Todos
nós, negros, somos parecidos. Essa expressão é tão antiga quanto
o Iluminismo, quando a invenção de conceitos raciais se combinou
com teorias do desenvolvimento humano em estudos de figuras como
Johann Friedrich Blumenbach, a quem se credita a criação de uma das
primeiras classificações baseadas na raça nos idos de 1776. O
antropólogo alemão fixou cinco categorias: “Caucasiano, a raça
branca; mongol, a raça amarela; malaio, a raça castanha; etíope, a
raça negra; e americano, a raça vermelha”. Embora se apresentasse
como abolicionista, as suas teorias foram usadas para defender e
implementar projetos supremacistas de conquista, usurpação e
consequente desumanização de todos os que não pertencessem ao tipo
caucasiano e eurocêntrico.Para o grupo étnico ao qual pertenço,
ouvir esse adágio baforento para justificar a dificuldade que
pessoas de outros grupos têm para diferenciar indivíduos de outras
etnias é mais do que ofensivo e preconceituoso. Esse comportamento
preguiçoso e estereotipado que cientistas sociais caucasianos
identificaram como efeitos de outra raça pode resultar em
condenações criminais indevidas, erros de identificação nos
documentos de identidade, fotos trocadas na imprensa e uma panóplia
de constrangimentos, generalizações e gafes que nós — os do tipo
etíope, de acordo com o professor Blumenbach — tão bem
conhecemos.
Nem
as personalidades mais proeminentes da comunidade afrodescendente
estão imunes. Samuel L. Jackson, cansado desse tipo de gafe,
perguntou a um repórter que o entrevistava se este não sabia
distingui-lo do ator Laurence Fishburne. Envergonhado, o jornalista
desculpou-se repetidamente, a ponto de esbofetear-se de tão
envergonhado que estava. Quando questionado sobre o incidente,
Fishburne mostrou-se feliz de como L. Jackson lidou com o jornalista
e relembrou que isso não é exclusivo do tipo etíope. Pessoas
fizeram a mesma coisa com Dustin Hoffman e Al Pacino porque eles não
se pareciam com os típicos galãs do cinema que vieram antes. Eu
próprio conheço várias histórias, todas com pendor cômico, de
leitores de Mia Couto abordarem o escritor José Eduardo Agualusa
pedindo que este lhes autografasse os livros do autor moçambicano.
Essas
situações — quando ocorridas na imprensa, nos estabelecimentos de
ensino, nos locais de trabalho ou de convívio social — são no
mínimo indigestas, mas não as podemos comparar com as tragédias
que podem ocorrer quando os efeitos de outra raça se intrometem em
assuntos de polícia, em que a articulação da presunção de
inocência fixada pelo digesto direito romano, ei incumbit
probatio, qui dicit, non qui negat (“O ônus da prova recai
sobre a pessoa que afirma, não sobre quem nega”), é reconhecido
como um princípio bonito em teoria, mas, na prática, para os pobres
miseráveis e para os que carregam a tez mais escura, o veredito é
apenas um — culpado, até que se prove o contrário.
Culpado
como Anthony, de vinte anos, no dia 4 de novembro de 1981, ao lado de
quatro homens negros vestidos iguais a si, diante de um espelho na
sala de identificação da esquadra de polícia em Syracuse, Nova
York. Do outro lado do vidro, Alice, uma estudante branca de dezenove
anos esforçando-se para lembrar o rosto do homem que meses antes a
havia violado sexualmente. Ela não conseguiu identificá-lo naquele
momento — só mais tarde, já com Anthony sentado no banco dos
réus, negando de pés juntos ter cometido tão hediondo crime, é
que ela o identificou como seu agressor. Com base no depoimento desta
e em um pelo púbico que, à luz da ciência forense de hoje,
deixaria o caso em águas de bacalhau, o jovem Anthony foi condenado,
à semelhança do enredo do premiado romance O sol é para todos,
de Harper Lee.
Nos
anos que se seguiram, Alice Sebold lutou para negar o papel da eterna
vítima que o mundo à sua volta lhe tentou impingir e encontrou na
literatura a sua salvação. Em 1999, ela contou o seu lado da
história no livro de memórias Sorte, narrando com particular
detalhe a violenta violação que sofreu e o trauma que nunca será
apagado da sua memória. Anthony, por sua vez, passou mais de
dezesseis anos na prisão e 23 no registo dos agressores sexuais até
que um plot twist de proporções hollywoodianas se dá.
Timothy Mucciante, um produtor executivo que trabalhava na adaptação
cinematográfica de Sorte, identificou tantas discrepâncias
alarmantes quando lia o livro de Alice que pagou do seu próprio
bolso os serviços de um investigador privado, que recolheu e passou
provas cruciais para as mãos dos advogados que acreditaram na
inocência de Anthony. A 22 de novembro de 2021, Anthony Broadwater,
um ex-marine do Exército americano com 61 anos, foi finalmente
exonerado por um tribunal de Nova York.
Depois
disso, o pedido de desculpas. A sra. Sebold, oito dias após a
exoneração, falou: “Quero dizer que realmente lamento muito por
Anthony Broadwater […]. Lamento ainda o fato de meu próprio
infortúnio ter resultado na condenação injusta do sr. Broadwater,
pela qual ele cumpriu não apenas dezesseis anos atrás das grades,
mas de maneiras que ainda servem para ferir e estigmatizar, quase
como uma sentença de prisão perpétua”.O pedido de desculpas,
ainda que sincero, ficou aquém. Deixou de fora elementos importantes
sobre a verdade e a responsabilização. Sebold conseguiu
distanciar-se do homem que foi preso erroneamente por um crime
cometido contra ela. Afirmou que as questões sistémicas (isto é,
racistas) no sistema judicial americano não eram “um debate, ou
uma conversa, ou mesmo um sussurro quando denunciei a minha violação
em 1981”. Ela reconheceu o sistema que pôs um homem inocente na
prisão, mas nunca reconheceu uma única vez o fato de esse mesmo
sistema ser inerentemente racista. De fato, as palavras “raça”
ou “racismo” ficaram omissas quando esta se dirigiu ao exonerado
na sua declaração. Essa omissão, infelizmente, é uma forma de se
desculpar da realidade inconveniente de que ela, na sua condição de
vítima, também colaborou — ainda que involuntariamente — com
esse mesmo sistema racista para pôr Anthony na prisão.
Tanto
na literatura como no cinema, desde a invenção da América, não
faltam exemplos de como a justiça está constantemente a mudar e a
moldar-se de acordo com a conveniência de quem detém o poder. No
livro O direito ao sexo, Amia Srinivasan escreve: “Para
muitas mulheres negras, a injunção feminista dominante ‘Acredite
nas mulheres' e a sua hashtag viral #IBelieveHer levantam mais
questões do que resolvem. Em quem devemos acreditar, na mulher
branca que diz que foi estuprada, ou na mulher negra ou castanha que
insiste que o seu filho está sendo incriminado?”. Há uma longa e
sórdida história na América de mulheres brancas acusando
falsamente homens negros de estupro, e nem sempre a justiça foi
tratada dentro da esfera legal. Não são poucas as canções, os
livros e os artigos de jornal que dão conta de milícias brancas e
corpos negros sendo linchados por terem ousado olhar para uma mulher
branca. Emmett Till, o menino de catorze anos brutalmente assassinado
no Mississipi em 1955, continua uma ferida aberta.
O
projeto de adaptação de Sorte para o cinema foi cancelado e
a editora do livro anunciou que vai deixar de o publicar até uma
futura revisão. Anthony, que depois de todo o suplício não guarda
um pingo de rancor no coração, perdoou Alice e está no seu
direito. Ela continua a ser vítima de um crime, e ele, vítima de
uma injustiça perpetrada por um sistema obcecado em caçar negros,
esquecendo-se de proteger Alice, com os cuidados de que necessitava,
e de proteger a inocência de pessoas que se parecem com Anthony,
pois para elas o ônus da prova recai sempre sobre a pessoa que nega,
nunca sobre quem acusa.
Kalaf Epalanga, in Minha pátria é a língua pretuguesa – Crônicas

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