85.
Reparando, às vezes, no trabalho
literário abundante ou, pelo menos, feito de coisas extensas e
completas de tantas criaturas que ou conheço ou de quem sei, sinto
em mim uma inveja incerta, uma admiração desprezante, um misto
incoerente de sentimentos mistos.
Fazer qualquer coisa completa,
inteira, seja boa ou seja má — e, se nunca é inteiramente boa,
muitas vezes não é inteiramente má —, sim, fazer uma coisa
completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer
sentimento. E como um filho: é imperfeita como todo o ente humano,
mas é nossa como os filhos são.
E eu, cujo espírito de crítica
própria me não permite senão que veja os defeitos, as falhas, eu,
que não ouso escrever mais que trechos, bocados, excertos do
inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito também.
Mais valera, pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o
caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma
que se reconhece incapaz de agir.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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