segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O jantar


O jantar em cinco minutos sou eu e minha mãe numa mesa de quatro lugares, grande demais, frente a frente. Os lugares vazios são Nicolas, em São Paulo, e meu pai, no céu, no paraíso, reencarnado ou no cemitério, dependendo da perspectiva. “O que você tem, Marquinhos?”, minha mãe, eu olhando para a minha mão direita, envergonhado, a certeza do gozo que não veio entre os dedos, um prazer, desejo, que ainda não compreendo, ou finjo não compreender, e meu corpo talvez compreenda, o pau duro, ou finja não compreender, o gozo negado. “O que houve, Marquinhos?” Respondo que nada, esquecendo a mão, erguendo o prato para minha mãe me servir, ela ainda me serve, mas com ela nunca pode ser nada, para dona Marlene alguma coisa é sempre alguma coisa, e o silêncio dos outros, então, um pesadelo, e ela: “É seu pai, não é?” E voltamos ao assunto de todos os dias, o assunto que ela não me deixa esquecer; digo que não é nada, depois, pensando melhor, falo que estava pensando na aula do bar mitzvah, e ao receber o prato de volta, cheio, “Você precisa se alimentar bem, meu filho”, minha mãe pergunta se pode contar uma história, e sorri, forçado, melancólica, mas sorri. Aceno com a cabeça que sim, mas nem precisava, a pergunta retórica, a história iniciada, o tom didático de minha mãe quando conta uma história que esconde uma moral: “Quando fiz meu bat mitzvah...” e desligo, cabeça no meu Jesus gay de olhos azuis, e escuto palavras: “Sua avó, seu pai, comunidade judaica da Tijuca, vestido...”, mas só penso nele, nos seus olhos, na sua bunda, e meu pau endurece novamente, ele compreende, sim, e sorrio mastigando o frango, e minha mãe me vê sorrindo e diz: “Sente saudade do seu pai, né?”, e a vontade é responder que não, sinto raiva, sinto raiva de você também, meus olhos mostram, a sobrancelha arqueada, eu com o pau duro, começando a me entender e a ter medo e ela lembrando do meu pai, e meu pai é só a imagem de um homem calvo caído no chão, raquete na mão, morrendo, morto, e eu gritando, para ele, por ele, por alguém, por socorro, e ele apagado na quadra, mas meu pai tem de novo os olhos abertos, segundos antes, e grita: “Bate como homem, porra!”, e vira o rosto, quica a bola duas, três vezes e saca forte, tenho raiva, toda ela reunida na empunhadura da raquete, e respondo o saque com força, ódio, “Como homem, porra!”, aliso sem perceber meu pau ainda duro por debaixo da mesa, testo a empunhadura, e com a mesma força que rebati aquele saque aperto meu pau, e escuto o som metálico da bola se prendendo na grade, e quando olho para a quadra é meu pai no chão, morrendo, e quando tudo acaba é meu pai no chão, morto, e eu desperto por outra pergunta de minha mãe: “Tudo bem, Marquinhos?”, eu de novo olhando para a minha mão direita.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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