terça-feira, 27 de maio de 2025

História de família

Nunca quis saber a história da minha família. Meu pai chegou ao Brasil no início do século XX, com 20 e poucos anos. E isto é tudo que sei. Por que veio, não sei. Nunca tive curiosidade para perguntar. Ou talvez tenha tido essa curiosidade tarde demais, papai morreu cedo demais, eu jovem demais quando assumi a vida dele, o trabalho na relojoaria, único jeito de ganhar a vida. Quando percebi já era ele. Meu pai morreu aos 45 e eu com 19, filho único, precisava trabalhar para sustentar minha mãe e no ano seguinte, já casado, também Ana. Trabalhar era debruçar em relógios, encomendar peças, pagar o aluguel da lojinha, sair da Tijuca às seis e meia da manhã, pegar dois bondes e chegar à relojoaria na Senhor dos Passos às oito em ponto. Sempre vivi preso ao relógio. Todos os dias, menos sábados e domingos.
Assumir a vida dele era sorrir timidamente para a clientela, usar ternos escuros, caminhar de cabeça baixa. Eu fiz tudo isso, foi tudo tão natural. Com 19 anos eu era papai, a vida inteira pela frente não queria dizer mais nada. Meu destino traçado desde então. E cumprido.
Minha mãe falava que ser relojoeiro era um excelente negócio. Relógios serão relógios para sempre, e graças a Deus sempre estragam, e também graças a Ele as pessoas sempre têm carinho por relógios e não compram outro, querem consertá-los. “E se comprarem, que seja conosco”, ela falava, sorrindo, mas séria, educativa. E a melhor coisa, mamãe me disse, cochichando: “Relógios são fáceis de consertar, qualquer um, até você, pode ganhar a vida assim.”
Mamãe estava certa. Consertar relógios sempre foi fácil. É um dos mecanismos de mais simples engenharia. Uma criança mais espertinha de 8 anos poderia fazer o serviço, eu com 19, 78, ao me aposentar. Geralmente os problemas se resumem a uma peça que esgarça ou que se solta pelo contato brusco do relógio com alguma superfície, ou à bateria que finda. Com as ferramentas certas, encomendando peças novas, sorrindo e prometendo consertar o estimado relógio que está na família há tanto tempo, o precioso presente do pai, marido, esposa, era possível ganhar a vida sem muito suor. Desde que também se vendam uns relógios novos e caros de vez em quando.
Talvez eu tenha um talento que sempre me facilitou o labor, talvez não. Mas passei quase 60 anos consertando relógios e nunca falhei. Poucas vezes aconselhei que o dono desistisse, mas eram casos de relógios vagabundos, em que a peça nova sairia mais cara que um novo. Minha sinceridade e competência me mantiveram no negócio até hoje-ontem, numa época em que quase ninguém manda consertar relógios. Quando me aposentei e entreguei a lojinha alugada, o mundo já aposentara a minha profissão, a profissão do meu pai.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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