Os ratos
O padre Antônio Vázquez de Espinosa,
recém-chegado da América, é o convidado de honra.
Enquanto os criados servem os pedaços
de peru com molho explode no ar a espuma das ondas, alto e branco mar
enlouquecido pela tempestade; e quando chegam os frangos recheados
desaba sobre a mesa a chuva dos trópicos. Conta o padre Antônio que
na costa do mar Caribe chove de tal maneira que esperando que acabe a
chuva ficam grávidas as mulheres e nascem os filhos: quando vem a
bonança, já são homens.
Os demais convidados, atentos ao
relato e ao banquete, comem e calam; o padre tem a boca cheia de
palavras e se esquece dos pratos. No chão, sentados sobre
almofadões, as crianças e as mulheres escutam como se fosse missa.
Foi uma façanha a travessia entre o
porto hondurenho de Trujillo e Sanlúcar e Barrameda. Navegaram as
naus aos trambolhões, atormentadas pela borrasca; várias
embarcações foram tragadas pelo mar e vários marinheiros pelos
tubarões. Mas nada pior, e baixa a voz o padre Antônio, nada pior
que os ratos.
Como castigo pelos muitos pecados
cometidos na América, e porque ninguém embarca confessado e
comungado como é devido, Deus semeou os ratos nos navios. Meteu
ratos nos paióis, entre os víveres, e debaixo do castelo da proa;
na câmara de popa, nos camarotes e até na cadeira do piloto: temos
ratos, e tão grandes, que causavam espanto e admiração. Dezesseis
arrobas de pão roubaram os ratos do quarto onde o padre dormia, e os
bolos que estavam debaixo da escotilha. Devoraram os presuntos e os
toucinhos do tombadilho da popa. Quando iam os sedentos buscar água,
encontravam ratos afogados, flutuando nas pipas. Quando iam os
famintos ao galinheiro, não encontravam mais que ossos e penas e uma
ou outra galinha caída com as patas roídas. Nem os papagaios, em
suas gaiolas, se salvaram dos ataques. Os marinheiros vigiavam os
restos de água e comida dia e noite, armados de paus e facas, e os
ratos atacavam e mordiam mãos e se devoraram entre si.
Entre as azeitonas e as frutas,
chegaram os ratos. Estão intactas as sobremesas. Ninguém prova nem
uma gota de vinho.
– Querem escutar as orações novas
que inventei? Como as velhas ladainhas não aplacavam as iras do
Senhor...
Ninguém responde.
Tossem os homens, levando o guardanapo
à boca. Das mulheres que perambulavam dando ordens ao serviço, não
resta nenhuma. As que escutavam sentadas no chão, estão vesgas e
boquiabertas. As crianças veem no padre Antônio uma tromba longa,
tremendos dentes e bigodes, e torcem o pescoço buscando sua cauda
debaixo da mesa.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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