17/06/2026

“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou...”



[…]

No sirgo fio dessas recordações, acho que eu bateava outra espécie de bondade. Devo que devia também de ter querido outra vez os carinhos daquela moça Nhorinhá, nessas ocasiões. Por que será que, aí, eu não formei a clareza disso, de a-propósito? Por lá, adiante, na vastança, era rumo de onde ela agora morava. Isso, sim, andadamente. Mas não conheci; e demos volta. Tempos escurecidos. O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois-d’amanhã.
Ao que inventei, enquanto assim se vinha, por pobres lugares, aos poucos eu estive amaestrando os catrumanos, o senhor está lembrado deles; ensinando aqueles catrumanos, para as coisas de armas, do que houvesse de pior. Eles já prometiam puxo; eh, burro só não gosta é de principiar viagens. Aprovei, de ver o Teofrásio, principal deles, apontando em homem malandro inocente, com a velha garrucha que era a dele, com os dois canos encavalados. Mas, que atirasse, não consenti. Zé Bebelo havia de admitir assim, de se fazer excessos? Ali, quem se lembrava de Zé Bebelo eram minhas horas de muita inteligência. Assim, ele ainda vivesse, certo havia de ter algum dia notícia do que eu estava executando! que a gente trazia a Mulher; com ela agarrada em mãos, se ia necessitar o Hermógenes a dar combate.
Essa mulher, conforme vinha, num definitivo mau silêncio, a cara desaparecida pelo xale verde, escanchada em seu cavalo. Tinham dado a ela um chapéu-de-palha de ouricurí, por se tapar do forte sol baiano. A mais, dela não se ouviu queixa ou reclamação; nem mesmo palavra. O que eu desentendia nela era aquela suave calma, tão feroz; que seria aferrada em esperar; essa capacidade. Se o ódio, só, era que dava a ela certeza de si, o ódio então era bom, na razão desse sentido! que às vezes é feito uma esperança já completada. Deus que dele me livrasse!
Mas, o homem em quem o catrumano Teofrásio com sua garrucha antiquíssima apontou, era um velho. Desse, eu digo, salvei a vida. Socorrido assim, pelo fato deu não conseguir conhecer a intenção da existência dele, sua razão de sua consciência. Ele morava numa burgueia, em choça muito de solidão, entre as touças da sempre-viva-serrã e lustro das folhagens de palmeira-pindoba.
Eu, com outros, tinha subido no tope do môrro, que era de espalha-ventos. De lá do alto, a mente minha era poder verificar muitos horizontes. E, mire veja: em quinze léguas para uma banda, era o São Josezinho da Serra, terra florescida, onde agora estava assistindo Nhorinhá, a filha de Ana Duzuza. Assunto que, na ocasião, meu espírito me negou, digo o dito. Além, além. Dela eu ainda não tinha podido receber a carta enviada. Para mim, era só uma saudade a se guardar. Hoje é que penso. Nhorinhá, namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era clara, com os olhos tão dela mesma... E os homens, porfiados, gostavam de gozar com essa melhora de inocência. Então, se ela não tinha valia, como é que era de tantos homens?
Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá ― quero dizer: Morro dos Ofícios ― redescendo, demos com o velho, na porta da choupã dele mesmo. Homem no sistema de quase-dôido, que falava no tempo do Bom Imperador. Baiano, barba de piassaba; goiano-baiano. O pobre, que não tinha as três espigas de milho em seu paiol. Meio sarará. A barba, de capinzal sujo; e os cabelos dele eram uma ventania. Perguntei uma coisa, que ele não caprichou de entender, e o catrumano Teofrásio, que já queria se mostrar jagunço decisivo, o catrumano Teofrásio bramou ― abocou a garruchona em seus peitos dele. Mas, que não deu tujo. Esse era o velho da paciência. Paciência de velho tem muito valor. Comigo conversou. Com tudo que, em tão dilatado viver, ele tinha aprendido. Deus pai, como aquele homem sabia todas as coisas práticas da labuta, da lavoura e do mato, de tanto tudo. Mas, agora, que tanto aforrava de saber, o derrengue da velhice tirava dele toda possança de trabalhar; e mesmo o que tinha aprendido ficava fora dos costumes de usos.Velhinho que apertava muito os olhos.
Seria velhacal? Não fio. E isto, que retrato, é devido à estúrdia opinião que divulgou em mim esse velho homem. Que, por armas de sua personalidade, só possuía ali era uma faquinha e um facão cego, e um calabôca ― porrête esse que em parte ocado e recheio de chumbo, por valer até para mortes. E ele mancava estragado! por tanto que a metade do pé esquerdo faltava, cortado ― produção por picada de cobra ― urutú geladora, se supõe. Animado comigo, em fim me pediu um punhado de sal grande regular, e aceitou um naco de carne-de-sol. Porque, no comer de comum, ele aproveitava era qualquer calango sinimbú, ou gambás, que, jogando neles certeiramente o calabôca, sempre conseguia de caçar. Me chamou de! ― Chefão cangaceiro...
Acabando que, para me render benefício de agradecimento, ele me indicou, muito conselhante, que, num certo resto de tapera, de fazenda, sabia seguro de um dinheirão enterrado fundo, quantia desproposital. Eu fosse lá... ― ele disse ―; eu escavasse tal fortuna, que merecida, para meus companheiros e para mim... ― Aonde, rumo? ― indaguei, por comprazer. Ele piscou para o mato. Por lá, trinta e cinco léguas, num Riacho-das-Almas... Toleima. Eu ia navegar assim para acolá, passar matos, furar a caatinga por batoqueiras, por louvar loucura alheia? Minha guerra nem não me dava tempo. E, mesmo, se ele sabia assim, e verdade fosse, por que era que não ia, muito pessoalmente, cavacar o ouro para si? Derri dele, brando. Por que é que se dá conselho aos outros? Galinhas gostam de poeira de areia ― suas asas... E o velho homem ― cujo. Ele entendia de meus dissabôres? Eu mesmo era de empréstimo. Demos o demo... E possuía era meu caminho, nos peitos de meu cavalo. Siruiz. Alelúia só.
E o velho, no esquipático de olhar e ser, qualquer coisa em mim ele duvidava dela. Mas ― que é que era? que é que era?!... Eu carecia de indagar. E, mesmo ― porque a chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando preocupação incerta ― tive de indagar leixo, remediando com gracejo diversificado: ― Mano velho, tú é nado aqui, ou de donde? Acha mesmo assim que o sertão é bom?...
Bestiaga que ele me respondeu, e respondeu bem; e digo ao senhor:
Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: ― ...ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.
Respondeu com uma insensatez, ar de ir me ferir, por tanto; jacaré já! Respondeu, apontando com o dedo para o meu peito. Desgostou de meu debique? Dele o dito, eu não decifrava. Sertanejo sem remanso. Mas desabandonamos aquilo, às pressas, porque o velho assoava o nariz com todos os dedos de uma mão, em modo que me deu nôjo. Descemos flauteando o resto do môrro. Quando chegamos cá no acampo, as ramas dárvores já iam pegando o pó da noite. Ermo meu?
Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eh ― fome de bacurau é noitezinha... Porque: o tesouro do velho era minha razão. Tivesse querido ir lá ver, nesse Riacho-das-Almas, em trinta e cinco léguas ― e o caminho passava pelo São Josezinho da Serra, onde assistia Nhorinhá, lugarejo ditoso. Segunda vez com Nhorinhá, sabível sei, então minha vida virava por entre outros morros, seguindo para diverso desemboque. Sinto que sei. Eu havia de me casar feliz com Nhorinhá, como o belo do azul; vir aquém-de. Maiores vezes, ainda fico pensando. Em certo momento, se o caminho demudasse ― se o que aconteceu não tivesse acontecido? Como havia de ter sido a ser? Memórias que não me dão fundamento. O passado ― é ossos em redor de ninho de coruja... E, do que digo, o senhor não me mal creia! que eu estou bem casado de matrimônio ― amizade de afeto por minha bondosa mulher, em mim é ouro toqueado. Mas ― se eu tivesse permanecido no São Josezinho, e deixado por feliz a chefia em que eu era o Urutú-Branco, quantas coisas terríveis o vento-das-núvens havia de desmanchar, para não sucederem? Possível o que é ― possível o que foi. O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente... E ― mesmo ― possível o que não foi. O senhor talvez não acha? Mas, e o que eu estava dizendo, mas mesmo pensando em Nhorinhá, por causa. Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou... Mas, como jagunços, que se era, a gente rompeu adiante, com bons cavalos novos para retrôco. Sobre os gerais planos de areia, cheios de nada. Sobre o pardo, nas areias que morreram, sem serras de quebra-vento.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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