Nunca
quis saber a história da minha família. Meu pai chegou ao Brasil no
início do século XX, com 20 e poucos anos. E isto é tudo que sei.
Por que veio, não sei. Nunca tive curiosidade para perguntar. Ou
talvez tenha tido essa curiosidade tarde demais, papai morreu cedo
demais, eu jovem demais quando assumi a vida dele, o trabalho na
relojoaria, único jeito de ganhar a vida. Quando percebi já era
ele. Meu pai morreu aos 45 e eu com 19, filho único, precisava
trabalhar para sustentar minha mãe e no ano seguinte, já casado,
também Ana. Trabalhar era debruçar em relógios, encomendar peças,
pagar o aluguel da lojinha, sair da Tijuca às seis e meia da manhã,
pegar dois bondes e chegar à relojoaria na Senhor dos Passos às
oito em ponto. Sempre vivi preso ao relógio. Todos os dias, menos
sábados e domingos.
Assumir
a vida dele era sorrir timidamente para a clientela, usar ternos
escuros, caminhar de cabeça baixa. Eu fiz tudo isso, foi tudo tão
natural. Com 19 anos eu era papai, a vida inteira pela frente não
queria dizer mais nada. Meu destino traçado desde então. E
cumprido.
Minha
mãe falava que ser relojoeiro era um excelente negócio. Relógios
serão relógios para sempre, e graças a Deus sempre estragam, e
também graças a Ele as pessoas sempre têm carinho por relógios e
não compram outro, querem consertá-los. “E se comprarem, que seja
conosco”, ela falava, sorrindo, mas séria, educativa. E a melhor
coisa, mamãe me disse, cochichando: “Relógios são fáceis de
consertar, qualquer um, até você, pode ganhar a vida assim.”
Mamãe
estava certa. Consertar relógios sempre foi fácil. É um dos
mecanismos de mais simples engenharia. Uma criança mais espertinha
de 8 anos poderia fazer o serviço, eu com 19, 78, ao me aposentar.
Geralmente os problemas se resumem a uma peça que esgarça ou que se
solta pelo contato brusco do relógio com alguma superfície, ou à
bateria que finda. Com as ferramentas certas, encomendando peças
novas, sorrindo e prometendo consertar o estimado relógio que está
na família há tanto tempo, o precioso presente do pai, marido,
esposa, era possível ganhar a vida sem muito suor. Desde que também
se vendam uns relógios novos e caros de vez em quando.
Talvez
eu tenha um talento que sempre me facilitou o labor, talvez não. Mas
passei quase 60 anos consertando relógios e nunca falhei. Poucas
vezes aconselhei que o dono desistisse, mas eram casos de relógios
vagabundos, em que a peça nova sairia mais cara que um novo. Minha
sinceridade e competência me mantiveram no negócio até hoje-ontem,
numa época em que quase ninguém manda consertar relógios. Quando
me aposentei e entreguei a lojinha alugada, o mundo já aposentara a
minha profissão, a profissão do meu pai.
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém
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