quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

“Você demorou.”


 “Você demorou.” Minha mãe. “Estava preocupada.” Minha mãe. “Você sabe que fico preocupada quando demora.” Minha mãe. “Por que demorou?” Minha mãe. “Voltei a pé, mãe.” “A pé? Mas é muito longe! E o dinheiro que te dei para voltar de metrô?” “Esqueci”, minto. Podia mentir muito mais, sempre menti para ela, vivo mentindo, conto com a ajuda dos outros para mentir, senão seria impossível. Desta vez rabi Shlomo. Voltei à sinagoga, tremendo, não lembro bem como cheguei lá, mas cheguei, o que falei, mas falei, como saí de lá, mas saí, como voltei para casa, mas voltei, aqui estou, minha mãe me bombardeando de perguntas, por que demorou, onde estava, minto, e agora: “Como foi a aula?”, “Posso marcar o bar mitzvah?”, “O que aprendeu?”, e começa a falar em hebraico para me testar, um hebraico com sotaque carioca, não o mesmo hebraico de rabi Shlomo, não o mesmo hebraico de Moisés, Moisés falava hebraico?, tenho que estudar, o hebraico de mamãe não tem nenhuma sacralidade, não passa de uma centena de palavras aprendidas há quase quarenta anos, não os quarenta anos de Moisés, e nunca mais usadas. “Vou para o quarto”, digo, “Tenho que estudar para a próxima aula.” Ela aquieta-se, que mãe judia não quer escutar isso? Vou para o quarto estudar. Ela se delicia com a resposta, enxuga as mãos secas no pano de prato pendurado na barra do vestido, sorri, o filho em casa, o filho obediente que vai para o quarto estudar sem ela nem pedir, mazel tov, dona Marlene, mazel tov. Mas é mentira. Sei lidar com mamãe, a vida inteira tentando ser o que ela queria, primeiro menina, Sara, errei já no nascimento, depois bom filho, esportista, e então o jogo de tênis e papai morto quando tentou fazer um voleio, e agora judeu, o bom menino judeu. Fracasso a cada tentativa, mas dissimulo, para ela sei dissimular, preciso. Fecho a porta do quarto: um erro. O espelho atrás da porta, eu refletido no espelho, um homem com olhos azuis de Jesus que brilha por trás do reflexo, uma piscadela me chamando, um dibuk, rabi Shlomo diria, diria se eu tivesse contado a verdade, outra morte, outra morte na minha frente, primeiro papai, agora Jesus, um Jesus gay me cortejava na estação do metrô, o barulho dele batendo no vidro e subindo, o eco desse barulho, depois o baque seco, pesado, do corpo dele batendo no teto do metrô, as pessoas gritando, aqueles olhos lindos gritando, azuis, lindos, para mim, azuis, para mim, para mim, para mim, Mariquinhos, Mariquinhas, Mariquinhos. Agora é mamãe que grita, “Marquinhos”, desperto, nu, na frente do espelho, “Marquinhos, o jantar em cinco minutos”, nu, na frente do espelho, pau duro, nu, na frente do espelho, pau duro, me masturbo para o Jesus gay de olhos azuis, um dibuk, me masturbo com força, raiva, até que não gozo em minha mão, mesmo fazendo toda a força o desejo permanece preso, incurável, incubado. Mariquinhos, Mariquinhas, dibuk. Limpo minhas mãos secas no lençol.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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