Aconteceu assim: papai tinha acabado
de sair de casa, disse que iria cortar o cabelo e fazer a barba,
depois passaria na farmácia. Eu falei que o cabelo dele não estava
grande, a barba sim, mas eu poderia ajudá-lo a raspar; também disse
“Farmácia entrega”, mas ele falou que precisava sair um pouco de
casa, e concordei, mas tinha receio. Papai não andava bem naqueles
dias, reclamava de falta de ar, dor no corpo e de cabeça, tonteira,
e para uma pessoa como ele que não externava dores, com medo de se
tornar um peso, aquilo era sinal de preocupação.
“Voltou, papai?”, perguntei,
quando ele passou por mim, na sala, menos de cinco minutos depois de
ter saído. Ele não respondeu, o olhar obstinado, toda a força do
corpo reunida para caminhar, pé ante pé, até a poltrona em que
sempre sentava para dormilicar ou assistir à TV. Perguntei
novamente, outra coisa: “Está tudo bem?” Ele levou a mão ao
rosto, a mão grande de papai, peluda, a carne macia da palma
vazando, cobrindo até as bochechas, e demorou-se com ela parada em
frente aos olhos, depois desceu, devagar, até o colo. Os olhos
permaneceram fechados por um tempo, depois se abriram.
“Pega um copo d’água”, ele
disse, a primeira frase desde que voltara, e saí correndo para a
cozinha sem esperar pela segunda. Voltei com o copo d’água, dei em
sua mão, mas o copo escorregou e se espatifou. “Não tem
problema”, eu disse. Ele olhava para mim, mas seus olhos não
diziam nada. Eu não sabia se ia para a cozinha pegar um pano, um
segundo copo d’água, ou se ficava ao seu lado. “Quer que ligue
para o doutor Samuel?”, perguntei. A resposta: “Uma mulher me
chamou de Sérgio na rua.” Eu não entendi, aquilo não fazia
sentido, e repeti a pergunta sobre ligar para o médico. “Ela não
perguntou se eu era o Sérgio. Ela tinha certeza de que eu era o
Sérgio.” Entrei no jogo, ainda confusa. “Que Sérgio, papai?”
Ele até então olhava para a frente, para um horizonte à altura da
minha barriga, mas dessa vez reagiu à pergunta, olhou para mim, o
olhar de papai recuperado, forte, desafiador. A voz também saiu
pesada, áspera: “Como que Sérgio? O Sérgio dela!” “E quem é
o Sérgio dela, papai?” Ele voltou a olhar para o horizonte,
desfocado. Esperei alguns segundos, mas nada, ele longe, eu ali,
insegura. “Vou ligar para o médico”, e corri até o telefone sem
fio, o número do doutor Samuel na memória do aparelho, número 3.
Voltei e meu pai seguia com o olhar confuso, distante, a voz saiu
baixa dessa vez: “Acho que o Sérgio dela sou eu.”
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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