segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

“Que Sérgio, papai?”



Aconteceu assim: papai tinha acabado de sair de casa, disse que iria cortar o cabelo e fazer a barba, depois passaria na farmácia. Eu falei que o cabelo dele não estava grande, a barba sim, mas eu poderia ajudá-lo a raspar; também disse “Farmácia entrega”, mas ele falou que precisava sair um pouco de casa, e concordei, mas tinha receio. Papai não andava bem naqueles dias, reclamava de falta de ar, dor no corpo e de cabeça, tonteira, e para uma pessoa como ele que não externava dores, com medo de se tornar um peso, aquilo era sinal de preocupação.
Voltou, papai?”, perguntei, quando ele passou por mim, na sala, menos de cinco minutos depois de ter saído. Ele não respondeu, o olhar obstinado, toda a força do corpo reunida para caminhar, pé ante pé, até a poltrona em que sempre sentava para dormilicar ou assistir à TV. Perguntei novamente, outra coisa: “Está tudo bem?” Ele levou a mão ao rosto, a mão grande de papai, peluda, a carne macia da palma vazando, cobrindo até as bochechas, e demorou-se com ela parada em frente aos olhos, depois desceu, devagar, até o colo. Os olhos permaneceram fechados por um tempo, depois se abriram.
Pega um copo d’água”, ele disse, a primeira frase desde que voltara, e saí correndo para a cozinha sem esperar pela segunda. Voltei com o copo d’água, dei em sua mão, mas o copo escorregou e se espatifou. “Não tem problema”, eu disse. Ele olhava para mim, mas seus olhos não diziam nada. Eu não sabia se ia para a cozinha pegar um pano, um segundo copo d’água, ou se ficava ao seu lado. “Quer que ligue para o doutor Samuel?”, perguntei. A resposta: “Uma mulher me chamou de Sérgio na rua.” Eu não entendi, aquilo não fazia sentido, e repeti a pergunta sobre ligar para o médico. “Ela não perguntou se eu era o Sérgio. Ela tinha certeza de que eu era o Sérgio.” Entrei no jogo, ainda confusa. “Que Sérgio, papai?” Ele até então olhava para a frente, para um horizonte à altura da minha barriga, mas dessa vez reagiu à pergunta, olhou para mim, o olhar de papai recuperado, forte, desafiador. A voz também saiu pesada, áspera: “Como que Sérgio? O Sérgio dela!” “E quem é o Sérgio dela, papai?” Ele voltou a olhar para o horizonte, desfocado. Esperei alguns segundos, mas nada, ele longe, eu ali, insegura. “Vou ligar para o médico”, e corri até o telefone sem fio, o número do doutor Samuel na memória do aparelho, número 3. Voltei e meu pai seguia com o olhar confuso, distante, a voz saiu baixa dessa vez: “Acho que o Sérgio dela sou eu.”

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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