sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Anse

Terras duras para o homem. Muito duras. Doze quilômetros do suor de alguém, tirado da terra do Senhor, onde o mesmíssimo Senhor lhe disse para mourejar. Em parte alguma deste mundo pecador um homem honesto, trabalhador, pode tirar proveito. Os que lucram são os donos de negócios da cidade, que não suam, que vivem do suor alheio. Não os que trabalham duro, não os lavradores. Às vezes eu penso porque continuamos insistindo. É porque há uma recompensa para nós no alto, onde eles não podem levar seus automóveis e coisa que o valha. Ali, todos os homens são iguais, e Deus tomará dos que têm para dar aos que não têm.
Parece, no entanto, que teremos de esperar muito por isso. Não é direito que um homem obtenha recompensa por sua boa conduta depois de virar pó e de enterrar seus mortos. Rodamos o resto do dia e chegamos, ao cair da noite, na fazenda de Samson, e vemos, então, que a ponte também desapareceu na enxurrada. Nunca se viu o rio tão cheio e a chuva não parou de cair ainda. Os velhos daqui nunca viram coisa semelhante, nem ouviram falar, que se lembrem. Sou o eleito do Senhor, pois Ele castiga as pessoas a quem ama. Mas o diabo me leve se Ele não escolheu maneiras estranhas de demonstrar amor.
Mas agora posso mandar colocar os dentes. Será um conforto. Sem dúvida.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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