domingo, 10 de maio de 2026

“Eu não estava de francamentes"


[…]

Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos ― vislumbre meu ― que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor! Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa... Reforço o dizer! que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada. Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de achas, por profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim! ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu repeli?
Antes que Diadorim mesmo abrisse boca para me sorrir, me falar, eu tive de fazer uma coisa. A meio em ânsia, meio em astúcia; meio em raiva. Como foi que peguei o vivo de tal ideia, em gesto, como se deu de que me alembrei daquilo? Homem, não sei. Mas enfiei mão! por entre armas e cartucheiras, e correias de mochilas, abri à berra meu jaleco e a minha camisa. Aí peguei o cordão, o fio do escapulário da Virgem ― que em tanto cortei, por não poder arrebentar ― e joguei para Diadorim, que aparou na mão. Ia me fazer alguma pergunta, que eu não consenti, a voz dele era que mais significava. Isto é, porque eu primeiro falei, como resumo. ― Hei-á, voltar ― que o povoão está de minha espera! ― eu enfim disse: eu ainda estava respirando muito ligeiro demais.
Assim eu dava era ordem, como convinha. Eu não estava de francamentes. Para mim, um palmo, àquela hora, podia medir três braças. Apertei. Nem meu cavalo carecia disso: era eu encolher um pé, e ele já via voo. À paz! Mas Diadorim, vez de logo vir, tocou em contrário. Sustentei em esbarro meu Siruiz, a ver, querendo as curiosidades. Diadorim estava indo lá, modo de caçar e recolher o revólver, que de minha mão tinha caído. Num repousozinho de coração, calado eu agradeci à amizade dele essa fineza. Daí, vim. Sempre longe em frente, portanto que meu cavalo soberbo não dava alcance para ele se emparelhar. Daí, cantei. Mesmo mal, me cantei ― por causa que via que, medeando tão grandes silêncios, era que Diadorim tomava mais sorrateiro poder em meu afeto, que não era possível concernente. Entre isso, chegamos de volta no arranchamento. Mas cheguei lá foi para ter ocupação de uma estúrdia novidade. Com os urucuianos.
O senhor estando lembrado: aqueles cinco, soturnos homens, catrumanos também, dos Gerais, cabras do Alto-Urucúia. Os primeiros que com Zé Bebelo tinham vindo surgidos, e que com ele desceram o Rio Paracatú, numa balsa de talos de burití. Esses sempre mereceram pouca história da gente, por quietos e certos, bem procedidos, sujeitos de furtadas palavras. Agora eles comigo queriam um entendimento. Um Diodato, esse era o cabo deles. Formou em frente dos outros, puxando a parlagem.
Queriam conversa comigo em só, apartada. Eu apreciasse aqueles homens. A valentia deles estava por dentro de muita seriedade. Urucuiano conversa com o peixe para vir no anzol ― o povo diz. As lérias. Como contam também que nos Gerais goianos se salga o de-comer com suor de cavalo... Sei lá, sei? Um lugar conhece outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas também, nesta vida. Mas aqueles cinco me condiziam. Admirei de ver que eles todos ainda estavam a pé, mas com dobros e bissacos nas costas, feito prontos para pedestre viagem. Sisudez deles ainda semelhava maior. Então constitui meus ouvidos, para o cabecilho, Diodato.
Praz vosso respeito, Chefe, a gente decidiram... A gente vamo-sembora. Praz vossas ordens... ― o homem me disse, assim mesmo, casmurro com serenidade. Tive de ver bem suas feições, uma cara assim aos poucos se examinava.
Entendi, mas reperguntei. O homem não coçou a cabeça. Olhos de santo de madeira. O nariz dele era bem grande, nariz que não se empinava. Só tinha a barbazinha que tem um queixo de cavalo.
O homem não coçou a cabeça. Firme disse. Queriam ir-sembora, duma vez; careciam. Ah, eles bem que conheciam a regra! que um jagunço sai do bando quando quer ― só tem que definir a ida e devolver o que ao chefe ou ao patrão pertence. As armas, eles não devolviam, porque eram deles; mas, como tinham de primeiro vindo a pé, largavam bem agora os cavalos. Pegavam era um tanto de matula ― trivial de farinha e carne-seca, e rapadura, para uns três dias, mal. Mesmo assim, era doideira, achei. Doideira tencionarem vagar reto dali donde estávamos, alto ermo, distantes brenhas. Por que é que iam, nem esperando eu desse minha primeira ganhada?
A isso, meio acontecidos, Chefe... A conforme a gente carece, praz vosso respeito, senhor, sim... ― o homem meio respondeu, bastante sincero. Reparei no chapéu na cabeça dele, que era de couro de veado suassú-apara, com macias abas e formato muito composto. A cara dele mesmo dava um ar honrável, circunspecto, por mal que com manchas, sarro de alguma velha moléstia, semelhando nódoas de caldo de cajú. ― Sua graça, toda, é Diodato de que? ― indaguei. ― Diodato Nariz, por alcunha... ― ele disse; disse, de brancura. Conheci como eu nunca tinha dado tento d atenção naqueles homens, cuja valia. Assim que eles eram, de batismo: e o Pantaleão, Salústio João, João Tatú e O-Bispo. Naquela hora, era que eu punha tino. Nunca mais tive notícia desses. Hoje, repenso. Naquela hora, eu cogitava jeito de conservar todos em companhia. Remei minhas perguntas. Donde que eram?
Desses córregos... Do Burití-Comprido, Tamboril, Cambaúba, Virgens, Mata-Cachorro, das Cobras... Para cima da Barra-da-Vaca, Arinos,... Em sertão são. Isso, que são lugares. E que é que me adiantava saber que tinham suas ocas por lá? O que eu inventei de conhecer era donde tinham estado, quando Zé Bebelo deu com eles, que vinha voltando de Goiás. ― Ah , senhor sim, nas beiras... Roças do rio São Marcos, senhor sim, no Esparramado... Fazenda duma Dona Mogiana... Cabras dessa Dona Mogiana? Eram. Tinham sido. Mas com sua labuta de plantações. Que qualidades de crimes eles tinham feito, para principiar, crimes de boa merência? E por que era que tinham querido vir com Zé Bebelo? Isso eu quis perguntar. O que de repente perguntei:
Por via de que é que vocês desespiritaram de seguir vinda com a gente? Falei, e refuguei para não ter falado; que gabo e questão não são regra de se negociar. Mas o homem Diodato, distanciado duma minha pergunta dessas, esbarrou vez, demorão; mesmo num desajeito, ele fungava. E ele comigo não tinha ajuste, mas não queria me ofender sem a razão. Chega olhou para os companheiros, que acenavam devagar com as cabeças, mas numa maneira brandazinha de sonsa, fora de tudo o mais, para não se entender se é sestro ou anuído ― que é do jeito comum como essa gente costuma.
Ara, senhor, sim... ― por fim ele falou resposta! ― ... que a influência esmoreceu... A gente gastou o entendido... ―; e estava quase meio envergonhado.
Eu disse! ― A pois?
Não vê, Chefe, praz vosso respeito! as coisas demudaram... Que viemos com siu Zé Bebel... Vai, a gente gastou o entendido...  ― ele disse.
O que Zé Bebelo falou, quando chamou vocês?
A foi. Quando chamou, senhor sim...
Ele prometeu vantagens?
Não se diz... Chamou. Falou misturado... A gente viemos.
E o que é que falou?
Agora, a gente não sabe mais. Falou muito razoável... Falou muito razoável... Agora, com perdão vosso, a gente esquecemos, a gente gastou o entendido... Mas muito razoável falou...
De irritado, de aflêima, dei o discutir!
Pois, por que é, então, que não foram logo, com Zé Bebelo, quando Zé Bebelo se foi?
Deixamos o tempo dos outros passar... Não temos questão... Não temos questão...
Mirei e vi! o que desde de antes me invocava. Aquele homem, por uns astutos indícios, se apartando, ele desconfiasse de mim. Aqueles outros homens, os do todo sertão, das brenhas, os com as ventas largas para baixo, cada-um um cão ― o que era que eles achavam em meu ser? Repensei! ah! Ah, então, para avaliar em prova a dúvida deles, tive um recurso. A manha, como de inesperadamente de repente eu muito disse!
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Senhor vendo como foi, o supetão de susto que ele teve, arregalado conforme me olhava e naquilo ouvido não acreditava, o tanto que retardou para responsar, todo baixo, o: ...Para sempre...
Ah. Despedidos estavam, podiam ir. Ah.
Ah , não. A bobeia. Se ele em fato estranhou, foi somente por causa do tom de minha voz. Se foi por minha voz, foi porque, no afã de querer pronunciar sincero demais o santíssimo nome, eu mesmo tinha desarranjado fala ― essas nervosias...
E eles iam s embora, conforme desisti de sobreguardar esses homens. Do jeito, de que é que me valiam? O contrato de coragem de guerreiros não se faz com vara de meirinho, não é com dares e tomares. Fino que me abespinhei, por conta. Ao que aqueles homens não eram meus de lei, eram de Zé Bebelo. E Zé Bebelo era assim instruído e inteligente, em salão de fazenda? Desisti, dado. Não baboseio. E o mais? Era como alguém dizendo: ― Vai declarar seca, por esse Norte, e homem e mulher vão vir... A vida é um vago variado. O senhor escreva no caderno: sete páginas... Aqueles urucuianos não iam em cata de Zé Bebelo, conforme sem nem satisfação fiquei sabendo.Voltavam de volta para os seus recantos. Quartel de mandioca, em qualquer parte se planta; e o senhor derruba um mato, faz um chão bom, roça também se semeia... Eles foram embora, deixei levarem os cavalos. Reparti com eles alguma quantia, e com alegria se arregalaram: dinheiro é sempre amigo-seja... Estúrdio é o que digo, nesta verdade ― que, eu livre longe deles, desaluídos é que eles estavam comigo; mas, eu quisesse com gana o préstimo deles, então só me serviam era na falsidade... O senhor me entende? E digo que eles eram homens tão diversos de mim, tão suportados nas coisas deles, que... por contar o que achei: que devia de ter pedido a eles a lembrança de muito rezarem por meu destino…
Mas, de desertarem de mim, então, será que era um agouro? Não sei. Que sei? Tive fé em mim sozinho. O que juro, e que sei, é que tucano tem papo!…
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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