[…]
No sirgo fio dessas recordações,
acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também
de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas
ocasiões. Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de
a-propósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela
agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos
volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão vendo hoje,
pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’amanhã.
Ao que inventei, enquanto assim se
vinha, por pobres lugares, aos poucos eu estive amaestrando os
catrumanos, o senhor está lembrado deles; ensinando aqueles
catrumanos, para as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já
prometiam puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens.
Aprovei, de ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem
malandro inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois
canos encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia
de admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé
Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda
vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava
executando! que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em mãos,
se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.
Essa mulher, conforme vinha, num
definitivo mau silêncio, a cara desaparecida pelo xale verde,
escanchada em seu cavalo. Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de
ouricurí, por se tapar do forte sol baiano. A mais, dela não se
ouviu queixa ou reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia
nela era aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em
esperar; essa capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza
de si, o ódio então era bom, na razão desse sentido! que às vezes
é feito uma esperança já completada. Deus que dele me livrasse!
Mas, o homem em quem o catrumano
Teofrásio com sua garrucha antiquíssima apontou, era um velho.
Desse, eu digo, salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato deu não
conseguir conhecer a intenção da existência dele, sua razão de
sua consciência. Ele morava numa burgueia, em choça muito de
solidão, entre as touças da sempre-viva-serrã e lustro das
folhagens de palmeira-pindoba.
Eu, com outros, tinha subido no tope
do môrro, que era de espalha-ventos. De lá do alto, a mente minha
era poder verificar muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas
para uma banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde
agora estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto
que, na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além.
Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim,
era só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá,
namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era
clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados,
gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não
tinha valia, como é que era de tantos homens?
Mas, no vir de cimas desse morro, do
Tebá ― quero dizer: Morro dos Ofícios ― redescendo, demos com o
velho, na porta da choupã dele mesmo. Homem no sistema de
quase-dôido, que falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de
piassaba; goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de
milho em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os
cabelos dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não
caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se
mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou ― abocou a
garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo. Esse era o
velho da paciência. Paciência de velho tem muito valor. Comigo
conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver, ele tinha aprendido.
Deus pai, como aquele homem sabia todas as coisas práticas da
labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo. Mas, agora, que tanto
aforrava de saber, o derrengue da velhice tirava dele toda possança
de trabalhar; e mesmo o que tinha aprendido ficava fora dos costumes
de usos.Velhinho que apertava muito os olhos.
Seria velhacal? Não fio. E isto, que
retrato, é devido à estúrdia opinião que divulgou em mim esse
velho homem. Que, por armas de sua personalidade, só possuía ali
era uma faquinha e um facão cego, e um calabôca ― porrête esse
que em parte ocado e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E
ele mancava estragado! por tanto que a metade do pé esquerdo
faltava, cortado ― produção por picada de cobra ― urutú
geladora, se supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de
sal grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no
comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbú, ou
gambás, que, jogando neles certeiramente o calabôca, sempre
conseguia de caçar. Me chamou de! ― Chefão cangaceiro...
Acabando que, para me render benefício
de agradecimento, ele me indicou, muito conselhante, que, num certo
resto de tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado
fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... ― ele disse ―; eu
escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e para
mim... ― Aonde, rumo? ― indaguei, por comprazer. Ele piscou para
o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num Riacho-das-Almas...
Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar matos, furar a
caatinga por batoqueiras, por louvar loucura alheia? Minha guerra nem
não me dava tempo. E, mesmo, se ele sabia assim, e verdade fosse,
por que era que não ia, muito pessoalmente, cavacar o ouro para si?
Derri dele, brando. Por que é que se dá conselho aos outros?
Galinhas gostam de poeira de areia ― suas asas... E o velho homem ―
cujo. Ele entendia de meus dissabôres? Eu mesmo era de empréstimo.
Demos o demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo.
Siruiz. Alelúia só.
E o velho, no esquipático de olhar e
ser, qualquer coisa em mim ele duvidava dela. Mas ― que é que era?
que é que era?!... Eu carecia de indagar. E, mesmo ― porque a
chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando
preocupação incerta ― tive de indagar leixo, remediando com
gracejo diversificado: ― Mano velho, tú é nado aqui, ou de donde?
Acha mesmo assim que o sertão é bom?...
Bestiaga que ele me respondeu, e
respondeu bem; e digo ao senhor:
― Sertão não é malino nem
caridoso, mano oh mano!: ― ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga,
ao senhor, conforme o senhor mesmo.
Respondeu com uma insensatez, ar de ir
me ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo
para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu não
decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos aquilo, às
pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os dedos de uma
mão, em modo que me deu nôjo. Descemos flauteando o resto do môrro.
Quando chegamos cá no acampo, as ramas dárvores já iam pegando o
pó da noite. Ermo meu?
Do que hoje sei, tiro passadas valias?
Eh ― fome de bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho
era minha razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas,
em trinta e cinco léguas ― e o caminho passava pelo São Josezinho
da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez com
Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros
morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de
me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de.
Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho
demudasse ― se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia
de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado ―
é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não
me mal creia! que eu estou bem casado de matrimônio ― amizade de
afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas ― se
eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a
chefia em que eu era o Urutú-Branco, quantas coisas terríveis o
vento-das-núvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível
o que é ― possível o que foi. O sertão não chama ninguém às
claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se
estremece, debaixo da gente... E ― mesmo ― possível o que não
foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas
mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói sempre na gente, alguma
vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou... Mas, como
jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos
para retrôco. Sobre os gerais planos de areia, cheios de
nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de
quebra-vento.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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