“Você demorou.” Minha mãe.
“Estava preocupada.” Minha mãe. “Você sabe que fico
preocupada quando demora.” Minha mãe. “Por que demorou?” Minha
mãe. “Voltei a pé, mãe.” “A pé? Mas é muito longe! E o
dinheiro que te dei para voltar de metrô?” “Esqueci”, minto.
Podia mentir muito mais, sempre menti para ela, vivo mentindo, conto
com a ajuda dos outros para mentir, senão seria impossível. Desta
vez rabi Shlomo. Voltei à sinagoga, tremendo, não lembro bem como
cheguei lá, mas cheguei, o que falei, mas falei, como saí de lá,
mas saí, como voltei para casa, mas voltei, aqui estou, minha mãe
me bombardeando de perguntas, por que demorou, onde estava, minto, e
agora: “Como foi a aula?”, “Posso marcar o bar mitzvah?”, “O
que aprendeu?”, e começa a falar em hebraico para me testar, um
hebraico com sotaque carioca, não o mesmo hebraico de rabi Shlomo,
não o mesmo hebraico de Moisés, Moisés falava hebraico?, tenho que
estudar, o hebraico de mamãe não tem nenhuma sacralidade, não
passa de uma centena de palavras aprendidas há quase quarenta anos,
não os quarenta anos de Moisés, e nunca mais usadas. “Vou para o
quarto”, digo, “Tenho que estudar para a próxima aula.” Ela
aquieta-se, que mãe judia não quer escutar isso? Vou para o quarto
estudar. Ela se delicia com a resposta, enxuga as mãos secas no pano
de prato pendurado na barra do vestido, sorri, o filho em casa, o
filho obediente que vai para o quarto estudar sem ela nem pedir,
mazel tov, dona Marlene, mazel tov. Mas é mentira. Sei lidar com
mamãe, a vida inteira tentando ser o que ela queria, primeiro
menina, Sara, errei já no nascimento, depois bom filho, esportista,
e então o jogo de tênis e papai morto quando tentou fazer um
voleio, e agora judeu, o bom menino judeu. Fracasso a cada tentativa,
mas dissimulo, para ela sei dissimular, preciso. Fecho a porta do
quarto: um erro. O espelho atrás da porta, eu refletido no espelho,
um homem com olhos azuis de Jesus que brilha por trás do reflexo,
uma piscadela me chamando, um dibuk, rabi Shlomo diria, diria se eu
tivesse contado a verdade, outra morte, outra morte na minha frente,
primeiro papai, agora Jesus, um Jesus gay me cortejava na estação
do metrô, o barulho dele batendo no vidro e subindo, o eco desse
barulho, depois o baque seco, pesado, do corpo dele batendo no teto
do metrô, as pessoas gritando, aqueles olhos lindos gritando, azuis,
lindos, para mim, azuis, para mim, para mim, para mim, Mariquinhos,
Mariquinhas, Mariquinhos. Agora é mamãe que grita, “Marquinhos”,
desperto, nu, na frente do espelho, “Marquinhos, o jantar em cinco
minutos”, nu, na frente do espelho, pau duro, nu, na frente do
espelho, pau duro, me masturbo para o Jesus gay de olhos azuis, um
dibuk, me masturbo com força, raiva, até que não gozo em minha
mão, mesmo fazendo toda a força o desejo permanece preso,
incurável, incubado. Mariquinhos, Mariquinhas, dibuk. Limpo minhas
mãos secas no lençol.
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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