106.
Às vezes, quando ergo a cabeça
estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência
de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me
curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida
desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com
visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu
tivesse a simples força de o querer deveras afastar.
Vivemos pela ação, isto é, pela
vontade. Aos que não sabemos querer — sejamos génios ou mendigos
— irmana-nos a impotência. De que me serve citar-me génio se
resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao
médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta
Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil
que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o
Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele
morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do
poeta.
Agir, eis a inteligência verdadeira.
Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em
ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de
palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o
não fizerem ali?
O meu orgulho lapidado por cegos e a
minha desilusão pisada por mendigos.
“Quero-te só para sonho”, dizem à
mulher amada, em versos que lhe não enviam, os que não ousam
dizer-lhe nada. Este “quero-te só para sonho” é um verso de um
velho poema meu. Registo a memória com um sorriso, e nem o sorriso
comento.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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