“De quantos meses?”, meu pai
perguntou, e arqueou as sobrancelhas negras de pelos abundantes já
naquela época. “Sete semanas”, respondi. Mentalmente ele fez as
contas por alguns segundos que me pareceram cômicos minutos. Meu pai
sempre foi péssimo com números, e mesmo assim, ironia, era
relojoeiro.
Eu tinha apenas 21 anos, nem dois
meses de casamento, e já estava grávida. Casei virgem numa época
que casar virgem já estava ficando ultrapassado numa cidade como o
Rio. Mas nós morávamos na Tijuca, e ainda se mantinham muitas
tradições entre aquelas paredes decoradas com quadros do Muro das
Lamentações misturados com caçadas em fazendas inglesas.
“Pai, foi na lua de mel”, resolvi
me antecipar. “O ginecologista fez as contas comigo e chegamos a
essa conclusão. O Afonso já sabe, mamãe também. Vamos ter o bebê.
Vou parar de trabalhar por uns meses, mas depois volto, está tudo
acertado.”
Nunca voltei.
Nicolas tomava todo o meu tempo, foi
um menino difícil, eu era nova, inexperiente, nervosa, e procurava
atendê-lo, mimá-lo de todas as maneiras possíveis. Mamou no peito
até quase os 2 anos, mamadeira até 6, até que um dia parou, sem
explicação. De 6 para 7 anos mudou, ficou calado, na época eu e
Afonso brigávamos muito, eu queria voltar a trabalhar, ele não
queria, pedia outro filho. Com 10, tudo passou, Nicolas readquiriu o
viço, a confiança, já falava em ser médico, gostava de esportes,
o pai o levava para o jogo do Botafogo no Maracanã, passeio a pé.
Voltavam cabisbaixos, anos de jejum, mas refletiam felicidade mesmo
assim; depois do jogo sempre paravam num bar; hambúrguer e batatas
fritas para Nicolas, chope e chope para Afonso. Então veio a
notícia: grávida novamente, quase 12 anos entre os filhos, eu ainda
nova, 33. Nicolas não lidou bem com o fato de não ser mais o centro
das atenções. Parou de trazer amigos da escola, recusava os apelos
do pai para jogarem futebol na Quinta da Boa Vista, como faziam antes
do nascimento do Marquinhos. Com o irmão sempre manteve relação de
distância, não brincou com o bebê, jamais implicou com a criança,
caçoou do pré-adolescente, e deu conselhos ao menino que com 17 foi
embora de casa para não mais voltar.
Nicolas queria ser cirurgião
cardiologista, sempre quis, desde quando brincava com o joguinho da
operação da Estrela, ou empurrava uma ambulância de plástico pelo
tapete da sala fazendo barulho com a boca imitando a sirene, operava
bonecos do Falcon, fazia curativos na própria testa sem nenhum
corte. Depois que o pai morreu numa quadra de tênis, ele passou a
detestar a especialidade que escolhera, a profissão com que lutara
contra nossa precariedade financeira para abraçar, queria desistir
do sonho.
E desistiu.
Recusou convites de especialização
nas áreas mais badaladas. Desinteressou-se da carreira, dele mesmo,
casou-se com uma gói que engravidou sem querer já em São Paulo.
Tornou-se um oftalmologista medíocre, daqueles que atendem apenas
casos de miopia, consulta paga pelo plano de saúde, não operam ou
são convidados para congressos. Trabalha de segunda à sexta, apenas
no período da tarde, e se dá por satisfeito, tendo clientes ou não.
Quando de fato se separou, o casamento
já tinha acabado há cinco anos. Apenas a inércia mantinha Nicolas
e Mônica juntos, ele pesando 115 quilos de massa parada e ela 93 de
doces à tarde.
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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