[…]
Mas ― ah! ― quem diga! um faz, mas
não estipula.
O que houve, que se deu. Que vi. Com a
sede sofrida, um incha, padece nas vistas, chega fica cego. Mas vi.
Foi num átimo. Como que por distraído! num dividido de minuto, a
gente perde o tino por dez anos. Vi! ele ― o chapéu que não
quebrava bem, o punhal que sobressaía muito na cintura, o monho, o
mudar das caras... Ele era o demo, de mim diante... O Demo!... Fez
uma careta, que sei que brilhava. Era o Demo, por escarnir, próprio
pessoa!
E ele endireitou pontudo para sobre
mim, jogou o cavalo... O demo? Em mim, danou-se! Como vinha,
terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. ―
E-hê!... Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e
cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada. Cerrei
com ele... A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e
trens que eu tinha na cintura e a tiracol! se prendeu ali, um mero.
Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal ― pajeuzeira ―
em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o
princípio da nuca ― ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião
esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele.
Cortei por cima do adão... Ele Outro caíu do cavalo, já veio antes
do chão com os olhos duros apagados... Morreu maldito, morreu com a
goela roncando na garganta!
E o que olhei? Sangue na minha faca ―
bonito brilho, feito um verniz veludo... E ele! estava rente aos
espinhos dum mandacarú-quadrado. Conforme tinha sido. Ah-oh! Aoh,
mas ninguém não vê o demônio morto... O defunto, que estava ali,
era mesmo o do Treciziano!
A morte dele deu certo. E era, segundo
tinha de ser? E tinha de ser, por tanto que o demo não existe! As
tramóias, armadilhas... Nem nunca mais, daí por diante, eu queria
pensar nele. Nem no pobre do Treciziano, que estava ali, degolal, que
eu tinha... Um frio profundíssimo me tremeu. Sofri os pavôres disso
da mão da gente ser capaz de ato sem o pensamento ter tempo.
Somente todos me gabaram, com elogios
e palavras prezáveis, porque a minha chefia era com presteza. Fosse
de tiro, tanto não admiravam a tanto, porque a minha fama no gatilho
já era a qual; à faca, eh, fiz! E do outro grupo, longe mas que era
o mais perto, da banda da mão esquerda, um escutou ou viu, e veio.
Era o Jiribibe, mocinho Jiribibe, num cavalo preto galopeiro.
Diadorim tinha disparado tiro, só esmo; de nervosia. Dentro de
pouco, todos iam ficar cientes da proeza daquele homem tão morto:
das beiras do corte ― lá nele ― a pele subia repuxada, a outra
para baixo tinha descaído tamanhamente, quase nas maminhas até;
deixavam formado o buraco medonho horrendo, se aparecendo a toda
carnança. Aí Alaripe esclareceu: ― Ao que sei, este era da Serra
dUmã... O de tão longe, o sapo leiteiro! Uns estavam remexendo nele
― não tinha um pêlo nos peitos. Assim queriam desaliviar aquele
corpo, das coisas de valor principais. Do que alguém disse que ele
guardava: um dixe, joiazinha de prata; e as esporas eram as
excelentes, de bom metal.
Não turveei. Morte daquela cabra era
em ramo de suicídios.
― A modo que morreu? Ele foi para os
infernos? ― indagou em verdade o menino Guirigó. Antes o que era
que eu tinha com isso, como todos me louvaram? Sendo minha a culpa ―
a morte, isto sei; mas o senhor me diga, meussenhor: a horinha em que
foi, a horinha? Como que o cego Borromeu garrou um fanhoso recitar,
pelos terços e responsos. Medo de cego não é o medo real. Diadorim
me olhava ― eu estivesse para trás da lua. Só aí, revi o sangue.
Aquele, em minha roupa, a plasta vermelha fétida. Do sangue alheio
que grosso me breava, mal me alimpei o queixo; eu, desgostoso de
sangue, mas deixava, de sinal? Ah, não, pois ali me salteou o horror
maior. Sangue... Sangue é a coisa para restar sempre em entranhas
escondida, a espécie para nunca se ver. Será por isso também que
imensa mais é a oculta glória de grandeza da hóstia de Deus no
ouro do sacrário ― toda alvíssima! ― e que mais venero, com
meus joelhos no duro chão.
Por mais, o corpo ali ficava, para o
ar do raso. Sumimos de lá, há-de que tocávamos, adiante. À
viajadamente eu ia, desconversei meu espírito. Até às alelúias!
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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