Quando
José Alves viu Brandão chegar a sua porta, pensou em coisa má,
porque boa não devia ser. Brandão era senhorio, vinha talvez
aumentar o aluguel. Ou, então, dizer que os meninos estragavam muito
a casa, a começar pelo lado de fora. José Alves pagava mais ou
menos em dia, salvo ocasiões de doença. Era condutor de bonde, vale
dizer, tinha dinheiro curto. Mas o jeito de Brandão era benigno, e
sua voz, logo às primeiras palavras, denotava algo que parecia
emoção ou, mais simplesmente, embaraço.
— Bom
dia, Zé. Seu pessoal vai bem? Tudo legal? Vim aqui cedinho com medo
de não encontrar mais você. Careço de um favor seu.
— Vamos
ver, seu Brandão.
— Até
não queria vir, para não amolar um cristão, mas a patroa insistiu.
A patroa disse assim: Procura o Zé Alves que ele atende. O Zé Alves
é camarada e compreende essas coisas. Acontece o seguinte, Zé, nós
tínhamos lá em casa um cachorro de estimação, o Sentinela, não
sei se você reparou nele, nem era cachorro, era um amigo da gente,
com perdão do exagero, até parecia um filho de rabo. Criação,
quando a gente se apega, é o diabo. Pois o Sentinela morreu ontem de
noite.
— Sinto
muito, seu Brandão.
— Obrigado.
Ele merecia. Mas agora está um caso sério, porque eu não vou jogar
o bichinho no lixo nem dar sumiço nele. Tenho de enterrar, não
acha? E lá em casa, você sabe, é apartamento de instituto, sem um
palmo de terra. Então a patroa lembrou: O Zé Alves tem um
quintalzinho, fala com ele.
— Tá
certo, seu Brandão, disponha.
O
outro agradeceu e saiu afobado para voltar uma hora depois, com um
caixotinho fechado e um crioulo munido de enxada. Não quis abrir o
caixote, por causa da exalação. Num átimo, a cova estava pronta e
o sepultamento se fez. José tinha saído para o batente. Brandão
agradeceu muito à senhora dele.
No
batente, José ficou pensando aquilo que não tivera tempo de pensar
na rapidez da conversa. História esquisita, essa de enterrar
cachorro no quintal dos outros. Enfim, cada um com sua mania. Mas à
noite, na cama, ideias estranhas lhe afloraram à cabeça. A mulher
de Brandão era parteira, tinha fama de fazer anjinho. Era muito
possível que… Minha Nossa Senhora, em que burrada me meti. E não
dormiu um segundo, pensando naquela coisinha humana no frio da terra,
e ele preso, processado, poxa! A mulher tinha o mesmo pensamento
negro. Ia dar bode.
No
outro dia, José madrugou no distrito e contou ao primeiro sujeito
com cara de autoridade que lá encontrou. O sujeito coçou o queixo,
indagou aborrecido: “Tem certeza?”. Ele respondeu: “Quer dizer,
certeza mesmo não, mas estou quase jurando que ali tem coisa”. Um
investigador foi buscar Brandão, que apareceu de cara amarrada, veio
também um médico-legista, e a caravana partiu para a ruinha de
subúrbio, onde já estava apinhada pequena multidão em frente à
casa de Zé Alves. O povo tem radar para esses casos.
Abriu-se
a cova, apareceu o caixotinho lambuzado de terra. O mau cheiro não
perturba aqueles homens habituados, mas a qualidade do mau cheiro não
passou despercebida ao médico. O círculo de curiosos tapou o local
da diligência. “Desafasta!” resmungou um investigador. Abriu-se
o caixotinho. O doutor se debruçou profissionalmente. Brandão tapou
os olhos, apertou os lábios…
Era
cachorro.
Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira
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