Tenho um amigo que é pastor de uma
igreja presbiteriana no Rio de Janeiro. Parte da missão de um pastor
é esclarecer as dúvidas espirituais que porventura possam advir da
leitura confusa das Sagradas Escrituras. Pois ele foi procurado por
uma senhora já bem velha, solitária, que morava sozinha e tinha
como amigo de todas as horas o seu cãozinho, também já velhinho. A
aflição da senhora tinha a ver com o fato de que ela acreditava na
Bíblia e lia a Bíblia como consolo. Pois houve um texto que a
apunhalou: o escrito no livro de Apocalipse, capítulo 22, versículo
15. Nenhuma das passagens terríveis das Sagradas Escrituras a havia
abalado. Ela as lera e ficara em paz... Mas esse mínimo versículo
havia abalado o seu mundo. Porque esse versículo enumera aqueles que
não poderão entrar no Paraíso: “... Fora ficam os cães, os
feiticeiros, os impuros...”. “Reverendo, então o meu cãozinho,
meu único amigo, não entrará comigo no Paraíso?” Não foi fácil
convencer a velhinha. Aí o pastor teve a ideia de invocar a imagem
dos rebanhos de ovelhas. Centenas de ovelhas pastando, os lobos à
espreita, o pastor sozinho não dá conta, mas os cães estão sempre
atentos. Eles são bons. Eles guardam as ovelhas. Por isso os
pastores amam os cães. Pastores, ovelhas e cães entrarão todos
juntos no Paraíso…
Rubem Alves, em Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo
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