Garota, acorde! Garota, volte para
a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como
se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça.
Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você
sabe quem eu sou?
— SARAH JAKES ROBERTS
[...]
Morte, vida adulta, responsabilidades.
Todas as coisas que nunca estudei na faculdade e sobre as quais
ninguém fala. E em meio a tudo isso, o trabalho e os testes aos
poucos começaram a aparecer. Não há páginas ou capacidade de
memória suficientes para explicar os testes. O produtor de elenco
contratado liga para um agente de acordo com as necessidades do
filme, do programa de TV ou da peça em questão. Caso você se
encaixe na descrição, se tiver a visibilidade que o projeto requer
e se a sua agência for poderosa o bastante, será chamado para um
teste.
Naquela época, quase todos os papéis
para os quais eu me encaixava eram de mães com alguma dependência
química. Meu agente me enviava outros. Papéis de atriz negra
descrita como “bonita” ou “atraente”. Eu usava maquiagem,
arrumava meu cabelo e nunca conseguia os papéis, mesmo que os
produtores fossem negros. Aceitava os trabalhos que me eram dados.
Voltei à Trinity Rep e atuei em duas peças. Fui trabalhar no
Guthrie Theater com a famosa diretora JoAnne Akalaitis em uma peça
chamada The Rover, de Aphra Behn. Voltei à Trinity Rep para
atuar em Um conto de Natal, de Dickens, e em Red Noses,
de Peter Barnes. Foi durante Red Noses que recebi uma ligação
do meu agente em Nova York a respeito de Seven Guitars, de
August Wilson. O incrível Lloyd Richards ia dirigir. Fiquei muito
animada. A peça seria exibida na Broadway, mas, antes seria
desenvolvida no Goodman Theatre, em Chicago, na Huntington Theatre
Company, em Boston, no A.C.T. (American Conservatory Theater), em São
Francisco, e no Ahmanson Theatre, em Los Angeles. Estrearíamos um
ano depois no Walter Kerr Theatre, em Nova York.
Estudei o roteiro à exaustão. A
personagem era Vera. Ela tinha levado um fora do namorado, Floyd
Barton, que, enquanto estava na cadeia, gravou uma canção que virou
um sucesso. Agora ele estava saindo da prisão e me queria ao seu
lado. Era uma linda cena de mágoa, dor, saudade, amor. Era eu. Não
foi preciso muito para me conectar àquela parte de mim mesma. Estava
bastante nervosa para o teste, mas ao mesmo tempo muito empolgada.
Era algo importante. Peguei o trem para Nova York. Já tinha tudo
memorizado. Na época, não decorava todas as falas da maioria dos
testes de teatro porque as cenas tinham muitas páginas.
Uma audição de TV/cinema costumava
ter uma página ou duas. Uma audição de teatro podia ter nove, dez
ou mais. Quando eu recebia o roteiro de última hora, precisando
estudar o personagem, a peça e o contexto, às vezes sobrava pouco
tempo para decorar o texto. Mas aquela foi uma das raras ocasiões em
que eu sabia as falas de cor. Desde o início, elas faziam parte de
mim.
Lloyd Richards, o diretor, era um
homem baixinho e calado. Ele tinha dirigido a produção original de
O sol tornará a brilhar, com Sidney Poitier, Ruby Dee, Diana
Sands e Glynn Turman. Eu queria muito aquele trabalho. Nunca fui uma
atriz supercompetitiva, nem tinha coragem de admitir quando queria
alguma coisa. Deixava a vida me levar. Ficava feliz em dizer
simplesmente: “Oi! Isso, meu nome é Viola Davis e sou atriz.”
Mas, naquele dia, eu queria o trabalho. E a produtora de elenco, Meg
Simon, queria que eu conseguisse. Ela me vira entrar e sair de testes
para muitos papéis ao longo dos anos, sem nunca conseguir nada. A
audição começou e eu me sentia bem, mas não incrível. Era uma
cena que terminava com um monólogo sobre como Vera estava raivosa
por ter sido deixada e como Floyd lhe fazia falta. Começava com
raiva e aos poucos se transformava nela se lembrando do quanto sentia
falta dele, do seu toque.
Houve um silêncio.
Lloyd sorriu para mim e disse em tom
suave:
— Quero que você repita a cena.
Desta vez, gostaria que pensasse que ela não quer lidar com esses
sentimentos.
Ele estava me pedindo para segurar a
emoção até que eu não pudesse mais, como naqueles momentos da
vida em que você tenta comunicar um pensamento a uma pessoa querida
e, de repente, uma grande onda de mágoa e vulnerabilidade emerge e a
surpreende. Então repeti a cena. Foi um momento mágico. O momento
que requer preparação, mas também sorte, destino, Deus. É ali que
tudo se alinha. Terminei a cena e Lloyd disse:
— Obrigado.
Peguei o trem de volta para Providence
depois de falar com meu agente e anunciar: “Acho que fui muito
bem.” Tenho a tendência de subestimar meu desempenho em testes. Às
vezes, você acha que fez um ótimo teste, recebe um retorno ótimo,
mas não consegue o papel. Ou descobre que foi bom, mas não
excelente. Ou descobre que, aos olhos do produtor, do diretor, você
foi simplesmente péssimo. É como disse Whoopi Goldberg: “Fui mal
muitas vezes. Fui bem algumas vezes e fui ótima apenas de vez em
quando.”
No dia seguinte, descobri que tinha
conseguido o papel. Chorei. Só chorei duas vezes ao saber que tinha
conseguido um papel. Mas caramba, caramba. Foi o primeiro trabalho
realmente grande da minha carreira, e fiquei feliz demais.
Quando fui escalada para Seven
Guitars, eu tinha entregado meu apartamento em Nova York. Nunca
estava em casa. Estava sempre viajando. Esse é outro aspecto do ramo
sobre o qual ninguém fala. Estar longe de casa ou não ter uma. É
levar uma vida de nômade. A casa onde colocam você se torna seu lar
até não ser mais.
A primeira parada em Chicago foi muito
difícil. As temperaturas chegavam a três graus abaixo de zero.
Passei minhas folgas no sofá com o aquecedor no máximo, mais um
aquecedor portátil e um cobertor enorme por cima de mim. E eu ainda
tremia. Trabalhando em Chicago, minhas alegrias eram a Michigan
Avenue, ir ao supermercado, malhar durante o dia e atuar à noite. Eu
estava feliz. Senti que estava crescendo e mudando de uma forma
surpreendente. Eu me sentia independente e segura.
Seven Guitars teve uma
temporada longa. Fomos da Chicago congelante para a Huntington
Theatre Company, em Boston, que naquela época tinha problema com
ratos. Dá para acreditar? Estávamos relaxando na área comum e um
rato passava correndo! Caramba. O grande ator sul-africano Zakes
Mokae entrou para o elenco — e na época não sabíamos, mas ele
estava nos primeiros estágios do Alzheimer. Ele era um homem lindo,
mas não conseguia lembrar as falas de seu personagem. A coisa ficou
tão ruim em Boston que a produção posicionou quatro pessoas com o
roteiro em vários pontos perto do palco, prontas para gritar as
falas. E falo sério, gritar mesmo.
Até que ele passou a levar o roteiro
para o palco… durante a apresentação… com a plateia presente.
Foi uma situação cruel e difícil, que resume o dito popular de que
“o show não pode parar”. Também ilustra o pensamento de que
tudo pode acontecer em cena quando se está ao vivo no teatro. É uma
preparação que desafia a compreensão. E as coisas só pioraram.
Quando chegamos a São Francisco, Mokae tinha sido dispensado, o que
foi de partir o coração. E um ator chamado Roger Robinson, que era
maravilhoso, foi contratado.
Quando você está numa produção
pré-Broadway, o roteiro vai sofrendo alterações. Ainda há
mudanças no texto, ensaios. Quando estávamos no A.C.T., em São
Francisco, a peça tinha quatro horas de duração e nos
apresentávamos nove vezes por semana em vez de oito. Durante o dia,
ensaiávamos por oito horas. Estávamos exaustos. Nesse tempo,
aprendi a difícil lição do que significa ser um grande produtor. A
energia e a saúde do ator devem ser a prioridade. Ninguém do elenco
vinha dormindo o suficiente. Nós literalmente pegávamos no sono no
palco. Dormi no set enquanto esperava para subir no palco durante um
ensaio técnico. Acordei assustada, sem saber onde estava. Mas também
havia momentos bons, especiais e inesquecíveis. Tommy Hollis, que já
faleceu, interpretava o personagem de Red Carter na peça. Ele era um
verdadeiro homem do campo. Eu o amava.
Passávamos horas conversando à
noite. Falávamos sobre tudo. Reclamávamos do espetáculo.
Conversávamos sobre os comentários das pessoas que tinham ido
assistir. Falávamos dos medos, esperanças, sonhos. Ele me fazia
sanduíches de pescoço de porco com molho picante. Isso mesmo. E eu
comia. Ele deixava sanduíches de peru com farofa de pão de milho e
calda de cranberry na minha porta. Anos mais tarde, depois do 11 de
Setembro, tentei ligar para ele como sempre fazia, mas ninguém
atendeu. Alguns dias depois, tentei ligar para todas as pessoas que
conhecia em Nova York pedindo que alguém fosse ao apartamento dele.
Enfim, Roger Robinson foi até lá. Ele disse que dava para sentir o
cheiro do corpo de Tommy em decomposição quando chegou à porta.
Foi preciso chamar o porteiro para abri-la. Tommy estava morto havia
uma semana. Ele era uma alma linda e conflituosa. Fiquei arrasada.
Quando chegamos a Los Angeles para
apresentar Seven Guitars estávamos em êxtase. Ai, meu Deus.
Todo mundo foi ver o espetáculo — Halle Berry, Angela Bassett,
todo mundo. O caminho até lá foi um saco. Mas quando saímos de Los
Angeles e chegamos a Nova York, em um dia chuvoso no fim de março de
1996, tínhamos uma máquina em perfeito funcionamento. Muita coisa
nesse ramo é anticlimática.
Não é tão glamoroso quanto as
pessoas pensam, e é bem mais solitário. Mas, cara, Broadway? Faz
jus a tudo o que se acredita que esse ramo pode ser. Satisfaz tanto a
parte glamorosa quanto a profissional. Satisfaz a comunidade e a
camaradagem. É um sonho. Mais que o Oscar. Mais que o Emmy. Cada um
desses tem seu lado negativo. A Broadway é tudo o que se imagina;
faz jus a cada pedacinho do sonho.
Houve momentos na minha vida que
fizeram jus às expectativas, como adotar minha bebê — o amor que
você tem por um filho (mesmo quando ele o enlouquece) é tudo,
perfeição absoluta, na minha opinião. Tudo bem, esse é o número
um. O número dois: me casar. Eu amei! Não tive nenhum estresse. Por
isso fiz três cerimônias de casamento com meu marido. Cada uma
delas está entre os dias mais perfeitos de toda a minha vida. Ganhar
um Oscar, um prêmio da Screen Actors Guild — alguns momentos
perfeitos. Mas estrear na Broadway, no dia 28 de março de 1996,
certamente fez jus às expectativas. Foi perfeito. Foi tudo o que
sonhei.
Quando era uma garotinha que sonhava
em ser atriz, eu dizia: “Quero que as pessoas joguem flores para
mim no palco.” Aquela noite de estreia de Seven Guitars na
Broadway foi muito além de fantástica pra caralho. Foi como se
alguém me desse uma grande injeção de adrenalina e da droga mais
feliz do mundo. Há flores no camarim. Você ganha presentes. E então
entra em cena! Nunca vou muito bem na noite de estreia na Broadway.
Estou sempre nervosa demais. Mas não importa. Quando a peça
estreia, os críticos já assistiram. E todas as críticas saem
depois da noite de estreia.
Eu me lembro de estar muito nervosa
devido à ansiedade por tudo que aquilo envolvia. Esperar pelas
críticas e pela forma como a peça será recebida gera essa
sensação. Principalmente quando você trabalhou no espetáculo por
um ano, desenvolvendo-o, fazendo cortes, substituindo atores… etc.
Seven Guitars era exatamente isso, sete personagens em
harmonia. Vera chega ao seu monólogo final. Ela fala sobre uma visão
que teve depois de enterrar Floyd “Schoolboy” Barton, o amor de
sua vida: “(…) Tentei chamar o nome de Floyd, mas nada saía da
minha boca. Parecia que ele havia começado a andar mais rápido. A
única coisa que posso fazer aqui é dizer adeus. Acenei para ele e
ele subiu aos céus.”
Um texto chocante e que eu sabia que
afetaria meus pais, que acreditavam em mitos, espíritos e rituais.
Era uma peça em que não apenas poderiam ver meu trabalho, mas que
tinha uma escrita que era sobre ELES. Ao fim da noite de estreia de
Seven Guitars na Broadway, quando estávamos todos no palco e
as luzes se acenderam, câmeras de televisão focadas no meu rosto,
todos usando smokings e vestidos de gala de pé gritando e aplaudindo
estrondosamente, vi MaMama e papai. Meu pai estava chorando,
aplaudindo, olhando para todo mundo, e eu sabia que seu coração
batia forte no peito. Ele estava lindo, com um smoking preto; sempre
conseguia se arrumar bem. Minha mãe batia palmas descontroladamente.
Eu os hospedara em um hotel em frente ao teatro, e eles estavam muito
felizes. Era um Best Western, mas para eles era como o Four Seasons.
Ter minha família e amigos lá foi tudo com que eu sonhara.
A festa aconteceu no grande salão de
festas no Marriott Marquis. Halle Berry, Laurence Fishburne e outros
atores maravilhosos que sempre admirei estavam lá.
Todo mundo vai à Broadway. Havia um
interfone em cada camarim. Após cada apresentação, o gerente de
palco lá embaixo dizia pelo interfone: “Vanessa Redgrave está
aqui para ver o elenco de Seven Guitars. Denzel e Pauletta
Washington estão aqui para ver o elenco. Barbra Streisand está aqui
para ver Viola Davis, Rosalyn Coleman, Ruben Santiago-Hudson,
Michelle Shay, Tommy Hollis e Keith David.” Todo mundo vai se
encontrar com você. Literalmente. Perdi a conta de com quantas
pessoas falei — produtores, diretores, agentes — enquanto atuei
em Seven Guitars.
Mas antes da noite de estreia, temos
que botar a mão na massa. A recompensa do trabalho vem depois. Lloyd
Richards era muito bom em organizar tudo, em transformar os atores
numa companhia. Ele não se importava com quem tinha o nome anunciado
na fachada, com quem era o ator principal; a atuação enquanto um
negócio não lhe interessava. Ele acreditava que levava muito tempo
para um elenco se tornar uma companhia de atores sincronizados.
Somente no último ensaio em Nova York, quando nos reuniu no palco,
foi que falou sobre sua experiência e como era incrível trabalhar
conosco. Ele enfim nos olhou intensamente e disse, após uma longa
pausa: “Agora vocês são uma companhia!” Lloyd representava os
últimos vestígios da mentalidade vanguardista. Uma mentalidade que
de fato se tornou rara.
Tudo foi merecido. Seven Guitars
foi uma etapa significativa do meu crescimento como atriz. Fez
diferença para então tomar a decisão de me tornar atriz, depois
trabalhar para ser a melhor profissional possível, e enfim pôr à
prova tudo o que eu aprendera. Também me ensinou muito sobre a vida.
Não há palavras para descrever “a porta do palco”. É a porta
do teatro por onde o ator sai depois da performance. Geralmente, as
pessoas da plateia esperam ali para falar com você. Isso não
acontece quando você faz televisão ou cinema.
Muitas vezes só encontramos os fãs
ou críticos quando vamos ao supermercado ou ao shopping. No teatro,
você fica cara a cara com eles toda noite. Aprendi sobre a
generosidade de outros atores, o comprometimento e o apoio da
comunidade. E também já conheci o outro lado. A crueldade e a
inveja sem limites em um ramo de muita corrupção. A inveja é a
mais cruel das emoções. E o que a torna tão cruel é a falta de
domínio.
Apesar do lado bom e do ruim, fui
indicada para os prêmios Tony. Eu assistia à premiação todo ano.
Corria para a escola no dia seguinte e perguntava a todo mundo: “Você
assistiu à cerimônia do Tony ontem à noite?” Mas quase sempre
ficava sozinha nessa; geralmente só eu e meu amigo do ensino médio,
Angelo, é que víamos. Bem, lá estava eu recebendo uma indicação
para um Tony. Fiquei sabendo ao conferir a caixa postal do meu
telefone. Isso foi na época em que precisávamos pagar para ouvir
nossas mensagens. Custava uns seis ou dez dólares por mês. Podíamos
ligar de qualquer número a qualquer hora e ouvir nossas mensagens.
Na manhã das indicações do Tony, fui a Rhode Island relaxar. Mais
tarde, chequei minhas mensagens e havia uma do meu agente, Mark
Schlegel, pedindo que eu ligasse de volta. Quando liguei, ele disse:
— Viola. Você foi indicada ao Tony!
Eu vibrei. Estava em um telefone
público. Vibrei! Peguei um ônibus até a casa dos meus pais e
entrei gritando:
— FUI INDICADA PARA O TONY!
Meus pais e minhas sobrinhas começaram
a gritar:
— Uhuuu, tia!
Eles não sabiam o que aquilo
significava, mas estavam felizes por mim. Pularam ao meu redor. Em um
mundo e em um ramo em que as amizades se transformam, mudam, em que
confiança, amor e lealdade são efêmeros, essa lembrança se
destaca como uma pérola.
Mark, meu agente, me disse:
— Viola, você tem pais incríveis.
Essa afirmação me chocou.
— Tenho?
— Tem, sim — confirmou ele. —
Eles são incríveis.
Perguntei por que ele estava dizendo
isso.
— Estou neste ramo há algum tempo e
já vi muitos pais de atores. Eles acabam se importando mais com eles
mesmos do que com os filhos. Seus pais não são assim nem de longe.
Eles só querem te ver voar. Estão felizes por você.
Foi uma semente plantada que me fez
olhar para os meus pais sob uma luz totalmente diferente. Essa
observação me acordou.
[…]
Viola Davis, in Em Busca de Mim

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