quinta-feira, 7 de maio de 2026

1622 – Sevilha



Os ratos

O padre Antônio Vázquez de Espinosa, recém-chegado da América, é o convidado de honra.
Enquanto os criados servem os pedaços de peru com molho explode no ar a espuma das ondas, alto e branco mar enlouquecido pela tempestade; e quando chegam os frangos recheados desaba sobre a mesa a chuva dos trópicos. Conta o padre Antônio que na costa do mar Caribe chove de tal maneira que esperando que acabe a chuva ficam grávidas as mulheres e nascem os filhos: quando vem a bonança, já são homens.
Os demais convidados, atentos ao relato e ao banquete, comem e calam; o padre tem a boca cheia de palavras e se esquece dos pratos. No chão, sentados sobre almofadões, as crianças e as mulheres escutam como se fosse missa.
Foi uma façanha a travessia entre o porto hondurenho de Trujillo e Sanlúcar e Barrameda. Navegaram as naus aos trambolhões, atormentadas pela borrasca; várias embarcações foram tragadas pelo mar e vários marinheiros pelos tubarões. Mas nada pior, e baixa a voz o padre Antônio, nada pior que os ratos.
Como castigo pelos muitos pecados cometidos na América, e porque ninguém embarca confessado e comungado como é devido, Deus semeou os ratos nos navios. Meteu ratos nos paióis, entre os víveres, e debaixo do castelo da proa; na câmara de popa, nos camarotes e até na cadeira do piloto: temos ratos, e tão grandes, que causavam espanto e admiração. Dezesseis arrobas de pão roubaram os ratos do quarto onde o padre dormia, e os bolos que estavam debaixo da escotilha. Devoraram os presuntos e os toucinhos do tombadilho da popa. Quando iam os sedentos buscar água, encontravam ratos afogados, flutuando nas pipas. Quando iam os famintos ao galinheiro, não encontravam mais que ossos e penas e uma ou outra galinha caída com as patas roídas. Nem os papagaios, em suas gaiolas, se salvaram dos ataques. Os marinheiros vigiavam os restos de água e comida dia e noite, armados de paus e facas, e os ratos atacavam e mordiam mãos e se devoraram entre si.
Entre as azeitonas e as frutas, chegaram os ratos. Estão intactas as sobremesas. Ninguém prova nem uma gota de vinho.
Querem escutar as orações novas que inventei? Como as velhas ladainhas não aplacavam as iras do Senhor...
Ninguém responde.
Tossem os homens, levando o guardanapo à boca. Das mulheres que perambulavam dando ordens ao serviço, não resta nenhuma. As que escutavam sentadas no chão, estão vesgas e boquiabertas. As crianças veem no padre Antônio uma tromba longa, tremendos dentes e bigodes, e torcem o pescoço buscando sua cauda debaixo da mesa.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:

Postar um comentário