quinta-feira, 5 de março de 2026

Capítulo 15 – O Despertar (excerto)



Garota, acorde! Garota, volte para a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça. Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você sabe quem eu sou?
SARAH JAKES ROBERTS

[...]

Morte, vida adulta, responsabilidades. Todas as coisas que nunca estudei na faculdade e sobre as quais ninguém fala. E em meio a tudo isso, o trabalho e os testes aos poucos começaram a aparecer. Não há páginas ou capacidade de memória suficientes para explicar os testes. O produtor de elenco contratado liga para um agente de acordo com as necessidades do filme, do programa de TV ou da peça em questão. Caso você se encaixe na descrição, se tiver a visibilidade que o projeto requer e se a sua agência for poderosa o bastante, será chamado para um teste.
Naquela época, quase todos os papéis para os quais eu me encaixava eram de mães com alguma dependência química. Meu agente me enviava outros. Papéis de atriz negra descrita como “bonita” ou “atraente”. Eu usava maquiagem, arrumava meu cabelo e nunca conseguia os papéis, mesmo que os produtores fossem negros. Aceitava os trabalhos que me eram dados. Voltei à Trinity Rep e atuei em duas peças. Fui trabalhar no Guthrie Theater com a famosa diretora JoAnne Akalaitis em uma peça chamada The Rover, de Aphra Behn. Voltei à Trinity Rep para atuar em Um conto de Natal, de Dickens, e em Red Noses, de Peter Barnes. Foi durante Red Noses que recebi uma ligação do meu agente em Nova York a respeito de Seven Guitars, de August Wilson. O incrível Lloyd Richards ia dirigir. Fiquei muito animada. A peça seria exibida na Broadway, mas, antes seria desenvolvida no Goodman Theatre, em Chicago, na Huntington Theatre Company, em Boston, no A.C.T. (American Conservatory Theater), em São Francisco, e no Ahmanson Theatre, em Los Angeles. Estrearíamos um ano depois no Walter Kerr Theatre, em Nova York.
Estudei o roteiro à exaustão. A personagem era Vera. Ela tinha levado um fora do namorado, Floyd Barton, que, enquanto estava na cadeia, gravou uma canção que virou um sucesso. Agora ele estava saindo da prisão e me queria ao seu lado. Era uma linda cena de mágoa, dor, saudade, amor. Era eu. Não foi preciso muito para me conectar àquela parte de mim mesma. Estava bastante nervosa para o teste, mas ao mesmo tempo muito empolgada. Era algo importante. Peguei o trem para Nova York. Já tinha tudo memorizado. Na época, não decorava todas as falas da maioria dos testes de teatro porque as cenas tinham muitas páginas.
Uma audição de TV/cinema costumava ter uma página ou duas. Uma audição de teatro podia ter nove, dez ou mais. Quando eu recebia o roteiro de última hora, precisando estudar o personagem, a peça e o contexto, às vezes sobrava pouco tempo para decorar o texto. Mas aquela foi uma das raras ocasiões em que eu sabia as falas de cor. Desde o início, elas faziam parte de mim.
Lloyd Richards, o diretor, era um homem baixinho e calado. Ele tinha dirigido a produção original de O sol tornará a brilhar, com Sidney Poitier, Ruby Dee, Diana Sands e Glynn Turman. Eu queria muito aquele trabalho. Nunca fui uma atriz supercompetitiva, nem tinha coragem de admitir quando queria alguma coisa. Deixava a vida me levar. Ficava feliz em dizer simplesmente: “Oi! Isso, meu nome é Viola Davis e sou atriz.” Mas, naquele dia, eu queria o trabalho. E a produtora de elenco, Meg Simon, queria que eu conseguisse. Ela me vira entrar e sair de testes para muitos papéis ao longo dos anos, sem nunca conseguir nada. A audição começou e eu me sentia bem, mas não incrível. Era uma cena que terminava com um monólogo sobre como Vera estava raivosa por ter sido deixada e como Floyd lhe fazia falta. Começava com raiva e aos poucos se transformava nela se lembrando do quanto sentia falta dele, do seu toque.
Houve um silêncio.
Lloyd sorriu para mim e disse em tom suave:
Quero que você repita a cena. Desta vez, gostaria que pensasse que ela não quer lidar com esses sentimentos.
Ele estava me pedindo para segurar a emoção até que eu não pudesse mais, como naqueles momentos da vida em que você tenta comunicar um pensamento a uma pessoa querida e, de repente, uma grande onda de mágoa e vulnerabilidade emerge e a surpreende. Então repeti a cena. Foi um momento mágico. O momento que requer preparação, mas também sorte, destino, Deus. É ali que tudo se alinha. Terminei a cena e Lloyd disse:
Obrigado.
Peguei o trem de volta para Providence depois de falar com meu agente e anunciar: “Acho que fui muito bem.” Tenho a tendência de subestimar meu desempenho em testes. Às vezes, você acha que fez um ótimo teste, recebe um retorno ótimo, mas não consegue o papel. Ou descobre que foi bom, mas não excelente. Ou descobre que, aos olhos do produtor, do diretor, você foi simplesmente péssimo. É como disse Whoopi Goldberg: “Fui mal muitas vezes. Fui bem algumas vezes e fui ótima apenas de vez em quando.”
No dia seguinte, descobri que tinha conseguido o papel. Chorei. Só chorei duas vezes ao saber que tinha conseguido um papel. Mas caramba, caramba. Foi o primeiro trabalho realmente grande da minha carreira, e fiquei feliz demais.
Quando fui escalada para Seven Guitars, eu tinha entregado meu apartamento em Nova York. Nunca estava em casa. Estava sempre viajando. Esse é outro aspecto do ramo sobre o qual ninguém fala. Estar longe de casa ou não ter uma. É levar uma vida de nômade. A casa onde colocam você se torna seu lar até não ser mais.
A primeira parada em Chicago foi muito difícil. As temperaturas chegavam a três graus abaixo de zero. Passei minhas folgas no sofá com o aquecedor no máximo, mais um aquecedor portátil e um cobertor enorme por cima de mim. E eu ainda tremia. Trabalhando em Chicago, minhas alegrias eram a Michigan Avenue, ir ao supermercado, malhar durante o dia e atuar à noite. Eu estava feliz. Senti que estava crescendo e mudando de uma forma surpreendente. Eu me sentia independente e segura.
Seven Guitars teve uma temporada longa. Fomos da Chicago congelante para a Huntington Theatre Company, em Boston, que naquela época tinha problema com ratos. Dá para acreditar? Estávamos relaxando na área comum e um rato passava correndo! Caramba. O grande ator sul-africano Zakes Mokae entrou para o elenco — e na época não sabíamos, mas ele estava nos primeiros estágios do Alzheimer. Ele era um homem lindo, mas não conseguia lembrar as falas de seu personagem. A coisa ficou tão ruim em Boston que a produção posicionou quatro pessoas com o roteiro em vários pontos perto do palco, prontas para gritar as falas. E falo sério, gritar mesmo.
Até que ele passou a levar o roteiro para o palco… durante a apresentação… com a plateia presente. Foi uma situação cruel e difícil, que resume o dito popular de que “o show não pode parar”. Também ilustra o pensamento de que tudo pode acontecer em cena quando se está ao vivo no teatro. É uma preparação que desafia a compreensão. E as coisas só pioraram. Quando chegamos a São Francisco, Mokae tinha sido dispensado, o que foi de partir o coração. E um ator chamado Roger Robinson, que era maravilhoso, foi contratado.
Quando você está numa produção pré-Broadway, o roteiro vai sofrendo alterações. Ainda há mudanças no texto, ensaios. Quando estávamos no A.C.T., em São Francisco, a peça tinha quatro horas de duração e nos apresentávamos nove vezes por semana em vez de oito. Durante o dia, ensaiávamos por oito horas. Estávamos exaustos. Nesse tempo, aprendi a difícil lição do que significa ser um grande produtor. A energia e a saúde do ator devem ser a prioridade. Ninguém do elenco vinha dormindo o suficiente. Nós literalmente pegávamos no sono no palco. Dormi no set enquanto esperava para subir no palco durante um ensaio técnico. Acordei assustada, sem saber onde estava. Mas também havia momentos bons, especiais e inesquecíveis. Tommy Hollis, que já faleceu, interpretava o personagem de Red Carter na peça. Ele era um verdadeiro homem do campo. Eu o amava.
Passávamos horas conversando à noite. Falávamos sobre tudo. Reclamávamos do espetáculo. Conversávamos sobre os comentários das pessoas que tinham ido assistir. Falávamos dos medos, esperanças, sonhos. Ele me fazia sanduíches de pescoço de porco com molho picante. Isso mesmo. E eu comia. Ele deixava sanduíches de peru com farofa de pão de milho e calda de cranberry na minha porta. Anos mais tarde, depois do 11 de Setembro, tentei ligar para ele como sempre fazia, mas ninguém atendeu. Alguns dias depois, tentei ligar para todas as pessoas que conhecia em Nova York pedindo que alguém fosse ao apartamento dele. Enfim, Roger Robinson foi até lá. Ele disse que dava para sentir o cheiro do corpo de Tommy em decomposição quando chegou à porta. Foi preciso chamar o porteiro para abri-la. Tommy estava morto havia uma semana. Ele era uma alma linda e conflituosa. Fiquei arrasada.
Quando chegamos a Los Angeles para apresentar Seven Guitars estávamos em êxtase. Ai, meu Deus. Todo mundo foi ver o espetáculo — Halle Berry, Angela Bassett, todo mundo. O caminho até lá foi um saco. Mas quando saímos de Los Angeles e chegamos a Nova York, em um dia chuvoso no fim de março de 1996, tínhamos uma máquina em perfeito funcionamento. Muita coisa nesse ramo é anticlimática.
Não é tão glamoroso quanto as pessoas pensam, e é bem mais solitário. Mas, cara, Broadway? Faz jus a tudo o que se acredita que esse ramo pode ser. Satisfaz tanto a parte glamorosa quanto a profissional. Satisfaz a comunidade e a camaradagem. É um sonho. Mais que o Oscar. Mais que o Emmy. Cada um desses tem seu lado negativo. A Broadway é tudo o que se imagina; faz jus a cada pedacinho do sonho.
Houve momentos na minha vida que fizeram jus às expectativas, como adotar minha bebê — o amor que você tem por um filho (mesmo quando ele o enlouquece) é tudo, perfeição absoluta, na minha opinião. Tudo bem, esse é o número um. O número dois: me casar. Eu amei! Não tive nenhum estresse. Por isso fiz três cerimônias de casamento com meu marido. Cada uma delas está entre os dias mais perfeitos de toda a minha vida. Ganhar um Oscar, um prêmio da Screen Actors Guild — alguns momentos perfeitos. Mas estrear na Broadway, no dia 28 de março de 1996, certamente fez jus às expectativas. Foi perfeito. Foi tudo o que sonhei.
Quando era uma garotinha que sonhava em ser atriz, eu dizia: “Quero que as pessoas joguem flores para mim no palco.” Aquela noite de estreia de Seven Guitars na Broadway foi muito além de fantástica pra caralho. Foi como se alguém me desse uma grande injeção de adrenalina e da droga mais feliz do mundo. Há flores no camarim. Você ganha presentes. E então entra em cena! Nunca vou muito bem na noite de estreia na Broadway. Estou sempre nervosa demais. Mas não importa. Quando a peça estreia, os críticos já assistiram. E todas as críticas saem depois da noite de estreia.
Eu me lembro de estar muito nervosa devido à ansiedade por tudo que aquilo envolvia. Esperar pelas críticas e pela forma como a peça será recebida gera essa sensação. Principalmente quando você trabalhou no espetáculo por um ano, desenvolvendo-o, fazendo cortes, substituindo atores… etc. Seven Guitars era exatamente isso, sete personagens em harmonia. Vera chega ao seu monólogo final. Ela fala sobre uma visão que teve depois de enterrar Floyd “Schoolboy” Barton, o amor de sua vida: “(…) Tentei chamar o nome de Floyd, mas nada saía da minha boca. Parecia que ele havia começado a andar mais rápido. A única coisa que posso fazer aqui é dizer adeus. Acenei para ele e ele subiu aos céus.”
Um texto chocante e que eu sabia que afetaria meus pais, que acreditavam em mitos, espíritos e rituais. Era uma peça em que não apenas poderiam ver meu trabalho, mas que tinha uma escrita que era sobre ELES. Ao fim da noite de estreia de Seven Guitars na Broadway, quando estávamos todos no palco e as luzes se acenderam, câmeras de televisão focadas no meu rosto, todos usando smokings e vestidos de gala de pé gritando e aplaudindo estrondosamente, vi MaMama e papai. Meu pai estava chorando, aplaudindo, olhando para todo mundo, e eu sabia que seu coração batia forte no peito. Ele estava lindo, com um smoking preto; sempre conseguia se arrumar bem. Minha mãe batia palmas descontroladamente. Eu os hospedara em um hotel em frente ao teatro, e eles estavam muito felizes. Era um Best Western, mas para eles era como o Four Seasons. Ter minha família e amigos lá foi tudo com que eu sonhara.
A festa aconteceu no grande salão de festas no Marriott Marquis. Halle Berry, Laurence Fishburne e outros atores maravilhosos que sempre admirei estavam lá.
Todo mundo vai à Broadway. Havia um interfone em cada camarim. Após cada apresentação, o gerente de palco lá embaixo dizia pelo interfone: “Vanessa Redgrave está aqui para ver o elenco de Seven Guitars. Denzel e Pauletta Washington estão aqui para ver o elenco. Barbra Streisand está aqui para ver Viola Davis, Rosalyn Coleman, Ruben Santiago-Hudson, Michelle Shay, Tommy Hollis e Keith David.” Todo mundo vai se encontrar com você. Literalmente. Perdi a conta de com quantas pessoas falei — produtores, diretores, agentes — enquanto atuei em Seven Guitars.
Mas antes da noite de estreia, temos que botar a mão na massa. A recompensa do trabalho vem depois. Lloyd Richards era muito bom em organizar tudo, em transformar os atores numa companhia. Ele não se importava com quem tinha o nome anunciado na fachada, com quem era o ator principal; a atuação enquanto um negócio não lhe interessava. Ele acreditava que levava muito tempo para um elenco se tornar uma companhia de atores sincronizados. Somente no último ensaio em Nova York, quando nos reuniu no palco, foi que falou sobre sua experiência e como era incrível trabalhar conosco. Ele enfim nos olhou intensamente e disse, após uma longa pausa: “Agora vocês são uma companhia!” Lloyd representava os últimos vestígios da mentalidade vanguardista. Uma mentalidade que de fato se tornou rara.
Tudo foi merecido. Seven Guitars foi uma etapa significativa do meu crescimento como atriz. Fez diferença para então tomar a decisão de me tornar atriz, depois trabalhar para ser a melhor profissional possível, e enfim pôr à prova tudo o que eu aprendera. Também me ensinou muito sobre a vida. Não há palavras para descrever “a porta do palco”. É a porta do teatro por onde o ator sai depois da performance. Geralmente, as pessoas da plateia esperam ali para falar com você. Isso não acontece quando você faz televisão ou cinema.
Muitas vezes só encontramos os fãs ou críticos quando vamos ao supermercado ou ao shopping. No teatro, você fica cara a cara com eles toda noite. Aprendi sobre a generosidade de outros atores, o comprometimento e o apoio da comunidade. E também já conheci o outro lado. A crueldade e a inveja sem limites em um ramo de muita corrupção. A inveja é a mais cruel das emoções. E o que a torna tão cruel é a falta de domínio.
Apesar do lado bom e do ruim, fui indicada para os prêmios Tony. Eu assistia à premiação todo ano. Corria para a escola no dia seguinte e perguntava a todo mundo: “Você assistiu à cerimônia do Tony ontem à noite?” Mas quase sempre ficava sozinha nessa; geralmente só eu e meu amigo do ensino médio, Angelo, é que víamos. Bem, lá estava eu recebendo uma indicação para um Tony. Fiquei sabendo ao conferir a caixa postal do meu telefone. Isso foi na época em que precisávamos pagar para ouvir nossas mensagens. Custava uns seis ou dez dólares por mês. Podíamos ligar de qualquer número a qualquer hora e ouvir nossas mensagens. Na manhã das indicações do Tony, fui a Rhode Island relaxar. Mais tarde, chequei minhas mensagens e havia uma do meu agente, Mark Schlegel, pedindo que eu ligasse de volta. Quando liguei, ele disse:
Viola. Você foi indicada ao Tony!
Eu vibrei. Estava em um telefone público. Vibrei! Peguei um ônibus até a casa dos meus pais e entrei gritando:
FUI INDICADA PARA O TONY!
Meus pais e minhas sobrinhas começaram a gritar:
Uhuuu, tia!
Eles não sabiam o que aquilo significava, mas estavam felizes por mim. Pularam ao meu redor. Em um mundo e em um ramo em que as amizades se transformam, mudam, em que confiança, amor e lealdade são efêmeros, essa lembrança se destaca como uma pérola.
Mark, meu agente, me disse:
Viola, você tem pais incríveis.
Essa afirmação me chocou.
Tenho?
Tem, sim — confirmou ele. — Eles são incríveis.
Perguntei por que ele estava dizendo isso.
Estou neste ramo há algum tempo e já vi muitos pais de atores. Eles acabam se importando mais com eles mesmos do que com os filhos. Seus pais não são assim nem de longe. Eles só querem te ver voar. Estão felizes por você.
Foi uma semente plantada que me fez olhar para os meus pais sob uma luz totalmente diferente. Essa observação me acordou.
[…]

Viola Davis, in Em Busca de Mim

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