domingo, 4 de janeiro de 2026

“De quantos meses?”



De quantos meses?”, meu pai perguntou, e arqueou as sobrancelhas negras de pelos abundantes já naquela época. “Sete semanas”, respondi. Mentalmente ele fez as contas por alguns segundos que me pareceram cômicos minutos. Meu pai sempre foi péssimo com números, e mesmo assim, ironia, era relojoeiro.
Eu tinha apenas 21 anos, nem dois meses de casamento, e já estava grávida. Casei virgem numa época que casar virgem já estava ficando ultrapassado numa cidade como o Rio. Mas nós morávamos na Tijuca, e ainda se mantinham muitas tradições entre aquelas paredes decoradas com quadros do Muro das Lamentações misturados com caçadas em fazendas inglesas.
Pai, foi na lua de mel”, resolvi me antecipar. “O ginecologista fez as contas comigo e chegamos a essa conclusão. O Afonso já sabe, mamãe também. Vamos ter o bebê. Vou parar de trabalhar por uns meses, mas depois volto, está tudo acertado.”
Nunca voltei.
Nicolas tomava todo o meu tempo, foi um menino difícil, eu era nova, inexperiente, nervosa, e procurava atendê-lo, mimá-lo de todas as maneiras possíveis. Mamou no peito até quase os 2 anos, mamadeira até 6, até que um dia parou, sem explicação. De 6 para 7 anos mudou, ficou calado, na época eu e Afonso brigávamos muito, eu queria voltar a trabalhar, ele não queria, pedia outro filho. Com 10, tudo passou, Nicolas readquiriu o viço, a confiança, já falava em ser médico, gostava de esportes, o pai o levava para o jogo do Botafogo no Maracanã, passeio a pé. Voltavam cabisbaixos, anos de jejum, mas refletiam felicidade mesmo assim; depois do jogo sempre paravam num bar; hambúrguer e batatas fritas para Nicolas, chope e chope para Afonso. Então veio a notícia: grávida novamente, quase 12 anos entre os filhos, eu ainda nova, 33. Nicolas não lidou bem com o fato de não ser mais o centro das atenções. Parou de trazer amigos da escola, recusava os apelos do pai para jogarem futebol na Quinta da Boa Vista, como faziam antes do nascimento do Marquinhos. Com o irmão sempre manteve relação de distância, não brincou com o bebê, jamais implicou com a criança, caçoou do pré-adolescente, e deu conselhos ao menino que com 17 foi embora de casa para não mais voltar.
Nicolas queria ser cirurgião cardiologista, sempre quis, desde quando brincava com o joguinho da operação da Estrela, ou empurrava uma ambulância de plástico pelo tapete da sala fazendo barulho com a boca imitando a sirene, operava bonecos do Falcon, fazia curativos na própria testa sem nenhum corte. Depois que o pai morreu numa quadra de tênis, ele passou a detestar a especialidade que escolhera, a profissão com que lutara contra nossa precariedade financeira para abraçar, queria desistir do sonho.
E desistiu.
Recusou convites de especialização nas áreas mais badaladas. Desinteressou-se da carreira, dele mesmo, casou-se com uma gói que engravidou sem querer já em São Paulo. Tornou-se um oftalmologista medíocre, daqueles que atendem apenas casos de miopia, consulta paga pelo plano de saúde, não operam ou são convidados para congressos. Trabalha de segunda à sexta, apenas no período da tarde, e se dá por satisfeito, tendo clientes ou não.
Quando de fato se separou, o casamento já tinha acabado há cinco anos. Apenas a inércia mantinha Nicolas e Mônica juntos, ele pesando 115 quilos de massa parada e ela 93 de doces à tarde.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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