— O
senhor não pode entender os sentimentos de uma mãe — disse mrs.
Waverly possivelmente pela sexta vez.
Ela
lançou um olhar suplicante para Poirot. Meu pequeno amigo, sempre
simpático aos sentimentos maternos em apuros, fez um gesto de
assentimento.
— Mas
é claro, claro, entendo perfeitamente. Tenha fé no papa Poirot.
— A
polícia... — começou mr. Waverly.
Sua
esposa descartou a interrupção com um gesto.
— Não
quero mais nada com a polícia. Nós confiamos neles e veja o que
aconteceu! Mas eu ouvi falar tanto de monsieur Poirot e das
coisas maravilhosas que fez, que sinto que ele poderia nos ajudar. Os
sentimentos de uma mãe...
Poirot
conteve agilmente a reiteração com um gesto eloquente.
A
emoção de mrs. Waverly era obviamente genuína, mas não combinava
com suas feições inteligentes e muito severas. Quando fiquei
sabendo mais tarde que era a filha de um proeminente industrial
siderúrgico que subira na vida de auxiliar de escritório até sua
eminência atual, percebi que ela havia herdado muitas qualidades
paternas.
Mr.
Waverly era um homem grande, corado, de aparência jovial. Estava de
pé com as pernas bem abertas e lembrava um proprietário rural.
— Suponho
que sabe tudo sobre esse caso, monsieur Poirot?
A
pergunta era quase supérflua. Nos últimos dias, os jornais
estiveram repletos do rapto sensacional do pequeno Johnnie Waverly, o
filho de três anos e herdeiro de Marcus Waverly, proprietário de
Waverly Court, Surrey, e membro de uma das famílias mais antigas da
Inglaterra.
— Os
fatos principais eu conheço, claro, mas me relate a história
inteira, monsieur, eu lhe peço. E com detalhes, por favor.
— Bem,
imagino que o começo da coisa toda foi há cerca de dez dias quando
recebi uma carta anônima: coisas agressivas, de toda sorte, sem pé
nem cabeça. O escritor teve a impudência de pedir que eu lhe
pagasse 25 mil libras... 25 mil libras, monsieur Poirot! Se não
concordasse, ele ameaçou raptar Johnnie. Claro que eu joguei a coisa
na cesta de lixo sem muito barulho. Achei que fosse alguma
brincadeira cretina. Cinco dias depois, recebi outra carta. “Se não
pagar, seu filho será raptado no dia 29.” Era o dia 27, Ada estava
preocupada, mas eu não conseguia levar a coisa a sério. Que diabo,
estamos na Inglaterra. Ninguém sai por aí raptando crianças e
pedindo resgate por elas.
— Não
é uma prática comum, com certeza — disse Poirot. — Prossiga.
— Bem,
Ada não me deixava em paz, então eu, me sentindo um pouco tolo,
levei o assunto à Scotland Yard. Eles não pareceram levar a coisa
muito a sério, inclinados para a minha opinião de que era alguma
brincadeira cretina. No dia 28 eu recebi uma terceira carta. “Você
não pagou. Seu filho lhe será tirado amanhã, dia 29, ao meio-dia.
Vai lhe custar 50 mil libras para recuperá-lo.” Lá fui eu à
Scotland Yard de novo. Desta vez eles ficaram mais impressionados.
Eles se inclinaram à opinião de que as cartas foram escritas por um
lunático, e que, com toda probabilidade, uma tentativa de algum tipo
seria feita na hora estipulada. Eles me tranquilizaram de que
tomariam as devidas precauções. O inspetor McNeil e uma força
suficiente viriam até Waverly pela manhã e se encarregariam do
caso.
— Fui
para casa mais aliviado. Mas nós tínhamos a sensação de estar num
estado de sítio. Dei ordens para nenhum estranho ser recebido, e
para ninguém sair da casa. A noite transcorreu sem nenhum incidente
adverso, mas, na manhã seguinte, minha esposa estava seriamente
indisposta. Alarmado com o seu estado, mandei chamar o doutor Dakers.
Seus sintomas pareceram intrigá-lo. Embora hesitando sugerir que ela
havia sido envenenada, pude perceber que era o que ele tinha em
mente. Não havia nenhum perigo, ele me tranquilizou, mas demoraria
um dia ou dois para ela ficar em forma de novo. Retornando ao meu
quarto, fiquei sobressaltado e chocado ao descobrir uma nota presa
com alfinete no meu travesseiro. Era na mesma caligrafia das outras e
continha apenas três palavras: “Às doze horas”.
— Tenho
que admitir, monsieur Poirot, que fiquei furioso. Alguém na
casa estava metido na coisa... um dos criados. Eu convoquei todos
eles, insultei-os de todas as maneiras. Eles não se desuniram. Foi
miss Collins, acompanhante de minha esposa, que me informou que tinha
visto a enfermeira de Johnnie se esgueirar pelo passeio naquela manhã
bem cedo. Eu cobrei-lhe isso e ela desmoronou. Havia deixado a
criança com a babá e saído às escondidas para se encontrar com um
amigo seu, um homem! Belas andanças! Ela negou que tenha pregado a
nota no meu travesseiro, e pode ter dito a verdade, não sei. Senti
que não poderia assumir o risco de a própria enfermeira da criança
estar envolvida na trama. Um dos criados estava implicado, disso eu
tinha certeza. Eu finalmente perdi a cabeça e demiti o bando todo,
enfermeira e tudo. Eu lhes dei uma hora para embalarem suas coisas e
saírem da casa.
O
rosto de mr. Waverly ficou dois tons mais vermelho apenas com a
lembrança de sua ira.
— Isso
não foi um pouco precipitado, monsieur? — sugeriu Poirot. —
Por tudo que sabe, o senhor pode ter feito o jogo do inimigo.
Mr.
Waverly o fitou.
— Não
vejo assim. Mandar todo mundo embora, essa era a minha ideia.
Telegrafei para Londres pedindo para enviarem um lote novo naquela
noite. Nesse ínterim, só haveria pessoas em que eu podia confiar na
casa: a secretária de minha esposa, miss Collins, e Tredwell, o
mordomo, que está comigo desde que eu era um garoto.
— E
essa miss Collins, há quanto tempo está com vocês?
— Apenas
um ano — disse mrs. Waverly. — Ela tem sido útil para mim como
secretária e acompanhante, e também é uma administradora doméstica
muito eficiente.
— A
enfermeira?
— Ela
está comigo há seis meses. Veio com referências excelentes. Mesmo
assim, nunca gostei dela de verdade, embora Johnnie fosse muito
apegado a ela.
— Mesmo
assim, deduzo que ela já havia partido quando a catástrofe ocorreu.
Talvez, monsieur Waverly, faria a bondade de continuar.
Mr.
Waverly retomou sua narrativa.
— O
inspetor McNeil chegou por volta das dez e meia. Os criados já
haviam partido a essa altura. Ele se declarou muito satisfeito com os
arranjos internos. Ele postou vários homens no parque, guardando
todos os caminhos de acesso à casa, e me tranquilizou de que se a
coisa toda não fosse um trote, nós seguramente agarraríamos meu
misterioso correspondente.
“Eu
estava com o Johnnie ao meu lado, e ele, eu e o inspetor fomos juntos
para a sala que chamamos de câmara do conselho. O inspetor trancou a
porta. Havia um grande relógio de parede ali, e quando os ponteiros
estavam se aproximando do doze, não me importo de confessar que
fiquei nervoso como um gato. Alguma coisa zumbiu, e o relógio
começou a bater. Eu agarrei o Johnnie. Tinha a sensação de que um
homem poderia cair do céu. A última badalada soou, e quando isso
aconteceu houve uma grande algazarra do lado de fora, grito e
correria. O inspetor levantou a janela com força, e um guarda chegou
correndo.
“Nós
o pegamos, senhor”, ele disse ofegante. “Estava se escondendo nos
arbustos. Trazia um equipamento completo de dopagem com ele.’’
Nós
corremos para o terraço onde dois policiais estavam segurando um
sujeito com aparência de malfeitor trajando roupas surradas que se
retorcia e virava em vão no esforço para se desvencilhar. Um dos
policiais estendeu um pacote aberto que eles tinham arrancado à
força de seu cativo. Ele continha um chumaço de algodão e um
frasco de clorofórmio. A visão disso fez meu sangue ferver. Havia
também uma nota, endereçada a mim. Eu a abri. Ela trazia as
seguintes palavras: ‘Devia ter pago. O resgate de seu filho agora
lhe custará 50 mil. Apesar de todas suas precauções, ele foi
sequestrado no dia 29 como eu havia dito.’
“Eu
soltei uma gargalhada, a gargalhada de alívio, mas enquanto o fazia
ouvi o ronco de um motor e um grito. Virei a cabeça. Era um carro
cinza baixo e comprido correndo numa velocidade furiosa pelo passeio
na direção da guarita sul. Fora o homem que o guiava que havia
gritado, mas não foi isso que me causou um choque de horror. Foi a
visão dos cabelos loiros de Johnnie. A criança estava no carro ao
lado dele.
“O
inspetor soltou uma imprecação: ‘A criança estava aqui não faz
um minuto’, ele gritou. Seus olhos passaram por todos nós. Nós
estávamos todos ali: eu, Tredwell, miss Collins. ‘Quando o viu
pela última vez, mr. Waverly?’
“Eu
tentei reconstruir o passado, procurando lembrar quando o policial
nos havia chamado, eu saíra correndo com o inspetor, esquecendo-me
completamente de Johnnie. — E aí veio um som que nos sobressaltou,
o soar de um relógio de igreja do povoado. Com uma exclamação, o
inspetor sacou seu relógio. Eram exatamente doze horas. Como se de
comum acordo, nós corremos até a câmara do conselho; o relógio
marcava meio-dia e dez. Alguém devia tê-lo alterado
deliberadamente, pois ele jamais havia adiantado nem atrasado. É um
relógio perfeito.”
Mr.
Waverly parou. Poirot sorriu e endireitou uma pequena esteira que o
pai aflito havia enviesado.
— Um
probleminha agradável, obscuro e encantador — murmurou Poirot. —
Eu o investigarei para vocês com prazer. Ele de fato foi planejado à
merveille.
Mrs.
Waverly olhou para ele com ar de censura.
— Mas
o meu garoto — ela choramingou.
Poirot
recompôs rapidamente seu rosto e parecia de novo a imagem de uma
sincera simpatia.
— Ele
está a salvo, madame, está ileso. Fique tranquila, esses canalhas
tomarão o maior cuidado com ele. Então ele não é a perua... não,
a galinha... dos ovos de ouro?
— Monsieur
Poirot, estou certa de que só resta uma coisa a ser feita: pagar. Eu
fui absolutamente contra no início... mas agora... os sentimentos de
uma mãe...
— Mas
nós interrompemos monsieur em sua história — exclamou
Poirot apressadamente.
— Imagino
que conheça muito bem o resto pelos jornais — disse mr. Waverly. —
Claro, o inspetor McNeil foi imediatamente ao telefone. Uma descrição
do carro e do homem circulou por toda parte, e no começo pareceu que
tudo daria certo. Um carro, conferindo com a descrição, levando um
homem e um garotinho, havia passado por vários povoados,
aparentemente a caminho de Londres. Em um lugar que eles haviam
parado, notaram que a criança estava chorando e obviamente com medo
de seu acompanhante. Quando o inspetor McNeil anunciou que o carro
havia sido parado e o homem e o menino detidos, eu quase passei mal
de alívio. Você sabe a continuação. O garoto não era Johnnie, e
o homem era um motorista fogoso, afeiçoado a crianças, que havia
apanhado uma criancinha brincando nas ruas de Edenswell, um povoado a
uns 24 quilômetros de nós, e estava gentilmente oferecendo-lhe um
passeio. Graças à presunção desastrada da polícia, todas as
pistas haviam desaparecido. Se eles não tivessem seguido
persistentemente o carro errado, poderiam ter encontrado o menino a
essa altura.
— Acalme-se,
monsieur. A polícia é uma força corajosa e inteligente. Seu
erro foi muito natural. E, no geral, foi um plano inteligente. Quanto
ao homem que eles apanharam nos jardins, ouvi que sua defesa
consistiu de uma negação persistente. Ele declarou que a nota e o
embrulho lhe foram dados para ser entregues em Waverly Court. O homem
que os deu para ele entregou-lhe uma nota de dez xelins e
prometeu-lhe outra se fossem entregues exatamente às dez para as
doze. Ele devia se aproximar da casa pelos jardins e bater na porta
lateral.
— Não
acredito em uma palavra disso — declarou mr. Waverly veementemente.
— É tudo uma enfiada de mentiras.
— En
vérité, é uma história rala — disse Poirot pensativamente.
— Mas até agora eles não a abalaram. Ouvi, também, que ele fez
uma certa acusação.
Seu
olhar interrogou mr. Waverly, que avermelhou de novo.
— O
sujeito teve a impertinência de fingir que reconhecia em Tredwell o
homem que lhe dera o pacote. “Só que o sujeito raspou o bigode”.
Tredwell, que nasceu na herdade!
Poirot
sorriu de leve com a indignação do velho cavalheiro rural.
— E,
no entanto, o senhor suspeita que um ocupante da casa colaborou no
sequestro.
— Sim,
mas não Tredwell.
— E
a senhora, madame? — perguntou Poirot, virando-se subitamente para
ela.
— Não
poderia ter sido Tredwell que deu a esse vagabundo a carta e o
embrulho, se é que alguém o fez, o que eu não acredito. Aquilo lhe
foi entregue às dez horas, ele disse. Às dez horas, Tredwell estava
com meu marido no salão de fumar.
— Conseguiu
ver o rosto do homem no carro, monsieur? Ele se parecia de alguma
forma com Tredwell?
— Ele
estava longe demais para eu ver seu rosto.
— Tredwell
tinha algum irmão?
— Ele
teve vários, mas eles estão todos mortos. O último foi morto na
guerra.
— Ainda
não tenho clareza sobre os terrenos de Waverly Court. O carro estava
seguindo para a guarita sul. Há outra entrada?
— Sim,
a que nós chamamos de guarita leste. Ela pode ser vista do outro
lado da casa.
— Me
parece estranho que ninguém tenha visto o carro entrando no terreno.
— Há
uma via pública cruzando a propriedade e dando acesso a uma
capelinha. Muitos carros passam por ela. O homem pode ter parado o
carro num lugar conveniente e corrido até a casa quando o alarme foi
dado e a atenção atraída para outro lado.
— A
menos que ele já estivesse dentro da casa — ruminou Poirot. —
Existe algum lugar onde ele possa ter se escondido?
— Bem,
nós certamente não demos uma busca completa na casa antes. Não
parecia ser necessário. Imagino que ele poderia ter se escondido em
algum lugar, mas quem o teria deixado entrar?
— Chegaremos
a isso mais tarde. Uma coisa de cada vez... sejamos metódicos. Não
há nenhum esconderijo especial na casa? Waverly Court é um lugar
antigo, e à vezes há “esconderijos de padre”, como são
chamados.
— Caramba,
há um esconderijo de padre. A entrada é por um dos painéis
no vestíbulo.
— Perto
da sala do conselho?
— No
lado de fora, ao lado da porta.
— Voilà!
— Mas
ninguém sabe da sua existência exceto minha esposa e eu.
— Tredwell?
— Bem...
ele poderia ter ouvido falar disso.
— Miss
Collins?
— Eu
nunca o mencionei para ela.
Poirot
refletiu por alguns instantes.
— Bem,
monsieur, a próxima coisa é eu ir a Waverly Court. Se eu
chegar esta tarde, isso lhes convém?
— Oh,
o quanto antes, por favor, monsieur Poirot! — exclamou mrs.
Waverly. — Leia isto mais uma vez.
Ela
enfiou em suas mãos a última missiva do inimigo que havia chegado
aos Waverly naquela manhã e que a enviara a toda pressa a Poirot. A
carta dava orientações claras e explícitas para o pagamento do
dinheiro, e terminava com uma ameaça de que o garoto pagaria com a
vida se houvesse alguma traição. Estava claro que o amor pelo
dinheiro se digladiava com o amor de mãe de mrs. Waverly, e que este
último estava pelo menos ganhando o dia.
Poirot
deteve mrs. Waverly por um minuto atrás de seu marido.
— Madame,
a verdade, por favor. Compartilha a confiança de seu marido no
mordomo, Tredwell?
— Não
tenho nada contra ele, monsieur Poirot. Não consigo ver como
ele pode ter se envolvido nisso, mas... bem eu nunca gostei dele...
nunca!
— Outra
coisa, madame, pode me dar o endereço da enfermeira da criança?
— Netherhall
Road, 149, Hammersmith. Não imagina...
— Eu
jamais imagino. Apenas emprego minhas pequenas células cinzentas. E,
às vezes, só às vezes, tenho uma ideia.
Poirot
voltou até onde eu estava depois que a porta se fechou.
— Então,
madame nunca gostou do mordomo. Interessante isso, hein, Hastings?
Recusei-me
a provocação. Poirot já havia me enganado tantas vezes que agora
eu vou com cautela. Há sempre uma pegadinha em algum lugar.
Após
completar um elaborado toalete ao ar livre, partimos para Netherhall
Road. Tivemos sorte de encontrar miss Jennie Withers em casa. Era uma
mulher de trinta e cinco anos, de feições agradáveis, competente e
altiva. Eu não pude acreditar que ela estivesse envolvida no caso.
Ela estava fortemente ressentida com a maneira como havia sido
demitida, mas admitiu que fora a culpada. Estava noiva para se casar
com um pintor e decorador que por acaso estava na vizinhança, e
saíra para se encontrar com ele. A coisa parecia bastante natural.
Eu não conseguia compreender Poirot muito bem. Todas as suas
perguntas me pareceram absolutamente irrelevantes. Elas giravam em
torno, sobretudo, da rotina diária de sua vida em Waverly Court.
Fiquei francamente entediado e contente quando Poirot resolveu
partir.
— Rapto
é um trabalho fácil, mon ami — ele observou, enquanto
parava um táxi na Hammersmith Road e ordenava-lhe que seguisse para
Waterloo.
— Esta
criança poderia ter sido raptada com a maior facilidade em qualquer
dia nos três últimos anos.
— Não
vejo em que isso nos faz avançar — observei friamente.
— Au
contraire, ela nos faz avançar enormemente, enormemente mesmo!
Se você precisa usar um alfinete de gravata, Hastings, ao menos que
seja no centro exato de sua gravata. Neste momento ele está pelo
menos alguns centímetros demais para a direita.
Waverly
Court era uma casa antiga excelente e fora restaurada recentemente
com bom gosto e cuidado. Mr. Waverly nos mostrou a sala do conselho,
o terraço, e todos os demais pontos associados ao caso. Por fim, a
pedido de Poirot, ele pressionou uma mola na parede, um painel
deslizou para o lado, e uma pequena passagem nos levou até o
esconderijo do padre.
— Está
vendo — disse Waverly. — Não há nada aqui.
O
minúsculo recinto estava completamente vazio, sem nem sequer a marca
de uma pegada no chão. Eu me juntei a Poirot onde ele estava curvado
examinando atentamente uma marca no canto.
— O
que você deduz disto, meu amigo?
Havia
quatro pegadas próximas umas das outras.
— Um
cachorro — gritei.
— Um
cachorro muito pequeno, Hastings.
— Um
lulu da Pomerânia.
— Menor
que um lulu.
— Um
griffon? — sugeri sem convicção.
Menor
até que um griffon. Uma espécie desconhecida do Kennel Club.
Olhei
para ele. Seu rosto estava iluminado de excitação e satisfação.
— Eu
estava certo — murmurou. — Sabia que estava certo. Venha,
Hastings.
Quando
saímos para o vestíbulo e o painel se fechou atrás de nós, uma
jovem dama saiu de uma porta mais distante da passagem. Mr. Waverly
fez as apresentações.
— Miss
Collins.
Miss
Collins tinha cerca de trinta anos, modos ágeis e alertas. Ela tinha
cabelos louros muito foscos. E usava pince-nez. A pedido de Poirot,
passamos para uma saleta matinal e ele a interrogou cuidadosamente
sobre os empregados, em particular sobre Tredwell. Ela admitiu não
gostar do mordomo.
— Ele
é muito intrometido — explicou.
Depois
eles entraram na questão da comida ingerida por mrs. Waverly na
noite do dia 28. Miss Collins declarou que havia compartido os mesmos
pratos no primeiro andar, em sua sala de estar, e não havia sentido
nenhum efeito pernicioso. Quando ela estava saindo, eu cutuquei
Poirot.
— O
cachorro — sussurrei.
— Ah,
sim, o cachorro! — ele deu um largo sorriso. — Existe algum
cachorro por aqui, madamoiselle?
— Há
dois cães de caça nos canis lá fora.
— Não.
Quero dizer um cãozinho, um cãozinho de estimação.
— Não...
nada assim.
Poirot
a dispensou. Depois, tocando a campainha, ele observou para mim:
— Ela
mente, essa madamoiselle Collins. Eu possivelmente também o
faria no lugar dela. Agora, o mordomo.
Tredwell
era um indivíduo digno. Ele contou sua história com perfeita
desenvoltura, e foi essencialmente igual à de mr. Waverly.
Ele
admitiu conhecer o segredo do esconderijo do padre.
Quando
finalmente se retirou, pomposo até o fim, eu encontrei os olhos
perplexos de Poirot.
— O
que deduz de tudo isso, Hastings?
— O
que você deduz? — eu me defendi.
— Como
você foi cauteloso. As células cinzentas nunca, nunca funcionarão
se você não as estimular. Ah, mas não vou provocá-lo! Vamos fazer
nossas deduções em conjunto. Que pontos nos chocaram por ser
especialmente difíceis?
— Tem
uma coisa que me choca — eu falei. — Por que o homem que
sequestrou a criança saiu pela guarita sul e não pela guarita leste
onde ninguém o veria?
— Este
é um ponto muito bom, Hastings, excelente. Vou igualá-lo com outro.
Por que advertir previamente os Waverly? Por que não raptar
simplesmente a criança e pedir um resgate?
— Porque
eles esperavam conseguir o dinheiro sem precisar agir.
— Seguramente
era bastante improvável que o dinheiro fosse pago ante uma mera
ameaça.
— Eles
também queriam concentrar a atenção nas doze horas, para que,
quando o vagabundo fosse apanhado, o outro pudesse sair do
esconderijo e fugir com a criança sem ser notado.
— Isso
não altera o fato de que eles estavam tornando uma coisa
perfeitamente fácil numa coisa difícil. Se não especificam a hora
ou a data, nada seria mais fácil do que esperar sua chance, e levar
a criança num carro um dia que ele tivesse saído com sua babá.
— Si...im
— admiti, sem estar convencido.
— Na
verdade, há uma encenação deliberada de farsa! Mas vamos abordar a
questão de outro ângulo. Tudo conflui para mostrar que havia um
cúmplice dentro da casa. Ponto número um, o envenenamento
misterioso de mrs. Waverly. Ponto número dois, a carta espetada no
travesseiro. Ponto número três, o adiantamento de dez minutos do
relógio... todos serviços internos. E um fato adicional que você
pode não ter notado. Não havia pó no esconderijo do padre. Ele
fora varrido com uma vassoura.
— Pois
bem, temos quatro pessoas na casa. Podemos excluir a enfermeira, pois
ela não poderia ter varrido o esconderijo do padre, embora pudesse
satisfazer aos três outros pontos. Quatro pessoas, mr. e mrs.
Waverly, Tredwell, o mordomo, e miss Collins. Tomemos primeiramente
miss Collins. Não temos muito contra ela, exceto que sabemos muito
pouco sobre ela, que é obviamente uma mulher jovem inteligente, e
que só está aqui há um ano.
— Ela
mentiu sobre o cachorro, você disse — eu o lembrei.
— Ah,
sim, o cachorro — Poirot deu um sorriso peculiar. — Passemos
agora a Tredwell. Há vários fatos suspeitos contra ele. Primeiro de
tudo, um vagabundo declara que foi Tredwell quem lhe deu o embrulho
no povoado.
— Mas
Tredwell pode apresentar um álibi sobre esse ponto.
— Mesmo
assim, ele poderia ter envenenado mrs. Waverly, espetado a nota no
travesseiro, adiantado o relógio, e varrido o esconderijo do padre.
Por outro lado, ele nasceu e cresceu no serviço dos Waverly. Parece
improvável no mais alto grau que fosse ser conivente com o rapto do
filho da casa. Isso não se encaixa no quadro!
— E
então?
— Devemos
proceder logicamente... por mais absurdo que possa parecer.
Consideraremos brevemente mrs. Waverly. Ela é rica, o dinheiro é
seu. Foi seu dinheiro que restaurou esta herdade arruinada. Não
faria sentido ela raptar seu filho e pagar o dinheiro a ela mesma. O
marido, não, está numa posição diferente. Ele tem uma esposa
rica. Não é a mesma coisa que ser ele próprio rico, aliás, tenho
uma pequena ideia de que a dama não gosta muito de dividir seu
dinheiro, exceto por um pretexto muito bom. Mas mr. Waverly, pode-se
notar de imediato, é um bon vivant.
— Impossível
— balbuciei.
— Absolutamente.
Quem demitiu os criados? Mr. Waverly. Ele pôde escrever os bilhetes,
drogar a esposa, adiantar os ponteiros do relógio, e estabelecer um
álibi para seu fiel serviçal Tredwell. Tredwell nunca gostou de
mrs. Waverly. Ele é devotado ao amo e está disposto a obedecer a
suas ordens implicitamente. Havia três pessoas envolvidas. Waverly,
Tredwell, e algum amigo de Tredwell. Este é o erro que a polícia
cometeu, eles não investigaram melhor o homem que dirigiu o carro
cinza com a criança errada. Ele era o terceiro homem. Ele pega a
criança num vilarejo próximo, um garoto de cabelos loiros. Entra
pela guarita leste e atravessa para a guarita sul no momento exato,
agitando a mão e gritando. Eles não conseguem ver nem o seu rosto
nem a placa do carro, e, portanto, não conseguem ver o rosto da
criança tampouco. Aí ele deixa uma pista falsa para Londres. Nesse
meio tempo, Tredwell fez sua parte arranjando para o embrulho e o
bilhete serem entregues por um cavalheiro de aspecto rude. Seu amo
pode oferecer um álibi no caso improvável de o homem reconhecê-lo,
a despeito do bigode falso que usou. Quanto a mr. Waverly, mal começa
o alvoroço e o inspetor sai apressado para fora, ele rapidamente
esconde a criança no esconderijo do padre, e o acompanha para fora.
Mais tarde no mesmo dia, despois que o inspetor foi embora e quando
miss Collins está fora do caminho, será muito fácil levá-la a
algum lugar seguro no seu próprio carro.
— Mas
e quanto ao cachorro? — perguntei. — E a mentira de miss Collins?
— Isto
foi uma brincadeirinha minha. Perguntei a ela se havia cachorros de
estimação na casa, e ela disse que não. Mas seguramente há
alguns, no quarto da criança! Percebe, mr. Waverly colocou alguns
brinquedos no esconderijo do padre para divertir e acalmar Johnnie.
— Monsieur
Poirot... — mr. Waverly entrou na sala — descobriu alguma
coisa? Tem alguma pista sobre para onde o menino foi levado?
Poirot
estendeu lhe um pedaço de papel. — Eis o endereço.
— Mas
é uma folha em branco.
— Porque
estou esperando que você o escreva para mim.
— O
que... — o rosto de mr. Waverly ficou púrpura.
— Eu
sei tudo, monsieur. Dou-lhe vinte e quatro horas para devolver
o menino. Sua engenhosidade fará jus à tarefa de explicar seu
reaparecimento. Caso contrário, mrs. Waverly será informada da
sequência exata dos fatos.
Mr.
Waverly desabou numa cadeira e enterrou o rosto nas mãos.
— Ele
está com minha velha ama, a dez milhas daqui. Está feliz e bem
cuidado.
— Não
tenho dúvida disso. Se não acreditasse que no fundo é um bom pai,
não estaria disposto a lhe dar uma nova chance.
— Um
escândalo...
— Exatamente.
Seu nome é antigo e honrado. Não o coloque em risco de novo. Boa
noite, mr. Waverly. E, a propósito, um pequeno conselho. Nunca se
esqueça de varrer os cantos!
Agatha Christie, em Três ratos cegos e outros contos

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