[…]
Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde
que então, eu varava mundo, em comando, e ainda não se prezava o
meu nome. Eu ― o Urutú-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser
o que não dava realce ― qualquer um podia, fazendeiro com posses,
mão em políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era
nada, glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O
menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas.
Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou será que já
estavam mas era se aplicando no vagavagar? ― Cigano sou? ― eu
pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei ordem. Aí
torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos beirando o
Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu tencionava
fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do
feito de Diadorim, digo ― o recado enviado. Mas, à vez, balancei
uma inquietação, daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão
dele de tanto absurdo. Essas desordenadas da vida da gente! tudo o
que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável
explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio
duma coisa eu tinha certeza! que Diadorim não ia me mentir. O amor
só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por
força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada,
era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então
Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles
dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me
aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar. Agora eu ia indo às
avessas de lá, da Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção
de saudade vinha voltando.Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de
momento eu me arrepiei por trás da testa. Ato do que meio confuso
imaginei, por um vão imaginar: que, me querendo-bem ― a mais de
meu merecimento ― e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela
Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa
e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão...
Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente,
por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela,
definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens...
Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida grangeava outros
fortes significados. E isso variou em meu pensamento, inesperado de
ligeiro supor, que, a bem notado, nem foi um pensar. Arremêdo de
sonho, também, não seria de ser. Então, emendando de novo o vero
juízo, tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que
estivesse por vir, rumo de profecias.
Otacília ― me alembrei da luzinha
de meio mel, no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém
tinha me contado que assim eram assim, para gozo e sentimento. O
corpo ― em lei dos seios e da cintura ― todo formoso, que era de
se ver e logo decorar exato. E a docice da voz: que a gente depois
viajasse, viajasse, e não faltava frescura d água em nenhumas todas
as léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força
que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o
recado na verdade fosse outro ― o para ela vir, afoitamente, que eu
dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias.
Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo
impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de
jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos
vastos imaginados. Ora essas! ― digo. Se Otacília viesse,
aparecesse lá em no meio de nós ― que seguimento de coisas havia
de suceder?
A bobeia, toleima. Otacília estava
guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com
o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor,
mais longe neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia
tocava com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado
de donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim,
mire veja. O senhor saiba ― Diadorim! que, bastava ele me olhar com
os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha,
escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do
morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu
era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não
sabia.
Máximo me lembro é de que, na
minguante, se estava no veredal das cabeceiras de um córrego, lugar
de desmedidas pastagens, adonde os cavalos usufruirem descanso. A lá
esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever uma
carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um
homem, dos ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha
nôiva, trazia a resposta. O que eu cogitei de escrever era muito
singelo! as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e
os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que
achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por
oras. Por que? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também;
mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito
dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que
era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah,
viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe
indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de
escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o
porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude
completo. Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite ―
esse é o motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha
vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída
sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já
conto, já venho ― falar no assunto que o senhor está de mim
esperando. E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim,
vestido com um paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de
pau abertos em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê
e não vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor
nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato... O
sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão,
lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não
fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de se
ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele vazio
assim, como é que eu ia dizer: ― Te arreda desta minha
conversa!?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase
que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de
Diadorim: ― que ela rezasse por mim, Otacília, orações
rezasse... Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração:
não pude. Não pude, diabralmente, desarrazoado ― por outras
fortes ordens... ―; e então de repente tive vergonha, desgostei de
estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila
aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que
consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um
impossível. Demiti de tudo.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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