[…]
O que na hora achei, foi que Diadorim
estivesse me relembrando de Medeiro Vaz não ter conseguido cruzar a
travessia do raso. Mas Diadorim, também, não adivinhou meu
espírito. Pois, por aquela conta, mesma, era que eu queria. Sobre o
que eu era um homem, em sim, fantasia forra, tendo em nada aqueles
perigos, capaz do caso. Para vencer vitória, aonde nenhum outro
antes de mim tivesse! Respinguei dessas faíscas constantes. Eu, não!
o cujo do orgulho, de mim, do impossível.
Descia e subia a fumaça da noite.
Esbarramos. Era numa curta vereda, duns brejos, buritizalzinho.
Acendemos fogo. Aí mal dormi, fortíssimo no meu segredo. Um meu
primeiro sono, sim. O resto, foi ondas. Reprazer crú dessa
espiritação ― eu ardia em mim, e em satisfa contente, feito fosse
véspera duma patusqueira.
As forças me amanheceram acordado.
Adiante da gente, o mangabeiral.
Depois, o raso. Aí o Liso do Sussuarão ― em fundo e largo,
as cinquenta léguas e as quase trinta léguas, das mais. Ninguém me
fazia voltar a seco de lá. Aquela hora, eu só não me desconheci,
porque bebi de mim ― esses mares. Também eu não ia naquilo sem
alguma razão, mas movido merecido. Por conta do Hermógenes? Nossos
dois bandos viajavam em guerra e contraguerra, e desenrolando
caminhos, por esses Gerais, cães, se caçando. Só que o sertão é
grande ocultado demais. Então, eu ia, varava o Liso, ia atacar a
Fazenda dele, com família. Ovo é coisa esmigalhável. E a bem. Para
vencer justo, o senhor não olhe e nem veja o inimigo, volte para a
sua obrigação. Mas eu dava as costas à cobra e achava o ninho
dela, para melhor acerto. Ao que, esse não tinha sido o arrojo de
Medeiro Vaz?
O dia parava formoso, suando sol,
mesmo o vento suspendido. Vi o chão mudar, com a cor de velho, e as
lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das môitas de
caculucage. O pessoal meu não devia de estar com inquietação? Vi
uma coruja ― mas corujinha entortadeira; e coruja só agoura mesmo
é em centro de noite, quando dá para risã. E cuspi no branco leite
duma maria-brava, que toda às sãs cheirosa florescia. Era a hora.
Repuxei os freios, bem esbarrando. Equei os meus homens.
― Aqui, gente.
Guerreiros em minha presença! Com
certo reboliço, como todos vieram, para saber daquela novidade.
Declarei a eles. Todos me entenderam? Em fila ― as caras todas
ficando iguais. Me seguissem? Ah, nenhum não tinha ar do que ia ser,
e que fazia tantos dias eu tencionava. Nem João Goanhá, Marcelino
Pampa, João Concliz, nem o Alaripe. Nem Diadorim. Diadorim me olhou
tremeluzentemente: de coragem, de disposto. Ele, sim. Mas, os outros?
Seria que medissem meu mor atrevimento? Era feito se eu estivesse
aloucado extenso.
Porque, o que eu estava mandando, nem
Medeiro Vaz mesmo não teria sido capaz de crer: eu queria tudo, sem
nada! Aprofundar naquele raso perverso ― o chão
esturricado, solidão, chão aventêsma ― mas sem preparativos
nenhuns, nem cargueiros repletos de bom mantimento, nem bois tangidos
para carneação, nem bogós de couro-crú derramando de cheios, nem
tropa de jegues para carregar água. Para que eu carecia de tantos
embaraços? Pois os próprios antigos não sabiam que um dia virá,
quando a gente pode permanecer deitada em rede ou cama, e as enxadas
saindo sozinhas para capinar roça, e as fôices, para colherem por
si, e o carro indo por sua lei buscar a colheita, e tudo, o que não
é o homem, é sua, dele, obediência? Isso, não pensei ― mas meu
coração pensava. Eu não era o do certo: eu era era o da sina! E
nem enviei adiante nenhuma patrulha de farejadores ― nem Suzarte,
Nelson ou o Quipes, que tapejassem; nem o Tipote para trilhar e
entender, ver se divulgava os socorros: alguma grota duvidável d
água.
Se o cada um que se valesse, cada um
que me seguisse. ― Agora vamos entrar, para pernoitar lá dentro...
― eu determinei. Só era se aviar. Mas o menino Guirigó, mal me
ouvindo, falou!
― A gente? A gente.
Esse era um menino, eu não devia de
mandar alguém conduzir o Guirigó de volta, para que em lugar seguro
deixassem? No ar não fiz. Se não, por que era então que ele para
tudo tinha vindo? Os outros, não me cumprissem, eu havia de voltar
de lá, dar de mão de minha tenção? Nuncas. Só melhor sozinho eu
ia. Ia, por meus brancos ossos. Transe, tempo, que esperei a resposta
deles. Dei a palavra! Meus homens. Ah, jagunço não despreza quem dá
ordens diabradas.
― Se amanhã meu dia for, em
depois-d’amanhã não me vejo.
― Antes de menino nascer, hora de
sua morte está marcada!
― Teu destino dando em data, da
meia-noite tu vivente não passa...
Os que diziam assim eram todos eles,
secundando os cabecilhas. Valentes que eram, e como foram se
animando. Ao que me obedeciam, ao meu melhor em redor. A gente andou
no comum, até ao fim do grameal. Aí, se estava, se esbarrava,
frente a frente com o Liso. Rédeas às ordens. A gente se moveu.
Sol em glória. Eu pensei em Otacília;
pensei, como se um beijo mandasse. Soltando rédeas, entrei nos
horizontes. Aonde entrei, na areia cinzenta, todos me acompanhando. E
os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar.
O senhor vê e vê? Alguém a alto me
levou, alguém, salvo a um seguinte. Aguas não desmanchavam meu
torrão de sal. Ah, nem eu não tive incerteza em mente. Assim fomos.
Aí eu em frente adiante.
A fortes braços de anjos sojigado. O
digo? Os outros, a em passo em passo, usufruíam quinhão da minha
andraja coragem.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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