sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A aventura de Johnnie Waverly



O senhor não pode entender os sentimentos de uma mãe — disse mrs. Waverly possivelmente pela sexta vez.
Ela lançou um olhar suplicante para Poirot. Meu pequeno amigo, sempre simpático aos sentimentos maternos em apuros, fez um gesto de assentimento.
Mas é claro, claro, entendo perfeitamente. Tenha fé no papa Poirot.
A polícia... — começou mr. Waverly.
Sua esposa descartou a interrupção com um gesto.
Não quero mais nada com a polícia. Nós confiamos neles e veja o que aconteceu! Mas eu ouvi falar tanto de monsieur Poirot e das coisas maravilhosas que fez, que sinto que ele poderia nos ajudar. Os sentimentos de uma mãe...
Poirot conteve agilmente a reiteração com um gesto eloquente.
A emoção de mrs. Waverly era obviamente genuína, mas não combinava com suas feições inteligentes e muito severas. Quando fiquei sabendo mais tarde que era a filha de um proeminente industrial siderúrgico que subira na vida de auxiliar de escritório até sua eminência atual, percebi que ela havia herdado muitas qualidades paternas.
Mr. Waverly era um homem grande, corado, de aparência jovial. Estava de pé com as pernas bem abertas e lembrava um proprietário rural.
Suponho que sabe tudo sobre esse caso, monsieur Poirot?
A pergunta era quase supérflua. Nos últimos dias, os jornais estiveram repletos do rapto sensacional do pequeno Johnnie Waverly, o filho de três anos e herdeiro de Marcus Waverly, proprietário de Waverly Court, Surrey, e membro de uma das famílias mais antigas da Inglaterra.
Os fatos principais eu conheço, claro, mas me relate a história inteira, monsieur, eu lhe peço. E com detalhes, por favor.
Bem, imagino que o começo da coisa toda foi há cerca de dez dias quando recebi uma carta anônima: coisas agressivas, de toda sorte, sem pé nem cabeça. O escritor teve a impudência de pedir que eu lhe pagasse 25 mil libras... 25 mil libras, monsieur Poirot! Se não concordasse, ele ameaçou raptar Johnnie. Claro que eu joguei a coisa na cesta de lixo sem muito barulho. Achei que fosse alguma brincadeira cretina. Cinco dias depois, recebi outra carta. “Se não pagar, seu filho será raptado no dia 29.” Era o dia 27, Ada estava preocupada, mas eu não conseguia levar a coisa a sério. Que diabo, estamos na Inglaterra. Ninguém sai por aí raptando crianças e pedindo resgate por elas.
Não é uma prática comum, com certeza — disse Poirot. — Prossiga.
Bem, Ada não me deixava em paz, então eu, me sentindo um pouco tolo, levei o assunto à Scotland Yard. Eles não pareceram levar a coisa muito a sério, inclinados para a minha opinião de que era alguma brincadeira cretina. No dia 28 eu recebi uma terceira carta. “Você não pagou. Seu filho lhe será tirado amanhã, dia 29, ao meio-dia. Vai lhe custar 50 mil libras para recuperá-lo.” Lá fui eu à Scotland Yard de novo. Desta vez eles ficaram mais impressionados. Eles se inclinaram à opinião de que as cartas foram escritas por um lunático, e que, com toda probabilidade, uma tentativa de algum tipo seria feita na hora estipulada. Eles me tranquilizaram de que tomariam as devidas precauções. O inspetor McNeil e uma força suficiente viriam até Waverly pela manhã e se encarregariam do caso.
Fui para casa mais aliviado. Mas nós tínhamos a sensação de estar num estado de sítio. Dei ordens para nenhum estranho ser recebido, e para ninguém sair da casa. A noite transcorreu sem nenhum incidente adverso, mas, na manhã seguinte, minha esposa estava seriamente indisposta. Alarmado com o seu estado, mandei chamar o doutor Dakers. Seus sintomas pareceram intrigá-lo. Embora hesitando sugerir que ela havia sido envenenada, pude perceber que era o que ele tinha em mente. Não havia nenhum perigo, ele me tranquilizou, mas demoraria um dia ou dois para ela ficar em forma de novo. Retornando ao meu quarto, fiquei sobressaltado e chocado ao descobrir uma nota presa com alfinete no meu travesseiro. Era na mesma caligrafia das outras e continha apenas três palavras: “Às doze horas”.
Tenho que admitir, monsieur Poirot, que fiquei furioso. Alguém na casa estava metido na coisa... um dos criados. Eu convoquei todos eles, insultei-os de todas as maneiras. Eles não se desuniram. Foi miss Collins, acompanhante de minha esposa, que me informou que tinha visto a enfermeira de Johnnie se esgueirar pelo passeio naquela manhã bem cedo. Eu cobrei-lhe isso e ela desmoronou. Havia deixado a criança com a babá e saído às escondidas para se encontrar com um amigo seu, um homem! Belas andanças! Ela negou que tenha pregado a nota no meu travesseiro, e pode ter dito a verdade, não sei. Senti que não poderia assumir o risco de a própria enfermeira da criança estar envolvida na trama. Um dos criados estava implicado, disso eu tinha certeza. Eu finalmente perdi a cabeça e demiti o bando todo, enfermeira e tudo. Eu lhes dei uma hora para embalarem suas coisas e saírem da casa.
O rosto de mr. Waverly ficou dois tons mais vermelho apenas com a lembrança de sua ira.
Isso não foi um pouco precipitado, monsieur? — sugeriu Poirot. — Por tudo que sabe, o senhor pode ter feito o jogo do inimigo.
Mr. Waverly o fitou.
Não vejo assim. Mandar todo mundo embora, essa era a minha ideia. Telegrafei para Londres pedindo para enviarem um lote novo naquela noite. Nesse ínterim, só haveria pessoas em que eu podia confiar na casa: a secretária de minha esposa, miss Collins, e Tredwell, o mordomo, que está comigo desde que eu era um garoto.
E essa miss Collins, há quanto tempo está com vocês?
Apenas um ano — disse mrs. Waverly. — Ela tem sido útil para mim como secretária e acompanhante, e também é uma administradora doméstica muito eficiente.
A enfermeira?
Ela está comigo há seis meses. Veio com referências excelentes. Mesmo assim, nunca gostei dela de verdade, embora Johnnie fosse muito apegado a ela.
Mesmo assim, deduzo que ela já havia partido quando a catástrofe ocorreu. Talvez, monsieur Waverly, faria a bondade de continuar.
Mr. Waverly retomou sua narrativa.
O inspetor McNeil chegou por volta das dez e meia. Os criados já haviam partido a essa altura. Ele se declarou muito satisfeito com os arranjos internos. Ele postou vários homens no parque, guardando todos os caminhos de acesso à casa, e me tranquilizou de que se a coisa toda não fosse um trote, nós seguramente agarraríamos meu misterioso correspondente.
Eu estava com o Johnnie ao meu lado, e ele, eu e o inspetor fomos juntos para a sala que chamamos de câmara do conselho. O inspetor trancou a porta. Havia um grande relógio de parede ali, e quando os ponteiros estavam se aproximando do doze, não me importo de confessar que fiquei nervoso como um gato. Alguma coisa zumbiu, e o relógio começou a bater. Eu agarrei o Johnnie. Tinha a sensação de que um homem poderia cair do céu. A última badalada soou, e quando isso aconteceu houve uma grande algazarra do lado de fora, grito e correria. O inspetor levantou a janela com força, e um guarda chegou correndo.
Nós o pegamos, senhor”, ele disse ofegante. “Estava se escondendo nos arbustos. Trazia um equipamento completo de dopagem com ele.’’
Nós corremos para o terraço onde dois policiais estavam segurando um sujeito com aparência de malfeitor trajando roupas surradas que se retorcia e virava em vão no esforço para se desvencilhar. Um dos policiais estendeu um pacote aberto que eles tinham arrancado à força de seu cativo. Ele continha um chumaço de algodão e um frasco de clorofórmio. A visão disso fez meu sangue ferver. Havia também uma nota, endereçada a mim. Eu a abri. Ela trazia as seguintes palavras: ‘Devia ter pago. O resgate de seu filho agora lhe custará 50 mil. Apesar de todas suas precauções, ele foi sequestrado no dia 29 como eu havia dito.’
Eu soltei uma gargalhada, a gargalhada de alívio, mas enquanto o fazia ouvi o ronco de um motor e um grito. Virei a cabeça. Era um carro cinza baixo e comprido correndo numa velocidade furiosa pelo passeio na direção da guarita sul. Fora o homem que o guiava que havia gritado, mas não foi isso que me causou um choque de horror. Foi a visão dos cabelos loiros de Johnnie. A criança estava no carro ao lado dele.
O inspetor soltou uma imprecação: ‘A criança estava aqui não faz um minuto’, ele gritou. Seus olhos passaram por todos nós. Nós estávamos todos ali: eu, Tredwell, miss Collins. ‘Quando o viu pela última vez, mr. Waverly?’
Eu tentei reconstruir o passado, procurando lembrar quando o policial nos havia chamado, eu saíra correndo com o inspetor, esquecendo-me completamente de Johnnie. — E aí veio um som que nos sobressaltou, o soar de um relógio de igreja do povoado. Com uma exclamação, o inspetor sacou seu relógio. Eram exatamente doze horas. Como se de comum acordo, nós corremos até a câmara do conselho; o relógio marcava meio-dia e dez. Alguém devia tê-lo alterado deliberadamente, pois ele jamais havia adiantado nem atrasado. É um relógio perfeito.”
Mr. Waverly parou. Poirot sorriu e endireitou uma pequena esteira que o pai aflito havia enviesado.
Um probleminha agradável, obscuro e encantador — murmurou Poirot. — Eu o investigarei para vocês com prazer. Ele de fato foi planejado à merveille.
Mrs. Waverly olhou para ele com ar de censura.
Mas o meu garoto — ela choramingou.
Poirot recompôs rapidamente seu rosto e parecia de novo a imagem de uma sincera simpatia.
Ele está a salvo, madame, está ileso. Fique tranquila, esses canalhas tomarão o maior cuidado com ele. Então ele não é a perua... não, a galinha... dos ovos de ouro?
Monsieur Poirot, estou certa de que só resta uma coisa a ser feita: pagar. Eu fui absolutamente contra no início... mas agora... os sentimentos de uma mãe...
Mas nós interrompemos monsieur em sua história — exclamou Poirot apressadamente.
Imagino que conheça muito bem o resto pelos jornais — disse mr. Waverly. — Claro, o inspetor McNeil foi imediatamente ao telefone. Uma descrição do carro e do homem circulou por toda parte, e no começo pareceu que tudo daria certo. Um carro, conferindo com a descrição, levando um homem e um garotinho, havia passado por vários povoados, aparentemente a caminho de Londres. Em um lugar que eles haviam parado, notaram que a criança estava chorando e obviamente com medo de seu acompanhante. Quando o inspetor McNeil anunciou que o carro havia sido parado e o homem e o menino detidos, eu quase passei mal de alívio. Você sabe a continuação. O garoto não era Johnnie, e o homem era um motorista fogoso, afeiçoado a crianças, que havia apanhado uma criancinha brincando nas ruas de Edenswell, um povoado a uns 24 quilômetros de nós, e estava gentilmente oferecendo-lhe um passeio. Graças à presunção desastrada da polícia, todas as pistas haviam desaparecido. Se eles não tivessem seguido persistentemente o carro errado, poderiam ter encontrado o menino a essa altura.
Acalme-se, monsieur. A polícia é uma força corajosa e inteligente. Seu erro foi muito natural. E, no geral, foi um plano inteligente. Quanto ao homem que eles apanharam nos jardins, ouvi que sua defesa consistiu de uma negação persistente. Ele declarou que a nota e o embrulho lhe foram dados para ser entregues em Waverly Court. O homem que os deu para ele entregou-lhe uma nota de dez xelins e prometeu-lhe outra se fossem entregues exatamente às dez para as doze. Ele devia se aproximar da casa pelos jardins e bater na porta lateral.
Não acredito em uma palavra disso — declarou mr. Waverly veementemente. — É tudo uma enfiada de mentiras.
En vérité, é uma história rala — disse Poirot pensativamente. — Mas até agora eles não a abalaram. Ouvi, também, que ele fez uma certa acusação.
Seu olhar interrogou mr. Waverly, que avermelhou de novo.
O sujeito teve a impertinência de fingir que reconhecia em Tredwell o homem que lhe dera o pacote. “Só que o sujeito raspou o bigode”. Tredwell, que nasceu na herdade!
Poirot sorriu de leve com a indignação do velho cavalheiro rural.
E, no entanto, o senhor suspeita que um ocupante da casa colaborou no sequestro.
Sim, mas não Tredwell.
E a senhora, madame? — perguntou Poirot, virando-se subitamente para ela.
Não poderia ter sido Tredwell que deu a esse vagabundo a carta e o embrulho, se é que alguém o fez, o que eu não acredito. Aquilo lhe foi entregue às dez horas, ele disse. Às dez horas, Tredwell estava com meu marido no salão de fumar.
Conseguiu ver o rosto do homem no carro, monsieur? Ele se parecia de alguma forma com Tredwell?
Ele estava longe demais para eu ver seu rosto.
Tredwell tinha algum irmão?
Ele teve vários, mas eles estão todos mortos. O último foi morto na guerra.
Ainda não tenho clareza sobre os terrenos de Waverly Court. O carro estava seguindo para a guarita sul. Há outra entrada?
Sim, a que nós chamamos de guarita leste. Ela pode ser vista do outro lado da casa.
Me parece estranho que ninguém tenha visto o carro entrando no terreno.
Há uma via pública cruzando a propriedade e dando acesso a uma capelinha. Muitos carros passam por ela. O homem pode ter parado o carro num lugar conveniente e corrido até a casa quando o alarme foi dado e a atenção atraída para outro lado.
A menos que ele já estivesse dentro da casa — ruminou Poirot. — Existe algum lugar onde ele possa ter se escondido?
Bem, nós certamente não demos uma busca completa na casa antes. Não parecia ser necessário. Imagino que ele poderia ter se escondido em algum lugar, mas quem o teria deixado entrar?
Chegaremos a isso mais tarde. Uma coisa de cada vez... sejamos metódicos. Não há nenhum esconderijo especial na casa? Waverly Court é um lugar antigo, e à vezes há “esconderijos de padre”, como são chamados.
Caramba, um esconderijo de padre. A entrada é por um dos painéis no vestíbulo.
Perto da sala do conselho?
No lado de fora, ao lado da porta.
Voilà!
Mas ninguém sabe da sua existência exceto minha esposa e eu.
Tredwell?
Bem... ele poderia ter ouvido falar disso.
Miss Collins?
Eu nunca o mencionei para ela.
Poirot refletiu por alguns instantes.
Bem, monsieur, a próxima coisa é eu ir a Waverly Court. Se eu chegar esta tarde, isso lhes convém?
Oh, o quanto antes, por favor, monsieur Poirot! — exclamou mrs. Waverly. — Leia isto mais uma vez.
Ela enfiou em suas mãos a última missiva do inimigo que havia chegado aos Waverly naquela manhã e que a enviara a toda pressa a Poirot. A carta dava orientações claras e explícitas para o pagamento do dinheiro, e terminava com uma ameaça de que o garoto pagaria com a vida se houvesse alguma traição. Estava claro que o amor pelo dinheiro se digladiava com o amor de mãe de mrs. Waverly, e que este último estava pelo menos ganhando o dia.
Poirot deteve mrs. Waverly por um minuto atrás de seu marido.
Madame, a verdade, por favor. Compartilha a confiança de seu marido no mordomo, Tredwell?
Não tenho nada contra ele, monsieur Poirot. Não consigo ver como ele pode ter se envolvido nisso, mas... bem eu nunca gostei dele... nunca!
Outra coisa, madame, pode me dar o endereço da enfermeira da criança?
Netherhall Road, 149, Hammersmith. Não imagina...
Eu jamais imagino. Apenas emprego minhas pequenas células cinzentas. E, às vezes, só às vezes, tenho uma ideia.
Poirot voltou até onde eu estava depois que a porta se fechou.
Então, madame nunca gostou do mordomo. Interessante isso, hein, Hastings?
Recusei-me a provocação. Poirot já havia me enganado tantas vezes que agora eu vou com cautela. Há sempre uma pegadinha em algum lugar.
Após completar um elaborado toalete ao ar livre, partimos para Netherhall Road. Tivemos sorte de encontrar miss Jennie Withers em casa. Era uma mulher de trinta e cinco anos, de feições agradáveis, competente e altiva. Eu não pude acreditar que ela estivesse envolvida no caso. Ela estava fortemente ressentida com a maneira como havia sido demitida, mas admitiu que fora a culpada. Estava noiva para se casar com um pintor e decorador que por acaso estava na vizinhança, e saíra para se encontrar com ele. A coisa parecia bastante natural. Eu não conseguia compreender Poirot muito bem. Todas as suas perguntas me pareceram absolutamente irrelevantes. Elas giravam em torno, sobretudo, da rotina diária de sua vida em Waverly Court. Fiquei francamente entediado e contente quando Poirot resolveu partir.
Rapto é um trabalho fácil, mon ami — ele observou, enquanto parava um táxi na Hammersmith Road e ordenava-lhe que seguisse para Waterloo.
Esta criança poderia ter sido raptada com a maior facilidade em qualquer dia nos três últimos anos.
Não vejo em que isso nos faz avançar — observei friamente.
Au contraire, ela nos faz avançar enormemente, enormemente mesmo! Se você precisa usar um alfinete de gravata, Hastings, ao menos que seja no centro exato de sua gravata. Neste momento ele está pelo menos alguns centímetros demais para a direita.
Waverly Court era uma casa antiga excelente e fora restaurada recentemente com bom gosto e cuidado. Mr. Waverly nos mostrou a sala do conselho, o terraço, e todos os demais pontos associados ao caso. Por fim, a pedido de Poirot, ele pressionou uma mola na parede, um painel deslizou para o lado, e uma pequena passagem nos levou até o esconderijo do padre.
Está vendo — disse Waverly. — Não há nada aqui.
O minúsculo recinto estava completamente vazio, sem nem sequer a marca de uma pegada no chão. Eu me juntei a Poirot onde ele estava curvado examinando atentamente uma marca no canto.
O que você deduz disto, meu amigo?
Havia quatro pegadas próximas umas das outras.
Um cachorro — gritei.
Um cachorro muito pequeno, Hastings.
Um lulu da Pomerânia.
Menor que um lulu.
Um griffon? — sugeri sem convicção.
Menor até que um griffon. Uma espécie desconhecida do Kennel Club.
Olhei para ele. Seu rosto estava iluminado de excitação e satisfação.
Eu estava certo — murmurou. — Sabia que estava certo. Venha, Hastings.
Quando saímos para o vestíbulo e o painel se fechou atrás de nós, uma jovem dama saiu de uma porta mais distante da passagem. Mr. Waverly fez as apresentações.
Miss Collins.
Miss Collins tinha cerca de trinta anos, modos ágeis e alertas. Ela tinha cabelos louros muito foscos. E usava pince-nez. A pedido de Poirot, passamos para uma saleta matinal e ele a interrogou cuidadosamente sobre os empregados, em particular sobre Tredwell. Ela admitiu não gostar do mordomo.
Ele é muito intrometido — explicou.
Depois eles entraram na questão da comida ingerida por mrs. Waverly na noite do dia 28. Miss Collins declarou que havia compartido os mesmos pratos no primeiro andar, em sua sala de estar, e não havia sentido nenhum efeito pernicioso. Quando ela estava saindo, eu cutuquei Poirot.
O cachorro — sussurrei.
Ah, sim, o cachorro! — ele deu um largo sorriso. — Existe algum cachorro por aqui, madamoiselle?
Há dois cães de caça nos canis lá fora.
Não. Quero dizer um cãozinho, um cãozinho de estimação.
Não... nada assim.
Poirot a dispensou. Depois, tocando a campainha, ele observou para mim:
Ela mente, essa madamoiselle Collins. Eu possivelmente também o faria no lugar dela. Agora, o mordomo.
Tredwell era um indivíduo digno. Ele contou sua história com perfeita desenvoltura, e foi essencialmente igual à de mr. Waverly.
Ele admitiu conhecer o segredo do esconderijo do padre.
Quando finalmente se retirou, pomposo até o fim, eu encontrei os olhos perplexos de Poirot.
O que deduz de tudo isso, Hastings?
O que você deduz? — eu me defendi.
Como você foi cauteloso. As células cinzentas nunca, nunca funcionarão se você não as estimular. Ah, mas não vou provocá-lo! Vamos fazer nossas deduções em conjunto. Que pontos nos chocaram por ser especialmente difíceis?
Tem uma coisa que me choca — eu falei. — Por que o homem que sequestrou a criança saiu pela guarita sul e não pela guarita leste onde ninguém o veria?
Este é um ponto muito bom, Hastings, excelente. Vou igualá-lo com outro. Por que advertir previamente os Waverly? Por que não raptar simplesmente a criança e pedir um resgate?
Porque eles esperavam conseguir o dinheiro sem precisar agir.
Seguramente era bastante improvável que o dinheiro fosse pago ante uma mera ameaça.
Eles também queriam concentrar a atenção nas doze horas, para que, quando o vagabundo fosse apanhado, o outro pudesse sair do esconderijo e fugir com a criança sem ser notado.
Isso não altera o fato de que eles estavam tornando uma coisa perfeitamente fácil numa coisa difícil. Se não especificam a hora ou a data, nada seria mais fácil do que esperar sua chance, e levar a criança num carro um dia que ele tivesse saído com sua babá.
Si...im — admiti, sem estar convencido.
Na verdade, há uma encenação deliberada de farsa! Mas vamos abordar a questão de outro ângulo. Tudo conflui para mostrar que havia um cúmplice dentro da casa. Ponto número um, o envenenamento misterioso de mrs. Waverly. Ponto número dois, a carta espetada no travesseiro. Ponto número três, o adiantamento de dez minutos do relógio... todos serviços internos. E um fato adicional que você pode não ter notado. Não havia pó no esconderijo do padre. Ele fora varrido com uma vassoura.
Pois bem, temos quatro pessoas na casa. Podemos excluir a enfermeira, pois ela não poderia ter varrido o esconderijo do padre, embora pudesse satisfazer aos três outros pontos. Quatro pessoas, mr. e mrs. Waverly, Tredwell, o mordomo, e miss Collins. Tomemos primeiramente miss Collins. Não temos muito contra ela, exceto que sabemos muito pouco sobre ela, que é obviamente uma mulher jovem inteligente, e que só está aqui há um ano.
Ela mentiu sobre o cachorro, você disse — eu o lembrei.
Ah, sim, o cachorro — Poirot deu um sorriso peculiar. — Passemos agora a Tredwell. Há vários fatos suspeitos contra ele. Primeiro de tudo, um vagabundo declara que foi Tredwell quem lhe deu o embrulho no povoado.
Mas Tredwell pode apresentar um álibi sobre esse ponto.
Mesmo assim, ele poderia ter envenenado mrs. Waverly, espetado a nota no travesseiro, adiantado o relógio, e varrido o esconderijo do padre. Por outro lado, ele nasceu e cresceu no serviço dos Waverly. Parece improvável no mais alto grau que fosse ser conivente com o rapto do filho da casa. Isso não se encaixa no quadro!
E então?
Devemos proceder logicamente... por mais absurdo que possa parecer. Consideraremos brevemente mrs. Waverly. Ela é rica, o dinheiro é seu. Foi seu dinheiro que restaurou esta herdade arruinada. Não faria sentido ela raptar seu filho e pagar o dinheiro a ela mesma. O marido, não, está numa posição diferente. Ele tem uma esposa rica. Não é a mesma coisa que ser ele próprio rico, aliás, tenho uma pequena ideia de que a dama não gosta muito de dividir seu dinheiro, exceto por um pretexto muito bom. Mas mr. Waverly, pode-se notar de imediato, é um bon vivant.
Impossível — balbuciei.
Absolutamente. Quem demitiu os criados? Mr. Waverly. Ele pôde escrever os bilhetes, drogar a esposa, adiantar os ponteiros do relógio, e estabelecer um álibi para seu fiel serviçal Tredwell. Tredwell nunca gostou de mrs. Waverly. Ele é devotado ao amo e está disposto a obedecer a suas ordens implicitamente. Havia três pessoas envolvidas. Waverly, Tredwell, e algum amigo de Tredwell. Este é o erro que a polícia cometeu, eles não investigaram melhor o homem que dirigiu o carro cinza com a criança errada. Ele era o terceiro homem. Ele pega a criança num vilarejo próximo, um garoto de cabelos loiros. Entra pela guarita leste e atravessa para a guarita sul no momento exato, agitando a mão e gritando. Eles não conseguem ver nem o seu rosto nem a placa do carro, e, portanto, não conseguem ver o rosto da criança tampouco. Aí ele deixa uma pista falsa para Londres. Nesse meio tempo, Tredwell fez sua parte arranjando para o embrulho e o bilhete serem entregues por um cavalheiro de aspecto rude. Seu amo pode oferecer um álibi no caso improvável de o homem reconhecê-lo, a despeito do bigode falso que usou. Quanto a mr. Waverly, mal começa o alvoroço e o inspetor sai apressado para fora, ele rapidamente esconde a criança no esconderijo do padre, e o acompanha para fora. Mais tarde no mesmo dia, despois que o inspetor foi embora e quando miss Collins está fora do caminho, será muito fácil levá-la a algum lugar seguro no seu próprio carro.
Mas e quanto ao cachorro? — perguntei. — E a mentira de miss Collins?
Isto foi uma brincadeirinha minha. Perguntei a ela se havia cachorros de estimação na casa, e ela disse que não. Mas seguramente há alguns, no quarto da criança! Percebe, mr. Waverly colocou alguns brinquedos no esconderijo do padre para divertir e acalmar Johnnie.
Monsieur Poirot... — mr. Waverly entrou na sala — descobriu alguma coisa? Tem alguma pista sobre para onde o menino foi levado?
Poirot estendeu lhe um pedaço de papel. — Eis o endereço.
Mas é uma folha em branco.
Porque estou esperando que você o escreva para mim.
O que... — o rosto de mr. Waverly ficou púrpura.
Eu sei tudo, monsieur. Dou-lhe vinte e quatro horas para devolver o menino. Sua engenhosidade fará jus à tarefa de explicar seu reaparecimento. Caso contrário, mrs. Waverly será informada da sequência exata dos fatos.
Mr. Waverly desabou numa cadeira e enterrou o rosto nas mãos.
Ele está com minha velha ama, a dez milhas daqui. Está feliz e bem cuidado.
Não tenho dúvida disso. Se não acreditasse que no fundo é um bom pai, não estaria disposto a lhe dar uma nova chance.
Um escândalo...
Exatamente. Seu nome é antigo e honrado. Não o coloque em risco de novo. Boa noite, mr. Waverly. E, a propósito, um pequeno conselho. Nunca se esqueça de varrer os cantos!

Agatha Christie, em Três ratos cegos e outros contos

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