01/08/2026

Até às alelúias!



[…]

Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas não estipula.
O que houve, que se deu. Que vi. Com a sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi. Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ― E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero. Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ― em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele. Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ― bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh, mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali, era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.
Somente todos me gabaram, com elogios e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio. Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro. Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto: das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até; deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele ― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era em ramo de suicídios.
A modo que morreu? Ele foi para os infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ― a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar, pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue. Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Nenhum comentário:

Postar um comentário