
Borges comparava o destino desse
leitor no mundo borrado de “vagas cinzas pálidas semelhantes a
olvido e sono" ao destino do rei Midas, condenado a morrer de
fome e sede cercado por comida e bebida. Um episódio da série de
televisão Além da imaginação, trata de um Midas assim, um leitor
voraz que é o único homem a sobreviver a um desastre nuclear. Todos
os livros do mundo estão agora à sua disposição; então,
acidentalmente, ele quebra seus óculos.
Antes da invenção dos óculos, pelo
menos um quarto de todos os leitores teria precisado de letras
estradas-grandes para decifrar um texto. As tensões sobre os olhos
dos leitores medievais eram grandes: as salas em que tentavam ler
eram escurecidas no verão para protegê-las do calor; no inverno,
mergulhavam numa escuridão natural, porque as janelas,
necessariamente pequenas para proteger das correntes de ar gelado,
deixavam entrar pouca luz. Os escribas medievais queixavam-se
constantemente das condições em que tinham de trabalhar e
rabiscavam amiúde notas sobre suas dificuldades nas margens dos
livros. Na metade do século XIII, um certo Florêncio, do qual não
sabemos mais nada, exceto o primeiro nome, rabiscou esta descrição
lúgubre de seu ofício: "É uma tarefa penosa. Extingue a luz
dos olhos, encurva as costas, esmaga as vísceras e as costelas,
provoca dor nos rins e cansaço em todo o corpo". Para os
leitores com deficiência visual, o trabalho deveria ser ainda pior.
Patrick Trevor-Roper sugeriu que eles provavelmente se sentiam mais
confortáveis à noite, "porque a escuridão é uma grande
igualadora".
Na Babilônia, em Roma e na Grécia,
os leitores cuja visão era fraca não dispunham de outro recurso
senão ter alguém, geralmente um escravo, que lesse os livros para
eles.
Uns poucos descobriram que olhar
através de um disco de pedra transparente ajudava.
Escrevendo sobre as propriedades das
esmeraldas, Plínio,o Velho, observou de passagem que o imperador
Nero, míope, costumava assistir às lutas de gladiadores através de
uma esmeralda. Não sabemos se isso amplificava os detalhes
sanguinolentos ou se apenas lhes dava uma coloração esverdeada, mas
a história sobreviveu ao longo da Idade Média e eruditos como Roger
Bacon e seu professor Robert Grosseteste comentaram a notável
propriedade da jóia.
Entretanto, poucos leitores tinham
acesso a pedras preciosas. A maioria era condenada a passar suas
horas de leitura na dependência de leituras vicárias, ou fazendo
progressos lentos e dolorosos enquanto os músculos de seus olhos se
esforçavam para remediar o defeito. Então, em algum momento do
final do século XIII, mudou a sina dos leitores que enxergavam mal.
Não sabemos exatamente quando a
mudança ocorreu, mas em 23 de fevereiro de 1306, do púlpito da
igreja de Santa Maria Novela, em Florença, Giordano da Rivalto, de
Pisa, fez um sermão no qual lembrou a seu rebanho que a invenção
dos óculos, "um dos dispositivos mais úteis do mundo", já
tinha vinte anos. E acrescentou: "Eu vi o homem que, antes de
qualquer outro, descobriu e fez um par de óculos, e falei com ele?”
Nada se sabe desse notável inventor.
Talvez tenha sido um contemporâneo de Giordano, um monge chamado
Spina, do qual se diz que "fazia óculos e ensinava de graça a
arte para os outros". Ou quem sabe tenha sido um membro da
Guilda dos Trabalhadores em Cristal de Veneza, onde a arte de fazer
óculos já era conhecida em 1301, pois uma das regras da guilda
naquele ano explicava o procedimento a ser seguido por quem quisesse
"fazer óculos para leitura". Ou quem sabe o inventor não
foi um certo Salvino degli Armati, cuja lápide, ainda visível na
igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, chama-o de "inventor
dos óculos", e acrescenta: "Que Deus perdoe seus pecados.
A. D. 1317". Outro candidato é Roger Bacon, a quem já
encontramos como mestre catalogador e que Kipling, em um de seus
contos, tornou testemunha do uso de um primeiro microscópio árabe
contrabandeado para a Inglaterra por um iluminador. No ano de 1268,
Bacon escreveu: "Se alguém examinar letras ou objetos pequenos
olhando através do meio de um cristal ou vidro no formato do menor
segmento de uma esfera, com todos os lados convexos voltados para o
olho, verá as letras muito melhor e maiores. Tal instrumento é útil
a todas as pessoas . Quatro séculos depois, Descartes ainda louvava
a invenção dos óculos: "Toda a administração de nossas
vidas depende dos sentidos, e, uma vez que a visão é o mais
abrangente e o mais nobre deles, não há dúvida de que as invenções
que servem para aumentar seu poder estão entre as mais úteis que
possa haver".
A representação mais antiga que se
conhece de um par de óculos está num retrato do cardeal Hugo de St.
Cher. na Provença, feita por Tommaso da Modena. Mostra o cardeal em
traje completo, sentado à sua mesa, copiando de um livro aberto
apoiado numa estante um pouco acima dele, à direita. Os óculos,
conhecidos como "óculos de rebite", semelhantes a um
pincenê, consistem de duas lentes redondas presas em armação
grossa articulada acima do cavalete do nariz, de forma que a pressão
possa ser regulada.
Até boa parte do século XV, os
óculos de leitura eram um luxo: custavam caro e, em termos
comparativos, poucas pessoas precisavam deles, uma vez que os livros
estavam nas mãos de uma seleta minoria. Depois da invenção da
imprensa e da relativa popularização dos livros, a demanda por
óculos aumentou; na Inglaterra, por exemplo, mascates iam de vila em
vila vendendo "óculos continentais baratos". Em 1466,
apenas onze anos depois da publicação da primeira Bíblia de
Gutenberg, fabricantes de óculos ficaram conhecidos em Estrasburgo,
em Nuremberg, no ano de 1478 e em Frankfurt, em 1540. É possível
que óculos melhores e em maior quantidade tenham permitido que mais
leitores se tornassem leitores melhores e comprassem mais livros, e
que por esse motivo os óculos tenham sido associados ao intelectual,
ao bibliotecário, ao erudito.
A partir do século XIV, os óculos
foram acrescentados a numerosas pinturas, para marcar a natureza
estudiosa e sábia de uma personagem. Em muitas representações do
Adormecimento ou Morte da Virgem, vários dos médicos e magos em
torno de seu leito mortuário acham-se usando óculos de vários
tipos. No quadro anônimo que se encontra no mosteiro de Neuberg, em
Viena, um par de óculos foi acrescentado séculos depois ao sábio
de barbas brancas, a quem um jovem desconsolado mostra um grosso
volume. A implicação parece ser a de que nem o mais sábio dos
eruditos possui sabedoria suficiente para curar a Virgem e mudar seu
destino.
Na Grécia, em Roma e Bizâncio, o
poeta-erudito - o doctus poeta, representado segurando uma
tabuleta ou um rolo - foi considerado um modelo, mas esse papel
estava confinado aos mortais. Os deuses jamais se ocupavam de
literatura; as divindades gregas e latinas jamais eram mostradas
segurando um livro. O cristianismo foi a primeira religião a pôr um
livro nas mãos de seu deus, e, a partir da metade do século XIV, o
livro emblemático cristão passou a ser acompanhado por outra
imagem, a dos óculos. A perfeição de Cristo e de Deus Pai não
justificaria representá-los como míopes, mas os Pais da Igreja -
são Tomás de Aquino, santo Agostinho - e os autores antigos
admitidos no cânone católico - Cícero, Aristóteles - às vezes
foram representados carregando um douto volume e usando os sábios
óculos do conhecimento.
No final do século XV, os óculos já
eram suficientemente conhecidos para simbolizar não somente o
prestígio da leitura, mas também seus excessos. A maioria dos
leitores, naquele tempo como agora, passou em algum momento pela
humilhação de ouvir que sua ocupação é repreensível. Lembro que
riram de mim, durante um recreio na sexta ou sétima série, por eu
ter ficado dentro do prédio lendo, e lembro que no fim do escárnio
eu estava estatelado no chão, meus óculos chutados para um lado,
meu livro para o outro.
"Você não vai gostar do filme",
foi o veredicto de uns primos que, tendo visto meu quarto cheio de
livros, acharam que eu não gostaria de assistir a um faroeste com
eles. Minha avó, vendo-me ler nas tardes de domingo, dizia
suspirando: "Você sonha acordado" - porque minha
inatividade parecia-lhe um ócio inútil e um pecado contra a alegria
de viver.
Preguiçoso, débil, pretensioso,
pedante, elitista, estes são alguns dos epítetos que acabaram
associados ao intelectual distraído, ao leitor míope, ao rato de
biblioteca, ao nerd. Enterrado nos livros, isolado do mundo
dos fatos, do mundo de carne e osso, sentindo-se superior aos
não-familiarizados com as palavras preservadas entre capas
poeirentas, o leitor de óculos que pretendia saber o que Deus, em
sua sabedoria, havia escondido, era considerado um louco, e os óculos
tornaram-se emblemas da arrogância intelectual.
Em fevereiro de 1494, durante o famoso
carnaval da Basiléia, o jovem doutor em leis Sebastião Brant
publicou um pequeno volume de versos alegóricos em alemão,
intitulado Das Narrenschiff ou A nau dos insensatos. O
sucesso foi imediato: no primeiro ano houve três reimpressões, e em
Estrasburgo, terra natal de Brant, um editor empreendedor, ansioso
por participar dos lucros, encomendou a um poeta desconhecido um
acréscimo de quatrocentas linhas ao livro. Brant se queixou
dessaforma de plágio, mas em vão.
Dois anos depois, pediu a seu amigo
Jacques Locher, professor de poesia na Universidade de Freiburg, que
traduzisse o livro para o latim. Locher assim o fez, mas alterou a
ordem dos capítulos e incluiu variações de sua lavra. Por mais que
o texto original de Brant mudasse, o número de leitores continuou
aumentando até o século XVII.
Seu sucesso era devido, em parte, às
xilogravuras que o ilustravam, muitas feitas por um Albrecht Dürer
de 22 anos de idade. Mas, em larga medida, o sucesso era do próprio
Brant. Ele fizera um levantamento meticuloso das loucuras ou pecados
de sua sociedade, do adultério e do jogo à falta de fé e à
ingratidão, em termos precisos e atualizados. Por exemplo, a
descoberta do Novo Mundo, que acontecera menos de dois anos antes, é
mencionada no livro para exemplificar as loucuras da curiosidade
invejosa. Dürer e outros artistas ofereceram aos leitores de Brant
imagens comuns desses novos pecadores, reconhecíveis de imediato por
seus pares na vida cotidiana, mas foi o próprio Brant quem rascunhou
as ilustrações destinadas a acompanhar o texto.
Uma dessas imagens, a primeira depois
do frontispício, ilustra a loucura do intelectual. O leitor que
abrisse o livro de Brant seria confrontado com a própria imagem: um
homem em seu escritório, cercado por livros. Há livros por toda
parte: nas estantes atrás dele, em ambos os lados da mesa de
leitura, dentro de compartimentos da própria escrivaninha. O homem
veste um gorro de dormir (para esconder suas orelhas de asno) e,
atrás dele, pende uma carapuça de bufão com sinos, enquanto a mão
direita segura um espanador para espantar as moscas que tentam pousar
nos livros. Ele é o Büchernarr, "o louco dos livros”,
o homem cuja loucura consiste em se enterrar nos livros. Sobre seu
nariz repousa um par de óculos.
Esses óculos o acusam: eis um homem
que não vê o mundo diretamente, preferindo espiar as palavras
mortas numa página impressa. Diz o leitor insensato de Brant: "É
por uma razão muito boa que sou o primeiro a subir ao barco. Para
mim, o livro é tudo, mais precioso ainda que o ouro. / Tenho grandes
tesouros aqui, dos quais não entendo patavina". Ele confessa
que, na companhia de homens cultos que citam livros sábios, adora
poder dizer:
"Tenho todos esses volumes em
casa"; ele se compara a Ptolomeu II de Alexandria, que acumulou
livros, mas não conhecimento. Graças ao livro de Brant, a imagem do
erudito idiota de óculos logo se tornou um ícone comum; já em
1505, no De fide concubinarum de Olearius, um asno está
sentado numa escrivaninha idêntica, óculos sobre o nariz e
espanta-moscas na pata, lendo um grande livro aberto para uma turma
de alunos-bestas.
A popularidade do livro de Brant foi
tanta que, em 1509, o humanista Geiler von Kaysersberg começou a
pregar uma série de sermões baseados no elenco de loucos de Brant,
um para cada domingo. O primeiro sermão, correspondente ao primeiro
capítulo do livro de Brant, foi sobre o louco dos livros, é claro.
Brant emprestara ao idiota palavras para que ele se autodescrevesse:
Geiler usou a descrição para dividir seu maluco livresco em sete
tipos, cada um deles reconhecível pelo tilintar de um dos sinos do
bufão.
Segundo Geiler, o primeiro sino
anuncia o louco que coleciona livros por ostentação, como se fossem
uma mobília cara. No primeiro século da era cristã, O filósofo
latino Sêneca (que Geiler gostava de citar) já denunciava o acumulo
exibicionista de livros: Muita gente sem educação escolar usa
livros não como instrumento de estudo, mas como decoração para a
sala de jantar". Geiler insiste: Aquele que quer livros para
ganhar fama deve aprender algo com eles; não deve armazená-los em
sua biblioteca, mas na cabeça.
Mas este primeiro louco pôs seus
livros em correntes e fez deles prisioneiros; se pudessem se libertar
e falar; arrastariam-no até o juiz. exigindo que ele, e não eles,
fosse encarcerado". O segundo sino chama o idiota que deseja
ficar sábio consumindo livros em demasia. Geiler compara-o a um
estômago embrulhado por excesso de comida e a um general embaraçado
num cerco por ter soldados demais. "Que devo fazer? -
perguntais. Devo jogar todos os meus livros fora?" Podemos
imaginar Geiler apontando o dedo para determinado paroquiano entre
seu público dominical. "Não, isso não deveis fazer. Mas
deveis selecionar aqueles que vos são úteis e usá-los no momento
certo." O terceiro sino tilinta para o idiota que coleciona
livros sem realmente lê-los, apenas borboleteando por eles para
satisfazer sua curiosidade ociosa. Geiler o compara a um louco que
corre pela cidade e, enquanto passa voando, tenta observar em detalhe
os signos e emblemas nas fachadas das casas. Isso, diz ele, é não
só impossível, mas também um lamentável desperdício de tempo.
O quarto sino chama o louco que ama
livros suntuosamente iluminados. Pergunta Geiler: "Não é uma
loucura pecaminosa banquetear os olhos com ouro e prata quando tantos
filhos de Deus passam fome? Não têm os vossos olhos o sol, a lua,
as estrelas, as muitas flores e outras coisas para vos agradar?".
Que necessidade temos de figuras humanas ou flores em um livro? As
que Deus provê não são suficientes? E Geiler conclui que esse amor
por imagens pintadas "é um insulto à sabedoria". O quinto
sino anuncia o idiota que encaderna seus livros com panos suntuosos.
(Aqui novamente Geiler faz um empréstimo silencioso junto a Sêneca,
que protestava contra o colecionador que "tira seu prazer de
encadernações e rótulos" e em cujo lar analfabeto "podem-se
ver as obras completas de oradores e historiadores em estantes que
vão até o teto, porque, como os banheiros, a biblioteca tornou-se
ornamento essencial numa casa rica".) O sexto sino chama o
idiota que escreve e produz livros mal escritos sem ter lido os
clássicos e sem nenhum conhecimento de ortografia, gramática ou
retórica. É o leitor que se torna escritor, seduzido pela ideia de
colocar seus pensamentos garatujados ao lado das obras dos grandes
escritores. Por fim - numa mudança paradoxal que os futuros
anti-intelectuais ignorariam - o sétimo e último louco dos livros é
aquele que despreza completamente os livros e zomba da sabedoria que
se pode obter deles.
Por meio da imaginação intelectual
de Brant, Geiler, o intelectual, forneceu argumentos para os
anti-intelectuais de seu tempo que viviam na incerteza de uma época
em que as estruturas civis e religiosas da sociedade europeia
romperam-se com guerras dinásticas que alteraram seus conceitos de
história, com explorações geográficas que mudaram seus conceitos
de espaço e comércio, com cismas religiosos que mudaram para sempre
seu conceito de quem eram, por que eram e do que faziam na terra.
Geiler armou-os com um catálogo inteiro de acusações que lhes
permitiu, como sociedade, ver erros não em suas ações, mas nos
pensamentos sobre suas ações, em suas fantasias, suas ideias, suas
leituras.
Muitos daqueles que frequentavam a
catedral de Estrasburgo todos os domingos, ouvindo as diatribes de
Geiler contra as loucuras do leitor desorientado, acreditavam
provavelmente que ele estava fazendo eco ao rancor popular contra o
homem lido. Posso imaginar a sensação de desconforto daqueles que,
como eu, usavam óculos, talvez tirando-os sub-repticiamente no
momento em que esses ajudantes se tornavam de súbito uma insígnia
de desonra. Mas Geiler não estava atacando o leitor e seus óculos.
Longe disso: seus argumentos eram os do clérigo humanista, crítico
da competição intelectual vazia e amadorística, porém defensor da
necessidade de conhecimento letrado e do valor dos livros. Ele não
compartilhava do ressentimento crescente entre a população em
geral, que considerava os intelectuais indevidamente privilegiados,
sofrendo do que John Donne descreveu como "defeitos da solidão"
escondendo-se da verdadeira labuta do mundo naquilo que vários
séculos depois Gérard de Nerval, seguindo Sainte-Beuve, chamaria de
torre de marfim, o refúgio "para onde subimos cada vez
mais alto para nos isolarmos da multidão", longe das ocupações
gregárias da gente comum. Três séculos depois de Geiler, Thomas
Carlyle, falando em defesa do erudito-leitor, emprestou-lhe traços
heróicos: "Ele, com seus direitos e erros autorais, em sua
esquálida água-furtada, em seu paletó desbotado, governando (pois
é isso que faz) de seu túmulo, após a morte, nações e gerações
inteiras que lhe deram, ou não, pão enquanto vivia”. Mas
persistia a visão preconceituosa do leitor como um intelectualoide
distraído, um trânsfuga do mundo, um sonhador de olhos abertos, de
óculos, enfiado no livro num canto recluso.
O escritor espanhol Jorge Manrique,
contemporâneo de Geiler, dividia a humanidade entre "aqueles
que vivem de seu próprio esforço e os ricos". Logo essa
divisão passou para "os que vivem de seu próprio esforço"
e "o louco dos livros", o leitor de quatro olhos.
É curioso que os óculos nunca tenham
perdido essa associação não mundana. Mesmo aqueles que querem
parecer sábios (ou pelo menos livrescos) em nosso tempo
aproveitam-se dos símbolos; um par de óculos, de grau ou não,
prejudica a sensualidade do rosto e sugere preocupações
intelectuais. Tony Curtis usa óculos roubados enquanto tenta
convencer Marilyn Monroe de que não passa de um milionário ingênuo
em Quanto mais quente melhor. E, nas palavras famosas de Dorothy
Parker, Men seldom make passes / At girls who wear glasses [Os
homens raramente cantam / garotas que usam óculos]. Mas no século
XVIII, Antônio José da Silva faz seu diabinho chamar a atenção do
aventuroso soldado Peralta dizendo-lhe que as belas e sensuais
mulheres que o Diabo quer que ele seduza se tornaram, na verdade,
vítimas do pecado da Preguiça graças "às leituras em
excesso": os livros as corromperam. Opor a força do corpo ao
poder da mente, separar o homme moyen sensuel do intelectual,
isso exige argumentos elaborados. De um lado estão os trabalhadores,
os escravos sem acesso a livros, as criaturas de ossos e nervos, a
maioria da humanidade; do outro, a minoria, os pensadores, a elite
dos escribas, os intelectuais supostamente aliados às autoridades,
ou, ao contrário, que conspiram contra elas. Durante o regime do
Khmer Vermelho de Pol Pot, no Camboja, as pessoas que usavam óculos
eram mortas porque se supunha que podiam ler e, portanto, teriam
acesso a informações que lhes permitiriam criticar o governo.
Discutindo o significado da felicidade, Sêneca concedeu à minoria a
fortaleza da sabedoria e desprezou a opinião da maioria: "O
melhor deveria ser escolhido pela maioria, mas, ao contrário, o
populacho prefere o pior [...] Nada é tão nocivo quanto ouvir o que
o povo diz, considerar certo o que é aprovado pela maioria e tomar
como modelo o comportamento das massas, que vivem não conforme a
razão, mas para se conformar".
O erudito inglês John Carey,
analisando a relação entre os intelectuais e as massas na virada do
século, descobriu que a opinião de Sêneca encontrava eco em muitos
dos mais famosos escritores britânicos dos períodos vitoriano
tardio e eduardiano. Carey concluiu: "Tendo em vista as
multidões pelas quais o indivíduo é cercado, é praticamente
impossível considerar que todos os outros têm uma individualidade
equivalente à nossa.
A massa, como conceito redutivo e
excludente, é inventada para aliviar essa dificuldade".
O argumento que opõe aqueles com
direito a ler, porque podem ler "bem" (como os temíveis
óculos parecem indicar), e aqueles a quem a leitura deve ser negada,
porque "não entenderiam", é tão antigo quanto especioso.
"Depois que uma coisa é escrita,"
Sócrates argumentava, “o texto,
qualquer que seja, é levado de lugar para lugar e cai nas mãos não
apenas daqueles que o compreendem, mas também nas de quem não tem
nada a ver com ele [grifo meu]. O texto não sabe como se dirigir
às pessoas certas e como não se dirigir às pessoas erradas. E
quando é mal tratado e abusado, precisa sempre que seu pai venha
socorrê-lo, sendo incapaz de se defender ou de se ajudar por si
mesmo." Leitores certos e errados: para Sócrates parece haver
uma interpretação "correta" do texto, disponível apenas
para uns poucos especialistas ínformados. Na Inglaterra vitoriana,
Matthew Arnold repetiria essa opinião esplendidamente arrogante:
"Somos [...] a favor de não transmitir a herança nem aos
bárbaros, nem aos filisteus, nem ao populacho". Tentando
entender o que era exatamente a herança, Aldous Huxley definiu-a
como o conhecimento especial acumulado de qualquer família unida, a
propriedade comum de todos os seus membros: "Quando nós, da
grande Família Cultural, nos reunimos, trocamos reminiscências a
respeito do vovô Homero, daquele terrível dr. Johnson, da tia Safo
e do pobre John Keats.
E você lembra daquela coisa
absolutamente preciosa que o tio Virgílio disse? Sabe?
Timeo Danaos. [...] Precioso;
nunca vou esquecer.' Não, jamais esqueceremos. E mais: tomaremos
todo o cuidado para que aquela gente horrível que teve a
impertinência de nos invocar, para que aqueles intrusos desgraçados
que nunca conheceram o querido e doce e velho tio V. nunca esqueçam
também. Faremos com que se lembrem constantemente de sua condição
de intrusos".
O que veio primeiro? A invenção das
massas - que Thomas Hardy descreveu como "uma aglomeração de
gente [...] contendo uma certa minoria dotada de almas sensíveis;
estes, e os aspectos destes, sendo o que vale a pena observar" -
ou a invenção do louco dos livros de quatro olhos, que se julga
superior ao resto do mundo e por quem o mundo passa dando risada?
A cronologia não importa. Ambos os
estereótipos são ficções e ambos são perigosos, porque sob a
capa de crítica moral ou social eles são utilizados na tentativa de
restringir um oficio que, em sua essência, não é limitado nem
limitador. A realidade da leitura está em outro lugar. Tentando
descobrir nos mortais comuns uma atividade afim à escrita criadora,
Sigmund Freud sugeriu que se poderia fazer uma comparação entre as
invenções da ficção e as da fantasia, pois ao ler ficção "nossa
fruição real de uma obra de imaginação vem da liberação de
tensões em nossa mente [...] permitindo-nos daí por diante fruir de
nossas fantasias sem auto-recriminação ou vergonha". Mas essa
não é certamente a experiência da maioria dos leitores. Dependendo
do tempo e do lugar, de nosso humor e nossa memória, de nossa
experiência e nosso desejo, a fruição da leitura, na melhor das
hipóteses, aumenta, em vez de liberar, as tensões de nossa mente,
retesando-as para que se manifestem, tornando-nos mais, e não menos,
conscientes de sua presença. É verdade que às vezes o mundo da
página passa para o nosso consciente imaginaire - nosso vocabulário
cotidiano de imagens - e então vagamos a esmo naquelas paisagens
ficcionais, perdidos de admiração, como dom Quixote. Mas, na maior
parte do tempo, pisamos em terra firme. Sabemos que estamos lendo,
mesmo quando suspendemos a descrença; sabemos porque lemos mesmo
quando não sabemos como, mantendo em nossa mente, a um só tempo, o
texto ilusivo e o ato de ler Lemos para descobrir o final, pelo
prazer da história, não pelo prazer da leitura em si. Lemos
buscando, como rastreadores, esquecidos de onde estamos. Lemos
distraidamente, pulando páginas. Lemos com desprezo, admiração,
negligência, raiva, paixão, inveja, anelo. Lemos em lufadas de
súbito prazer, sem saber o que provocou esse prazer "O que é,
no fim das contas, essa emoção?" - pergunta Rebecca West
depois de ler o Rei Lear.
"Que poder têm as grandes obras
de arte sobre minha vida para fazer com que eu me sinta tão
contente?" Não sabemos: lemos ignorantemente. Lemos em
movimentos longos, lentos, como que pairando no espaço, sem peso.
Lemos cheios de preconceitos, com malignidade. Lemos generosamente,
arranjando desculpas para o texto, preenchendo lacunas, corrigindo
erros. E às vezes, quando as estrelas são favoráveis, lemos de um
único fôlego, com um arrepio, como se alguém ou algo tivesse
"caminhado sobre nosso túmulo", como se uma memória
tivesse subitamente sido resgatada de um lugar no fundo de nós
mesmos - o reconhecimento de algo que nunca soubemos que estava lá,
ou de algo que sentimos vagamente, como um bruxuleio ou uma sombra,
cuja forma fantasmagórica ergue-se e instala-se em nós sem que
possamos ver o que é, deixando-nos mais velhos e sábios.
Essa leitura tem uma imagem. Uma
fotografia tirada em 1940, durante o bombardeio de Londres na Segunda
Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca desmoronada.
Pelo teto destruído veem-se prédios
fantasmagóricos do lado de fora, e, no centro da peça, há uma
pilha de vigas e móveis em pedaços. Mas as estantes na parede
ficaram firmes e os livros parecem inteiros. Três homens
encontram-se no meio dos destroços: um, como se hesitasse sobre qual
livro escolher, está aparentemente lendo os títulos nas lombadas;
outro, de óculos, está pegando um volume; o terceiro está lendo,
segurando um livro aberto nas mãos. Eles não estão dando as costas
para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo
os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra
as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de
perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais - entre as ruínas,
no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede –
uma compreensão.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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