“O Marquinhos voltou”, escuto. Um dos meninos mais adiantados cochicha. Acha que não ouvi, finjo que não ouvi. “Mariquinhos”, ele diz, e abaixo a cabeça, sento no banco de madeira esperando minha vez. Sei que ele me olha, sei que me olham. Mariquinhos, Mariquinhas, na escola é só o que escuto, Mariquinhos, um apelido-acusação, condenação. Treze anos recém-completos e já condenado pela vida inteira. Carrego essa morte no corpo, essa culpa que transborda pela minha timidez, cabeça baixa, os olhos azuis de Jesus me olhando e chamando de Mariquinhos, vem, Mariquinhos, um dibuk, falaria o rabi Shlomo, falará rabi Shlomo, um dibuk te convidando para aceitar o que nem ainda aceitou mas já tem sua condenação, Mariquinhos, Mariquinhas voltou. “Por que choras, Marcos?”, a voz rouca, áspera, rabi Shlomo com a mão na minha cabeça, a antessala vazia, aonde foram todos?, aonde o menino adiantado, que sabe a reza em hebraico, que me chama de Mariquinhos mesmo aqui, na casa sagrada, e eu ainda posso estar aqui?, penso, e de novo Mariquinhos, uma mão pesada no meu ombro, Mariquinhos?, mas a mão é do rabi, e ele não me chamaria assim, os tufos da orelha parecem não parar de crescer quando olhados daqui de baixo, lembram aqueles desenhos animados em que o monstro solta fumaças pelas orelhas, penso, e pelo nariz, agora vejo, também o nariz do rabi solta fumaça de pelos, e de novo Mariquinhos, está me escutando?, a voz áspera, “Marcos, está me escutando?”, talvez, agora sim. “Venha, vamos entrar”, e ele me levanta do banco de madeira, rabi Shlomo me levanta do banco de madeira, a mão dele é quente, “Vamos”, ele diz, e vou, “Senta aqui”, e sento, “Fala para mim o que aconteceu, o que está acontecendo, Marquinhos”; e falo, e conto, tudo. Menos a minha participação. “Rabi, vi uma pessoa se matar.”
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

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