[…]
Mas Diadorim, conforme diante de mim
estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de
todo comum. Os olhos ― vislumbre meu ― que cresciam sem beira,
dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se
sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor!
Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão
formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa... Reforço o
dizer! que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce
de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada.
Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de
achas, por profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De
que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em
suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me
franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão
não tem janelas nem portas. E a regra é assim! ou o senhor bendito
governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu
repeli?
Antes que Diadorim mesmo abrisse boca
para me sorrir, me falar, eu tive de fazer uma coisa. A meio em
ânsia, meio em astúcia; meio em raiva. Como foi que peguei o vivo
de tal ideia, em gesto, como se deu de que me alembrei daquilo?
Homem, não sei. Mas enfiei mão! por entre armas e cartucheiras, e
correias de mochilas, abri à berra meu jaleco e a minha camisa. Aí
peguei o cordão, o fio do escapulário da Virgem ― que em tanto
cortei, por não poder arrebentar ― e joguei para Diadorim, que
aparou na mão. Ia me fazer alguma pergunta, que eu não consenti, a
voz dele era que mais significava. Isto é, porque eu primeiro falei,
como resumo. ― Hei-á, voltar ― que o povoão está de minha
espera! ― eu enfim disse: eu ainda estava respirando muito ligeiro
demais.
Assim eu dava era ordem, como
convinha. Eu não estava de francamentes. Para mim, um palmo, àquela
hora, podia medir três braças. Apertei. Nem meu cavalo carecia
disso: era eu encolher um pé, e ele já via voo. À paz! Mas
Diadorim, vez de logo vir, tocou em contrário. Sustentei em esbarro
meu Siruiz, a ver, querendo as curiosidades. Diadorim estava indo lá,
modo de caçar e recolher o revólver, que de minha mão tinha caído.
Num repousozinho de coração, calado eu agradeci à amizade dele
essa fineza. Daí, vim. Sempre longe em frente, portanto que meu
cavalo soberbo não dava alcance para ele se emparelhar. Daí,
cantei. Mesmo mal, me cantei ― por causa que via que, medeando tão
grandes silêncios, era que Diadorim tomava mais sorrateiro poder em
meu afeto, que não era possível concernente. Entre isso, chegamos
de volta no arranchamento. Mas cheguei lá foi para ter ocupação de
uma estúrdia novidade. Com os urucuianos.
O senhor estando lembrado: aqueles
cinco, soturnos homens, catrumanos também, dos Gerais, cabras do
Alto-Urucúia. Os primeiros que com Zé Bebelo tinham vindo surgidos,
e que com ele desceram o Rio Paracatú, numa balsa de talos de
burití. Esses sempre mereceram pouca história da gente, por quietos
e certos, bem procedidos, sujeitos de furtadas palavras. Agora eles
comigo queriam um entendimento. Um Diodato, esse era o cabo deles.
Formou em frente dos outros, puxando a parlagem.
Queriam conversa comigo em só,
apartada. Eu apreciasse aqueles homens. A valentia deles estava por
dentro de muita seriedade. Urucuiano conversa com o peixe para vir no
anzol ― o povo diz. As lérias. Como contam também que nos Gerais
goianos se salga o de-comer com suor de cavalo... Sei lá, sei? Um
lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas
também, nesta vida. Mas aqueles cinco me condiziam. Admirei de ver
que eles todos ainda estavam a pé, mas com dobros e bissacos nas
costas, feito prontos para pedestre viagem. Sisudez deles ainda
semelhava maior. Então constitui meus ouvidos, para o cabecilho,
Diodato.
― Praz vosso respeito, Chefe, a
gente decidiram... A gente vamo-sembora. Praz vossas ordens... ― o
homem me disse, assim mesmo, casmurro com serenidade. Tive de ver bem
suas feições, uma cara assim aos poucos se examinava.
Entendi, mas reperguntei. O homem não
coçou a cabeça. Olhos de santo de madeira. O nariz dele era bem
grande, nariz que não se empinava. Só tinha a barbazinha que tem um
queixo de cavalo.
O homem não coçou a cabeça. Firme
disse. Queriam ir-sembora, duma vez; careciam. Ah, eles bem que
conheciam a regra! que um jagunço sai do bando quando quer ― só
tem que definir a ida e devolver o que ao chefe ou ao patrão
pertence. As armas, eles não devolviam, porque eram deles; mas, como
tinham de primeiro vindo a pé, largavam bem agora os cavalos.
Pegavam era um tanto de matula ― trivial de farinha e carne-seca, e
rapadura, para uns três dias, mal. Mesmo assim, era doideira, achei.
Doideira tencionarem vagar reto dali donde estávamos, alto ermo,
distantes brenhas. Por que é que iam, nem esperando eu desse minha
primeira ganhada?
― A isso, meio acontecidos, Chefe...
A conforme a gente carece, praz vosso respeito, senhor, sim... ― o
homem meio respondeu, bastante sincero. Reparei no chapéu na cabeça
dele, que era de couro de veado suassú-apara, com macias abas e
formato muito composto. A cara dele mesmo dava um ar honrável,
circunspecto, por mal que com manchas, sarro de alguma velha
moléstia, semelhando nódoas de caldo de cajú. ― Sua graça,
toda, é Diodato de que? ― indaguei. ― Diodato Nariz, por
alcunha... ― ele disse; disse, de brancura. Conheci como eu nunca
tinha dado tento d atenção naqueles homens, cuja valia. Assim que
eles eram, de batismo: e o Pantaleão, Salústio João, João Tatú e
O-Bispo. Naquela hora, era que eu punha tino. Nunca mais tive notícia
desses. Hoje, repenso. Naquela hora, eu cogitava jeito de conservar
todos em companhia. Remei minhas perguntas. Donde que eram?
― Desses córregos... Do
Burití-Comprido, Tamboril, Cambaúba, Virgens, Mata-Cachorro, das
Cobras... Para cima da Barra-da-Vaca, Arinos,... Em sertão são.
Isso, que são lugares. E que é que me adiantava saber que tinham
suas ocas por lá? O que eu inventei de conhecer era donde tinham
estado, quando Zé Bebelo deu com eles, que vinha voltando de Goiás.
― Ah , senhor sim, nas beiras... Roças do rio São Marcos, senhor
sim, no Esparramado... Fazenda duma Dona Mogiana... Cabras dessa Dona
Mogiana? Eram. Tinham sido. Mas com sua labuta de plantações. Que
qualidades de crimes eles tinham feito, para principiar, crimes de
boa merência? E por que era que tinham querido vir com Zé Bebelo?
Isso eu quis perguntar. O que de repente perguntei:
― Por via de que é que vocês
desespiritaram de seguir vinda com a gente? Falei, e refuguei para
não ter falado; que gabo e questão não são regra de se negociar.
Mas o homem Diodato, distanciado duma minha pergunta dessas, esbarrou
vez, demorão; mesmo num desajeito, ele fungava. E ele comigo não
tinha ajuste, mas não queria me ofender sem a razão. Chega olhou
para os companheiros, que acenavam devagar com as cabeças, mas numa
maneira brandazinha de sonsa, fora de tudo o mais, para não se
entender se é sestro ou anuído ― que é do jeito comum como essa
gente costuma.
― Ara, senhor, sim... ― por fim
ele falou resposta! ― ... que a influência esmoreceu... A gente
gastou o entendido... ―; e estava quase meio envergonhado.
Eu disse! ― A pois?
― Não vê, Chefe, praz vosso
respeito! as coisas demudaram... Que viemos com siu Zé Bebel... Vai,
a gente gastou o entendido... ― ele disse.
― O que Zé Bebelo falou, quando
chamou vocês?
― A foi. Quando chamou, senhor
sim...
― Ele prometeu vantagens?
― Não se diz... Chamou. Falou
misturado... A gente viemos.
― E o que é que falou?
― Agora, a gente não sabe mais.
Falou muito razoável... Falou muito razoável... Agora, com perdão
vosso, a gente esquecemos, a gente gastou o entendido... Mas muito
razoável falou...
De irritado, de aflêima, dei o
discutir!
― Pois, por que é, então, que não
foram logo, com Zé Bebelo, quando Zé Bebelo se foi?
― Deixamos o tempo dos outros
passar... Não temos questão... Não temos questão...
Mirei e vi! o que desde de antes me
invocava. Aquele homem, por uns astutos indícios, se apartando, ele
desconfiasse de mim. Aqueles outros homens, os do todo sertão, das
brenhas, os com as ventas largas para baixo, cada-um um cão ― o
que era que eles achavam em meu ser? Repensei! ah! Ah, então, para
avaliar em prova a dúvida deles, tive um recurso. A manha, como de
inesperadamente de repente eu muito disse!
― Louvado seja Nosso Senhor Jesus
Cristo!
Senhor vendo como foi, o supetão de
susto que ele teve, arregalado conforme me olhava e naquilo ouvido
não acreditava, o tanto que retardou para responsar, todo baixo, o:
...Para sempre...
Ah. Despedidos estavam, podiam ir. Ah.
Ah , não. A bobeia. Se ele em fato
estranhou, foi somente por causa do tom de minha voz. Se foi por
minha voz, foi porque, no afã de querer pronunciar sincero demais o
santíssimo nome, eu mesmo tinha desarranjado fala ― essas
nervosias...
E eles iam s embora, conforme desisti
de sobreguardar esses homens. Do jeito, de que é que me valiam? O
contrato de coragem de guerreiros não se faz com vara de meirinho,
não é com dares e tomares. Fino que me abespinhei, por conta. Ao
que aqueles homens não eram meus de lei, eram de Zé Bebelo. E Zé
Bebelo era assim instruído e inteligente, em salão de fazenda?
Desisti, dado. Não baboseio. E o mais? Era como alguém dizendo: ―
Vai declarar seca, por esse Norte, e homem e mulher vão vir... A
vida é um vago variado. O senhor escreva no caderno: sete páginas...
Aqueles urucuianos não iam em cata de Zé Bebelo, conforme sem nem
satisfação fiquei sabendo.Voltavam de volta para os seus recantos.
Quartel de mandioca, em qualquer parte se planta; e o senhor derruba
um mato, faz um chão bom, roça também se semeia... Eles foram
embora, deixei levarem os cavalos. Reparti com eles alguma quantia, e
com alegria se arregalaram: dinheiro é sempre amigo-seja... Estúrdio
é o que digo, nesta verdade ― que, eu livre longe deles,
desaluídos é que eles estavam comigo; mas, eu quisesse com gana o
préstimo deles, então só me serviam era na falsidade... O senhor
me entende? E digo que eles eram homens tão diversos de mim, tão
suportados nas coisas deles, que... por contar o que achei: que devia
de ter pedido a eles a lembrança de muito rezarem por meu destino…
Mas, de desertarem de mim, então,
será que era um agouro? Não sei. Que sei? Tive fé em mim sozinho.
O que juro, e que sei, é que tucano tem papo!…
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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